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terça-feira, 30 de abril de 2013

O Martírio do Padre Beto



O céu se fechou para o Padre Beto, e ontem, dia 29/04, caiu o relâmpago da excomunhão, ato inédito para a diocese de Bauru, outrora notória pela ortodoxia de seu clero. Sendo assim, ele já é, à sua maneira, um mártir da repressão hierárquica. “Ainda bem que não tem fogueira”, comentou, lembrando que, séculos atrás, esse seria precisamente seu destino. Em nossos dias de tolerância, e graças às pressões de um mundo secular, a Igreja teve de voltar às boas práticas de sua origem: limitar-se às sanções eclesiásticas. É bom que seja assim. A hierarquia tinha algo a aprender com o mundo.

Pe. Beto defende um Cristianismo um tanto... pós-cristão. No campo dos costumes, sexo livre. No campo da teologia, incerteza sobre o além-túmulo. Há como compatibilizar o pensamento de Pe. Beto com o ensinamento oficial da Igreja Católica? Não há. Nesse sentido sua excomunhão era inevitável. Uma certeza matemática. O que surpreende é sua ordenação. As autoridades clericais não foram capazes de perceber o seminarista com ideias avessas a tudo o que elas pregam. Ponto negativo para o departamento de RH.

Do ponto de vista institucional, a postura do bispo D. Caetano foi perfeita. Embora considere o Pe. Beto “brilhante”, explicou muito bem sua incompatibilidade com o ensinamento atual da Igreja, a qual ele jurou obedecer (mas e a discordância não pode ser, ela também, um serviço?). Pe. Beto “avançou no sinal” (será que o sinal um dia abrirá?), foi além do que a doutrina da Igreja permite. Tendo sido já advertido em privado, e tendo tornado públicas suas ideias, coube à Diocese pedir uma retratação.

Pe. Beto é o rosto da Igreja para muita gente. É preciso cobrar algum tipo de coerência entre suas opiniões e as da instituição que ele representa. Se lembramos ainda que ele tem um foro privilegiado para emitir suas opiniões, aumentando seu alcance, justamente por causa desse suporte institucional, então a cobrança de disciplina fica ainda mais justificada.

Enfim, a excomunhão foi justa. Mas foi sábia? A Igreja não vive seu melhor momento na História. Com razão, suas posturas e diversos ensinamentos são publicamente questionados. Cabe a nós, católicos, e de maneira especial a nossos líderes visíveis, abrir-se a essas questões e acolher quem as levanta. O bom professor não é aquele que manda para fora da classe quem levanta objeções, mas aquele que dá as respostas que põem fim às dúvidas. Precisamos ver D. Caetano – e não só ele, mas todos os bispos do mundo – dando os motivos pelos quais Pe. Beto está errado. Que dialoguem com ele nesse nível, no nível das questões levantadas, e não no da obediência devida aos superiores. Queria ver o Bispo, ou mesmo outros sacerdotes, fazendo seus próprios vídeos, discordando, enfrentando as opiniões de Pe. Beto em seu próprio meio. Aí sim teriam alguma esperança de conquistar as almas seduzidas pelo papo de Beto à mesa do bar.

Afinal, o problema do Pe. Beto, se houver, não foi ter desobedecido aos superiores. Suponha que ele esteja certo em suas doutrinas; então será futuramente canonizado um confessor da fé. “Mas é óbvio que ele está errado!” – Aí está o cerne da questão. Então a medida principal não é ele ter “avançado o sinal”, mas ter dito coisas erradas. Ele as ter dito em voz alta é um dado relevante, mas não é o principal.

Um amigo meu, católico, foi aluno de Pe. Beto, e demonstrou seu apoio por ele nas redes sociais. Conheço muitos outros como ele. A quantidade de Betos, tanto no clero quanto no laicato, supera em muito os defensores aguerridos da ortodoxia oficial. Talvez estejam completamente errados, navegando a esmo em meio a um mar de heresias; talvez estejam certos, apontando o dedo para uma nudez milenar que só agora se tem a coragem de notar. Talvez as duas coisas convivam em cada alma indecisa que acredita na Igreja mas não em tudo que seus hierarcas dizem.

Infelizmente, cultivou-se uma cultura do silêncio na Igreja. Enquanto não se abrir a boca, não há heresia exterior, e portanto não cabem sanções. O real pecado do Pe. Beto foi exatamente ter falado em voz alta o que tantos outros pensavam. E de fato, falar tais coisas sendo padre tem sim muito de imprudência e não deve ser incentivado; cabe uma punição. Mas o buraco é mais embaixo: se é realmente com a sã doutrina que se preocupam as autoridades, e não com uma mera obediência exterior e tipicamente romana; se eles querem almas e não números para o IBGE, então ou o rapa não pode parar no Pe. Beto, ou o rapa não é a solução, talvez nem mesmo para o Pe. Beto.

Ao contrário de D. Caetano, não vi brilhantismo algum nos vídeos polêmicos do Pe. Beto. Repetia muitas opiniões comuns, clichês do mundo contemporâneo, sem dar a eles nenhuma formulação persuasiva ou defesa cogente. Rejeitava formulações tradicionais (“Céu”, “Casa do Pai”) como antiquadas, ultrapassadas, impossíveis hoje em dia, mas sem dizer por quê. Seu talento aparece em vídeos mais comedidos, que agradariam qualquer diocese. É a excomunhão, mais do que o brilhantismo do excomungado, que confirmará a ala mais progressista da Igreja em suas dúvidas e dissensos. Quem ousa não aceitar tudo só porque a hierarquia de séculos anteriores o declarou teve sua boca calada. Suas palavras continuaram sem resposta. A Igreja mostrou sua face burocrática, fria e impassível; as rodas implacáveis do direito canônico giraram, com direito mesmo a juiz eclesiástico. Nenhuma palavra ou gesto de entendimento foram ofertados para aqueles que se identificavam com o que Pe. Beto dizia.

A Igreja tem um sério dilema à frente: o que fazer com as centenas de milhões de Betos que existem no mundo, cada vez menos dispostos a tolerar uma hierarquia doutrinalmente autoritária, que faz demandas pesadas e, descobre-se, é capaz de encobrir os próprios crimes de forma vergonhosa, só para não denegrir a imagem da Igreja. A hierarquia pode tapar ouvidos e os olhos e mandar todo mundo embora. É seu direito; o catecismo está aí e os incomodados que se mudem. Pode fingir que não há nada de errado, que o problema é com o resto do mundo que se recusa a obedecê-la. É a saída mais confortável, que exige menos disposição de mudança; e que garantirá a obsolescência. Ásia e África ainda dão influxo positivo à Igreja. Mas e quando a insatisfação ocidental chegar lá?

Ou então ela pode descer do palanque, reconhecer que também tem muito a aprender (afinal, é humana), e quem sabe, aos poucos, conquistar o direito de liderar ao mesmo tempo em que se despe da pretensão de mandar. Não escrevo nada disso como uma crítica a D. Caetano, cuja nota oficial foi justa e honesta. Tampouco teço loas ao Pe. Beto. É que por trás desse Beto há outros novecentos milhões, sentados à mesa de um boteco, com a cerveja na mão. Quando decidirem, como ele, ser transparentes e abrirem a boca... haja canonistas!

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terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

O Legado da Renúncia

Repetir-me-ei um pouco. O artigo a seguir foi publicado na Gazeta do Povo, de Curitiba. Como meus leitores assíduos repararão, muito do que há nele já foi dito por mim no artigo "O Legado de Bento XVI". Contudo, como há também algo novo - uma análise de um possível significado da abdicação - julguei que faria sentido publicá-lo aqui no blog também.


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Quando Bento XVI anunciou sua abdicação, muitos se apressaram em apontar os pontos negativos que teriam marcado seu pontificado: a crise da pedofilia ou o conservadorismo de uma hierarquia que perdeu o contato com o mundo moderno. São pontos injustos.

A crise da pedofilia, por exemplo, data de muitas décadas, e se estoura agora é em parte pelo esforço de gente como o cardeal Ratzinger, que adotou uma postura de tolerância zero com os molestadores. Já o conservadorismo de Bento XVI nada mais é do que acreditar na doutrina católica de sempre. Ainda que partes desse corpo doutrinal possam mudar no futuro (como, no passado, mudaram diversos ensinamentos), não deveria chocar o fato da autoridade máxima de uma instituição defender suas doutrinas oficiais.

Para mim, o legado de Bento XVI é outro: é a restauração da liturgia, cujos resultados são visíveis até na minha paróquia. É o esforço ecumênico, manifesto no diálogo com a Igreja ortodoxa e na criação do Ordinariato para que anglicanos entrem em comunhão com Roma. É o aumento de transparência nas contas do Vaticano. Por fim, penso nos escritos e falas do papa mais intelectual da era moderna, e que, curiosamente, atraiu quantidades inauditas de jovens à Jornada Mundial da Juventude.

Quem esperaria um papa que lê Marx e Nietzsche? Ou que faz um elogio do amor erótico, harmonizando-o ao amor cristão? A fama do Bento XVI obscurantista não resiste à leitura de seus textos. É um homem convicto do ensino oficial da Igreja, o que pode irritar a muitos; mas não é fechado ao diálogo e ao novo. Uma de suas criações, inclusive, foi o Átrio dos Gentios, uma iniciativa para promover o diálogo entre intelectuais católicos e intelectuais representativos da cultura secular, cujos méritos ele sempre reconhece, ao mesmo tempo em que vê nela muitas limitações.

Seu último legado é, sem dúvida, a abdicação. Ao renunciar, Bento XVI desmistifica um cargo que, pelos últimos 500 anos, mistificou-se além de qualquer limite. O bispo de Roma não é um super-homem, não é automaticamente mais santo ou sábio que o resto dos mortais. E não tem linha direta com Deus para que lhe cochiche verdades ao pé do ouvido. É um homem como todos nós, com suas inseguranças e falhas. Alguém que, para aprender, usa os únicos meios disponíveis: estuda, pensa, reflete, discute. Sua linha direta com Deus é a mesma que a de todos os outros crentes: a oração, na qual fé e incerteza andam de mãos dadas.

O papado é apenas um cargo. Os católicos acreditam que seu ocupante, que tem uma responsabilidade docente perante a Igreja, nunca ensinará algo que viole o conteúdo essencial da fé ou da ética cristãs. Fora essa crença, cuja aplicabilidade nunca foi perfeitamente elucidada, o papa é um homem normal eleito por meios humanos. E, como todo homem, se cansa e se enfraquece na velhice. Ao ressaltar o caráter humano do papado, Bento XVI nos obriga a olhar para o mistério divino que jaz além das carolices que sufocam e mundanizam a verdadeira fé.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Igreja como Pessoa Jurídica

A única entidade que pensa, quer e age é o indivíduo humano. Países não o fazem; raças não o fazem; bairros não o fazem; nem empresas; e nem Estados.

Nós, é claro, atribuímos ações a essas entidades impessoais. Quem vende os produtos se não a empresa que os produziu? Não é o João, gerente de vendas da empresa X, que é dono dos produtos e os vende pessoalmente para um comerciante do varejo. Ele atua em nome da instituição, e falamos como se fosse ela agindo. A ação, contudo, continua sendo dele tanto quanto se fosse uma venda de um objeto pessoal, mas é interpretada, tanto por ele quanto pelos outros membros da sociedade, como sendo não atribuível a ele pessoalmente (a não ser que ele tenha inserido nela, por iniciativa própria, algum outro elemento, como uma fraude para ganhar um dinheiro por fora). Toda e qualquer ação institucional é, na verdade, ação ou ações de certos indivíduos que são interpretadas como pertencendo à instituição.

Essa interpretação, contudo, está nas mentes; e é dúbio até que ponto essa manobra mental é capaz de isolar a pessoa de seus atos institucionais. O soldado que mata fica imune aos danos psicológicos de se tirar vidas violentamente? O empregado que só seguia ordens ou regulamentos é, por isso, isento de culpa?

Embora ficcional, o atribuir existência e atos a instituições é muito útil para nossa vida em sociedade. Nossa vida seria impensável sem pessoas jurídicas. Mas a ficção legal continua sempre sendo ficção, e se tomada como verdadeira, leva a enganos. No âmbito das instituições comuns de nossa vida (Estado e empresas), leva à impressão de que a sociedade - e todos os serviços e infraestrutura que ela implica - é algo automático, feito por entidades impessoais. As empresas estão aí provendo seus serviços, e sempre foi assim, e se algo falhar é porque alguém resolveu mexer onde não devia. Na verdade, mesmo os fatos mais banais do cotidiano, como a padaria ter um pão pra te vender, dependem de uma malha tão complexa de ações conscientes e voluntárias - que não têm nada de necessário e que podem mudar a qualquer momento. Isso leva à falta de perspectivas individuais (vê-se a realidade institucional do mundo como algo eterno e inalterável, alheio às ações das pessoas que de fato compõem o mundo) e ao sentimento de que o mundo nos deve algo, dado que tantos bens e serviços são produzidos automaticamente, sem esforço humano nenhum.

Quero, contudo, apontar para a distorção de perspectiva que nos acomete quando pensamos na Igreja como uma pessoa jurídica; isto é, como uma entidade que pensa, deseja e age mas que é, ao mesmo tempo, impessoal.

A Igreja é o conjunto dos fieis nesta vida e na próxima; não vou entrar em detalhamentos precisos: serão só os batizados? E os batizados que não se consideram parte da mesma Igreja? Uso o conceito católico atual da Igreja como consistindo de todos os fieis e abarcando mesmo gente que não é católica mas que é boa e por isso pode participar implicitamente dela. Pensemos, contudo, nos membros que são implícitos e explícitos: ou seja, os católicos em comunhão uns com os outros. Havia uma distinção básica na Igreja desde sempre: alguns de seus membros eram ordenados, capazes de ministrar uma série de Sacramentos , e outros não. Esses ordenados, descendentes dos apóstolos (lembrando que o bispo é o indivíduo plenamente ordenado, e todas as outras ordens são como que uma ordem parcial).

Enfim, o grupo dos fieis desde muito cedo aderiu à institucionalização, e com bons motivos: é preciso organizar de alguma forma a vida sacramental: saber quem é sacerdote e quem não é; quem é batizado e quem não é, saber quem pode se casar, etc. Alguns dos elementos da institucionalização estavam dados desde as primeiras gerações de cristãos: a divisão territorial das comunidades, cada uma sob os auspícios de um bispo. A reunião de muitos bispos em concílios para determinar as crenças e as práticas que devem se estender a todos. Cada vez mais, contudo, foi ganhando espaço o termo "a Igreja" como agente, coisa que hoje em dia é universal, embora o platonismo dos primeiros séculos do Cristianismo seja indefensável e mesmo impossível para nós (lembro-me da perplexidade de C. S. Lewis frente ao argumento patrístico de que toda a Humanidade pecou em Adão).

Usa-se "a Igreja" para se referir a uma série de coisas: em geral, são os clérigos, ou mesmo a cúria papal, ou mesmo apenas o papa. Mas ao se omitir a referência específica, despersonaliza-se o ato ou, o que é mais relevante, o pensamento. Se dizemos que a Igreja ensina algo, fica parecendo que uma entidade impessoal emite juízos caídos do céu. Se damos nomes aos agentes - por exemplo, "o papa X disse isso usando este e aquele argumentos, que têm sido repetidos desde então" - a aparência sobre-humana cai. Não quer dizer que o papa X não estava dizendo uma verdade, ou que o Espírito Santo não o impediria de dizer um erro naquele contexto, mas ficamos sem a muleta da ficção jurídica para nos ajudar a embasar uma posição.

Se a Igreja é composta de todos os fieis, então os bispos, ou um bispo específico, são uma parte da Igreja. Não podem falar por toda ela. Eles têm uma autoridade docente - ou talvez seja melhor falar em uma responsabilidade docente -, mas isso não tira deles, nem mesmo do bispo de Roma, a necessidade de aprender e argumentar como todas as outras pessoas do mundo. Esquecer disso permite que caiamos em afirmações como esta: "Ora, mas a Igreja não foi feita para acolher a todos? – Sim, mas quem não quer abdicar de suas opiniões para seguir a fé da Igreja já tem uma religião – a do egoísmo -, não precisa vir à Igreja Católica… Esta não deve mudar para se adaptar ao mundo; são as pessoas que precisam se conformar aos ensinamentos de Cristo."

Quando uma opinião, defendida historicamente por membros específicos da Igreja, adquire status de fé da Igreja? E como saber se um dado ensinamento bate ou não com o que Cristo ensinou? O católico está em vantagem automática sobre os demais ao ler a Bíblia e procurar entender o que se diz lá? Por que é egoísmo discordar de algum ponto do ensino oficial atual e não é egoísmo defender esse mesmo ponto? Se a imensa maioria dos fieis, dos padres e mesmo dos bispos acreditar em algo, isso é irrelevante. Mas não foi exatamente esse critério de universalidade que foi usado no passado para definir diversos ensinamentos e distinguir o que era e o que não era verdadeiro? Seja como for, parece-me claro que há uma pretensão epistemológica muito grande e infundada nos defensores mais ardorosos da ortodoxia (e a ortodoxia de hoje não é idêntica à ortodoxia de outras eras); e a nebulosidade de uma Igreja PJ, que fala e pensa por si só e não depende da mente de indivíduos específicos (embora, bem saibamos, eles pensam), ajuda a confirmar essa pretensão.

Uma pretensão que fornece uma dose de conforto - "não preciso pensar por mim mesmo, a Igreja já o faz; " - mas que, assim como os atos das pessoas jurídicas, não nos eximem da responsabilidade de pensar e ver com os únicos olhos de que dispomos: os nossos.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

O Legado de Bento XVI




Não sei o que dizer sobre a abdicação de Bento XVI, por isso decidi escrever um texto a respeito.

Quanto aos motivos da renúncia, sem dúvida o que o papa disse é verdade: ele está fraco para os fardos que o ofício exige. Entre esses fardos, sem dúvida, deve figurar a intensa oposição que enfrenta dentro da própria Igreja.

A grande mídia, como de costume, foi muito injusta com o papa, selecionando apenas aqueles pontos de seu pontificado que reforçam, para quem olha de longe, a imagem de um retrógrado altamente reacionário a vociferar contra um mundo liberal que deseja apenas ser feliz. Esses são os “pontos principais” do pontificado selecionados pelo G1: “O papado do conservador alemão foi marcado por algumas crises, com várias denúncias de abuso sexual de crianças e adolescentes e acobertamento por parte do clero católico em vários países, que abalou a igreja, por um discurso que desagradou aos muçulmanos e também por um escândalo envolvendo o vazamento de documentos privados por intermédio de seu mordomo pessoal, o chamado ‘VatiLeaks’, que revelou os bastidores da luta interna pelo poder na Santa Sé.”

Faltou dizer: o abuso sexual sistemático – que acometeu igualmente a diversas instituições, não só religiosas (o ensino público americano, por exemplo, foi palco da mesma exata dinâmica perversa) – é um problema de décadas, bem como o acobertamento. E Bento XVI foi, tudo considerado, alguém que se portou de forma exemplar, com tolerância zero para com abusos e sem conivências vergonhosas para salvar “a imagem” da Igreja. É uma crise, mas não começou no pontificado dele e nem consta que a postura dele tenha deixado a desejar.

O discurso que “desagradou aos muçulmanos” é um enorme não evento, a não ser por seu valor filosófico e histórico, que era muito bom. A revolta muçulmana foi comparável a de charges de jornal com Maomé. E de todo o modo, se irritar alguns muçulmanos fanáticos for uma falha, é, se tanto, de relações públicas.

O Vatileaks de fato marcou o período final do papado, mas novamente ele não evidenciou nada que desabone ao papa, e como até hoje o vazamento das cartas em si tenha recebido muito mais destaque do que o conteúdo de qualquer uma delas, é bem provável que o “escândalo” caia no esquecimento em breve.

Para mim, o pontificado de Bento XVI teve outros pontos memoráveis. A ênfase no aprimoramento da liturgia, que incluiu a liberação do rito antigo e o maior cuidado com como se celebra o rito novo. A jornada mundial da juventude na Espanha, em 2011, que reuniu 2 milhões de pessoas. O ordinariato para a inclusão dos anglicanos à plena comunhão com a Igreja católica. As medidas para tornar públicas e transparentes as finanças do Vaticano. A criação do “átrio dos gentios”, uma inciativa que visa a estreitar os diálogos entre intelectuais e cientistas católicos e ateus/agnósticos. Por fim, as encíclicas e demais textos e falas de Bento XVI, que revelam inteligência e erudição e apontam para a possibilidade de se ser ortodoxo e, ainda assim, intelectualmente vivo.

Assim, acho curioso que vejam Bento XVI como um terrível conservador. Alguns falam até em um papa nazista, isso sim uma mentira pura e simples. Ratzinger, de família antinazista, tendo perdido um primo com síndrome de Down para as políticas genocidas de Hitler, foi forçado a se juntar à juventude nazista, e nem mesmo comparecia às reuniões mandatórias, sendo nisso ajudado por um professor benevolente que falsificava a lista de presença em seu favor. Claro, ele poderia ter se negado abertamente a participar e ser mandado para a morte em algum campo de concentração, como alguns de fato fizeram. Mas levantar tal falta de um heroísmo belo, embora quixotesco, contra um adolescente de 15 anos (!) me parece fora de propósito. Por fim, próximo ao fim da guerra, sem ter lutado diretamente, desertou o exército.

O mito do nazismo é um golpe de mídia. Mas e o conservadorismo empedernido? Uma coisa podemos afirmar: Bento XVI acredita na doutrina oficial da Igreja tal qual ensinada no Catecismo. Quem olha de fora talvez não perceba o tamanho da revolução que seria mudar algo aparentemente inócuo: passar a aceitar, por exemplo, a licitude moral da pílula anticoncepcional. Pelo ensino oficial atual, isso não é algo que sequer o papa possa mudar, dado que a lei moral não é determinada pela vontade humana. O que não quer dizer que o ponto não devesse ser discutido com muito mais honestidade e abertura...

Enfim, no campo das doutrinas, especialmente morais, Bento XVI foi (e será ainda por duas semanas) um papa ortodoxo e que segue e reflete o ensinamento que chegou até ele. Um ensinamento que, se por vezes é inflexível para com certos atos, é também – ou tenta ser, dentro de suas restrições – receptivo a todos. A condenação aos “atos homossexuais” e aos casais de segunda união vem sempre aliada à compaixão para com eles e à afirmação de que todos, heteros e homos, divorciados ou não, são igualmente pecadores. Por mais que se questione ou discorde da postura da Igreja quanto à homossexualidade, ela não é homofóbica; pelo contrário, condena as tentativas de se humilhar ou hostilizar os homossexuais.

Em outros campos, Bento XVI é extremamente aberto: em sua relação com outras religiões e, especialmente, com outros grupos e igrejas cristãs, como protestantes e ortodoxos. Vejam o que o Patriarca de Constantinopla disse sobre a abdicação: “Rezamos para que o Senhor manifeste um sucessor digno para a Igreja irmã de Roma, e que possamos com ele continuar nossa jornada em comum pela unidade de todos rumo a glória de Deus”. Uma tal afirmação vinda da autoridade honorífica da Igreja ortodoxa representa um progresso ecumênico formidável. O mesmo se dá para com o diálogo de pessoas da Igreja com intelectuais seculares, ateus e agnósticos. Bento XVI não foi, de forma alguma, um papa ranzinza fechado para o mundo. A acusação de conservadorismo tem muito mais de sensacionalismo do que de justiça.

A injustiça midiática, contudo, foi ajudada pelas falhas de relações públicas e de procedimento do próprio Vaticano. Ninguém lá percebe que, em meio ao aparecimento generalizado de casos de abuso sexual infantil, posar de mestra moral do mundo e condenar a camisinha e a homossexualidade pega um pouco mal? E pega mal com razão. A Igreja é muito ciosa de sua existência como pessoa jurídica, como a instituição impessoal, com hierarquias e regras claras e que, por isso mesmo, pode emitir doutrinas “vindos do céu”, e não pensadas por indivíduos concretos ao longo da história. Sendo assim, o papa, como líder e representante máximo da instituição, tem o dever de responder pelos atos de seus membros e que foram permitidos e agravados pela dinâmica interna de autopreservação institucional. Bento XVI se esforçou para cumprir esse dever (com algumas lacunas, como a omissão de encontro a vítimas no México, terra dos Legionários de Cristo), mas ao mesmo tempo não viu incoerência em adotar discursos moralistas em outros contextos, quando talvez o mundo precisasse de um exemplo de humildade.

O papa e os cardeais próximos a ele e seus funcionários vivem em um mundo à parte, sem a menor ideia de que a reverência e o servilismo que vigora em seu meio não reflete o que a população normal, mesmo católica, está disposta a aceitar. Estão acostumados a tomar decisões sem nenhum diálogo, ou, o que é até pior, apenas com a aparência de diálogo. Nos últimos anos, muitas vozes de dissenso receberam um “cala a boca” do Vaticano, algumas simplesmente perdendo toda a base de sua existência. A um longo e omisso silêncio segue-se um ato canônico definitivo e implacável como raio em céu azul (algo similar, penso, ao infeliz episódio de escolha da reitoria da PUC-SP).  O conflito que se anuncia com um enorme grupo de freiras americanas, se o Vaticano endurecer o jogo, é sério; e o mesmo vale para um grande grupo de padres austríacos. Se a faísca for lançada, sabe-se lá que outros grupos contribuirão para o incêndio.

Conheço mais de uma pessoa cuja conversão ao Catolicismo se deu, em parte, pela influência do pensamento de Bento XVI. Lembro também que compareci a uma audiência pública dele em Roma no início de 2006, acompanhado de agnósticos que, embora sem nenhuma inclinação a se converter, ficaram bem impressionados com sua erudição e profundidade (a esse respeito, recomendo as considerações de Marcelo Coelho a seu respeito).

Talvez seja a produção intelectual o maior legado de Bento XVI. Se sua administração não foi marcada pela capacidade do diálogo interno, preferindo o silenciamento e as sanções institucionais, ele próprio é extremamente afeito à troca de perspectivas e a consideração aprofundada das questões com que se depara. Mesmo que para discordar (como discordo da proposta da ONU como uma espécie de governo mundial feita na encíclica Caritas in Veritate – na questão política, é interessante notar como João Paulo II era mais afeito ao empreendedorismo e à livre iniciativa em geral), elas nos mostram uma mente profunda, erudita e equilibrada (quem, no mundo não católico, esperaria um papa que cita Marx?), mas, mais importante do que isso, iluminadas pelas chamadas virtudes teologais: a fé convicta na revelação de Deus ao mundo, pela esperança de que todos possam encontrar a redenção, e pela caridade viva que busca sinceramente trazer todos à luz de Cristo. Virtudes que, sem dúvida, ele continuará a exercer mesmo destituído do cargo de uma instituição jurídica que, embora de certa maneira indispensável, é também um obstáculo ao seu exercício.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Ver o Circo pegar Fogo

Francisco Razzo

Quando o circo está prestes a pegar fogo, a última pessoa recomendada pra ajudar na tarefa de conter as primeiras chamas é o frentista do posto de gasolina. Botar fogo na Briga do Circo, enquanto se assiste de camarote, é tão niilista quanto a sádica brincadeira em que os garotos amarram o gato e o cachorro pelo rabo só pra ver o pau comer. Em certas situações, como dizia meu falecido avô, se você não vai ajudar, então não atrapalhe. Acredito que a principal tarefa de qualquer ensaio que se pretenda “filosófico”, parafraseando as orientações de William James a respeito do sentido da atividade filosófica, seja a de persistir no “resíduo de problemas não resolvidos”.
Como nós sabemos o que uma pessoa de fato deseja? Ora, visto que ninguém tem acesso direto e imediato ao desejo do outro, então o acesso ao desejo alheio é, necessariamente, mediado por formas de comunicação e comunhão simbólica. Quando pessoas comungam do mesmo desejo é porque partilham da mesma experiência da ausência de algo em comum expresso numa considerável variedade de símbolos. Querer é, em última instância, sempre querer algo. E o que une as pessoas em comunidade, de certa forma, é a capacidade, mediada pela comunicação, de reconhecer no outro a mesma carência, o empenho comum na busca de realizar o sentido da própria existência.
O que o IPCO (Instituto Plinio Corrêa de Oliveira) quer e o que os Ativistas da Causa Gay de Curitiba querem? Certamente, alguma coisa contrária ao desejo um do outro; e, precisamente por esta condição de interesses contraditórios, jamais formarão uma comunidade, no sentido aristotélico do termo, isto é, não no sentido puramente descritivo, mas no de valoração, isto é, o intercâmbio mediado pelo senso de irrestrito de justiça (haplos dikaion) (Cf. ARISTÓTELES, Ética à Nicômaco VIII). Portanto, se o IPCO conseguir alcançar o seu objeto de desejo, isso significa que o grupo de Ativistas da Causa Gay de Curitiba não conseguiu alcançar o seu, e se o grupo de Ativistas da Causa Gay de Curitiba conseguir, consequentemente, significa que o IPCO não conseguiu. Nessa relação não há nada de luta de classes, mas o mais puro conflito pessoal de valores consubstancializados na forma e ação de um determinado grupo, seja ele piegas aos olhos alheios ou não.
A partir desta perspectiva, pode-se compreender melhor em que medida cada um dos membros desses grupos representam, de uma forma ou outra, o embate dos valores políticos que transitam no tecido da atual sociedade pluralista, na qual, como avaliou Alasdair MacIntyre, a “grande diversidade de julgamentos sobre tipos particulares de assuntos” subjaz em “um conjunto de concepções conflitantes de justiça, concepções supreendentemente em desacordo umas com as outras, de vários modos”, sendo que um dos fatores “mais surpreendentes nas ordens políticas modernas é que elas não possuem foros institucionalizados nos quais as discordâncias fundamentais possam ser sistematicamente exploradas e mapeadas, e muito menos fazem qualquer tentativa de resolvê-las”; pelo contrário, pois “o próprio fato da discordância frequentemente não é reconhecido, sendo escamoteado por uma retórica do consenso”, o que só “serve”, em última análise, “para impedir que o debate se estenda aos princípios fundamentais que informam as crenças de fundo”. (MACINTYRE, 2008, Justiça de Quem? Qual Racionalidade, p. 12-13).
O IPCO é um grupo de cristãos; contudo, evidentemente, não fala em nome de todos os cristãos. Cada um dos seus membros representa, por ser cristão, alguns valores gerais ou “crenças de fundo” comuns a todos os que que professam o credo cristão, certamente, deveriam partilhar. Por outro lado, os Ativistas da Causa Gay de Curitiba é um grupo procedente do cenário da Militância pelos Direitos dos Homossexuais, entretanto também não falam em nome de todos aqueles que militam pela causa Gay, apesar de partilhar de alguns valores gerais ou “crenças de fundo”, os quais todo membro da Militância Gay deve ou deveria professar. Dessas “crenças de fundo” emergem “os princípios fundamentais” que dão base para as efetivas concepções conflitantes de “família”, “pessoa”, “sociedade”, “justiça” etc. Esse é o núcleo do problema, e o resto - se eles cantam, marcham, fazem a dança da chuva, pintam a cara, sambam, são feios, bregas etc - é apenas uma acidental questão de gosto.
A questão nuclear reside no fato de que toda atividade política se caracteriza essencialmente pelas pessoas que se autocompreendem partícipes de um universo de valores e almejam que esse universo se realize na experiência de uma vida significativa. Quanto mais conscientes a respeito da natureza desses valores, menos fundamentalistas e dogmáticas os agentes políticos serão. O que não significa que, do grau de consciência de reconhecimento desses valores, serão mais ou menos violentos ou que dissimularão serem as vítimas a fim de conseguir o que desejam. Uma coisa é o fim, outra coisa, completamente diferente, é o meio. Fundamentalismo e dogmatismo, neste caso, revelam o grau de estupidez diante da compreensão dessas “crenças de fundo”, enquanto que a violência (ou o vitimismo) revela o grau em que a estupidez se encarna na história por meio da atividade política. Ser ou não violento é só uma complexa opção estratégica (assim como também pode ser estratégico idealizar que, por ser a vítima, e em razão disso, é legítimo partir pra pedradas, insultos etc), isto é, o modo pelo qual a estupidez toma forma e entra mundo. Não obstante, um movimento político pode ser consciente ou inconscientemente violento por meio da imposição de um perverso processo de aniquilamento do estatuto de humanidade no outro. Um processo perverso de “purificação e destruição”, como demonstra Jacques Sémelin em seu livro (Purificar e Destruir – Usos políticos dos massacres e dos genocídios) que trata, precisamente, da lógica desse processo:
Os agentes que sabem utilizar essa ferramenta do imaginário têm, em todo caso, uma arma poderosa que lhes permite pensar em conquista do poder. O primeiro ponto dessa retórica imaginária consiste em transformar a angústia coletiva, que mais ou menos se propagou na população, em um sentimento de medo intenso, com relação a um inimigo, do qual eles vão expor toda periculosidade. De fato, a angústia e o medo não tem a mesma natureza. A característica da angústia é a de ser difusa ou mesmo inapreensível, enquanto o as causas do medo são mais denomináveis e, assim, identificáveis. O que se tenta é, de certa forma, ‘coagular’ essa angústia sobre um ‘inimigo’, ao qual se dá uma ‘figura’ concreta e do qual se denuncia a malignidade, no interior mesmo da sociedade. Os discursos mais extremados apresentam essas figuras do inimigo como necessariamente assustadoras ou mesmo diabólicas. [...] Essa tentativa de canalização da angústia sobre um inimigo bem identificável já é uma maneira de responder ao traumatismo da população: explica-se de onde vem a ameaça. A partir dessa ‘transmutação’ da angústia embrionária em medo concentrado por intermédio de uma ‘figura’ hostil desenvolve-se o ódio contra esse ‘outro’ pernicioso. O ódio não é, neste caso, o ingrediente de base, que definiria previamente as relações ‘naturais’ entre os grupos. É, antes, uma paixão construída, produzida, ao mesmo tempo, por uma ação voluntária dos seus partidários extremosos e por circunstâncias favorecendo sua propagação. No final, a saída lógica e temível dessa dinâmica – da angústia e do medo – recai, inevitavelmente, no surgimento, em uma determinada sociedade, do desejo de destruir o que lhe foi designado como causa do medo. É evidente que se trata ainda de um ‘desejo’: permanecemos no registro do imaginário. Mas é um imaginário de morte. (SÉMELIN, 2005, Purificar e Destruir. Os imaginários da destruição social. p. 39. Grifos e itálicos são meus)
A questão é: se os membros do IPCO saíram às ruas manifestando um desejo, certamente não foi o desejo de ser agredidos; não obstante eles efetivamente foram agredidos, ofendidos, ridicularizados, impedidos de manifestarem suas convicções, isto é, violentados. Podem, segundo a hipotética análise provisória, até ter usado isso como “estratégia” para alcançar seus interesses – eu pessoalmente duvido, já que não tenho bola de cristal capaz de acessar a mente alheia e os dados empíricos, aos quais tive acesso, não mostraram nada parecido que justifique essa interpretação –, mas o objeto efetivo do que almejavam não era exatamente esse. O evento não foi em busca de um meio (a suposta estratégia da vitimização), mas exclusivamente almejava um fim (contra a aborto, contra a PL 122). Concordemos ou não com os fins e, sobretudo, com os meios.
Segundo os próprios organizadores do evento, a manifestação tinha como principal objetivo defender, segundo suas “crenças de fundo”, a “família”, eu compartilhe ou não dessa concepção de “família”, eu concorde ou não com o “método”: “A Cruzada pela Família, promovida pelo Instituto Plinio Corrêa de Oliveira, está percorrendo o Brasil fazendo uma campanha ordeira e pacífica contra as leis de aborto e contra a agenda do movimento homossexual, como o kit homossexual nas escolas, a lei de homofobia, etc.”. Ou seja, a campanha organizada pelo IPCO, por mais que se acha brega, não é contra um inimigo concreto, uma figura real encarnando a malignidade, mas contra uma possibilidade de lei, isto é, contra uma ideia e uma agenda.
Enquanto que o grupo dos Ativistas da Causa Gay de Curitiba agrediu os membros da passeata, exatamente, com a justificativa de que o IPCO é uma ameaça à sociedade, de que os seus membros efetivamente encarnam a figura hostil. Nesse caso, todos aqueles ativistas formaram um grupo precisamente por se sentirem ameaçados, em outras palavras, vítimas e, além disso, porta-vozes defensores de toda sociedade em perigo. Ao ponto de uma das ativistas pedirem para os motoristas não buzinarem em solidariedade à “Cruzada pela Família”, mas atropelarem. Como as imagensdeixam bem claro, as constantes provocações não esperavam outra reação dos “fascistas da IPCO” senão o contra-ataque violento, o qual, felizmente, não aconteceu. 
Há um outro vídeo circulando no Youtube que mostra, inclusive, uma edição comparando a “cruzada” do pequeno grupo do IPCO com a Marcha de algum pelotão Nazista. A descrição do vídeo demonstra quem se autocompreende como vítima ameaçada que, precisamente por isso, justifica as suas agressões e provocações “com unhas e dentes”:
Na segunda semana de janeiro a cidade foi surpreendida por uma marcha contra a família, que proclamava hinos de ódio (desde quando Ave Maria é hino de ódio?) e preconceito (contra quem? A lei do Aborto?). Nós, curitibanos e curitibanas conscientes e a favor da família, expulsamos estes radicais de extrema direita, que não são bem-vindos em nossa cidade (mas eles não são curitibanos também?). Que façam seu hino de ódio (Pai Nosso) em outro lugar. Curitiba é uma cidade para o amor. E aqui nós defendemos o amor e a alegria com unhas e dentes.
Em um dos comentários é possível notar a dinâmica da imaginação política, isto é, pressupor, num ato puramente imagético, que aquele grupo é, efetivamente, uma ameaça de proporções históricas, tal como é vinculado ao temerário e assombroso imaginário da “Ditadura Militar”, dos “Nazistas” etc.
Aos senhores que conhecem a TFP desde os tempos da ditadura vociferavam contra eles, casais heterossexuais, gays, enfim, e se eles voltarem serão rechaçados de novo pela mesma população (população ou alguns ativistas?) que não tolerará um Brasil fascista. A TFP é uma vergonha, nem a Igreja Católica tolera esses dinossauros proto-nazis, qualquer manifestação que pregue a intolerância e o preconceito ferindo o princípio da dignidade humana e da cidadania será combatida.
Por fim, fica evidente que a ação política deriva dessa exclusiva capacidade humana da autoconsciência pessoal de participação na realidade dos valores e no fundamental reconhecimento de que o outro, ao seu modo, também participa e se realiza como um valor e não como uma ameaça. Os conflitos políticos emergem, justamente, da perda desse reconhecimento ante o permanente “registro do imaginário de morte”. A liberdade da ação política, quando não impõe a si mesma esse limite ou princípio básico de reconhecimento ético, demoniza-se com a realização de suas fantasias, como mostrou Jacques Sémelin em seu livro supracitado.
Para concluir, cito uma passagem de Cioran, sobre essa essência demoníaca da liberdade:
O assassino faz uso ilimitado de sua liberdade, e não pode resistir à ideia de seu poder. Está ao alcance de cada um de nós tirar a vida de outro. Se todos os que matamos em pensamento desaparecessem verdadeiramente, a terra já não teria habitantes. Carregamos em nós um carrasco reticente, um criminoso irrealizado. E aqueles que não têm a audácia de confessar suas inclinações homicidas assassinam em sonho, povoam seus pesadelos de cadáveres. Pois nunca houve um ser que não tivesse desejado – ao menos inconscientemente – a morte de um outro ser. Cada um arrasta atrás de si um cemitério de amigos e inimigos; e pouco importa que esse cemitério seja relegado aos abismos do coração ou à superfície dos desejos. A liberdade concebida em suas inclinações últimas coloca a questão de nossa vida ou a dos outros; ela carrega a dupla possibilidade de nos salvar ou de nos perder. (CIORAN, Précis de Decomposition, p. 76-77).

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Contra Estatizantes: Respostas a Sidney Silveira - II


A introdução desta longa discussão econtra-se aqui.

2. Respostas ao Quodlibet Antiliberal de Sidney Silveira

1- Do ponto de vista psicológico: o liberalismo parte da falácia da consciência individual autônoma. Isto o leva, entre outras coisas, a forjar uma idéia totalmente equivocada de liberdade.”

Essa crítica parte de um equívoco comum dos meios conservadores, que é tentar jogar todos os debates e discussões na conta da filosofia. Como se, para fazer uma proposta política ou um juízo moral, fosse necessário ter uma definição perfeita e filosoficamente irretocável de “indivíduo”, “consciência”, etc. Não está nada claro que a defesa de uma posição política ou mesmo sobre a boa vida humana necessite de um tratamento filosófico cuidadoso da noção de liberdade e consciência. Está bem claro, para a maioria das pessoas, que os homens valorizam diversas coisas boas, e que o Estado pode ou não ter um papel para ajudar nessa busca. A maior parte das defesas liberais, inclusive, são feitas com argumentos econômicos, que visam mostrar que a medida estatal proposta não alcança sequer os objetivos que seus próprios defensores dizem buscar.

Ademais, é complicado falar que o liberalismo parte de uma base filosófica qualquer, pois há diferenças filosóficas enormes entre diversos autores liberais: Mises, Rothbard, Rand. Filosofias radicalmente diferentes por trás de posições políticas próximas. Há até liberais radicais que, metafisicamente falando, são deterministas; isto é, acreditam que não existe livre arbítrio, que toda ação é inteiramente determinada por condições (físicas e/ou psicológicas) anteriores; mas, ainda assim, reconhecem que a vida humana em uma sociedade com pouca ou nenhuma interferência do Estado é melhor. E que é um grande bem que cada indivíduo possa escolher os rumos de sua vida nos campos mais importantes da existência (suas ideias, as atividade produtivas que ele pratica e o uso de seu tempo de lazer).  

Dito isto, o liberalismo me parece a melhor posição política que se pode derivar de uma correta apreciação da liberdade humana e da consciência individual. O homem se guia por princípios objetivos, mas sua ação se dá em meio a circunstâncias particulares e há uma grande dose de latitude para se agir dentro dos parâmetros da moralidade; é vão tentar prescrever legalmente um certo modo de agir como sendo o único aceitável, pois é certo que haverá casos em que a melhor ação não segue a norma estatística (exceção feita às violações voluntárias dos direitos fundamentais ou de negações práticas diretas de algum componente necessário da vida humana plena). Além disso, a ação virtuosa ou vem de dentro, ou não existe. Muito pelo contrário: a tentativa de impor a moral, ao obrigar a adesão externa sem a persuasão interna, antes cria desprezo pela lei e, por contágio, pelo próprio princípio moral em jogo, ainda que ele seja correto.

Já o sistema de livre transação denominado mercado também engendra um tipo de imitação moral, mas virtuosa. É servindo aos outros que se é servido. A educação no livre mercado é a educação sobre como deixar de lado os próprios caprichos e preferências atuais para produzir algo de valor para os outros. Assim, promove a harmonia entre interesses individuais e coletivos e estimula as boas relações e a confiança entre as partes (que são, ao mesmo tempo, pré-requisito e produto de seu funcionamento). Por fim, o mercado mantém todos os seus membros em contato com a realidade de suas escolhas: ele não premia e nem pune nada para além do que a própria realidade social, isto é, a realidade dos desejos das outras pessoas, premia ou pune. E ele também não obriga ninguém a se pautar pelo desejo dos outros. Um artista seguro de estar produzindo uma obra-prima ainda incompreendida tem total liberdade para fazê-lo; só não deve esperar que seus esforços sejam subsidiados pela produção dos demais. E, a bem da verdade, mesmo os artistas – pintores, músicos, dramaturgos – ao longo da história (especialmente na Renascença) tiveram uma relação muito mais simbiótica com o mercado. E ainda têm: é só ver como o mercado de traduções, edição de textos e aulas particulares sustenta escritores e estudiosos independentes hoje em dia.

Assim, alguém que tenha ojeriza pela pornografia ou pela prostituição tem total liberdade de se recusar a consumi-las mesmo pelo preço zero. E, ao fazer isso, desestimula a oferta por esses serviços. Daí a bela resposta do general francês às reclamações do general americano sobre o alto preço das prostitutas parisienses: “O preço delas é diretamente proporcional à virtude de nossas mulheres e ao vício de seus soldados”. Todo juízo de valor entra na composição do sistema de preços; que não é, ele próprio, normativo, e sim o resultado de diversos (e nem sempre concordantes) juízos de valor.

Da mesma forma, vícios, aqueles hábitos que afastam o homem da felicidade que ele poderia alcançar, não são subsidiados e seus efeitos não são partilhados artificialmente entre todos os membros da sociedade. Passou os anos na pornografia, nas drogas e no instagram? Sua escolha engendrará sua própria recompensa. Se a virtude e o vício se definem com base na realidade da natureza humana, nada melhor do que deixar que a realidade fale mais alto do que as decisões políticas, por mais bem intencionadas que possam ser.

2- Do ponto de vista gnosiológico: o liberalismo sempre acaba por optar pelas posturas idealista e/ou imanentista, ainda que, aqui e ali, sob o disfarce realista;”

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

O Tradicionalismo Pós-Moderno



Se não existe verdade, se tudo são narrativas de diferentes pontos de vista, se a razão iluminista falhou, se não temos acesso à "coisa em si", se as pretensões de objetividade foram desconstruídas e revelaram-se vontades de poder, então... então todas as opiniões valem, sejamos livres, leves e soltos e vamos curtir o pluralismo, não é mesmo?

Não tão rápido, camarada! Esse mesmo discurso pode ser usado - já é! - por crenças muito distantes do "Paz e Amor". Pense o seguinte: se nenhuma crença é objetivamente válida ou verdadeira, então todas o são igualmente. E a minha religião ou ideologia do coração, que sob o sistema antigo, racionalista, era claramente inválida e furada, agora merece tanto respeito quanto a ciência mais bem estabelecida. Com um bônus: quem garante a verdade da sua crença secular e liberal são apenas os pensamentos falíveis e relativos da sua cabecinha; já a minha é garantida pela autoridade de Deus. Ganhei.

Chamou minha atenção o dia em que li um editorial abertamente, orgulhosamente pós-moderno na Al Jazeera (sim, sim; a Al Jazeera não é uma porta-voz de movimentos fundamentalistas islâmicos. Mas ela os trata, e a outros "pontos questionáveis" do mundo árabe, com luvas de pelica). Pensando em escrever este texto, fui lá procurar o editorial de meses atrás. Nem precisei. O primeiro artigo de opinião que encontrei era exatamente a mesma coisa. Vejam lá: "Who is a Muslim?", de Hamid Dabashi, professor de Estudos Iranianos e Literatura Comparada (indicador infalível) em Columbia.

O artigo (na verdade a introdução a um livro a ser publicado) prima por joias pós-modernas como esta:

Imagining ourselves in a post-Western world requires the dismantling of the regimes of knowledge the fiction of "the West" has historically generated. In the Second Chapter, "Breaking the Binary", I will explore why and how is it that a post-Western regime of knowledge is necessary and in fact the elements of which are already evident. The habitual binaries between "Islam and the West", between "religion and secularism", need to be conceptually discarded. These binaries have concealed much about Muslim worlds rather than revealing anything about them. These binaries have been imposed by the power of the regimes of knowledge production that take "the West" as an ontological a priori and narrate the rest of humanity in terms conducive to that primacy.
Narrativas são produtos de vontades de poder humanas. Nenhuma é mais válida do que as outras (a não ser a Ocidental, que é menos válida do que todas). Fiquem vocês com o ecoveganismo, que eu fico com as profecias comprovadas do Corão. Que venham os véus e a crença nos djinns! Sob o regime ocidental, colonialista e anglo-americano da razão e da ciência, a coisa ia mal para as pretensões de verdade do Islã. Já em meio ao discurso pós-moderno ele se sente em casa, ganhando até mesmo ares de justiça social.

Não vou bater em cachorro manso. Se eu vivesse no Londonistão ou em Islamsterdã talvez fosse relevante, mas aqui no Brasil a comunidade muçulmana é pequena, amistosa e tolerante. Quero falar das loucas da minha própria casa, a Igreja Católica. Pois há certos tipos de Catolicismo que, embora façam careta e finjam não gostar, acolhem de muito bom grado o discurso pós-moderno quando ele lhe é útil. A realidade é incognoscível e ininteligível; estamos perdidos e sem guia em meio ao caos. Felizmente, Deus mandou para nós um guia infalível, uma rocha em meio à tempestade, a quem submeteremos nosso intelecto sem mais perguntas. É claro que eu não estou falando de Jesus Cristo!

O católico adere ao pós-modernismo, ainda que não o perceba, quando recorre à infalibilidade da Igreja (em geral, dos papas) como justificativa última de sua doutrina. A Bíblia? Só a temos graças ao papa, claro. Tudo bem que o cânone só foi definido oficialmente no século XVI, e que pequenas diferenças ainda existam entre latinos e gregos (e que, mesmo com essas diferenças, formaram uma só Igreja visível até o século XI), e ainda mais com outros grupos apostólicos (com os quais fomos uma Igreja só até o século V).

Ou então dizem que é impossível interpretar a Bíblia por conta própria, que precisamos da autoridade da Igreja para fazê-lo. Ora, o que a Igreja preserva para nós são as interpretações bíblicas de diversos autores ao longo da história. Não há tal coisa como um "guia dos católicos sobre como ler a Bíblia verso por verso".   Primeiro aceita-se o papa, depois pode-se entender a Bíblia ou as palavras de Cristo, todas elas indecifráveis ao leitor comum. A prova disso? Ora, é o que a Bíblia diz em Mateus 16...

Sem o papa, nunca teríamos certeza doutrinária; ficaríamos navegando perdidos num mar de opiniões, sem uma rocha para se ancorar nossa certeza absoluta e descansar em paz, seguros de que possuímos a verdade. Mas e se mesmo entre papas ao longo da história não houver consenso perfeito?

Católico conservador, o papa não tem uma linha direta com Deus que lhe sussurra dogmas! Todos os papas, para chegar a decisões, estudam, meditam, pesam argumentos como qualquer pessoa. Ocorre muitas vezes de um papa discordar do que pensaram outros papas do passado. É dificílimo apontar com alguma certeza sobre quais pontos da doutrina pesa ou não pesa a infalibilidade papal, mesmo porque o ato de fazer essa distinção não é infalível. Coisas outrora tidas como infalíveis hoje são consideradas falsas. O maior exemplo que me vem à mente é a usura, outrora repetida e solenemente condenada, e hoje em dia permitida - uma mudança lenta e, infelizmente, bem pouco transparente. A opinião da hierarquia sobre a liberdade religiosa é outro bom exemplo.

Dessa constatação, duas correntes igualmente pós-modernas se formaram: o daqueles que rejeitam o que os papas recentes disseram para manter o que foi dito por papas mais antigos; e os que rejeitam o que os papas antigos disseram (ou os reinterpretam até que eles queiram dizer o oposto do que queriam) para manter tudo o que os recentes dizem. "É o papa, temos de aceitar, sob pena de pecado mortal!" Que um ato do intelecto de aderir ou não a uma opinião seja visto como passível de pecado já mostra a confusão de fundo: a confusão entre intelecto - faculdade cognitiva - e vontade - faculdade volitiva.

O bispo de Roma sempre teve, desde os primeiros séculos da Igreja, o papel de um árbitro de último recurso; e se bem me lembro Roma foi a única sé a nunca cair em heresia. Talvez não fosse o superbispo com autoridade absoluta e imediata sobre tudo o que acontece na Igreja no mundo inteiro, como é mais ou menos o caso hoje, mas havia uma primazia - não só honorífica, mas de autoridade doutrinal - relativamente reconhecida por bispos de todo o mundo. Os desenvolvimentos na relação com as Igrejas orientais são o que há, na minha opinião, de mais interessante para quem sabe se chegar a um equilíbrio mais justo do verdadeiro papel do bispo de Roma; e que provavelmente será algum meio do caminho entre o que afirmam os ultramontanistas e os ortodoxos orientais.

O papa nunca foi o critério de se ser ou não católico. E não era o filtro pelo qual os cristãos olhavam a realidade. Se o transformamos no critério último, na autoridade divina manifesta, caímos no fideísmo. Pois qual o motivo de aceitá-lo desta forma? A própria autoridade dele em afirmá-lo? No fundo, resta apenas o ato da vontade. Nossa mente é incapaz de conhecer a realidade; por isso, vamos escolher nosso representante divino favorito para arcar com nossa insegurança. Nossa consciência e nossa vida pagarão o preço. O papado se transforma, para esses católicos - muitas vezes (mas nem sempre) à revelia do que querem os papas -, numa espécie de Fidel Castro da alma: "Dar-te-ei segurança e paz de espírito. Peço apenas que abras mão de pensar; de usar sua (nefasta) faculdade crítica."

O mesmo problema se dá quando nosso critério não é o papa mas "a Igreja" ou "os Santos Padres", como fazem muitos ortodoxos. Pois não há essa entidade impessoal e abstrata, "a Igreja", que emite doutrinas e ensinamentos vindos do céu. Há pessoas concretas que formam a Igreja e que escreveram e disseram muitas coisas ao longo dos séculos. Em pouquíssimas delas há um consenso claro, mesmo entre os santos canonizados. É mérito dos latinos ter percebido isso já há quase mil anos, por exemplo, quando Abelardo escreveu seu Sic et Non. O intuito era que todas as aparentes contradições entre os Santos Padres fossem perfeitamente conciliáveis, mas não foi o que a história mostrou. Hoje em dia, então, quando nosso acervo de Santos Padres é muito maior do que o disponível na Europa do século XII, a coisa ficou ainda mais improvável. É uma pena que, à crença ingênua em um "consenso dos Padres", tenha-se substituído, gradativamente, a adesão acrítica ao juízo de um santo padre.

A lição disso tudo? Mesmo com uma religião hierárquica, a certeza absoluta nos escapa. Sua mente, sim, seu intelecto pessoal, sua razão individual; continua sendo sua única ferramenta para pensar, conhecer e tomar as decisões que lhe cabem, mesmo no campo espiritual. É possível fingir, talvez com alguma dose de auto-engano, que essa responsabilidade pessoal possa ser delegada a um terceiro. Ao fazê-lo, você perde a própria realidade, e passa a viver no sonho pós-moderno (que não é nada moderno - existe desde que um certo casal foi expulso de um Jardim): o sonho de que desejos humanos determinam a realidade; seus companheiros são Derrida e Bin Laden. Hora de acordar!

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

O que é Casamento Gay?

A pergunta é sincera, sem ironias. Quando se discute o casamento homossexual, do que é que se está falando? Quero identificar precisamente qual a finalidade da luta pelo casamento gay.

Uma resposta é que a finalidade é conquistar os direitos legais que são dados a parceiros heterossexuais e dos quais os parceiros homossexuais são privados (direito obrigatório a 50% da herança, poder adotar, poder assistir a cirurgia, algum benefício fiscal, etc.). A discussão muitas vezes segue por esse caminho. Diz um homossexual: "não é justo que eu não tenha com meu parceiro a quem amo os mesmos direitos de um casal heterossexual". E até aí, perfeito; quero dizer, entende-se perfeitamente pelo que é a luta. Há certas coisas da vida prática a que os casais homossexuais não têm acesso e poderiam ter.

Mas é só isso? E se o governo estendesse todas essas garantias legais às uniões homossexuais, mas não as registrasse como "casamento"? Se desse-lhes o nome de "união civil" (ou então "cazamento", "matrimúnio", que tal?); estaria finda a luta pelo reconhecimento formal? Aí cada indivíduo responde por si, mas parece-me que, para muitos, a luta pela aceitação legal da união homossexual vai além da extensão de direitos práticos; é uma luta para que essa união seja identificada e fique plenamente indistinta do casamento heterossexual.

Mas no que consiste essa igualdade que vai além dos direitos práticos? Em um nome. Um nome outorgado pelo Estado. O Estado "considerará" essas uniões como indistintas, assim como não discrimina os casamentos de casais loiros e morenos. Mas ao predicar um ato ao Estado, especialmente um ato mental ("considerar"), fazemos uso de uma ficção. O Estado não pensa e nem quer nada. Ele é uma ficção que criamos para diversos propósitos práticos, mas sabemos que ele não existe, metafisicamente falando. O que existe são as pessoas dos funcionários públicos, e algumas de suas ações, que se pautam por certos critérios formais, são interpretadas pelos membros da sociedade como sendo ações do Estado (se um funcionário público grita com a esposa, isso não é um ato do Estado). O Estado não existe se não nas mentes dos indivíduos, e ele certamente não é identificável a nenhum indivíduo particularmente e nem a todos eles. Então, o que importa se o Estado "considera" X ou Y? Para além dos direitos práticos, que realmente mudam alguma coisa na vida humana, o resto é fumaça e hipostasiada, ou seja, um ente puramente relacional e mental ao qual se atribui uma substancialidade metafisica.

A opinião do Estado não é a verdade objetiva, e nem chega a ser uma opinião, posto que não há mente por trás dele; são palavras escritas em algum papel e só. E por isso acho curiosa a luta pela definição estatal que se dá a algo. O Estado é só palavras e interpretações dadas por indivíduos em um grande acordo implícito; isso importa exclusivamente por causa das implicações legais práticas que essas palavras podem ter; dada uma formulação, posso ir para a cadeia se fizer X. Mas se as implicações legais práticas são as mesmas, de que importam as palavras usadas? Que importa se o Estado "chamar" à relação de um cachorro e seu dono de "zooposse" e der outro nome à relação entre o gato e seu dono? "Ah não! Zooposse para mim é apenas a relação com o cachorro, jamais com um gato. Claro, um homem pode ser dono de um gato e brincar com ele, mas não se tem uma 'zooposse', e sim outra coisa; no máximo uma 'posse de ser vivente' ". Beira ao absurdo. Nomes não são realidades.

Se a luta fosse pelo casamento na Igreja católica, daí a questão seria bem diferente. Pois a Igreja afirma algumas coisas concretas sobre o matrimônio: diz que ele é um Sacramento. Ou seja, pela visão católica, Deus usa essa união entre homem e mulher, e os atos decorrentes dessa união, como um canal especial de sua graça para ajudar na santificação dos envolvidos nela e dos filhos dela nascidos. Sendo assim, é relevante (para quem acredita na doutrina católica), saber o que é e o que não é matrimônio. No Estado nada disso está em jogo; tirando a parte dos privilégios legais dos casados em relação a seus cônjuges, é apenas um nome e nada mais.

Além disso, Deus é, verdadeiramente, uma Pessoa. Ele não tem opiniões (Sua mente tem a relação inversa da nossa com a realidade objetiva; a realidade decorre de sua mente, e não vice-versa), mas é um ser pessoal ao qual cabe falar que afirma ou nega, quer ou não quer, faz ou não faz, etc. Quando falamos do Estado nesses termos, estamos apenas usando uma metáfora. Não existe um "alguém" por trás dele; muito menos um "alguém" cuja opinião favorável carregue consigo a aura de juízo da realidade objetiva.

Assim, não haveria motivo direto para se lutar por uma "aceitação" estatal. A não ser que o objetivo não seja essa aceitação em si (que, como tentei argumentar, é uma ilusão), mas algum efeito que se espera que decorra dela. Um efeito possível é: a maioria das pessoas hipostasia o Estado, e o considera sim como uma pessoa mais importante, quiçá uma voz de uma realidade superior que emite verdades mais sólidas ou absolutas. E portanto, se o Estado "considerar" indistintamente as uniões hetero e homo como casamentos, isso talvez mude a maneira pela qual as pessoas consideram essas uniões. E então seria a motivação da luta pelo casamento gay (supondo que exista um número considerável de militantes que queira, além da igualdade de direitos práticos, também a identidade dos nomes concedidos às uniões; coisa de que não estou certo) uma luta, no fundo, por um meio de mudar a opinião das pessoas via um atalho político?

Outra possibilidade é que, como costuma acontecer, o Estado ainda seja visto em uma chave mais ou menos divina, e não como a ficção humana que ele é. Assim, uma "aceitação" do Estado é vista como algo que dá, por si só, legitimidade a uma prática. Se esse for o caso, trata-se apenas de uma ilusão que precisa ser desmistificada. O Estado é apenas uma agência humana com o poder de iniciar agressão contra os indivíduos que vivem dentro de um certo território. Ele provavelmente é necessário à vida humana em sociedade, mas não há nada nele que o torne fonte ou determinador do que é certo ou errado, legítimo ou ilegítimo em sentido moral; embora, espera-se, as leis que ele coloca em prática preservem alguma relação com o que cremos ser bom e mau na realidade - e mesmo isso nem sempre é o caso.

A legitimidade de um tipo de união romântica pode depender de muitas coisas: da opinião dos homens em geral, única e exclusivamente da opinião dos envolvidos em tal união, da vontade de Deus, dos benefícios ou malefícios que tal união traz independentemente dos desejos e opiniões dos homens, etc. Mas ela não depende, e nem pode depender, de algum tipo de sanção estatal, posto que nada deriva sua legitimidade disso.

Se a finalidade da luta pelo casamento gay for 1) a remoção de entraves legais e outros efeitos práticos, ela é válida (do ponto de vista de alguém que acredite que não há nada de errado ou deficiente nas uniões homossexuais). Se for 2) a manipulação da opinião pública por um meio indireto que se crê eficaz, a luta faz sentido prático, mas sua idoneidade é questionável (mesmo para alguém que aprove ou esteja envolvido em uma relação homossexual). Por fim, se for uma luta para 3) se sentir aceito ou legitimado, como se o Estado fosse uma instância superior capaz de conferir essa "legitimidade ontológica", trata-se de um engano, um resquício da superstição que insiste em divinizar essa agência humana (talvez por que, quando se deixa de divinizá-la, vê-se o que ela realmente é; e daí os detentores e usuários dos meios coercivos perdem, com o véu de mistério sagrado, sua carta branca). Nem se todos os Estados do mundo incluírem as uniões homossexuais no conceito de casamento, e nem mesmo se a ONU (essa meta-ficção) proclamar que é tudo igual, nada disso dará legitimidade à coisa; ou se a encontra independentemente do Estado, ou nunca se a encontrará.

***

A mesma consideração vale para quem se opõe, com unhas e dentes, ao casamento gay. O que querem preservar? Qual o medo de que o Estado mude algumas palavras? Ou é, também, apenas uma questão de garantir que certas benesses legais sejam dadas somente a um tipo de união e não a outros?

quinta-feira, 1 de março de 2012

O Cristianismo não é Conservador

Dessa vez meu interlocutor é Fábio Blanco, que em artigo recente no MSM (O conservadorismo religioso não se opõe à razão), alimentando a querela sobre esse triste movimento que é o conservadorismo, deu um diagnóstico avassalador sobre meu posicionamento: minhas opiniões advêm da total ignorância teológica e moral.
"Alguns liberais podem até entender alguma coisa de economia, mas quando adentram pelo campo do debate moral e religioso vacilam, menos por serem eles mesmos amorais e mais por não entenderem nada de teologia, que é o fundamento da moral conservadora."
Começo apontando que Blanco errou o alvo da minha crítica ao centrar o debate na religião e na relação entre fé e razão. Pois não vejo, e nem meus textos apontam, nada de errado na religião (e olhe que "religião" é outro termo que engloba coisas muito diferentes); a bronca é com o conservadorismo. É possível ser conservador sem ser religioso - presumo que seja o caso de Lara Resende e Mellão Neto. Embora não saiba se eles são ou não religiosos, seu conservadorismo é secular; não faz referência à fé, a Cristo, à Bíblia, etc. É possível ter um conservadorismo religioso (baseado na fé), como é o caso de Nivaldo Cordeiro e Fabio Blanco. E é ainda possível ser religioso e não ser conservador - e esse é o meu caso e de outros na história, como por exemplo - lanço uma provocação intencional - S. Tomás de Aquino.

Até onde posso ver, Blanco e eu temos concepções similares no que diz respeito à fé e sua relação com a razão. A fé não é algo irracional, embora também não possa ser demonstrada. Argumentos inconclusivos, experiência pessoal e certa atitude para com o mundo, tudo isso guiado pela graça de Deus (falo, obviamente, como quem tem fé), contribuem para aceitar algo que, considerado de forma puramente fria e analítica, ou acadêmica, careceria de evidências suficientes. E uma vez aceita, inicia-se um processo que, se incluir o desenvolvimento intelectual, levará a pessoa a encontrar motivos mais profundos e sólidos para certas coisas (não para tudo) que antes aceitara na base de uma espécie de confiança. Nisso estamos de pleno acordo.

Mas Blanco comete um equívoco bíblico que o permite salvar o conservadorismo cristão da pecha de "irracional". Em minha resposta a Nivaldo Cordeiro, eu indagara se a "Lei de Deus" na qual os conservadores religiosos se baseiam era a Lei Antiga (os Dez Mandamentos, e podemos somar a eles a regra de ouro: "faça aos outros o que queres que façam a você") ou a Lei Nova dada por Cristo. Blanco vê nessa minha distinção uma ignorância não apenas teológica mas até mesmo catequética:
"Neste ponto, seu equívoco se encontra na incompreensão da natureza das duas alianças bíblicas. Qualquer catecúmeno logo aprende que quando Cristo apresentou o amor a Deus e aos homens como o primeiro e segundo mandamentos, o fez afirmando que a antiga lei se resumia nisso."
Ocorre que o erro está é com ele. Há uma leitura equivocada (muito comum, por sinal) do Evangelho que confunde duas coisas: a Lei Nova dada por Cristo e a síntese que Cristo faz da Lei Antiga (que, quando apreendida pela razão, chama-se lei natural). A síntese que Cristo faz da Lei Antiga é "Amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a si mesmo" (Mt 22, 36-40); ao fazer isso, Cristo apresenta o sentido último da Lei Antiga. Embora seja similar à Nova Lei que formulará depois, na Última Ceia, elas não são iguais. Pois a Nova Lei diz: "Amai-vos uns aos outros como eu vos amo" (Jo 15,12) . Essa Nova Lei difere da síntese da Lei Antiga ao dar uma nova medida do amor que os homens devem ter uns pelos outros: a medida do amor de Deus. Esse amor divino a que o homem é chamado chama-se "caridade". É um amor que em muito excede a capacidade humana, e para o qual precisamos da graça de Deus, que nos permite 1) ver nos homens a imagem de Deus, e esse é o fundamento da caridade, e 2) de fato sentir e agir com base nessa percepção iluminada pela graça. A Nova Lei, portanto, vai além da Lei Antiga, e não é acessível à razão de quem não tem fé.

E qual era meu argumento? Que a Nova Lei de Cristo não pode ser a base da política: primeiro porque ela é inacessível à razão enquanto tal, e a política é âmbito de todos, crentes e descrentes; segundo porque ela é algo estritamente pessoal (pois decorre da relação do indivíduo com Deus), não podendo ser de forma alguma compelida; e, terceiro, porque a condição extrínseca que nos predispõe à Nova Lei é justamente a boa vivência da Lei Antiga, e portanto é ela que nos deve ocupar na política. Tentar transformá-la em programa, o que significaria substituir as demandas da lei natural pelas da caridade, é desastroso. A postura política cristã (como eu a vejo), portanto, não precisa e nem deve ir além da lei natural.

Reconheço que esse ponto é um pouco vão, dado que as Leis nas quais o conservadorismo religioso em discussão se baseia são claramente os preceitos da Lei Antiga. E a esses conservadores, só posso dizer: não usem a Bíblia como ponto de partida, pois ao fazê-lo alienam todo mundo que não aceita a Bíblia: transformam questões a princípio solúveis pelo debate e pela convivência em partidarismos que só podem se resolver pela força. Posicionar-se politicamente com base na razão e na lei natural em nada contradiz ser um homem de fé e deixar-se guiar pela fé em suas ideias, palavras e atos. O que a lei natural, isto é, o uso da razão como guia da vida humana, contradiz é tomar as tradições e convenções que nos foram legadas como o critério da verdade e do bem. Ela insta todo homem a colocar-se a si mesmo, indivíduo dotado de razão, como juiz daquilo que chegou até ele; consciente, é claro, de sua própria limitação, assim como da limitação de seus antepassados, e disposto a tratar com eles em pé de respeitosa igualdade.

A consideração que fiz acima sobre a caridade toca no ponto principal que quero tratar neste artigo, e que é a questão mais interessante: seria o Cristianismo uma religião naturalmente conservadora? *Pausa para suspense* Não, não é. É claro que é possível ser cristão e conservador, como tantos são (não tenho o menor receio em também dizer que é possível ser cristão e esquerdista - coisa que não sou). Mas não são coisas que combinam tão bem assim.

Para início de conversa, o Cristianismo começou como uma novidade no mundo. Até hoje, aliás, ele é a novidade no mundo. Para quem nasceu em meio cultural cristão é difícil enxergar o tamanho dessa novidade, e mesmo de sentir seu apelo: Deus nos ama para muito além do que somos capazes de imaginar, e oferece a chance de nos unirmos a Ele, partilhando de sua natureza; algo muito além do que nossas capacidades naturais podem almejar ou mesmo imaginar. Ele se fez homem para viver conosco, nos ensinar, partilhar nossas angústias e efetuar essa união. Esse espírito da descoberta da novidade e do maravilhamento que ela traz pode ser facilmente sufocado pelo peso de tradições e convenções que, ainda que muitas sejam até boas em si mesmas (nem sempre são), tomam o primeiro plano.

Intelectualmente, o que há de melhor no Cristianismo sempre foi a capacidade de integrar e usar criativamente fontes díspares para se chegar a novas concepções. S. Justino Mártir e Clemente de Alexandria citados por Fábio Blanco se encaixam aí; sem falar em seu sucessor S. Agostinho. Poderia citar também S. Gregório de Nissa, pensador cristão que, entre outras coisas, foi o primeiro a condenar a instituição da escravidão enquanto tal; essa condenação - tão anacrônica no século IV d. C. - é uma mostra do espírito e do poder inovadores do Cristianismo.

Não posso deixar de mencionar S. Tomás a esse respeito, e a enorme (e virulenta) oposição que suas posições, muitas delas revolucionárias, sofreram do clero e dos professores conservadores. Foi entre cristãos que surgiu a ciência natural verdadeira, primeiro com a elaboração do método experimental e depois com a libertação gradual dos erros aristotélicos que nos aprisionavam; e isso só ocorreu porque tiveram a coragem de dizer que antiguidade não é prova. Os gigantes sobre os quais sentamos eram tão falíveis quanto nós, e erraram muito. O espírito cristão é o espírito da descoberta e da audácia, dos altos ideais e da sede pelo bem, e não o do conformismo conservador e cansado.

Assim, embora os cristãos, em sua maioria, tenham sido conservadores (como são provavelmente a maioria das pessoas), empenhados em manter a tradição pela tradição, o brilho cristão floresceu mais vivo exatamente nos inovadores e criativos; cujo espírito, ironicamente, foi contrariado ao terem suas obras transformadas em novos cânones e tradições inquestionáveis. É o caso de todos os Doutores da Igreja (vide esta tentativa de se refutar Darwin com base na metafísica de S. Tomás) e de tantos outros dentro e fora do âmbito religioso, dado que essa mesma dinâmica opera em quase tudo.

Por fim, politicamente, o Cristianismo é a religião que dessacralizou os reis e imperadores; que os colocou ao nível dos reles mortais. Que relativizou a autoridade soberana ao ensinar que uma lei pode ser injusta a ponto de não dever ser obedecida. Que chegou até mesmo a defender o tiranicídio. Que deu origem ao conceito de direitos individuais inalienáveis e ao entendimento da economia de mercado. Nesse âmbito também o conservadorismo da maior parte dos membros da Igreja se fez sentir ao longo da História, mas foi exatamente o elemento não-conservador, inovador, racional, vivo, que falou mais alto; tão mais alto que o conservadorismo ocidental (do tipo saudável; não estou falando em momento algum de tradicionalismo e esquisitices similares) é notadamente menos reacionário que seus correlatos em outras culturas.

Foi o Cristianismo que deu origem à civilização ocidental, e o que é essa civilização se não o reinado da razão e, portanto, a relativização da tradição enquanto valor? Quem valoriza a tradição acima do indivíduo e da razão individual (e ela só pode ser individual) deve ir pra Arábia, pra China, pra Rússia; o Ocidente não é seu lugar. Com tudo isso, é mesmo uma pena ver gente inteligente dizendo que o traço fundamental e mais importante de nossa civilização é a obediência à tradição! Sim, o conservadorismo de hoje em dia defende em parte as conquistas anti-conservadoras feitas pela sociedade cristã alguns séculos antes; contudo, defende-as exatamente pelo motivo que dificultou seu nascimento. Foi também o espírito conservador e reacionário que, pouco a pouco, criou a cisão lamentável que existe entre o clero (que em diversos períodos se prestou a bastião do conservadorismo mais tacanho) e o resto da sociedade; cisão que não é de hoje e que talvez seja o que mais prejudica a Igreja.

Hoje em dia o conservadorismo serve de caminho e porta de entrada para o Cristianismo? Acidentalmente sim, dado que nossa tradição é cristã e que o conservadorismo valoriza a tradição. Como o Cristianismo caiu em descrédito na opinião dominante, o conservadorismo acaba sendo seu aliado natural. Mas uma vez convertido, cumpre se livrar dos erros desse pensamento que, se levar a melhor e tomar conta da Igreja, será bem-sucedido apenas em dar-lhe um aspecto ranzinza e fechá-la num gueto.

***

Uma nota final: quanto ao comentário sobre o movimento conservador da população brasileira: concordo que ele possa ter efeitos bons, como por exemplo barrar a legalização do aborto. Mas não posso deixar de apontar o óbvio: ele é insustentável a longo prazo. Comparem a aceitação social de sexo antes do casamento há cinquenta anos (ou trinta anos!) e agora; o sentimento popular muda muito rápido. Se o motivo de se defender algo é "sempre foi assim", seus dias estão contados. Não é com base no moralismo carola que a sociedade há de se endireitar; a não ser, é claro, que nosso ideal de sociedade seja a Arábia Saudita.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Utilitarismo Cristão

A preocupação maior do Cristianismo é a salvação da alma. É a melhor coisa que podemos querer para nós mesmos e para os outros. O amor cristão é compatível, em casos extremos, com querer até mesmo a morte do próximo (por exemplo, se for um terrorista perigoso), mas não - nunca - sua perdição eterna. A "salvação das almas", entendida genericamente, é, segundo alguns, o princípio que deve guiar os atos individuais.

Chegamos assim a uma espécie de utilitarismo cristão. O bom cristão é aquele por cujas ações salvar o maior número de almas possível e que, obviamente, queira salvá-las; se um homem comete um crime terrível com a intenção de ficar rico e, acidentalmente, isso acaba convertendo e salvando milhões de seres humanos, isso não faz dele um homem bom. (É óbvio que quem salva os homens é Cristo; aqui estamos usando a linguagem popular, a mesma que usamos ao dizer que fulano converteu ciclano.) E como a salvação da alma é, sem dúvida, o evento com maior utilidade imaginável (utilidade infinitamente maior do que mesmo o maior deleite possível aqui neste mundo), pode-se mesmo dizer que o bom cristão busca maximizar a utilidade (ou felicidade) do maior número de pessoas; só que isso se faz mandando suas almas para o Céu.

Mas e se for possível, pecando, salvar uma alma? A resposta tradicional é que não se deve fazê-lo, mas sempre junto da convicção de que é quase impossível haver um dilema desse tipo. Afinal, a comunhão dos santos é tal que uma boa ação, uma ação movida pela caridade, beneficia a todos os homens; e uma má ação, mesmo que tenha efeitos imediatos bons, prejudica a vida espiritual dos demais cristãos. E que mesmo esse efeito imediato bom dificilmente incluirá a salvação de uma alma. Afinal, como isso seria possível? Matando alguém que está em estado de graça? Mas você nunca sabe se uma pessoa está realmente em estado de graça.

Só que existe uma situação na qual essa relação acidental entre pecado e salvação da alma alheia (pois a relação essencial é entre virtude e salvação) pode ser consistentemente produzida. Isso ocorre porque existe um estado da vida, plenamente observável (ao contrário do estado de graça nos adultos), em que, se o indivíduo morre, ele vai com certeza absoluta para o Céu: o do bebê batizado.

A salvação de um homem adulto é incerta (segundo os Verdadeiros Católicos, é quase certo que a maioria das pessoas no mundo moderno se destinam ao Inferno). A de um bebê batizado é infalível. Portanto, se aceitamos que a salvação da alma é um bem tal que comparado a ele todos os outros são praticamente irrelevantes (é comparar o infinito ao finito), segue-se que o homem que mata um bebê batizado lhe faz um grande serviço: priva-lhe de uns noventa anos de felicidade imperfeita e lhe garante, desde já, a felicidade perfeita e eterna.

Alguém pode contra-argumentar que o bebê que morre e vai para o Céu não teve tempo de ser bom e virtuoso, e que portanto a alma do adulto que se salva tem uma felicidade maior no Céu. Logo, pode ser um desserviço ao bebê matá-lo para que ele garanta o Céu. Essa objeção não procede. Primeiro porque a felicidade essencial de todos os salvos é a mesma; a diferença é apenas acidental, ou seja, finita; uma ou duas cerejas a mais no mesmo bolo. Esse ganho acessório não pode ser comparado ao ganho básico que é garantir a salvação da alma. Ademais, é bem capaz que muitas pessoas que se salvem cheguem ao fim da vida num estado espiritual pior do que o bebê; isto é, mais voltados para o mal do que para o bem. São salvos por se arrependerem, quererem de forma tíbia o bem, embora seu deslocamento durante a vida tenha sido mais na direção contrária. Chegar à idade adulta, portanto, torna a salvação incerta e, mesmo que o indivíduo se salve, não garante que seu estado beatífico seja melhor do que o da alma do bebê que morreu sem pecado.

(Olhando o bebê, não temos como saber se ele, quando for adulto, se condenará ou se salvará, e qual será o estado final de sua alma. Portanto, na falta de maiores informações, e sendo conservadores, supomos que haja 50% de chances de uma pessoa se salvar e que, dos que se salvam, 50% estão melhores que a alma pura dos bebês e 50% estão piores. Ou seja, comparando as utilidades esperadas (tendo a salvação como 100 e a perdição como zero) temos: bebê batizado: 1*100 = 100. homem adulto: 0,5*0 + 0,5*(0,5*99 + 0,5*101) = 0 + 0,5*100 = 50. A utilidade esperada do que morre bebê é maior do que a do que morre adulto. Se quisermos maximizar o número de salvos ou a beatitude esperada, matar os bebês batizados é a melhor estratégia.)

Portanto, um serial killer católico, que matasse o maior número de bebês batizados (se considerarmos acertada a crença mais aceita hoje em dia de que não há Limbo, e que portanto mesmo os bebês não-batizados são salvos, a qualificação batizados é desnecessária), não por sadismo ou sede de sangue, mas para garantir a salvação de suas almas, estaria agindo bem? Ora, ele certamente estaria tomando a "salvação das almas" como o guia máximo de seus atos. Estaria condenando sua alma ao Inferno? Sim, mas o que é a perdição de uma alma se comparada à salvação de milhares e milhares de outras? E sacrificar-se pelo bem do outro não é justamente a mais nobre ação possível? Pois esse homem sacrifica seu bem máximo, a salvação, para que o resto do mundo a alcance. Ele quer a melhor coisa possível para o próximo, e seu desejo não fica estéril: ele garante com certeza absoluta que o próximo ganhará esse bem. Não seria nosso serial killer católico, verdadeiramente, um santo?

***

É óbvio que o assassino em questão é um monstro, e não um santo. Quero apenas indicar como certos lugares-comuns, alguns deles bem tradicionais, com os quais se tenta explicar e formular filosoficamente a ética cristã, não dão conta do recado. A pergunta de se a pessoa deve estar disposta a ir para o Inferno para que outra seja salva é sempre respondida - e acertadamente, na minha opinião - com um "não". Mas é uma restrição imposta, extrínseca e até meio contraditória com o resto da ética, formulada em termos de que "fazer o bem é se sacrificar pelo próximo", "tudo deve ser feito pela salvação das almas", ou ainda que a vida neste mundo não importa, só importa a salvação da alma.

Resta, então, a pergunta: Onde está o erro no raciocínio do serial killer cristão; ou, melhor dizendo, de nosso utilitarista cristão? Por que sua ação não é boa?

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Catecismo do Verdadeiro Católico em tempos de Facebook

Os Dez Mandamentos:

1 - Amarás o latim acima de todas as línguas. Preencherás teu perfil, tanto quanto possível, com citações em latim, para que os demais pressintam a profundidade e a erudição de tua alma; quanto mais longas, melhor. Enquanto o povo entender o que se diz na Missa, tua missão não estará cumprida.

2 - Adotarás uma moral rígida e composta exclusivamente de proibições. Comprazer-te-ás em condenar, do alto de tua cátedra twíttica, os pecados desta época maligna. Ao mesmo tempo, quedarás seguro de que tua alma está limpa, posto que, passando o dia inteiro na blogosfera e nas redes sociais, é-te impossível cometer algum pecado grave (a não ser que passes os olhos pelos decotes das meninas de tua página).

3 - Só te sentirás seguro de tua opinião em algum assunto quando a encontrares em alguma citação descontextualizada da Suma Teológica, de algum documento papal, do Denzinger ou do Tanquerey. Daí em diante, considerarás a questão fechada e não mais pensarás no assunto, excomungando por scrap todos os que discordarem.

4 - Medirás tua virtude pela tua capacidade de chocar a amigos e conhecidos com afirmações obtusas e absurdas, fotos de aborto e sensacionalismos baratos em seu status. Bem sabes que o cristão verdadeiro deve estar preparado para todo tipo de tortura e humilhação, como ser alvo de unfollow e unsubscribe.

5 - Zombarás sem dó das demais religiões e visões de mundo. Quando alguém falar mal do Catolicismo, contudo, farás beicinho, participarás de abaixo-assinado e ameaçarás um processo judicial.

6 - Nutrirás um ódio santo ao Estado laico, e ansiarás profundamente por um governo monárquico, confessional e clerical. Ao mesmo tempo, repudiarás publicamente, e tratarás com imenso despeito, a imensa maioria dos padres e bispos que efetivamente compõem o clero.

7 - Demonstrarás fetiche por tudo o que é medieval ou metido a aristocrático. Chorarás lágrimas de verdadeira indignação ao pensares na Revolução Francesa. Embora sejas plebeu, passarás a vida em meio a sonhos de nobreza, cavalaria, e muita, mas muita, rendinha.

8 - Ao leres documentos papais e escritos de santos antigos, distinguirás cuidadosamente, de um lado, a verdadeira devoção e caridade lá contidas e, de outro, as limitações e preconceitos da época, partidarismos políticos e exageros retóricos. Erigirás em dogma tudo o que pertencer a este segundo grupo.

9 - Excomungarás parentes, amigos e conhecidos que, sendo católicos normais, demonstrarem alguma ideia meio heterodoxa ou dúvida sincera.

10 - Cultivarás, acima de tudo, o amor ao próximo, cuja principal expressão é a ameaça mais ou menos velada de danação eterna.


Os Sete Pecados Capitais:

1. Modernidade
2. Protestantismo
3. Teologia da Libertação
4. Luxúria
5. Missa Nova
6. Revolução Francesa
7. Rock

(No caso das mulheres, substitui-se "Luxúria" por "Calça".)


Pecados Contra o Espírito Santo:


- Relacionar Missa a Ceia
- Dizer "ofensa" ao invés de "dívida" no Pai-Nosso
- Responder à "Paz de Cristo" do fiel ao lado
- Comunhão na mão


Conselhos Evangélicos (no sentido de tirados do Evangelho, e não, de forma alguma, tendo algo a ver com a seita dos adoradores de Satanás que usa deste nome)


- Para ficar seguro, esteja sempre teologicamente à direita da Bula Unam Sanctam de Bonifácio VIII
- Expresse dúvidas salutares quanto à validade dos papas após Pio XII.
- Faça um apostolado online ofensivo o bastante, e com mau gosto o suficiente, para que o Facebook feche seu perfil e o Blogger cancele sua conta. Deus reserva um tesouro nos céus aos coroados por esse Batismo de Sangue.


Os Três Inimigos da Alma de todo fiel:

1. Concílio Vaticano II
2. Pároco da vizinhança
3. Dep. Jean Wyllys
Tecnologia do Blogger.

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