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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Tudo menos o jovem preso ao poste



As paixões políticas se alimentam de pequenos eventos que parecem enormes e produzem a indignação popular momentânea. Como a capacidade de atenção é curta, em algumas semanas já foram devidamente mastigados, deglutidos e expelidos; ninguém mais se importa. Mês que vem ninguém mais ligará para o ladrão que foi agredido, despido e preso a um poste. Mas nos dias que correm, não se fala em outra coisa; ele serve muito bem como suporte para cada um um afixar sua causa política, acirrar os ânimos contra os malvados das redes sociais, demonstrar sua superioridade moral e ainda - no caso da raça dos formadores de opinião - influenciar o debate político, puxar a sardinha para seu lado.

Digo desde já, para que não venham me acusar e rotular: o justiçamento popular é uma prática condenável, incivilizada e que contribui para a deterioração da convivência humana; não deve ser aplaudido e não é a solução para problema social algum. É modo brutal de justiça, sem proporção entre delito e pena e com taxas altas de punição a inocentes.

Vejo - ó céus - que Rachel Sheherazade tem uma visão mais positiva que a minha desse tipo de reação popular. Se não chega bem a endossá-la como substituta legítima do processo legal, ao menos não condena o que fizeram os justiceiros nesse caso. E - ó céus novamente - ao invés de escrever um tratado filosófico a respeito, ela demonstrou sua indignação com um discurso inflamado, justamente aquilo que fez dela uma estrela entre os conservadores.

Acho lamentável que esse tipo de discurso esteja ganhando força entre pessoas mais educadas (ele sempre foi o modo básico e espontâneo de ver o mundo de toda a população; o estado natural do homem é o conservadorismo). Mas assim como o crime de um jovem pobre é compreensível (mas não justificável) dadas as condições materiais e psicológicas nas quais ele vive; assim como a reação dos justiceiros é compreensível (mas não justificável) dada a indignação que se sente ao se ver um criminoso escapar impune; também a opinião conservadora de Sheherazade é compreensível dado um sistema de Justiça estatal ineficaz como o nosso e uma cultura letrada que hostiliza quem quer viver honestamente e progredir na vida ao mesmo tempo em que desculpa os delitos de quem quer que seja visto como um "excluído". E que vai além: culpa os primeiros pelos crimes dos segundos.

A infinita compaixão e sensibilidade social dos observadores de esquerda cessa abruptamente na hora de lidar com quem discorda deles. Assim como o ladrão foi justiçado por observadores indignados, Rachel Sheherazade está sendo justiçada pelos defensores da moral e dos bons costumes aplicados ao discurso. Querem-na condenada; multada ou presa, tanto faz; o importante é que sinta na pele. Não, não são movidos por mero espírito de manada e raiva mal-direcionada; a justificativa é eminentemente técnica e racional: ela fez apologia ao crime. É por isso que essas mesmas pessoas também defendem a punição exemplar a todo mundo que defende o cultivo, a distribuição e o consumo de maconha. #soquenão (vocês é que me fazem indicar a ironia assim, vulgarmente: a capacidade de detectá-la é inversamente proporcional ao desejo de ficar indignado, que anda em alta).

Se Sheherazade, ou uma versão universitária sua, tivesse feito esse discurso numa assembleia estudantil, é bem capaz que eles mesmos, movidos pelo santo e virtuoso ódio ao justiçamento, a justiçassem bem ali. Já vi coisa similar. O desejo de fazer a justiça - ou mesmo punir o diferente; suspeito que se confundam muitas vezes - na base da indignação é natural ao homem, o que não quer dizer que seja bom. Não é fruto de ideologias ou de classes sociais, e nem pode ser apagado mediante conscientização. Se ela for punida, demitida ou o que seja, a ética do justiçamento terá ganho; ainda que seja um justiçamento amparado pela lei.

O caso do jovem no poste serve também para qualquer um reafirmar sua superioridade moral, bradando contra os grandes males do mundo. Hoje em dia, quem quer ser visto como bom não tem escolha melhor do que condenar e denunciar o racismo ou o ódio de classes, mesmo na falta de evidências de que eles tenham algo a ver com o caso. 

Negros e pobres passeiam diariamente pela mesma rua sem ser alvo do ódio de justiceiros populares. Os próprios justiceiros são, na maioria das vezes, eles também pobres e de cores variadas (não é correto chamar a população brasileira pobre de negra, posto que é mestiça e que grande parte desses mestiços são caboclos e não mulatos), assim como a maioria das vítimas dos crimes cometidos por mestiços e pobres. Quem souber e quiser procurar, encontrará diversas filmagens (viva o smartphone!) de justiçamentos no Brasil - inclusive contra estupradores, o que mostra que a cultura brasileira não é tão favorável ao estupro assim. Os fatos são o que menos importa. Diga-me o teu time e eu te direi quem é aquele jovem: um demônio que teve o que merecia, ou a vítima inocente da elite racista. Se por acaso você acertar, sinto muito: até a apuração objetiva aparecer o assunto já terá morrido. 

O jovem no poste não importa tanto quanto as causas que dele podem se servir. Hoje temos duas causas se digladiando, com objetivos muito diversos. A causa que move a esquerda é bater nos direitistas. Já o ideal que move a direita é bater nos esquerdistas. Não são classes sociais ou raças antagônicas. São todos membros de uma mesma grande classe social: a classe média/alta (curiosamente, na minha experiência a esquerda é em média mais rica que a direita) com algum estudo e tempo livre para se dedicar a ideias. Formaram campos rivais e adoram se odiar. Até ontem só existia o de esquerda, que monopolizava o discurso; agora a direita vem tirando-lhe fatias do mercado, e por isso a luta. A esquerda se firmou negando e/ou sendo condescendente com todos os costumes tradicionais e instintos normais do povo; a direita vem para reafirmá-los. Em ambos os casos, a arma preferida é a indignação moral pública, o que nem de longe se confunde com a moralidade real.

domingo, 20 de janeiro de 2013

A Civilização do Futebol de Rua

Meu avô materno era padeiro e treinador de futebol. Foi amigo do Bellini, zagueiro e capitão do escrete brasileiro nas Copas de 58 e 62. Apesar de sempre ter admirado sua carreira semiprofissional de futebol, eu mesmo, desafortunadamente, nunca levei jeito para o esporte dos bretões. Minha vontade mesmo era ser padeiro. Como perdi no tal jogo da vida – depois de também ter perdido as esperanças no proletário esporte bretão – sem ressentimentos aposentei as chuteiras e me tornei professor de filosofia.
Como todo moleque, gostava de bater bola com os amigos no campinho improvisado na rua, num terreno qualquer, de traves feitas de chinelo de dedo. Eu e mais outros dois amigos éramos péssimos. Meu apelido variava entre “leite-azedo” e “cabide” (magro e branquelo); de um dos amigos, “bolacha-traquinas” (redondo e sorridente).
Hoje tenho certeza de que a expressão café-com-leite tinha muitíssimo a ver comigo. Era quase uma vocação: ser café-com-leite. Na vila onde morava havia uns quinze garotos. O jogo, pra ser competitivo e divertido, tinha de ter pelo menos seis jogadores para cada lado: um no gol e cinco na linha. A questão é: como se monta uma seleção de rua?
O senso de justiça na molecagem é impressionante: a coisa é orgânica e funciona sem precisar da intervenção de pais, estado, governo, ongs, feministas, veganos etc: em cada dia de jogo, dois moleques montam seus respectivos times; noutro dia, outros dois... e assim por diante. Como meu sonho mesmo era ser padeiro, só jogava quando era minha a vez de montar o meu próprio time, ou na ausência de um dos titulares. Não obstante, nesse último caso, eu era sempre um dos últimos a ser escolhido. Me consolava lembrar: "Quero mesmo é ser padeiro".
O senso de justiça funcionava mais ou menos assim: sabíamos (senso comum) que dos quinze amigos, pelo menos dois eram gênios da bola (Marrom e Chulé); quatro jogavam bem (Xoxó, Neguim, Lácio e Buda, o dono da bola); um outro era sempre o goleiro (Pavio); outros quatro sabiam jogar (Mula, Toco, Paulo e Sabão); dois eram medíocres (Chaveiro e Robson) e, por fim, dois rigorosamente estúpidos (eu e o Bolacha). 
A conta é simples: todo mundo quer jogar, mas só há doze vagas. Como não existia “cota-perneta”, ninguém falava em exclusão social. Não havia passeatas em favor das minorias que sofrem o preconceito por serem verdadeiros “bonecos de Olinda” jogando bola. Então a coisa se ajustava de modo a fazer inveja a Rothbard, e era absolutamente inconcebível pensar em evocar a autoridade de algum pai para intervir na disputa por uma vaga. Era a injustiça mais justa de todas. 

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Sede de Justiça



É difícil, em meio a certos eventos de relevância política, e frente a certos tipos de manifestação do lado contrário, não se polarizar partidariamente e tratar o funcionamento das instituições nacionais como um jogo de futebol ou uma história em quadrinhos.

Joaquim Barbosa não deveria ser herói; e nem Lewandowski vilão. E no entanto...

É muito difícil não ver os votos de Lewandowski e Dias Toffoli como refletindo, não sua apreciação técnica das evidências em jogo, mas a adesão a laços partidários. O comportamento do segundo em certas ocasiões apenas reforça a aparência de que ele não honra o cargo.

Mas enfim, por mais que sintamos alguma raiva e pressintamos que eles não tenham sido plenamente imparciais, não é possível acusar seriamente os dois de injustiça, corrupção, conspiração, etc. Assim como os aguerridos apoiadores de José Dirceu e os enternecidos pela honra de Genoíno também não têm como seriamente acusar os oito que votaram por sua condenação. (A esse respeito, Dmitri Dimouli explicou bem, em entrevista à Rádio Cultura, os dois posicionamentos, ambos defensáveis, no julgamento do Mensalão.)

O fato mais chocante dessa história toda, contudo - ou ao menos o que mais me chamou a atenção - foi a expectativa inicial de que os ministros do STF deveriam votar - ou então votariam embora não devessem fazê-lo - de acordo com a administração que os indicou, e a surpresa (e consequente exultação ou escândalo) quando não o fizeram. Essa é a verdadeira corrupção, uma corrupção mental de todos nós: que mesmo do órgão máximo da Justiça nacional não se espera nada além da politicagem partidária. Alguns, como Leonardo Boff, insistem em que tudo é ideologia; e que, portanto, não há uma justiça imparcial e objetiva, mas apenas a politicagem partidária (desses, podemos afirmar apenas uma coisa: tudo o que eles dizem é ideológico, ou seja, é interesse escuso posando de objetividade). Outros, a maioria, embora saibam que é possível ser objetivo e imparcial, não o esperavam do STF.

Se se realmente pensa assim, melhor fazer as malas e se mudar para Honduras. A última coisa que deveria importar no julgamento do STF é o partido que indicou cada um dos ministros; felizmente, não importou.  Trazê-la à tona, contudo, já é uma expectativa lamentável de corrupção. O que distingue uma nação politicamente séria das demais é ter instituições verdadeiramente cegas às bandeiras e aos partidos envolvidos; ter uma Justiça que julgue com base exclusivamente no mérito do caso, não importante a ideologia, as intenções ou o partido dos envolvidos. É obsceno esperar qualquer outra coisa; é abrir mão da busca pelo bem, e demonstrar uma total sede de justiça, no plano dos ideais.

Acho que um dos principais motivos de eu não votar no PT é por identificá-lo a esse desprezo à imparcialidade e à objetividade que deveriam vigorar nas instituições. O uso das estatais para auxiliar órgãos de mídia e blogs aliados; uso das mesmas estatais e coligadas para manipular índice de inflação; a pressão constante, os telefonemas e a investigação em cima de rivais; o emparelhamento do IPEA sob a presidência de Márcio Pochmann (gente de dentro do IPEA se refere a sua saída como "Adeus, Lênin"); as mostras de ultraje perante os votos dos ministros que "deveriam ser petistas"; a campanha ininterrupta de demonização de todos os nomes da oposição e dos estados a ela associados. Esse mal não acomete apenas o PT, mas praticamente toda a esquerda brasileira, fazendo-se sentir até mesmo (e talvez especialmente) na política estudantil. E não só corrompem as instituições; justificam o ato alegando superioridade moral ou ideológica, como se isso tornasse a corrupção mais bela. Sob essa ótica, ser imparcial é ser vendido, pois o bem é seguir o partido em todas as circunstâncias.

Um passado de glórias, o amor aos filhos, o bom humor e o sorriso bonito não são prova de inocência; e nem os depoimentos de familiares e abaixo-assinados. O número de petistas aguerridos (que são bem menos numerosos do que os eleitores que votaram ou votam PT) que se nega a admitir que sim, oras pombas, Dirceu e Genoíno provavelmente são culpados e seu julgamento foi justo, e não uma conspiração da mídia golpista, revela apenas que, para muitos, salvar os correligionários é mais importante do que o respeito às instituições nacionais. Antes dinamitar o STF como corrupto do que aceitar a prisão de Santo Dirceu.

É essa mesma "sede de justiça", que viola a objetividade da Justiça e das demais instituições, que se faz sentir mais forte na Argentina e na Venezuela. Será que os petistas deles são piores que os nossos, ou nossas instituições é que são mais sólidas? Essa falsa sede de justiça é plenamente compatível com a democracia eleitoral; pode até ser, dependendo do ânimo das massas, mais popular. Não o é, contudo, com um povo livre e com uma nação civilizada e que pretenda se desenvolver.
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