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terça-feira, 22 de abril de 2014

Superestrutura

Rapaz de classe média alta, que dois anos antes sonhava – sonhava! – com baladas no exterior e roupa de marca, e que decide fazer Geografia e pega por conta própria resumos de Marx; que passa a nutrir sonhos de luta armada - sim, pode rir. Esse jovem traz uma bagagem que ele próprio odiaria conhecer.

Vou te contar algo que ocorreu no fim daquela malfadada primeira graduação. Acho que o melhor termo é “crime de pensamento”, já que não passou disso. E mesmo assim senti vergonha. Não que hoje eu me orgulhe. Também não é nada demais, só que como nunca contei para ninguém, deve ser importante.

Estava no último semestre, o bacharelado parecia próximo. Época de muito tempo livre, muita solidão e muita leitura. Tinha meus amigos, óbvio, mas sentia uma desconexão. Eles não levavam as ideias a sério; não como eu levava. Mesmo os mais engajados me davam a nítida impressão de que não queriam entender o mundo e muito menos transformá-lo; queriam participar dele de uma maneira específica. Reproduziam estruturas básicas das relações humanas que me traziam de volta à parte mais cruel do colegial e a tudo que eu rejeitava no mundo dos meus pais.

Isolei-me, o que me deu uma boa reputação. Eu lia o que os outros fingiam ter lido. Um benefício da Geografia é que o conhecimento – ou a aparência de conhecimento – é um valor. Estava sempre envolvido em discussões, debates, escrevia pra jornais no campus. Tinha naquele campo de ideias algo que realmente me engajava.

Minha percepção básica era a de que havia uma ordem no mundo social, criada pelo homem, mas ao mesmo tempo difícil de ser desvendada. E essa ordem era sórdida - essa fora minha certeza original. Ela perpassava tudo: nossas relações econômicas em primeiro lugar, e nossas relações sociais, culturais, sexuais; até o uso do espaço era deturpado. Era preciso, portanto, botá-la abaixo e criar uma nova. Mas para transformar o mundo alguns teriam que entendê-lo; aí que eu entrava.

A questão da justiça era a que mais me incomodava; pois em todas as relações ela se encontrava violada. Era essa preocupação que justificava minhas longas estadias na sala de leitura da biblioteca fora do horário de aula. Só não me pergunte quanto desse tempo era de estudo de fato e quanto eu gastava pensando na vida ou observando os outros. Criava futuros, longos devaneios, olhava as pessoas em volta. A biblioteca desenvolve uma vida social silenciosa. Tinha meus amigos, meus inimigos; gente com quem eu nunca falaria. Cada um projetava o que queria nos outros, e nos conhecíamos assim. É sobre uma dessas relações imaginárias que eu quero falar. Óbvio que era com uma mulher.

Dava-me um certo orgulho sentir atração por uma negra. Feio, né? Tipo de coisa que não dá pra se gabar, mas que eu adoraria pingar numa conversa. Acontece que ela não era só gostosa. O conjunto transcendia o físico e penetrava o campo dos significados. Black power irretocável, brincos de argola enormes, olhos semiabertos que escondiam uma inteligência cortante, um leve sorrisinho – ou isso era eu que imaginava? O caminhar geométrico, determinado, que atropelaria qualquer homem em seu caminho. Os ângulos retos dos ombros da jaqueta; na parte superior era tudo ângulos retos. E no meio daquela geometria reta, o arredondado dos quadris e do rebolado. Um toque de Brasil naquela beleza african-american. Esse conjunto expressava um conceito: o caminhar inexorável da justiça. O peso do mundo como se não fosse nada. Tão diferente de mim.

Gastei um tempo com a dialética da minha musa secreta; ainda tenho as anotações. Era brincadeira pra passar o tempo, mas não totalmente, sabe? A forma do cabelo, esfera negra perfeita, que devia resultar de um cuidado meticuloso, parecia a projeção natural daquela personalidade, como se todos os detalhes irradiassem necessários de um princípio gerador. O corpo acendia em mim o desejo próprio das relações de poder injustas. Contra isso, e no mesmo corpo, a práxis e a estética de ideias que negavam aquelas relações. A síntese final superava a contradição numa possibilidade de união deste e daquele mundo; gozo e justiça. Deixei uma nota curiosa na margem: a leitura estava mais pra Hegel que pra Marx. Não julgue.

Nossa relação se resumia a isso; vê-la passar diante de mim em direção a uma mesa livre, observá-la enquanto lia e fazia anotações, e finalmente observá-la ir embora. Com certeza ela devia notar o franzino babão a segui-la com a cabeça, mas nunca o fez abertamente. Na minha imaginação ela me mandava um sorrisinho quase imperceptível, como que aprovando a adoração e consciente de que eu jamais teria a coragem de ir além. O rosto era um tiquinho mais cheio do que o ideal. Não importava. Também não importava o fato de ela dormir com frequência na biblioteca, o que em outros me desagradava e que eu tomava como sinal de burrice.

No dia em questão, ela cochilava, cabeça meio de lado apoiada nos braços - não sei se escorria um fiozinho de baba ou se criei isso depois. Bom, enquanto ela dormia, um sujeito se aproximou. Era um cara banal, que eu já vira nos corredores, nunca na biblioteca; desses que gostam de parecer culto. Óculos de aro grosso, barba por fazer; mas também alto, atlético, roupas largas, desenvolto. Chegou do lado dela, encostou a mão no braço, cochichou baixinho em seu ouvido, carinhoso.

Ela abriu os olhos e deu um sorriso preguiçoso, como se ele fosse um namorado trazendo café na cama. O cabelo estava amassado, não era mais a esfera perfeita - o artifício revelado. E foi aí que a percebi de modo diferente. O mesmo rosto, os mesmos traços; me ocorreu que já tinha visto aquele mesmo tipo de cara, muitas vezes. Era comum no Brasil: uma cara que não transmitia inteligência nenhuma; apenas uma alegria sonsa de estar viva e ser jovem. Também não era bonita; por trás da produção havia um rosto sem atrativos. Olhando para aquela menina que me encantara por meses, senti quase uma repulsa, e junto dessa repulsa uma palavra brotou de algum porão esquecido.

"Empregadinha".

Repeti num cochicho: "empregadinha". Aquela que eu admirara por meses, a acadêmica segura de si, minha representante ideal da mulher negra, a personificação apolínea da justiça social; empregadinha.

O sistema de defesa disparou. Cortei o pensamento. Quis me distanciar dele. Fora só algum refluxo de tempos anteriores; um coágulo da experiência da minha classe. Uma bolha de gás, de alguma matéria em decomposição no solo oceânico, que chegava à superfície tendo viajado milhares de quilômetros. Era também prova de que eu tinha muito a progredir. Pega bem dizer-se racista ou sexista, sem bem sê-lo, mostrando que luta para melhorar - eu era ingênuo, mas esse tanto eu já sabia. O que eu não sabia é que mesmo o discurso mais sincero pode mentir.

O que mais me estranha hoje em dia é o quanto aquele “empregadinha” me abalou. Passei a tarde indignado comigo mesmo. Só me acalmei quando concluí que a verbalização fora o eflúvio final de uma impressão que já escoava para o esgoto, e era portanto uma vitória. A adoração incondicional estava intacta. Ou melhor, até mais forte. No fim daquele mesmo dia meus olhos acompanharam espontaneamente o andar daquela deusa quando ela foi embora: aquele rosto determinado, aquela beleza superior, aquela bunda.

Daí uns dias depois ela sumiu, e deve ter ficado quase um mês fora. Uma semana antes das provas - eu continuava na velha rotina, sem já saber para quê -, reapareceu. Minha alegria foi imediata, talvez eu tenha até sorrido, e, enquanto eu acompanhava a trajetória, me veio naturalmente e com um dose de ironia: "a empregadinha voltou". Dessa vez já não me importei.

Hoje eu acredito numa mecânica newtoniana da mente. Cada pensamento dispara outro com igual intensidade e direção contrária. Cada elogio faz pensar numa crítica. Cada ato de devoção exige um sacrilégio. Ou será que o disfarça? Veja, os povos mais religiosos inventam as piores blasfêmias. O homofóbico exagerado é homossexual enrustido. A mesma mulher percebida de duas maneiras; deusa e empregadinha. Quem mudou aquele dia fui eu. Mudei? A espuma branca nada é a água escura do mar.

Ideias não importam. Ironicamente, nisso eu já acreditava, ainda que por outros motivos. Ideias decorriam da posição econômica e aquela coisa toda; exceto para nós, os intelectuais. Só que a irrelevância das ideias valia sobretudo para nós. Poderia ser que as melhores intenções produzissem o inverso do que almejavam? Ou ainda, e se estiverem sempre a serviço de outras, as piores?

Mais de um ano depois, no outro curso - quando entrei nas nossas amadas engrenagens - fiquei sabendo o nome dela por um ex-colega e joguei no Google. Eu jamais me dera ao trabalho de descobrir o nome... Joguei no Google e não deu nada além do mínimo: chamadas de vestibulares antigos, lista de iniciação científica. Desde então, quando a curiosidade bate, procuro de novo. Tem o currículo do Lattes, comunicados de concurso. Era da Letras, doutoranda em literatura feminista. Mais clichê impossível. Seu grande feito foi ter passado em concurso de uma federal no interior, e isso já faz tempo.

Será que abandonou o tipo? Nunca fez nada de relevante; nenhum livro. Teve um blog e logo o abandonou. Banalíssimo, alguma coisa sobre aborto, uns poemas; de doer, sabe? Anos depois do último post eu ainda o acessava esporadicamente. Nem sei se continua professora – talvez tenha desistido. Espero que esteja num trabalho que a realize. Aquela menina – assim como eu – não estava no lugar dela e por isso não deu em nada.

Nunca falei com ela; primeiro por falta de coragem; depois por desinteresse. Agora é tarde demais, sem falar que nenhuma pessoa real possível satisfará a necessidade de significado que ela, fictícia, me satisfaz. Quem esteve ali na minha frente todos aqueles dias? Uma feminista que queria acabar com a opressão patriarcal e com o racismo? Uma acadêmica que lutava e vencia num sistema que, apesar de tudo, podia ser usados para uma vida dedicada ao saber? Uma mulata baixinha presa nas engrenagens do ensino superior, capitalizando uma beleza efêmera e sem saber para onde ir?

Só tenho a certeza de que, onde estava, não estava bem. Prefiro, por isso, imaginá-la plena de vida, radiante, em algum mundo paralelo. Uma vida de desafios, aventuras, com a alegria física que ela evidentemente precisava. Imagino-a saudável, sob o sol a pino, de lenço na cabeça, em êxtase faxinando algum assoalho. Pagode tocando no radinho. Ei, não me censure - com você eu posso falar o que der na telha. E se a gente não puder rir disso: dela, de mim e de todo mundo que jura que leva alguma coisa a sério, o que estamos fazendo aqui?

terça-feira, 15 de outubro de 2013

A Outra História de João e Paulo

[O conto a seguir foi inspirado e baseado em "João e Paulo", de Diego Quinteiro.]

***

João nasceu. Na maternidade pública, do ventre de sua mãe para as mãos do displicente médico. Foi uma alegria para ela, talvez o primeiro alento desde que chegara do interior da Bahia; e trazia também alguma preocupação. O marido, inicialmente tão amoroso, tinha começado a beber e abandonara o lar antes do nascimento. Mesmo assim, o bebê era a coisa mais fofa das tias e dos tios, que também tinham migrado para São Paulo alguns anos antes. Foi levado pra casa, para seu berço de compensado no mesmo quarto da mãe.

No mesmo dia, em uma dessas coincidências que só Deus explica, nascia Paulinho. Do belo hospital, o melhor que o seguro cobria, saía Paulo Ferreira, que nasceu para brilhar. Será artista, intelectual, talvez estadista; os pais planejaram tudo. Chegou em casa, um quarto azul, um lindo berço de madeira, motivos do folclore brasileiro, as tias apertando as bochechas – que fofo! Isso nunca muda.

Crescia o Joãozinho em sua casa de reboco, tijolos aparentes, na encosta do morro. Jogava futebol na rua, empinava pipa. A mãe voltava para casa tarde. Era trabalhadora, honesta, empregada doméstica. O chão emocional estável do pequeno. Um dia, tendo que acompanhar a mãe na casa da patroa, o menino perguntou:

- Mãe, por que nossa casa não é bonita como essa?

- Porque a gente é pobre, meu filho. E os Ferreira são ricos. Gente estudada. Não é casa pra gente pobre. Estuda, meu filho, prum dia você comprar a sua! – disse a mãe. – E comprar de volta o sítio da sua vó pra mãe ficar velha em paz.

Joãozinho não achou justo. Nem injusto. Pensou apenas que a vida era assim; que a mãe merecia seu descanso, e que caberia a ele tornar aquilo realidade.

 – Só não esquece nunca – completou a mãe – que com você junto da mãe eu não preciso de casa nenhuma.

Paulo Ferreira, o Paulinho, era um bom aluno. Tinha quadra, piscina, capoeira aos sábados e aulinhas de e inglês e mandarim. Era educado, sabia separar o lixo, comia verduras no almoço – espinafre pra ficar fortinho. Tinha um Wii e chamava os amiguinhos pra jogar Mario (papai e mamãe não conseguiram determinar tudo; o peão e as bolas de gude ficaram esquecidos na estante) e comer pão de sete grãos com requeijão da fazenda. Como era gostoso! Bom tempo esse de ser criança! Às vezes João, o filho da empregada, vinha passar o dia. Não sabia como se comportar com esse menino estranho, mas ao menos tinha sua vitória garantida no videogame. Certa vez, seu pai, que chegava às seis, trouxe um boneco para ele brincar.

- Pô, pai, eu queria outro!

- Papai volta amanhã na loja de brinquedos e traz outro, tá bom? – suplicou o pai. Não eram milionários, mas ele não queria jogar no colo do filho tão novo essa história de dinheiro, trabalho e todas as preocupações que aquele sistema impunha. A infância não devia ser mercantilizada.

Paulinho achou justo: ninguém é melhor que o papai! É só eu querer, e ele faz acontecer. E de fato, ele fazia.

A mãe do João lavava, passava, limpava, passeava os cãezinhos. Fazia comida, pegava às sete e saia às oito, do centro da cidade, pra tomar o trem. Uma noite, chegou em casa e deu beijo no Joãozinho, que perguntou:

- Mãe, porque você cuida da casa dos outros, e não vem ninguém cuidar da nossa?

- Filho, meu anjo, com o dinheiro que eu ganho mal dá pra cuidar da nossa casa. Empregada não é coisa pra gente simples como a gente. Estuda, meu filho, prum dia você chegar lá! - respondeu a mãe.

Apesar do sofrimento, ela não se arrependia. A vida ali era melhor do que no chão rachado da caatinga de onde saíra, onde os sete irmãos passavam muita fome durante a estiagem, só com farinha pra comer; e calango. Lá não tinha nada; só mato e seca. O filho não teria chance nenhuma. Agora tinham luz, TV, roupa, comida, móveis, escola; e o sentido de oportunidade. Ainda assim, ansiava em voltar à paz da roça da qual seu coração nunca saíra. Ali, com menos dor, seria o paraíso.

João não achou justo. E nem injusto. Era como as coisas eram; e reconheceu o quanto sua mãe se sacrificava para, naquelas condições, dar-lhe o melhor que podia. Quantas indignidades ouvia calada, até curvada, aceitando tudo de todos e sem guardar rancor, só para o bem do menino. Algo muito forte a movia por dentro, e nada que viesse de fora iria pará-la. Ninguém é melhor que a mamãe! E, de fato, ninguém era.

Às cinco era hora do lanchinho, hora de subir do parquinho, hora do Paulinho parar de brincar. Bisnaguinha integral, leite achocolato belga, gelatto de jabuticaba e suquinho de buriti. Mordidas após mordida, vendo desenho na TV Cultura antes do Jornal. Depois, foi fazer lição de matemática, aritmética básica do ensino fundamental.

- Mamãe, vem me ajudar?

- Filhote, agora não posso. Pede outra hora tá? – e sentou no sofá pra ver seriado. O pai, ao computador, também não podia.

Paulinho achou injusto: ninguém tinha o direito de lhe deixar sozinho. E se os pais não iriam ensinar, então ele também não ia querer aprender.

João e Paulo, nascidos no mesmo dia, na mesma cidade, viviam em mundos completamente diferentes. Quando a Nalva, mãe de João, mudou de emprego, Paulo logo esqueceu o nome e o rosto daquele visitante ocasional.

João tinha só uma certeza na vida: a de que o mundo não girava ao seu redor e não ligava para ele. Aprendeu desde cedo que moleque de pé no chão não tem o que os outros meninos têm; mas queria ter, e sabia que não ia ser fácil.  Que o trabalho é duro, a vida é dura, as vacas magras, as águas turvas. Mas o mundo tinha também seus dias de sol, de futebol, de música, de sucesso, que faziam o resto valer a pena.

Sabia que estudar era a saída, mesmo quando na escola não tinha professor pra ensinar. Tentou ler em casa, era difícil se concentrar. Mesmo com todas as dificuldades, algo permanecia. Em meio a professores ausentes ou que haviam desistido perante a apatia daqueles jovens, um se destacava: o Gilberto, que dava geografia e filosofia. João não se interessava tanto assim pelas teorias do professor – um papo de mais-valia, de exclusão social, de necessidade de revolução –, mas o Gilberto era a única pessoa ali que genuinamente ligava para ele. Dentre todos os funcionários batendo ponto (ou nem isso), era o único que estava ali, demonstrando interesse pelo jovem pobre na frente na classe, ajudando-o em suas dificuldades, emprestando-lhe livros – alguns de ficção ele gostou bastante – e, mais do que isso, sendo um amigo mais velho para conversar sobre tudo fora do horário da aula: dificuldades da vida, problemas da sociedade, mulheres, filosofia, sonhos. Sempre pagava uma cerveja para tomar junto de seu amigo e pupilo de colegial – que a mãe e o MEC não ficassem sabendo! –, o único, dentre tantos jovens já desinteressados, que demonstrava o desejo de saber mais.

Ao mesmo tempo, começava a trabalhar. Tantas aulas inúteis, tanto tempo que poderia ser melhor utilizado. Miqueias, dono de um boteco perto de sua casa precisava de um faz-tudo: descarregar mercadorias, às vezes servir clientes, atender telefone. Um vizinho, que dava aulas de reforço para alunos da escola pública, contava com a ajuda de João para corrigir exercícios. Ele levava jeito para aritmética. Colava propagandas nos postes. Cortava mato. Em pouco tempo passou a ajudar o Miqueias com o orçamento do bar e da lojinha que ele tinha algumas ruas abaixo. O que não sabia, procurava aprender; ia pra lan house consultar a internet, ou pedia algum livro pro Gilberto. Tudo em total desacordo com as leis de trabalho “infantil” e com as normas da CLT sobre remuneração; felizmente, não havia fiscal para impedi-lo. João estava sempre pronto a ajudar quem precisasse e estivesse disposto a pagar.

Paulinho tinha só uma certeza na vida, a de que o mundo era injusto. Aprendeu desde cedo que para ter tudo o que sempre quis bastava querer; afinal, todo ser humano, pelo mero fato de existir, merece ter tudo aquilo de que precisa. Mas nem todos tinham. E isso porque os privilegiados se apropriavam do trabalho dos pobres para garantir suas mesas fartas e sua água límpida. Bem sabia que seus pais tinham parte nesse culpa, e adorava condenar suas hipocrisias.

Sabia que estudar era o caminho, e na sua escola – colégio da mais pura estirpe construtivista – ele aprendia a ter um olhar crítico sobre a sociedade. Para passar no vestibular, um bom cursinho, nada crítico, bastou. Universidade pública é concorrida, mas se não passasse, ele sabia, podia ir pra particular. Só não sabia bem o que estudar. Queria ser um indivíduo determinado, igual a tantos que vira em filmes; gente que sabe o que quer e vai atrás. Além do desgosto para com o mundo, não sabia o que fazer da vida. Como sempre ouvira falar que era criativo, e como detestava matemática, física e tudo que demandasse concentração mais intensa, flutuou naturalmente para as Ciências Sociais. Não era má escolha. Com o tempo conseguiria um pós-doutorado, seria reconhecido, viajaria pra França; seu pai ia se orgulhar; e todos o respeitariam.

O tempo foi passando, e João foi se tornando uma pessoa mais confiante, alguém que se sentia eficaz no mundo. Ainda na adolescência, contudo, sentiu na pele a hostilidade de um mundo que elegia a força bruta como critério máximo. Tendo juntado algum dinheiro, João comprou para si um par de óculos escuros; nada demais, nada de marca, mas ficaram bons nele. Era a primeira compra que ele fazia com seu próprio dinheiro e cuja finalidade era apenas ele próprio; não uma necessidade, mas um desejo supérfluo. Voltava para casa orgulhoso, sentindo ingenuamente que o mundo era, afinal de contas, um bom lugar para se viver. Mas sua atitude já andava incomodando alguns de seus colegas, e os óculos foram a gota que faltava para transbordar o copo da inveja. Os mesmos olhos sem vida que o cercavam na escola o cercaram ali no caminho; João já sabia qual era a deles. Apanhou muito naquele dia, bateu e chutou também. Conseguiu fugir dali com a cara inchada, um sorriso sangrento na boca e os óculos bem seguros na mão.

Só que o triunfo durou pouco. Já perto de casa, reparou no policial de pé na calçada, observando como quem não quer nada, a espreita de alguma oportunidade. Vestiu os óculos para esconder as marcas da briga. Saber quando não chamar a atenção era uma estratégia de sobrevivência, mas nesse dia não funcionou.

- Opa, espera aí, moleque! Vem cá, vem cá. Que que houve com a sua cara?

- Tentaram me roubar. Eu fugi.

- E esse óculos bonitão aí? Você não me engana; de onde é que você tirou dinheiro pra comprar?”

João era esperto o bastante para saber que isso não terminaria bem. Fez o que sabia fazer: desafiou, olhando nos olhos do policial.

- Trabalhei e juntei. Vai querer roubar também? - Mas este obstáculo estava além de suas possibilidades. O desafio foi a justificativa que o policial precisava.

- Tá me chamando de ladrão, seu filho da puta? Fala isso de novo que eu te fodo; eu sei onde você mora, tá entendendo? Roubar o caralho! Roubar essa bosta de óculos falsificado! - E num tom mais calmo - Você vai é me dar esse óculos de presente. - Não era um pedido.

Não foi tirado à força, e sim com um movimento voluntário do próprio braço, que João cedeu os óculos.

- Pode ir, moleque. Tá liberado. Por hoje!

João chegou em casa tremendo de ódio. Ódio contra o rato que lhe havia vencido, e ódio contra si mesmo por ter se curvado perante o que há de mais vil na humanidade. Para quê ser honesto, se os urubus levam a melhor? Para quê construir e planejar se a força cega tem a palavra final?

Sua mãe o acolheu, passando delicadamente um pano molhado no rosto machucado, e reparou a mudança na atitude do filho. Colocou-lhe diante de si e falou com ele, sem um pingo da doçura que ele tinha aprendido a esperar dela:

- Eu te amo, meu filho. Você sabe disso. Mas eu te juro, eu juro, que se alguma vez na vida você roubar, você não pisa nessa casa nunca mais. Eu prefiro te ver morto, meu filho, do que bandido.

João não acreditava em Deus; nunca lhe parecera importante. Mas ali, no olhar da mãe, muito mais terrível que o de qualquer gangster ou policial, ele experimentava uma dose de uma força sagrada. Uma força que por séculos e séculos, por gerações incontáveis de um povo sem registro, mantivera alguma ordem em meio a uma miséria tão abjeta que podia transformar homens em lobos: o temor de Deus. Trair aquele olhar seria, de fato, pior do que a morte.

João entendia a injustiça do que lhe acontecera. Compreendia agora, também, que seu caminho não poderia ser aquele. É meu direito buscar e alcançar as coisas que quero para mim; e não serão ratos comedores de beirada que vão me desviar.

O tempo foi passando, e Paulo Ferreira se tornou um jovem estudioso e indignado. Na faculdade, teve uma namorada, mas houve pouca paixão naqueles cinco anos. Fazia seu curso à noite, tinha as tardes livres e tocava violão. Não lia tanto quanto dava a entender. Seus dias nem lhe traziam grande satisfação, e nem contribuíam para construir o futuro brilhante que ele cria ser direito seu. Os pais, querendo seu melhor, recomendaram: por que não procura um estágio, para ter seu próprio dinheiro e comprar suas próprias coisas?

Paulo achou injusto: que sociedade é essa que condiciona o acesso a bens e serviços ao sucesso mercadológico? É direito de todos ter as coisas que os outros têm!

Ao invés de estágio remunerado, inscreveu-se numa ONG. Dava aulas de conscientização social em favelas. Seu pai o apoiou; mas – engraçado – embora soubesse que a escolha do filho era mais nobre que um estágio comum – algo que não se pautava pelo lógica egoísta do mercado – não sentiu o orgulho que achou que sentiria. Ainda assim, no discurso público, a escolha do filho era ideal; não cansava de elogiá-lo em meio a amigos intelectuais. Sem falar que, se a coisa fosse pra frente, se o marketing fosse bem feito, galgar posição em alguma Secretaria seria um passo simples. Segurança, liberdade e serviço social; quem poderia querer algo melhor?

A ONG ia bem; conseguiu patrocínio de um grande banco. Jovens ali se reuniam para aprender sobre seus direitos, sobre como a sociedade injusta tirara o que deveria ser deles. Paulo os incitava a questionar aquele sistema. O tráfico e o crime eram respostas naturais à violência institucionalizada do capital e de seu aparato repressor, a polícia. Não, dizia Paulo, não entrem pelo caminho da violência; ele repete o padrão, não é transformador da sociedade. “Mas pode transformar a minha vida”, rebateu Jefferson, um jovem conturbado que tinha encontrado ali um lugar para conversar e se sentir acolhido. “Por que eu preciso colocar a comunidade antes de mim?” Paulo não soube responder.

A ONG não era longe de onde João morava, e o Gilberto convenceu-o a ir um dia, ouvir uma palestra, junto com um grupo da escola. Mais tarde, contou ao professor seu desconforto: “É legal, tudo muito bonito. Mas eles ficam falando de mudar a sociedade e nunca vão fazer nada. Eu não entendo nada de lei e de governo, só sei que nunca me ajudaram. Estou pensando na minha vida e ajudando os outros com o meu trabalho. Por que eles não fazem o mesmo? Cadê aula de alguma coisa que serve pra alguma coisa de verdade?” O professor ainda insistia na importância de pensar nos problemas maiores, nas causas que faziam a sociedade ser daquele jeito, mas também não tinha como negar que João estava trilhando seu caminho e, se continuasse assim, melhor para ele. Bem sabia que os quase quinze anos dando aula não tinham gerado lá muita transformação. Sentia-se bem ao ver que o pupilo e amigo subia na vida. Sentia que, para ao menos um, seu trabalho não fora em vão.

E João subia a todo vapor. No dia seguinte, foi falar com Miqueias. João tinha ideias para expandir o bar, abrir um novo em outra vizinhança; conhecia bem o negócio e havia provado seu valor. Suas iniciativas anteriores, como colocar música na frente do bar, tinham dado retorno; já conhecia melhor as contas do estabelecimento que o próprio dono, e com toda a confiança que recebera, tinha provado também sua honestidade. Seria tolo não lhe dar essa chance. A única coisa que João demandava era que, de agora em diante, fossem sócios. Miqueias topou. E esse nem foi o maior golpe de sorte da semana.

Com a bolsa da pós, Paulo comprou um iPhone e uma capinha protetora do Che Guevara. Sua dissertação, apesar de atrasada, era elogiada pelo orientador. Um amigo que entrara num grande jornal já lhe garantira um artigo para a coluna de opinião. Estava pavimentando uma lenta estrada rumo a uma carreira intelectual de sucesso, a uma vida plena, fruto de sua genialidade fácil. Algum dia num futuro indeterminado, a livre docência e uma coluna semanal fixa! Voltou para casa cansado de tanto devanear, leu um pouco e foi dormir, contente, tendo depositado sua tese de doutorado. Dali algumas semanas, por causa de uma matéria sobre a ONG que saíra no jornal, se encontraria com o Secretário de Desenvolvimento Social para debater a exclusão na periferia.

Tudo seguia bem, até que uma sexta-feira amanheceu cinza…

Paulo acordou. Tomou seu Sucrilhos sozinho, sentado na rede da sala, olhando o Facebook no laptop.

João acordou. Mordeu um pedaço de pão duro, nem ligou a TV. Colocou sua apresentação na mochila, e foi para sua moto comprada a prestações suadas. Usada, mas bela, que ele gostava de coisas bonitas. (Nesses dias ele já tinha, por força de necessidade, chegado a um entendimento com gente da favela que tinha como garantir que ele não seria alvo da inveja alheia.) Deu a partida e partiu na longa jornada rumo ao centro, com fogo ardendo em seu coração. O fogo que o impelia a ir sempre além.

Na semana anterior, um pequeno milagre ocorrera na comunidade: a visita de um grupo de investidores procurando negócios locais “com impacto social” (o que era isso?). Era gente com grana querendo colocá-la ali. João foi hábil em conversar com os visitantes e marcar a reunião – um boteco com música e dança não era, a princípio, o tipo de negócio que eles tinham em mente. Tinha que ser no escritório deles, longe dali; condição de que não abriam mão. Talvez fosse um teste; e, como em tantos outros, João passaria.

Parou a moto num cruzamento. No mesmo pelo qual passava Jefferson; enfurecido, magoado, queimando por dentro com um fogo bem diferente, justificado pelas ideias que aprendera nas últimas semanas. Aproximou-se da moto com uma arma em mãos:

- Desce da moto, playboy! Vamos, passa o celular! Vai, mano, rápido!

- Calma, pode levar! Não me machuca! – disse João, assustado. Era sua velha inimiga, a força bruta e burra, cobrando mais uma taxa.

Jefferson subiu na moto, portando seu celular. Ele vivia para esses momentos em que ficava por cima. Duravam pouco, e ele logo caía mais fundo. Mal sabia que seria seu último momento de glória. A adrenalina anestesiou todo seu corpo. Viu que um policial se aproximava; quis metralhar aquele porco por todos os tapas e humilhações sofridas desde pequeno; mas o policial foi mais rápido e lhe deu dois tiros. Um pegou na barriga e outro no ombro. Jefferson caiu no chão, predado, abatido, ensanguentado.

O policial se aproximou com arma apontada, chutando o revólver da mão de Jefferson:

- Acabou, maluco! Acabou! – gritou o policial, enquanto tirava o celular roubado de seu bolso.

João observou a cena sem reação, estupefato. Fixou o olhar sobre o pobre coitado se contorcendo em agonia mortal. Intuiu que, se tivesse dado passos um pouquinho diferentes em sua vida, poderia ter sido ele estirado no chão. O que o desviara daquele caminho possível? Não sabia. Sentiu alguma pena: quem sabe o tipo de merda diária que o meliante deve ter tido que aturar a vida inteira, todo santo dia, para que seu espírito se rendesse à sede de destruir? Teve poucas chances na vida, e as que teve jogou fora. Era culpado, mas era também vítima de um sistema que, por algum motivo que João não compreendia, destruía oportunidades e lutava contra quem tentasse melhorar honestamente.

Uma alquimia insondável de sorte e escolha havia trazido João aonde se encontrava agora. Não cabia falar em mérito ou demérito, apenas em causa e consequência. Ele tinha sua moto e seu celular, e Jefferson não tinha nada e babava sangue no chão, e isso não era apenas fruto do acaso, e tinha sido construído ao longo de muitas decisões.

Nisso, transeuntes começavam a se aproximar do corpo. Em seus últimos momentos, Jefferson  desejou que todos os que se ajuntavam à sua volta fossem tragados para o mesmo ralo que agora o levava. O comentário popular não era mais caridoso.

- Esse aí vai roubar moto no inferno agora!

- Ladrão!

- Bem feito!

- Vagabundo.

As falas despertaram João de suas elucubrações. Sentiu pena também daqueles cidadãos. Deviam ter alguma privação muito profunda que procurava alguma desculpa para se extravasar. Prometeu a si mesmo que essa doença também não o subjugaria.

Olhou para o policial que acabara de despachar o ladrão. Tinha sofrido tanto nas mãos da polícia, humilhado por causa de sua cor e de sua condição. Naquele momento, porém, sentia gratidão pelo homem que o salvara. Pela primeira vez na vida, enxergou o que aquela farda antes tão odiada deveria representar. Era uma tragédia que a força se fizesse valer; mas, dessa vez, prevaleceu a força submetida à ordem, e não ao caos.

Aquela tragédia não impediria seu caminho. Não tinha tempo a perder. O policial foi compreensivo – que ele comparecesse na delegacia mais tarde – e João acelerou sua moto rumo ao compromisso que mudaria sua vida. Alguns raios de sol já atravessavam as nuvens. Apesar de tudo, havia alguma justiça no mundo.

Longe dali, vendo o caso no Facebook, Paulo achou tudo injusto. Jefferson não era culpado. Era a vítima. Vítima de uma sociedade construída sobre a exploração dos pobres pelos ricos, e vítima da violência gratuita de uma polícia opressora. Quem era aquele tal “empresário” que guiava a moto? Como ousava sair por aí ostentando um bem que outros não podiam ter? Jefferson estava apenas pegando o que era seu por direito da única forma que lhe foi ensinada. Incrível como, mesmo entre os explorados, a cultura capitalista – a máxima do levar vantagem em tudo – conseguia dar origem a novos exploradores imbuídos da mentalidade do sistema. Num mundo ideal, homens como João não existiriam.

Já tinha o tema para seu artigo de jornal. E começava, finalmente, a desvendar seu propósito na vida: cortar pela raiz a pretensão individualista, socialmente engendrada, de ascender para além dos demais, humilhando assim quem não podia chegar tão alto. A reunião com o secretário seria esta tarde, e ele pensava em como traduzir esse ideal em políticas reais que minimizassem a violência que a existência dos maiores representa para os menores. Que ele pudesse ser o autor de uma sociedade mais conforme sua visão de mundo lhe enchia de esperança, e ali estava um mecanismo bastante eficaz para esse fim. Aos poucos, as coisas iam acontecendo em sua vida, e Paulo começava a receber a consideração que – sempre soube – era sua por direito. Talvez o mundo não fosse, afinal, tão injusto assim...

terça-feira, 2 de abril de 2013

2019

2011 – STF aprova a união civil homoafetiva.
2013 – Senado aprova a PEC das domésticas.
2015 – TST determina, irrevogavelmente, a ilicitude da contratação de funcionários Pessoa Jurídica.
2017 – STF aprova com unanimidade a união civil poliafetiva.

-2019-

Certidão lavrada no cartório do 9º subdistrito da Vila Olímpia, comarca da capital do Estado de São Paulo:

CERTIDÃO DE CASAMENTO

CERTIFICO E DOU FÉ que sob o número 11101962, às Fls. 23, do Livro V-02 de Registros de Casamentos, encontra-se o assento do matrimônio poliafetivo de LUIZA LOPES DE ALCÂNTARA BULHÕES e MARYA KELLEN DOS ANJOS, contraído no dia 02 de abril de 2019, perante o MM. Juiz de Casamento Rafael Queiroz, e as testemunhas constantes do termo.

A primeira contraente, brasileira, psicóloga, casada com RAPHAEL VON LEUCHTENBERG DE ALCÂNTARA BULHÕES, natural de Miami, Estados Unidos da América (transcrito para o 1º Subdistrito – Sé), nascida no dia vinte e dois de dezembro de mil novecentos e noventa e quatro (22/12/1994), filha de ORLANDO BACHIR LOPES e de MARIA CRISTINA MARCHIORI.

A segunda contraente, brasileira, dona de casa, casada com JEFFERSON SILVA, natural de Senador Sá – CE (registrada em Fortaleza – 1º Subdistrito – Centro), nascida no dia quinze de novembro de mil novecentos e noventa e oito (15/11/1998), filha de CLEUDEMIR APARECIDO DOS ANJOS e NEIDE AUXILIADORA DE JESUS.

Ambas continuam a assinar os mesmos nomes.

Adotaram o regime de separação total de bens, e a poliafetividade é assumida segundo a cláusula de intransitividade.

Notas: Anexo a esta certidão constam as duas declarações de que o presente matrimônio é contraído por motivo de amor e desprovido de constrangimento pecuniário.

O referido é verdade e dou fé.

São Paulo, 02 de abril de 2019
Allan dos Santos
Escrevente autorizado


Tendo-se despedido das duas testemunhas, amigas de Luiza que estavam mais ou menos na mesma condição, as recém-casadas entraram no banco de trás da BMW que as esperava. Marya olhou para a nova esposa; o assunto era delicado. Após um segundo de hesitação, decidiu falar.

“Olha, dona Luiza, minha tia Jemilda falou que na casa da patroa dela veio um fiscal do trabalho na semana depois do casamento.”

Em geral Luiza não dava bola pro papo chato da Marya, mas dessa vez dignou-se a responder, sem, contudo, dirigir-lhe o olhar: “É?”

“É. Ele foi ver se ela era esposa mesmo.”

“Mas se elas tão casadas no papel, ele não pode fazer nada.” Irritava-a o hábito da Marya de sempre trazer problema. Pressentiu que lá vinha mais um.

“Não, eles investigam! Viu que elas não dormem na mesma cama nunca. Que não tinha foto do casal.”

“E aí?” Perguntou, já preocupada, virando a cabeça para a esposa.

“Falou que ia abrir processo. Elas até se beijaram, só que ele falou que não adiantava. Que tinham que transar na frente dele, ali, ou gravar e mandar o vídeo. Senão ele processava. Já imaginou?”

“Nossa, Marya, que absurdo! A Suzy deve estar passada!” Depois de um instante de silêncio, sorriu ao imaginar a cena: “E elas toparam?”

“Aí já não sei.”

Luiza tranquilizou-se pensando que as providências seriam simples. Reconfortava-a que, enquanto a Jemilda era uma velha feia, a Marya era até que bonita (no dizer do Rapha, depois de uma noite de caipiroskas: “beeem gostosinha”), e não de todo burra. O casamento era verossímil. Mesmo assim, que amolação essa história de fiscal!

“Olha, pra mim esse governo já deu. Tá cada dia pior! Cansei de sustentar corrupto. O Rapha já tá pensando em se mudar pra fora. Aliás, deixa eu ligar pra ele.”

Luiza tocou com o indicador no lado direito dos óculos e pronunciou baixinho: “Rapha”. Após um breve sinal sonoro, emendou:

“Amor, tô saindo agora aqui do cartório.”

A voz do marido vinha de minúsculos autofalantes nas hastes dos óculos: “E deu tudo certo, querida?”

“Ah, deu, foi tudo normal. Mas a Marya tá falando aqui que vai chegar fiscal pra inspecionar a nossa casa.”

“Como é que é?” – naquele tom briguento que ficava a cada dia mais comum.

“É, o fiscal do trabalho vai vir na nossa casa pra ver se a gente se casou por amor mesmo. Tem que ter prova.”

“Puta que pariu! É sério isso?”

“É sério. Tão processando mesmo. Você faz um favor pra mim? Encomenda uma cama de casal daquelas que dobram, pra botar no quarto da Marya? Manda instalar a NET na TV dela também?”

“Caralho, hein, amor?”

“O que que você quer que eu faça? Não é culpa minha! Eles vão ferrar com a gente!”

Um suspiro do outro lado da linha. “Tá bom. Vou olhar aqui.”

Marya, olhando a rua pelo vidro fumê, pensava no benefício inesperado daquela cama de casal. Facilitaria as estadias secretas do patrão em seu quarto durante a madrugada. Uma diversão noturna, mais os quinhentos extra por mês, sem FGTS e INSS, eram uma boa; filminho na NET também. Se esse casamento colasse, seria mais dinheiro no bolso. E caso a Luiza passasse dos limites, dava pra entrar na Justiça, dizer que foi obrigada. Sentiria um pouco de pena do Raphael: gostava das horas com ele, sentia que ele ficava à vontade, e ela também. Bem diferente dos longos silêncios pesados com o Jefferson, aquela pobreza do "apertamento" dele. E sabe-se lá onde encontraria outro emprego que pagasse bem. Enfim, o futuro a Deus pertence, e o momento era de celebrar. 

A voz do marido saiu novamente dos óculos de Luiza. “Amor, é cama de casal ou de trio?”

“Só de casal. A gente casou no intransitivo.”

“Tem certeza? Não quero comprar errado e depois ter que ir na loja trocar!”

“Ai Rá, certeza, né! Compra hoje, tá? Eu vou passar com a Marya num restaurante do shopping pra gente tirar uma foto com um pró-seco na mão. Depois vou emoldurar.”

(Espumante em shopping center chique? Marya já antecipava a reação da parentada invejosa quando publicasse a foto.)

“Tá bom. Aproveita e passa no mercado? Tá faltando sal pro churrasco gourmet de hoje à noite.”

“Ih, Rá; a receita do sal expirou, lembra? Precisa ligar pro Dr. Juliano.”

“Caralho, amor! E agora??”

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Um momento de lucidez

Cheguei a isto. Depois das promessas e garantias que tudo ia bem – a quem eu estava enganando? Não ia bem. Não vou bem. Passei a noite em claro; a anterior também. Não lembro do último sono bom que tive. Isto é, sem a ajuda desses remédios para dormir e para acordar e para sorrir e para olhar nos olhos de quem me odeia. Joguei-os todos fora. Escrevo com a cabeça limpa e os olhos claros. Não, não estou escolhendo a morte. Escolho não mais usar o que me deixava desse jeito, viva (viva?) mas sem a única coisa que importa na vida. De que vale um sorriso sem a chama interior? De que vale dormir sem o sonho? Passei anos sem conseguir juntar um verso. Agora, finalmente, posso criar.

Juro que pensei que seria diferente. Acreditei no sonho da poesia, que é na verdade a negação da poesia. Não conhecia a hipocrisia, os cochichos, os convites que não chegavam a mim. Tudo por quê? Porque não sou como eles? Como vocês? Não escrevo movida pelo ódio. Digo sem medo que não vos odeio; quero apenas alertá-los. Julgávamos ser a nata de uma nova elite cultural e intelectual do mundo, quando na verdade reciclávamos vaidades. O que descobri nos últimos meses é o quanto mesmo nossos supostos momentos de honestidade eram vaidade. Não sou a primeira a dizê-lo: vanitas vanitatum, et omnia vanitas.

De que me valeram as láureas? Dos mesmos pares que hoje fingem que não me veem e se afastam de mim nos jantares nos quais eu ainda apareço? Hic transit gloria mundi. Sendo sincera, mesmo naqueles dias em que tudo parecia ir bem, em que eu me sentia no topo do mundo; não, em que eu queria me sentir no topo do mundo. Em que eu me sentia na obrigação de me sentir no topo do mundo. Mesmo naqueles dias, um vazio crescia dentro de mim. Talvez por causa daqueles dias. Um vazio que ainda cresce e que esta noite terá sua chance de dizer a que veio.

Tudo o que importa é o que não conseguimos dizer. Minha vida não vale nada se eu não expressar a verdade que há em mim; e só me interessa o inexpressível. Aquilo que podemos apontar sem nunca se apossar. A coisa, e não o conceito. Se há esperança de se chegar a ela, não é pela tagarelice dos intelectuais e filósofos; o que vale a pena ser dito é aquilo que só a poesia – e possivelmente nem a poesia – possa dizer. Ansiei, em vida, em dar voz a essa verdade, que está além das citações e das referências e da erudição; roupagens que escondem um rei nu.

Deixo minha afeição nestes últimos momentos a todos os meus amigos e ex-amigos; vou sem mágoas, ciente de que escolho a única redenção que me é possível. Queria poder prometer-lhes a afeição eterna, mas não acredito nela. Não digo, vejam, não digo nem mesmo que a vida eterna seja uma quimera, uma impossibilidade. Digo que ela pode existir. Digo que ela tem que existir e indubitavelmente existe para certas pessoas. Mas a mim cabe a finitude – a eternidade me é impossível, pois é só perante o vazio que me vêm os poucos momentos de lucidez. Não os trocaria pela sopa de lentilhas de uma vida eterna. Ainda que me lançassem ao inferno, valeria a pena: tudo que me interessa está neste instante de passagem do ser ao nada.

Há verdades – nisso eu acredito – que só se expressam in extremis. Que só se podem colocar em palavras nas experiências limítrofes entre ser e não-ser. No arrebatamento do amor quando carne se funde em carne. Bem sei o quanto eu o desperdicei, e também como essa possibilidade me é negada, agora, em definitivo. Jean, se você ler isto, e sei que lerá, saiba que o buraco negro que me suga por dentro começou com a ferida por você deixada. Tampouco o culpo; o vácuo interior já estava lá, e você só fez um pequeno rasgo na membrana que o separava do vácuo exterior. Em verdade, agradeço-te. O vento que me entala a garganta sussurra o seu nome.

Sem mais delongas. É hora da decisão da qual não pode haver arrependimento e nem perdão. Meus pés já sentem o vento gelado do abismo. Há coisas que só se revelam no limiar da morte. Repito que não estou escolhendo a morte; escolho o momento de clareza que ela proporciona. Que em minha queda final, o último grito revele o sopro de vida que a vida sufocou. A Deus (sive Natura) entrego minha alma; aos homens, meu último - meu único - lampejo de luz em meio à noite que a tudo engolirá.

K.

***

[nota do editor: K. foi encontrada morta em sua escrivaninha, com ambos os pulsos cortados. Em uma página separada, ao lado da carta copiada acima, estava seu último poema, escrito a pena com o sangue do pulso esquerdo, que segue reproduzido abaixo.]

***

Chorando se foi quem um dia só me fez chorar;
Chorando se foi quem um dia só me fez chorar.
Chorando estará, ao lembrar de um amor
Que um dia não soube cuidar.

A recordação vai estar com ele aonde for;
A recordação vai estar pra sempre aonde eu for.
Dança, sol e mar, guardarei no olhar
O amor faz perder encontrar

Lambando estarei ao lembrar que este amor
Por um dia um instante foi rei.
Canção, riso e dor, melodia de amor,
Um momento que fica no ar.

Ai, ai, ai
Dançando lambada 

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Debate dos Presidenciáveis, 2014

Transcrição do terceiro do bloco do debate do primeiro turno das eleições presidenciais de 2014, realizado em São Paulo (SP), no átrio do Templo de Salomão, Brás. O debate contou com os principais candidatos ao cargo supremo do Executivo: Dilma Roussef (PT), José Serra (PSDB) e Tiririca (PR), além da minoritária Soninha Francine (PPS) e mais um nanicos cujo nome se perdeu. Moderando o debate estava o pastor Silas Malafaia.

TERCEIRO BLOCO - TEMA: PLANOS DE GOVERNO

Moderador (M): Aleluia, irmãos! Voltamos agora ao debate entre os presidenciáveis. Antes de darmos início às falas dos candidatos, conclamo todos a dar as mãos e orarmos a Oração do Senhor. Eleitores, prestem atenção para ver quem sabe as palavras e quem fica só mexendo os lábios sem dizer nada. O candidato Juliano Torres do LIBER gostaria de anunciar que não participará, por sua própria conta e risco, deste ato de louvação.

[encerrada a oração, seguranças escoltam Juliano Torres para fora do Templo.]

M: E vamos ao debate. Inicialmente, eu farei perguntas aos candidatos. Em seguida, os candidatos poderão interpelar uns aos outros, com temas selecionados aleatoriamente, lembrando que o tema geral são as propostas e o plano de governo. Ao longo do debate, a qualquer momento, uma manifestação do Espírito pode propor algo novo. Estão todos cientes e de acordo com essas regras? Se sim, digam "Amém".

Todos: Amém!

M: Então vamos lá. A primeira pergunta vai para Dilma Rousseff. Presidenta Dilma, a Sra. afirmou em entrevistas que é devota de Nossa Senhora. Também participou de uma romaria à basílica de Aparecida no último 12 de outubro, onde apareceu para as câmeras beijando a mão do Padre Marcelo e rezando o terço bizantino. Só que a Palavra do Senhor é clara: "Não farás para ti imagens e não as adorarás". Presidenta: como você responde à acusação de idolatria?

Dilma: Silas, sua pergunta é muito pertinente. Línguas maldosas da mídia golpista andam espalhando inverdades. Gostaria de deixar claro que isso é uma mentira, uma calúnia! No que se refere à minha fé, quero reiterar aos irmãos aqui presentes que há apenas um único Deus de poder, Deus de verdade, Deus de justiça e Príncipe da paz! Sigo nas pegadas do meu irmão de fé o Presidente Lula, que deixou seu testemunho em favor dos pobres deste mundo, o Bolsa-Família. Nessa mesma seara, fui inspirada pelo Espírito a fazer o Minha Casa Minha Vida, que agora vai ampliar sua linha de crédito para todo mundo realizar o sonho da casa própria, esse sinal da predestinação, mesmo desempregados e mendigos. E como mostra da devoção do meu programa, todo cidadão que comprovar sua filiação a um templo ou culto pagará juros negativos, como já é a política do Banco do Brasil, esse banco ungido pelo Senhor, Jeová é seu Nome!

M: Candidato José Serra, é publicamente sabido que Fernando Henrique, seu mentor, é ateu. E você: também está fora do redil dos eleitos?

Serra: Silas, tenho muito orgulho da minha trajetória de vida, mas não posso compartilhar de tudo que o FHC fez e disse. O ateísmo é uma dessas coisas. Outra foi a privatização. Andam dizendo por aí que eu vou privatizar as estatais. Isso é mentira; eu vou ser lembrado como o presidente das estatais! Vou ampliar o bolsa-família, que aliás foi ideia nossa, e se você for ver no meu plano de governo, Silas, vai ver que eu vou é nacionalizar as empresas privadas. Não tem sentido deixar setores estratégicos como comida e vestuário nas mãos da especulação privada. Voltando à questão da fé, eu sempre fui um homem de profunda religiosidade; quero ver uma igreja em cada quarteirão! Acho que todas as formas de crença e espiritualidade são positivas...

M [levanta uma das sobrancelhas]: Todas, candidato Serra?

Serra: Todas as formas da fé cristã! Passou disso, amarra em nome de Jesus!

M: Tá amarrado, irmão. Aleluia amém aleluia!

[Alguns na plateia oram em línguas.]

M: Candidato Tiririca, como você se posiciona na disputa doutrinal entre Edir Macedo e Valdemiro Santiago?

Tiririca: Olha, sinceramente eu não entendo por que a fé do candidato deve importar tanto assim. Será que eu posso aproveitar este tempo pra falar um pouco do meu plano para a educação básica? Se for eleito, entre as muitas obras que vou fazer, gerando empregos e melhorando nossa infraestrutura, construirei muitas novas escolas, todas equipadas...

M: Ih, candidato, você caiu no engodo da salvação pelas obras? Foi isso que eu ouvi?

[Vaias da plateia e de José Serra.]

M: Candidata Soninha, varoa honrada pode andar de bicicleta?

Soninha [largada na cadeira, cabeça bem baixo no encosto]: Cara, meu, puta que pariu, né? Acho que sei lá, a mulher tá aí, chegamos lá, e é um puta desrespeito isso de não pode isso não pode aquilo. Direitos iguais para humanos iguais, esse discurso interessa a quem? Cheguei até aqui com a força do meu trabalho em equipe, fiz muita cagada também admito. Tive uma ideia esses dias pra mulher crente que anda de bike, não sou mas respeito; sempre. É o selim casto, mais largo; um banquinho redondo pra não comprometer a virgindade da ciclista evangélica. Tudo com materiais reciclados.

M: Esse banquinho tem poder, candidata! Mas e o cabelão ungido da varoa; não prende na corrente?

Soninha: Putz! Não rola fazer uma parada tipo coque, sei lá?

M: "As mulheres se ataviem com traje decoroso, com modéstia e sobriedade, não com tranças". Coque é trança, candidata. A Palavra é clara: infelizmente, a nação evangélica não poderá te apoiar. Queira a guarda do Templo retirar a candidata Soninha Francine, por favor.

[Soninha sai. O pastor fecha os olhos e todos ficam em silêncio.]

M: Irmãos! O Espírito na forma de uma labareda de fogo acaba de me manifestar glória e poder! Aleluia! Ele quer que cada candidato diga o que pensa sobre a união dos sodomitas. Varão com varão, varoa com varoa; pode, candidatos?

Dilma: De jeito nenhum. Absolutamente. Deus os criou homem e mulher. Adão e Eva; não Adão e Ivo. No que se refere à homoafetividade, inclusive, vou colocar como prioridade para o Ministério da Oração pedir pelo fim deste pecado entre os fieis. E vou qualificar a piada do "crente do rabo quente" como crime de ódio: homo - e cristo - fobia.

Serra: Não acreditem nas mentiras do PT! Lembram do Kit Gay? Dilma é mãe do Kit Gay, e mãe solteira, divorciada, mulher perdida. Ela criou o Ministério para Assuntos LGBTTT; fez do 24 de agosto o Dia da Vera Verão. Depois perde a Copa do Mundo e nos perguntamos por quê! No meu governo, não vai ter baixaria. Pai de família não terá que ficar explicando em detalhes pro filho pequeno o que é suruba de homem.

Dilma: Candidato Serra, assim fica difícil... Detesto trazer dados pessoais para o debate, mas todo mundo sabe do aborto da tua mulher, do teu programa como ministro da saúde de tratar de aidético, dar camisinha; você tem parte com o Satanás. Não cure o homem a doença que Deus mandou! Estou certa, irmãos?

[A plateia vai ao delírio no Senhor.]

Dilma: Tua filha, candidato, é mulher da vida. Você não vai no culto e nem na missa; só em época de eleição. Está aqui fazendo jogo político! O PSDB é isso: discurso bonito mas joga o povo no lixo. Privatização, FMI, vendido ao capital; abre a porta pros americanos e chineses virem tomar conta. Sua PM, Serra, em São Paulo, mata estudante, mata pobre, sacrifica bebê no terreiro pra Moloch, pra Baal. É isso que Jesus faria?

Serra: Olha, Dilma, não esperava esse golpe baixo vindo de você. Embora seu partido seja mensaleiro, ateu e comunista comedor de criancinha, sempre tive respeito e admiração por sua história de luta. Nem utilizei politicamente o fato de você, sua terrorista duas-caras, ter traído seu marido e as suspeitas sérias de que você é sapatão. Oops, pronto falei! [Dá um sorriso maroto.]

Tiririca: Gente, por favor, isto é um debate político! Olha, Silas, quanto ao casamento homossexual, é um tema na melhor das hipóteses secundário. Mesmo porque estou concorrendo a um cargo do Executivo; então mesmo se eu tivesse uma posição acerca do tema, não teria como colocá-la em prática. Agora será que podemos discutir questões sérias? Eu realmente gostaria de discutir os projetos de cada um. Não sei, mas acho um pouco perigoso o rumo que a discussão política vem tomando no Brasil. Este será nosso único debate, e vamos perder nosso tempo tentando angariar votos dessa forma baixa, apelando a todos os preconceitos que ainda vigoram no eleitorado e polarizando os discursos? Não temos nada melhor para mostrar? Por exemplo, eu vim aqui com o intuito de discutir o problema da educação básica no país, que como todos sabem é um problema de muitas gerações, e cuja solução terá que envolver a ação conjunta de todos os partidos. Será que eu poderia apresentar as diretrizes preliminares do meu plano?

M: Não teste a paciência do Senhor, candidato! Mas vá lá; qual é o seu plano para a educação básica no Brasil?

Tiririca: Me elege que eu te conto! FUÉÉÉ!

[Risos no auditório, que começa a cantar: "Ôôô, É Tiririca eu sooou, e ninguém vai me segurar!"]

terça-feira, 2 de outubro de 2012

A Esfinge


Sentado no puff verde-limão da sala com uma latinha de cerveja na mão, sua mente fervilhava enquanto lembrava os acontecimentos da manhã e dos quais agora, uma da tarde, acabara de voltar. Seiscentas bicicletas na avenida, as buzinas furiosas em volta. Vida! Estava elétrico. Levantou-se, olhou a estante de livros, desistiu; abriu a porta de vidro da varanda, fazendo soar os bambus orientais pendurados no teto e olhou os transeuntes três andares abaixo, na rua. Uns indo almoçar, outro levava um cachorro; alguns carros. Sob a visão cotidiana, Fábio enxergou todo um sistema do mundo; uma malha de relações e intenções – de sementes e semeadores – que ele vislumbrara há pouco, na décima sexta edição do ato ciclístico Bike Sem Fronteiras. Teve vontade de gritar e partilhar com todos aquilo que lhe enchia o peito.

Em um momento da manifestação, um motorista hostil, que passava ao lado, chamou-lhes de “pequenos ditadores”. Fábio respondeu no ato: “A gente não quer mandar em ninguém! Queremos nosso espaço, nossa vida, o fim dessa violência! A gente não é contra ninguém, cara; a gente é a favor de todo mundo! Nossa luta é sua também! Desculpa por atrapalhar sua vida, não é intenção; é que a gente precisa do nosso espaço.” O motorista, meio desconcertado, nada respondeu; acalmara-se. Teria seu coração sido tocado? E foi então que, enquanto pedalava, Fábio teve o estalo: se cada motorista dessa cidade fosse tocado dessa forma, se uma pequena inquietação fosse plantada em cada peito, a luta já estaria ganha. Os ciclistas não eram contra ninguém. Nesse sistema que vive do conflito, produzindo a violência como subproduto, propor a coexistência, a simbiose, é revolucionário. Os motoristas não eram maus; não eram inimigos pessoais. Mas o carro, a própria estrutura funcional da máquina de combustão, inseria-os num sistema de antagonismo. Era preciso plantar sementes nos corações; sementes de respeito, tão raras no mundo do transporte automotivo.

A abordagem agressiva de alguns colegas da bicicletada nada mais era do que transportar para o mundo da bicicleta o espírito do automóvel. Era preciso fazer o contrário: trazer o modo de vida da bicicleta aos carros. Esse curso de pensamento deve ter durado alguns segundos. Quando deu por si, alguns colegas, pedalando a seu lado, parabenizavam-no pela fala ao motorista. “Mandou muito, Fabinho! Irado!”.

Agora a mente não parava de reformular e desenvolver o insight. O contato pessoal entre dois estranhos, que o sistema queria que se odiassem, mas que tiveram, por um momento, um entendimento comum do qual saíram transformados. O motorista, com uma pequena bicicleta em seu coração, e ele, Fábio, com a euforia da partilha. Havia uma semente revolucionária nisso, vinda do mais profundo de sua alma, daquilo que ele podia chamar apenas de “coração”, e que podia ser semeada em todos os corações. Uma perspectiva, sem dúvida, muito superior à mera briga contra os carros que alguns preconizavam. Havia um caminho novo aí, uma nova filosofia, um novo paradigma da mobilidade e, enfim, da civilização.

Andou até a porta da sala e abriu-a – quem sabe sairia para almoçar, encontrar algum conhecido no bar da rua, o Zezé, que funcionava de dia como quilão vegetariano. Recuou da ideia, sentindo que precisava se acalmar um pouco antes de sair; não aguentaria ficar meia-hora numa mesa de restaurante. Checaria o email antes. Deixou a porta encostada e sentou-se ao computador. Um cigarro, talvez? Acendeu um e deu algumas tragadas, mas pareceu-lhe devagar demais e então o apagou pela metade no cinzeiro. A nicotina não restauraria sua calma. Um baseado, talvez? Mas estava sem. Sobrara algum no quarto do André?

André era seu ex-colega de apartamento que recentemente se mudara, juntando-se com a namorada, mas cujos pertences ainda estavam pela casa. Foi até o quarto do amigo, abriu o criado-mudo; nada. Incapaz de ficar parado, voltou para a sala e se sentou-se à escrivaninha novamente; novas ideias borbulhavam. E se ele fizesse um viral? Qual seria o slogan? “Amar Sem Limites”? Piegas demais. “A Favor de Todos, Contra Ninguém” soava melhor, sem falar que se encaixava perfeitamente com seu vegetarianismo, cujo engajamento era, afinal, outra face de uma mesma moeda: de uma mesma filosofia de ser no mundo. Como encaixar a bicicleta na ideia? “Pedalosofia”? “Pedalogia”? “Peda... Pedo...” Riu-se em silêncio; tosco demais.

Sentado à escrivaninha de bambu no meio da sala e com o laptop já aberto há alguns minutos, checou o email; nada. Olhou fixamente para a tela, para a caixa de mensagens já lidas. Algo que estivera submerso chegava aos poucos à superfície de sua consciência. A quem ele estava enganando? Sabia perfeitamente como aliviar aquela tensão e retornar à paz de espírito. O remédio era infalível, assim como a certeza com que ele sempre voltava ao mesmo ritual. Não era o cigarro, nem a maconha, nem a internet. Fechou o navegador e abriu a pasta de documentos. (Neste mesmo momento, um carro estacionava um quarteirão abaixo em sua rua, e dele descia um homem com destino certo: aquele mesmo apartamento.)

Reiniciava um velho itinerário secreto pelas pastas e subpastas. A um passo de dar o primeiro clique, e assim botar em andamento algo que ele sabia que não conseguiria parar, lembrou-se de que, uma vez acabado o processo, sentiria uma enorme vergonha de si e de tudo aquilo. Por outro lado, como negar o prazer que se lhe oferecia tão facilmente? Uma última vez não faria mal. Clicar ou não clicar? Nessas horas, a única coisa que funcionava era imaginar-se num túnel; uma locomotiva com trajeto fixo que segue sempre em frente sem ver nada ao seu redor. Já não era mais ele quem decidia; apenas deixava o trem seguir em frente.

Abriu a pasta Meus Projetos. Dentro dessa pasta, uma subdivisão em anos; 2007 constava ali,  embora ele não tivesse feito projeto algum naquele ano. Projetos 2007 > Aspectos Técnicos > Detalhes de Produção > Financiamento e Demonstrativos > Dados para Cálculo Tributário. Haveria nome menos propenso a atrair o interesse de um eventual intruso? Ao lado de algumas planilhas com números inventados, uma última pasta: Retificação dos Dados; para essa, exigia-se senha.

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Desse momento em diante, Fábio estava em um mundo particular, no qual não só ninguém jamais poderia entrar, como cuja existência jamais deveria ser suposta. O cicloativismo, o vegetarianismo e o apoio à causa verde, tão caros a seu coração, mostrava-os a quem quisesse ver: lá estavam a composteira na área de serviço, a bicicleta ao lado da estante de livros, as lâmpadas econômicas no teto, os pôsteres do PV e dos direitos animais. Já o amor pelos meninos era só dele.

Dentro da última pasta, uma lista de filmes e fotos sem título, que Fábio reconhecia pelo número. Olhou brevemente o cardápio secreto em sua tela enquanto colocava os fones de ouvidos. Passou-lhe pela cabeça que não precisava fazer aquilo; ainda não tinha dado o passo final. Mas agora era inútil. Ali, com a pasta aberta; se chegara até ali, por que não dar só mais um clique? Qual a relevância ética de um clique?

Clicou. Mov012 era um vídeo caseiro, de algum país cuja língua ele não identificava; russo talvez? Na cena inicial, um menino pedalava uma bicicletinha velha em círculos dentro de um quintal minúsculo. Os desdobramentos que despertavam o interesse de Fábio vinham dos pedidos do diretor que, por trás da câmera, guiava as ações do menino, até o momento em que ele próprio entrava em cena. Isso para não falar no rosto do menino: tão inocente, tão indefeso, tão... puro.

Absorto nas imagens e nos sons que saíam dos fones, Fábio nem notou o barulho do elevador que abria em seu andar. Também não ouviu os passos e nem as batidas na porta. Só reparou que alguém chegava quando viu, com o canto dos olhos, que ela se abria. Que falha: esquecera-a encostada! E agora o André, que tinha dito que passaria lá para pegar alguns livros seus, entrava sem grandes cerimônias no apartamento e já o vira ao laptop, que ficava, não por acidente, de costas para a porta, mostrando a quem entrava na sala apenas uma simpática maçã branca.

Fechar. Fechar. Fechar. Por mais que clicasse no X, a janela não respondia. A idade do computador, a atualização do antivírus que corria em segundo plano, os programas secretos acumulados de downloads em partes não muito confiáveis da rede; por que tudo junto bem naquele momento? Se ao menos tivesse comprado um computador novo como a mãe sugerira! André encostou a porta atrás de si. Fechar fechar fechar fechar fechar. O botão sequer acusava os cliques. André, com um sorriso, já se aproximava da escrivaninha. Fábio fingia não vê-lo e, de rosto aparentemente sereno, clicava furiosamente. O cursor se transformou em ampulheta; não havia mais nada a fazer. O amigo deu a volta na mesa e colocou a mão em seu ombro: “E aí, cara, beleza?”.

“Opa, e aí, André? Chegou cedo!” A tela mostrava apenas uma pasta aberta, e Fábio fazia o melhor para disfarçar a respiração ofegante e o coração em disparada.

“Trabalhando na filmagem do Bike?”

“Não. Tava só organizando uns trabalhos antigos. Deixa pra depois.” Tirou os fones e levantou-se para abraçar o amigo. “O que que você veio pegar mesmo?”

“Meus livros de empreendedorismo online. O pessoal lá da Integra pediu pra dar uma olhada.” – Integra era a pequena empresa de startups digitais em que André trabalhava. E foi onde, incidentalmente, ele conhecera a Milena, com quem tinha se mudado, pondo um fim ao arranjo que funcionara tão bem por oito anos. Embora se sentisse mais seguro morando sozinho, Fábio sentia falta de morar com André, ainda que, com o trabalho e o namoro sério nos últimos meses, mesmo enquanto ainda moravam formalmente juntos, ele já não estivesse tão disponível assim.

“Tão no seu armário.”

“Vou lá pegar.” E entrou pelo corredor.

Enquanto André pegava os livros, Fábio, já mais calmo depois do aperto, lembrou-se da aventura e das ideias da manhã.

“Cara, você tinha que ter ido hoje lá no Bike Sem Fronteiras. Foi irado! Tô com umas ideias novas para o movimento. Queria te contar. Tava pensando em almoçar no Zezé. Vamo?”

“Pô, eu até que queria!” disse André, que já voltava do quarto com os volumes em mãos. “Só que eu falei pra Mi que ia almoçar em casa. Só vim dar uma passada rápida mesmo. Fica pra próxima!” Mais um desapontamento. Tudo bem, a vida é assim mesmo, pensou Fábio, que o acompanhava até a porta.  Foi aí que André notou: “Nossa, Fabinho, você tá suado, hein? E meio pálido! Tem certeza que tá tudo bem?”.

“Não é nada, só fome. Preciso comer; cansei pra caramba. Bom, então beleza! A gente se fala outro dia!” Disse sem deixar transparecer nenhum tipo de carência ou necessidade pelo amigo que aos poucos se afastava de sua vida.

“Escuta,” emendou André, como se se lembrasse no último minuto; “esse sábado tem a festa do Cauê lá na casa da Tina. Ela falou pra você ir também”.

“Nossa, com certeza! Como tá o Cauê? Faz tempo que eu vi ele; quando foi mesmo?” –lembrava-se perfeitamente – “... Acho que foi em 2009, né? No Corpus Christi na casa do seu pai em Boiçucanga. Já deve estar enorme!”.

“Pois é, ele tá fazendo doze anos. Mas a Tina tá preocupada. Tá indo super mal na escola, não tem mais nenhum amigo, acho que não tá comendo direito. Parece que é depressão, e faz um tempo já. Ele pôs ele no psicólogo. Ele vai gostar se você aparecer. Lembra quando você deu aquela bicicletinha pra ele? Ele te idolatra!”

“Claro, vou dar uma passada sim” – Disse, já imaginando a desculpa que daria para não aparecer no dia. Em algumas situações era imperativo não aparecer.

Apertaram as mãos, bateram de leve um no ombro do outro, trocaram uma despedida de sorrisos inseguros e André desceu pela escada do prédio.

Livros ao lado, cinto colocado, deu a partida e seguiu para casa. Todas as vezes em que voltara ao apartamento nesse mês saía sentindo-se meio estranho. Gostava de rever o amigo, mas algo o deixava desconfortável com a situação. Ele, André, com trabalho, com a Mi, crescendo, fazendo planos – e que planos! –, e o Fabinho estagnado. Ele não perguntava muito, mas era claro que o esquema de produtor de vídeos freelance não tinha decolado. O Fábio devia ainda viver da mesada dos pais. Também fazia anos que ele terminara com a Carol, sua última namorada; um término triste, amargo, sem briga e sem nem uma ligação ou mensagem depois. Alguma coisa não dera certo, e André tinha certeza que o problema viera do Fabinho. Havia algo nele que ele não conseguia decifrar. Como pode, isso? Havia uma incógnita no mais íntimo de seu melhor amigo que ele não conseguia decifrar; uma certa discrição, uma distância que escondia alguma coisa. É claro que isso acabava pesando na amizade deles.

Por outro lado, tinha de admiti-lo, o Fabinho mantinha vivo algo que ele próprio estava deixando para trás, não sem algum arrependimento: o sonho de transformar o mundo. Hoje em dia, quando André não estava na Integra, queria estar junto da Milena, ou talvez com alguns poucos amigos bebendo cerveja. Shows, atos, manifestações; tudo aquilo se tornara menos importante. Nos primeiros Bike Sem Fronteiras eles iam juntos, e André era quem demonstrava mais entusiasmo. Hoje em dia, apesar de ainda acreditar na causa, não ia há várias edições. E aqui estava, para pegar um mero livro, de carro. Havia uma necessidade da vida que o forçava, aos poucos, a se conformar. O pior é que ele não se sentia mal. E não era esse o tipo de coisa que deveria fazê-lo se sentir mal?

Voltava para casa pensando no que o futuro lhe reservaria. A Milena vinha dando dicas claras de que gostaria de ter um filho. Não já, é certo, mas quem sabe daqui a um ou dois anos? Quando, aos vinte e poucos, ele projetara seu futuro, tinha aspirações de transformação social para as quais ele agora simplesmente não tinha tempo; um filho era também uma transformação, mas numa direção bem diferente. Quanto aos velhos sonhos, pelo menos por enquanto a coleta seletiva na Integra teria que bastar.

Nisso, virou com seu carro à direita numa grande avenida, engatou a terceira e, pisando um pouco mais fundo, deixou para trás esses receios tolos. O dia estava ensolarado e convidava ao otimismo. A vida seguia, e ele agora vivia no mundo real, sem tolices de criança. Estava feliz, contudo, sabendo que, ainda que tivesse abandonado certos sonhos, Fabinho estava lá, no apartamento, no Bike Sem Fronteiras, nas oficinas de permacultura, no trabalho voluntário na creche; mantendo a chama acesa. Apesar de seus defeitos, era um exemplo inspirador: alguém que mantinha vivas as aspirações da verdadeira juventude, o sonho de um mundo possível. Quem sabe, quando – e se – ele, André, tivesse um filho, o Fábio não toparia ser o padrinho? E cara, ele daria um ótimo padrinho!

sábado, 26 de novembro de 2011

Consciências Negras

Zelda Odumbe nasceu em Kisumu, Quênia e nunca conheceu seu pai biológico. Por imposição do padrasto, que desejava uma enteada pura, teve o clitóris removido aos sete anos de idade. No ano seguinte à circuncisão contraiu poliomielite, o que a deixou paralítica. Sua primeira relação sexual foi com um tio materno que, tendo contraído o HIV, achou que relações com uma virgem o curariam. O mesmo tio, e um vizinho amigo da família, abusaram dela repetidas vezes conforme chegava à puberdade. Escapou da casa materna aos 15, com ajuda do irmão caminhoneiro que a levou escondida, e a deixou aos cuidados da Congregação das Irmãs Missionárias do Precioso Sangue, com as quais passou a morar e estudar, no colégio das freiras em Riruta, arredores de Nairóbi. Aos 17 anos descobriu-se homossexual com uma noviça com quem dividia o quarto. Com ajuda das freiras, emigrou para os EUA aos 21, tendo conseguido uma bolsa para estudar em Harvard.

Zelda era uma celebridade antes mesmo de por os pés em solo americano. Discutia-se a ordem das palestras que ela realizaria, os rumos de sua graduação e até um possível PhD. Na chegada ao aeroporto foi recebida por uma comitiva de líderes estudantis e professores, dentre os quais a mítica Vazulla Nyolg, PhD, chefe do departamento de estudos da Mulher, Gênero e Sexualidade. Ao entrarem na van, a Professora Nyolg mal se continha de emoção; falava ininterruptamente contando à recém-chegada todos os podres da horrorosa sociedade americana, procurando avidamente por qualquer sinal de que estivesse causando boa impressão. Sua nova protegida, afinal de contas, não só era mulher, negra e africana, o que já seria bom mas nada de extraordinário, como também homossexual, sobrevivente de estupro, genitália mutilada, soropositiva e, para coroar, deficiente física. Tudo numa pessoa só. A professora encontrara o Santo Graal.

Zelda não era de muita conversa. A Professora Nyolg, embora ansiasse por relatos íntimos, pessoais, aos quais só ela teria acesso, não se importou muito, pois o silêncio da pupila complementava seu gosto pela fala. E a menina era boa ouvinte; com o tempo e com a confiança adquirida haveria de se libertar da repressão patriarcal que lhe impusera o silêncio como dever feminino; opressão talvez até mais grave do que a sofrida pelas mulheres de Massachusetts. Alojada no melhor apartamento disponível, Zelda e a professora se despediram. Um tanto reservada no contato com os colegas, passou seus primeiros dias de Harvard sem nenhum evento digno de nota.

O primeiro sinal de que nem tudo ia às mil maravilhas veio na hora de escolher as matérias a cursar. Zelda optou pela Literatura Renascentista Inglesa. A Professora Nyolg sugeriu que talvez, querida, os Estudos Literários Africanos a interessassem mais. “Só porque sou africana devo mirar tão baixo?” foi a resposta. Ela poderia ser lida como uma crítica aos professores do departamento, americanos e europeus privilegiados, portanto incapazes de penetrar no coração do lirismo africano. A professora, no entanto, acostumada a encontrar camadas secretas inesperadas em qualquer discurso, pressentia que o sentido era outro. Seja como fosse, era certo que a recém-chegada teria um longo processo de conscientização pela frente: criada e violentada na cultura patriarcal africana, que em última análise fora imposta pelo colonialismo europeu do século XIX, tinha na mente muitas ervas daninhas ideológicas a se extirpar; mas o terreno era inegavelmente fértil.

No primeiro fim-de-semana, na primeira (e única) festa de república a qual foi, Zelda sentava numa roda com seus colegas quando surgiu o tema dos direitos dos animais. Uma menina particularmente engajada opinou que a dieta vegana não só é mais ética, como também mais saudável e até saborosa.
Zelda ficou indignada. 

“Impossível!”

“O que foi, Zelda?”

“Temos prazer em comer carne em parte porque sabemos que ali está um animal. Remete à caça. Houve uma luta, entre vida e vida, com sangue e morte, e um lado venceu, e agora o derrotado nos sustenta. Mesmo carne de fazenda preserva esse significado. A vitória do homem sobre a fera. Já uma cenoura... planta cega, burra. Onde está o valor? Por isso vegetais, em qualquer cultura digna do nome, serão sempre acompanhamento, nunca prato principal.”

“Ah, eu duvido que você sinta a diferença entre um hambúrguer de soja e um de cadáver de vaca.” Disse a colega vegana.

“Hah! Não me faça rir! Mascarar a realidade com um pedacinho nojento de carne falsa só prova o meu ponto. O tributo que o vício paga à virtude.”

“Olha, eu não sei como é na África. Mas você tem que entender que relação do homem ocidental com a natureza é insustentável; somos muito cruéis. A gente se acha senhor, e não parte. A natureza é um Outro.”

“Você quer contato maior com a natureza do que morder um bom bife? A alternativa é ir dar um passeio nos parques perto da minha cidade. E daí você será o bife. Antinatural para o homem é viver feito macaco. Se você quiser salvar a vaquinha, por favor, vá em frente. Só não conte comigo; a vaca foi feita para mim. Não venha me impor suas escolhas.” Quando direitos animais e culturas oprimidas entram em conflito, é politicamente complicado tomar partido.

É provável que o debate tivesse continuado, se nesse momento o rastafári loiro que se sentara do lado de Zelda não a tivesse oferecido um baseado. Ela já se incomodara antes (vocalmente) com o cheiro; agora via a coisa em si. Com um sorriso atencioso para o rastafári, pegou o cigarro e o deixou cair dentro de sua cerveja. Antes que o Bob Marley nórdico sequer esboçasse reação àquele desperdício gratuito de bom cânhamo, Zelda sacou seu celular e ligou para a polícia do campus vir “desbaratar aquela pouca vergonha” [“disrupt this shameless cavorting” foi a frase utilizada, segundo testemunhas]. Daquele dia em diante os convites para as festas, se não deixaram de vir (pois fazê-lo seria interpretado como racismo), foram bem menos efusivos.

Na semana seguinte, numa tarde, almoçando com seus colegas de sala, Zelda iniciou diálogo com uma menina que se sentara a seu lado.

“Qual igreja você frequenta?”

“Er... Sou ateia.”

“Que Deus se compadeça de ti!”, e, fazendo um sinal da cruz para a colega, foi com a cadeira de rodas e a bandeja para um outro lugar à mesa.

O primeiro evento ao qual fora convidada a palestrar era um simpósio sobre “racismo e diferença” organizado pelos alunos, no qual ela seria a convidada principal. A audiência era muito menor do que os cartazes levavam a crer, o que a desanimou um pouco. A substância de sua breve fala, 20 minutos contados, era que o racismo era um problema menor se comparado ao seu problema real dos negros: a indolência. 
“Nada me deixa mais triste que ver um desses negros preguiçosos! – Aqui alguns ouvintes se levantaram e saíram da sala em sinal de protesto – E que ainda culpa os brancos por sua merecida pobreza. O que mais me chocou aqui em Boston é ver essa gente que não trabalha, passa os dias ouvindo aquele lixo de hip hop, reclamando da vida. Um fazendeiro pobre do Quênia ia dar graças a Deus se recebesse as mordomias dessa gente. O sistema é ruim, eu concordo. Mas quem realmente quer dá um jeito de se virar!”

Um bom termo para descrever as expressões da pequena plateia seria “pasma”. O organizador do evento, num misto de surpresa e indignação, levantou a mão para falar.

“Voce não acha que antes de afirmar coisas sobre os EUA você deveria conhecê-los um pouco melhor?”

“Vocês elegeram um presidente negro. Até quando vão se fingir de vítimas? Sim, eu sei: a eleição de Obama foi uma das maiores catástrofes da história americana. No Quênia acompanhamos tudo de perto, porque o pai dele era de lá, e todo mundo idolatrava o Obama. Até as boas irmãs que me davam aula falavam dele com esperança. Coitadas; são todas tão boas, mas ingênuas como crianças! Eu sabia melhor; aquele muçulmano ateu traria ruína para os EUA e vergonha para o Quênia. Organizei com algumas amigas um rosário coletivo no dia das eleições, pedindo a Deus que não permitisse esse escândalo; infelizmente 
Ele tinha outros planos.” Fim do simpósio.

Como uma pedrinha que cai num lago e irradia ondas suaves, um burburinho foi se espalhando pelos corredores de Harvard nos dias que se seguiram. Será mesmo? Pode ser verdade? E logo com a Vazulla! Nada além de boatos maldosos e pouco confiáveis.

Na sexta-feira da segunda semana, algumas pós-graduandas, dentre elas duas orientandas da Professora Nyolg que Zelda já conhecia, se ofereceram para levá-la até seu apartamento. Marjorie Bawls, chefe informal da patota e ex-favorita da Professora Nyolg (antes da chegada da africana), e quem empurrava a cadeira de rodas, perguntou como quem não quer nada durante aquele passeio pelos jardins do campus:

“Zelda, ouvi dizer que você tem opiniões... peculiares sobre o Obama. Você não acha que a eleição de um presidente afro-americano foi uma grande conquista?”

“Pouco me importa a negrura da pele dele; meu problema é com a negrura de sua alma. Por outro lado, ao menos vocês não elegeram uma mulher!” Zelda riu-se do ridículo da ideia.

“Você acha que eleger uma mulher daria munição para os sexistas dizerem que já temos igualdade? Seria um passo atrás em nossa luta?” Perguntou Marjorie. Ela já esperava, e já torcia, pela resposta.

“De que luta você está falando, Marge? A luta de toda mulher direita é encontrar um bom marido, ajudá-lo a crescer e formar muitos filhos decentes. Os filhos são sua glória. Se além disso trabalhar, tanto melhor. Mas que não fique invejando as posições masculinas. A mulher não foi talhada para a liderança.”

Ruth Bittermann, membra do grupinho e que entrara na pós no semestre anterior, estava indignada e pensava em como responder. Ficar indignada era seu passatempo favorito. Como podia Zelda pensar daquela maneira? Ela não era lésbica? Como ousava falar assim? Marjorie estava em silêncio, e parecia ser a única que estava confortável, até satisfeita, com as opiniões da africana. Ao ver a amiga novata fazer menção de falar, sinalizou discretamente que  guardasse sua indignação, ao que Ruth prontamente obedeceu. Mais tarde naquele dia as duas conversaram sobre o ocorrido:

“Devemos avisar a Professora Nyolg? Segunda-feira tem o Forum LGBTTTDST; ela não pode dar a palestra principal!” Disse Ruth.

“Você tem muito a aprender, Ruthie. Eu acho que o Forum será um momento excelente de troca de experiências. Não é para isso que estamos aqui? Não fale nada com a professora, pelo seu próprio bem. Ou você acha que ela verá com bons olhos a sua tentativa de imperialismo cultural?”

“Tem razão.”

Na segunda-feira do evento, todo o departamento de Estudos de Gênero, Mulher e Sexualidade, corpo docente e discente, estava presente para ouvir o depoimento de Zelda, uma homossexual que vivera na pele o preconceito de um mundo conservador e machista. Também vieram professores e alunos dos Estudos Africanos, da faculdade de Ciências Políticas, da História e da Filosofia. A Professora Nyolg ciceroneava sua estrela, apresentando-a a diversas personalidades da academia; sentia-se no topo do mundo. Na hora da palestra, sentou-se ao lado de Zelda, cuja cadeira de rodas estava sobre um tablado elevado com um microfone à frente. Todos na plateia comentavam entre si o privilégio de estar ali, e os fatos tenebrosos da vida da jovem africana; muitos partilhavam aquele momento nas redes sociais, clicando ansiosos nos mini-teclados de celular. Zelda começou sua fala sem esperar pelo silêncio.

“A mais pesada das minhas cruzes é o vício homossexual.”

E o silêncio se fez.

“Não conheço suas causas, mas imagino que seja resultado dos abusos que sofri quando criança nas mãos de alguns homens muito maus. Eles deformaram minha personalidade, e agora é tarde para mudar. Os homens me inspiram medo, insegurança, rejeição. Atraio-me pelo conforto, pelo carinho e pela delicadeza do sexo frágil. Nunca conhecerei a verdadeira alegria feminina de idolatrar, de servir e ser dominada por um homem viril, um herói conquistador.”

Como que dando escape a uma pressão insuportável que se acumulava na plateia, uma voz bradou indignada: 

“Que absurdo é esse??” – Zelda viu o autor do protesto, um desses obesos ambíguos, que não se sabe dizer se é homem ou mulher. Continuou o/a indignado/a: “Isso é algum tipo de piada com a nossa luta?”

“Meu amigo – Respondeu Zelda –  lute pela castidade! Serei sincera: eu vivo esse dilema todos os dias. Será que o caminho para alguém como nós é aceitar nossa condição inferior e procurar a felicidade que nos é possível ou devo oferecer meu sexo como um holocausto agradável a Jesus Cristo?”

Zelda não era boba. Tinha percebido desde os primeiros dias o abismo que existia entre ela e todos os outros. Com essa confissão sincera e ponderada, longe dos clichês conservadores com os quais ela aos poucos ia sendo associada na mente dos colegas e professores, imaginava ganhar os corações da plateia antagônica e o s faria entender seu ponto de vista, quem sabe dissuadindo alguns daquela bobajada infantil de “Movimento”.

O silêncio inicial deu lugar a uma falação ansiosa. Primeiro ouviram-se algumas vozes de descontentamento provocador. Os mais tímidos, encorajados pela manifestação dos extrovertidos, também começaram a conversar e vaiar. “Nunca ouvi algo tão nojento em toda a minha vida!” Em poucos segundos só se ouviam gritos, palavras de ordem e assobios. Uma latinha de refrigerante foi jogada no palco; em seguida, um copo menstrual. Um dramaturgo gay, velho e desbundado, deu um berrão escandaloso e rasgou a própria camiseta. A gritaria subiu ainda mais e dominou o espaço completamente; palavrões foram ouvidos, entre eles a n-word; Zelda chegou a temer por sua segurança.

Por sorte, no meio da algazarra insana uma das professoras de crítica literária feminista tentou subir nas cadeiras para chamar a atenção de Zelda e esfregar na cara dela o subtexto patriarcal daquele discurso horroroso. Só que, destreza motora não sendo seu forte, ela se desequilibrou e caiu em cima de um estudante negro que filmava a confusão em seu celular, e, meio sem perceber, empurrou a professora que caía para o lado para que ela o derrubasse. Humilhada ali no chão, os óculos quebrados, ela se levantou, apontou o dedo para o jovem e gritou para quem estava em volta: “Eu sou mulher e este homem me violentou!”. “Você está louca?” Retrucou o rapaz. Poucos minutos depois todo o salão estava polarizado entre os dois campos: os que acusavam o estudante de estupro e os que acusavam a professora de racismo. Zelda, aliviada por ter sido esquecida, saiu discretamente do auditório. Ninguém se ofereceu para empurrá-la, e ela voltou para casa sozinha, sentido seu primeiro gostinho do gelo departamental que a acompanharia pelo resto da graduação.

Apenas dois espectadores mantiveram o silêncio durante toda a comoção. Marjorie Bawls  contemplava tudo de pé, perto da porta do auditório, e previa seu retorno ao topo que lhe era de direito. Já a Professora Nyolg continuava em sua cadeira ao lado do palco, branca como giz, petrificada, de olhar ausente. Repensava mentalmente toda sua estratégia de manutenção do poder e de garantia das linhas de financiamento dentro da faculdade. Uma carreira de movimentos milimetricamente calculados, de aparências impecáveis, estava agora, por causa umas míseras frases de uma nova aluna, em perigo de se dissolver. Tentando entender o que se passara, juntando as peças daquele quebra-cabeça que poderia ser o fim de seu reinado, a ficha finalmente caiu. O silêncio da menina, os comentários hostis, os boatos que ela ouvira de outros alunos e de alguns professores, as saias africanas, a Ave Maria rezada antes do círculo de leitura de Alice Walker da quarta-feira. Não dava para negar o óbvio: Zelda Odumbe, mulher, africana, negra, homossexual, sobrevivente de estupro, genitalmente mutilada, soropositiva e deficiente física era também uma reacionária filha da puta.

Apesar de ter sido cortada dos velhos círculos, Zelda não desanimou. Seus estudos prosseguiram sem grandes tribulações, mas também sem as grandes esperanças iniciais. Ela logo se enturmou com os conservadores de Harvard, e teve bons momentos de descontração com eles. Doía-lhe, no entanto, constatar o quanto estavam infectados pela cultural liberal. Enfim, era o melhor possível dentro das condições e ela se contentou com o que se lhe oferecia. Foi junto deles, já no início de 2011, que ela redigiu um abaixo-assinado a ser enviado ao presidente Obama, pedindo que declarasse guerra a todos os governos islâmicos do Oriente Médio, África e Sudeste Asiático. “Estamos convictos – concluía o documento – de que uma nova Guerra Santa contra os centros de poder dessa religião sanguinária nos trará grande mérito aos olhos de Deus e será a glória da nação americana pelos séculos vindouros.”

O abaixo-assinado foi mencionado em jornais regionais como prova da perigosa radicalização do pensamento da direita. A diocese católica de Boston aproveitou para distanciar-se do documento, afirmando numa breve nota destinada às universidades locais que “[o abaixo-assinado] não representa a hermenêutica de alteridade que a comunidade eclesial, entendida não mais na clave de substância hierárquico-dogmática, mas de carisma ecumênico-pastoral, propõe, testemunha e profetiza ao múnus dialógico – a um tempo autônomo e heterônomo – da modernidade pós-habermasiana, inserida na jornada kerigmática de comunhão mútua da civilização ocidento-oriental.”

Passou mais um ano. A graduação de Zelda chegava ao fim. Ajudada por amigos ligados à alta esfera do Partido Republicano, conseguira a nacionalidade americana. Nos últimos meses, contudo, estava meio solitária; a dificuldade de conseguir um emprego e a barreira que a impedia de entrar na vida acadêmica a atormentavam. Por via das dúvidas, já havia se informado sobre a inscrição no welfare. Nem suspeitava que alguém voltara a se interessar por ela. A Professora Nyolg, tendo restabelecido sua reputação como autoridade máxima em questões de gênero e sexualidade (o que requereu nada menos que identificar conotações patriarcalistas nos escritos tardios de Andrea Dworkin), passou a ter por sua ex-pupila aquele que ela considerava o mais virtuoso dos sentimentos: pena. 

A pobre menina viera da África, do esgoto do imperialismo ocidental, e ela esperara o quê? Que a conscientização dos primitivos fosse fácil? Doce ilusão pequeno-burguesa, crer que meia dúzia de simpósios bastaria para libertar uma mente de séculos de opressão. Nasceu na professora o desejo de reatar o contato com Zelda, que devia estar para se formar. Quatro anos de Harvard teriam tido algum efeito naquela cabecinha. E se Harvard fora ineficaz, a pressão da realidade não seria. Com o gelo imposto sobre Zelda, e com a economia no estado atual, a menina devia estar em apuros para conseguir um emprego; estaria no melhor interesse dela repudiar os erros do passado e voltar à mentora que num ato de generosidade lhe abria os braços e as portas da academia. Mandou-lhe um e-mail caloroso, como se a relação das duas andasse nos melhores termos, perguntando como ia a graduação e se estava envolvida em algum projeto excitante. 

No dia seguinte chegou a resposta.

Querida Professora Nyolg,

Sua mensagem não poderia ter vindo em melhor hora.  Não posso mentir: minhas perspectivas não são das melhores. Vejo-me muito em breve com um diploma sem valor e sem meios para sobreviver na selvageria do mercado. Para completar meu infortúnio, fui oportunisticamente abandonada por supostos “amigos”.

Foi só recentemente que percebi os equívocos de tantas de minhas posições antigas. Quanto a projetos excitantes, bem, minha transformação ideológica está ligada a um projeto político pelo qual talvez você se interesse.

Acho que estamos de pleno acordo quanto ao capitalismo tardio ter atingido seu grau máximo de degradação. Mas poucos atentam para a base política que permite esse estado de coisas: o princípio maligno da democracia. Foi sob esse ídolo enganador, cuja perpetuação está estranhamente associada ao judaísmo e ao espírito semítico em geral, que nasceram e proliferaram os males que nos trouxeram ao pandemônio atual.

Sendo assim, a única medida sensata que resta ao país é repudiar o crime satânico que foi a Independência e se oferecer em humilde vassalagem à Rainha da Inglaterra, desde que ela aceite: 1) abolir o Parlamento e restaurar todas as suas prerrogativas monárquicas (como chefe suprema das Forças Armadas, não deve ser difícil) e 2) realinhar a Igreja da Inglaterra ao Sumo Pontífice, já que a Igreja Romana é a cabeça espiritual, moral e política do Ocidente.

Creio que as vantagens para a Coroa inglesa são tão patentes que será fácil persuadi-la. Resta convencer uma parcela significativa da opinião pública americana para que possamos enviar um abaixo-assinado ao "presidente". No caso dessa alternativa se revelar inviável (é importante manter os pés no chão), partiremos para a restauração violenta do Poder Real.

Posso contar com seu apoio?

Pelo Trono, Pela Espada e Pelo Altar,

Zelda Odumbe

PS: Peguei no ano passado alguns volumes da obra completa de Julius Evola, mas esqueci de devolvê-los. Você poderia usar suas conexões para apagar o registro desse atraso no sistema da biblioteca? Não se preocupe com as implicações morais e legais do ato; sendo nosso atual estado político completamente ilegítimo, nenhuma instituição que aceite o usurpador na Casa Branca pode emitir regras vinculantes.
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