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segunda-feira, 18 de março de 2013

Suma Verborrágica


Dedicado a Ronald Robson

S. Tomás de Aquino é um dos grandes pensadores da história da humanidade; alguém cuja obra até hoje atrai novos leitores. Sendo assim, penso que é dever nosso tornar sua obra mais acessível ao público. Isso envolve não apenas traduzi-la como também, na medida do possível, adequá-la aos pressupostos e ao modo de filosofar dos estudantes da nova geração. Obra intelectual é coisa viva. Para que S. Tomás fale com maior eficácia aos leitores e autores deste e de outros nobres sites, algumas mudanças são necessárias.

Na maioria das vezes (foi o meu caso), o primeiro interesse do leitor de S. Tomás é pelas famosas Cinco Vias: as cinco provas da existência de Deus dadas na Suma Teológica, sua principal obra. Ora, mas então é possível provar que Deus existe? Como? Com o tempo, cada um encontra outros interesses; mas a porta de entrada mais comum é essa. Por isso resolvi, como passo inicial de meu projeto de trazer a alta filosofia de tempos pregressos ao nível mais evoluído dos estudantes atuais (não falo, evidentemente, dos pobres universitários e acadêmicos), começar minha tradução/atualização por aqui. Tenho certeza que ficará bem ao gosto e ao nível dos fregueses. E vou além: o resultado é superior ao original! Não falo só do estilo literário mais desenvolvido, única maneira de expressar o que S. Tomás tentava em vão com seu latim tosco, mas até mesmo do teor filosófico, que ficou mais profundo, e dá mostras de maior erudição, ao despir-se do tom de clubinho de debates que impregnava a obra do Doutor Angélico.

[A Suma Teológica tem uma estrutura bem simples, mas que talvez não seja familiar a todos. A cada artigo, Tomás propõe uma pergunta. Em seguida, ele dá alguns argumentos contrários à tese que ele quer defender, também chamados de objeções. Em seguida, ele dá um ou dois argumentos de autoridade em favor de sua tese. Depois disso, escreve sua própria resposta. Por fim, responde às objeções iniciais. Para dar ao leitor uma ideia da diferença entre apenas traduzir e traduzir atualizando, fiz uma tradução literal das objeções e do argumento em contrário; a parte modernizada começa com o "Respondo".]

***
Pergunta-se: Deus existe?

Objeção 1: Parece que Deus não existe; porque se de dois contrários, um for infinito, então o outro seria completamente destruído. Mas o termo “Deus” significa que Ele é bondade infinita. Se, portanto, Deus existisse, não haveria mal a ser descoberto; mas há mal no mundo. Portanto, Deus não existe.

Objeção 2: Além disso, é supérfluo supor que o que pode ser explicado por poucos princípios tenha sido produzido por muitos. Mas parece que tudo que vemos no mundo pode ser explicado por outros princípios, supondo que Deus não exista. Pois todas as coisas naturais podem ser reduzidas a um princípio, que é a natureza; e todas as coisas voluntárias podem ser reduzidas a um princípio que é a razão humana, ou a vontade. Portanto não há necessidade de se supor a existência de Deus.

Em sentido contrário, é dito da pessoa de Deus: “Eu sou Aquele que Sou.” (Ex. 3, 14)

Respondo:

Seria, ou, se não muito me engano, é, possível descrever inúmeras – conta o matuto, pelo menos cinco –, não bem argumentos, mas provas, acerca da existência, se é que tal a Ele com justiça se atribui, de Deus. À mente lúcida calha jazer-se contente, quiçá locupleta, saciada pela farta ceia da verdade ofertada em aprazível abundância, com o manjar mais simples, porém assaz substancioso (e aqui, decerto, chiará o apetite debiqueiro dos novos ricos sempre a beliscar finos joguetes lógicos e regalos silogísticos; hors d’oeuvres e sobremesas apetitosas, sem dúvida, que todavia não substituem o filé suculento a proceder-lhes na refeição do estudo), da fina percepção contida no espírito de nossa tão menosprezada tradição, essa madrinha idosa que, experimentada em anos sua astúcia sagaz, bem lá acerta seus sopapos no jovem rebelde – merecemo-nos nós, não nego! –, sem nunca deixar de galantear com mimos de toda sorte aos afilhados que lhe prestem a devida devoção. Pois bem: um problema como o da presença de Deus entre os entes dos quais se pode dizer que participam do conceito que engloba aquilo a que vulgarmente denominamos "existência", se não quiser apenas relar na crosta sem nunca penetrar o âmago intrínseco da ciência mesma (ignoremos, por ora, a redução a que os apóstolos da modernidade submeteram o termo), tem que ser remetido ao tino dessa senhora astuta para sua frutuosa resolução.

Como ia dizendo, esta antiga, idosa e velha anciã presta-nos imenso serviço se ao menos soubermos olhar aonde nos cabe e pedir como se deve. Se há um saber que nos é legado pela mão generosa da tradição, pois perdê-lo enseja um achatamento paulistano de horizontes, é o conhecimento claro, evidente, intrinsecamente certo, da existência mesma de “Deus”. É conveniente lembrar: em todos os tempos e lugares, o homem, onde quer que tenha fixado morada, tem exclamado “louvado seja Deus!”, ou, o que lhe é equivalente, “Deus do céu!”; ou ainda, em certos casos, “Ó meu Deus” (para atermo-nos à fina caracterologia de Rozensweig). A essas três, poder-se-iam ainda somar outras duas vias: "valha-me Deus" e a um tanto elíptica "ó Céus!".

Será preciso algo mais? Frente ao testemunho do senso comum bem formado, cuja verdade se impõe ao intelecto dócil sem necessidade de justificativas externas, sequer formular a pergunta já demonstra, de uma parte, que o aprumo intelectual de nossa “cultura” foi pras picas, e, de outra, a ruína que representa a ascensão da classe média brasileira, doidivanas como sói ser, em termos gnoseológicos.

Resposta à primeira objeção: Mas o que é isso? Deu-se à súcia burra o direito de opinar? Poderia eu, debalde, citar farta bibliografia, decerto não lida e ignorada por meu objetor, que desmonta a pífia “argumentação” contida nesse sofisma. A vasta obra de um Platão, de um Aristóteles, as Catilinas de um Cícero, a Adversus Haereses de um Irineu de Lyon. Um Lactâncio, um Orígenes, um Filostórgio, um Mons. Sanahuja. Ou, para ficarmos nos limites da língua pátria, um Mário Ferreira, um Vilém Flusser, um Nivaldo Cordeiro, um Sidney Silveira. Isso para não falar do oceano metafísico, que não obstante palpita segundo o pulso vivo da concretude mesma do real, de S. Agostinho, cuja obra é, de fato, dever moral ler antes de se meter a palpitar loquazmente sobre o que se ignora. Após teres lido esses e muitos outros nomes, daí talvez aceitarei tua crítica, que por enquanto não passa de ludo pueril.

Suspeito que serei acusado de faltar com as regras de higiene da razão pura por efetuar este trabalho de limpeza profilática. Rio-me cá, à sombra do buriti, deste semblante cheio de orgulho a esconder tamanha bananada argumentatória. Contento-me com a parca glória da formiga que conhece seu lugar (sem jamais desmerecer à cigarra!), e que é, afinal, quem remove o lixo do jardim para que ele fecunde os subsolos. Replico que, em meio aos urros macáquicos da logofasia nativa, o racional é expor a moléstia, e não elevá-la ao estatuto de uma pretensa saúde sui generis para com ela debater. Ademais, quedo-me em paz; sei que o reconhecimento ora sonegado virá, múltiplo, em eras futuras.

Resposta à segunda objeção: Ofende que a filosofia tenha sido tomada pelo palpite, que não basta ser apressado, como irresponsável. Eu, mero estudante, um deslumbrado alpinista frente ao monte inescalável, a contemplar a neve eternal que em seu alto cume reluz, ouso sorver d’água cristalina que do mesmo cume escorre. Pois bem: eis que penetra-me o reto - bem sei como o agüentei calado até agora - propósito de dialogar com esse puro espírito de patuléia, que não só não aparenta qualquer fiapo de vergonha, como porta soberbamente as vestes do orgulho. A imodéstia, o estreitamento da mente como virtude intelectual, o fetiche do conceito, a pobreza do pensamento que se traduz na indigência vernacular (donde se entende o tom de slogan ou, quando muito, telegrama); não é possível respirar em tal atmosfera sem adoentar-se – a falta que fazem os bons doutores! Ao cruento padecer de tal metástase, preferiria eu o retiro de uma rede e um trago da boa Pitu. Mas avante: há uma cultura a salvar!

Ofende ainda mais que carne de tão baixa qualidade venha empacotada em jornal velho; que se exprima filosofia de segunda com discurso que beire as raias do semi-analfabetismo que hoje se ensina nos cursos de Letras. Meu enfaroso interlocutor se assemelha, em sua ociosa burundanga, a um egresso da base de nossa pirâmide social que, sem dela ter levado a sapiência do povo simples (tendo provavelmente trocado a terra nordestina pelo nigérrimo cinza do império paulista) e incapaz de ascender à vera aristocracia do espírito das gentes, vê-se preso como num limbo, não dos inocentes mas dos culpados, sem saber ao certo se a sabedoria virá com o próximo diploma do curso de técnico de informática por correspondência, com o consórcio para a compra do automóvel particular, ou com a quitação das parcelas da quitinete – cuja única janela dá para o banheiro das empregadas domésticas do prédio ao lado – pela qual abandonou a brisa revigorante do Atlântico, incapaz de distingui-la dos fumos negros de Cubatão. Ou da boate Kiss.

Mas, todavia entretanto, num gesto caridoso para com meu semelhante entralhado por tal sucúbica rede, condescendo em partilhar o que, todos os sensatos concordarão, é argumento irrespondível, advindo da doutrina oral, e portanto superior, de Zenão. É-me forçoso reconhecer o rigor argumentativo de um autor que, todavia, é insuspeito de pertencer ao cartel dos conservadores nacionais. 

“É razoável honrar aos deuses. Não é razoável honrar ao que não existe. Portanto, os deuses existem.” 

À inteligência iluminada a evidência é preclara. Ao resto, aos novos ricos da paulistéia inculta que não se dobram à luz e confundem a própria confusão mental com rigor analítico, inquiro apenas: acaso lestes, do cabo ao rabo, o corpus grego e latino? Então não ouses, antes de sessenta anos de estudo, dar pitaco extemporâneo sobre o que passa muito acima de tua míope visada e de teu focinho. Limita-te às linhas de montagem; à filosofia basto eu!

***

[Conta o biógrafo que, depois de ditar esta resposta, S. Tomás almoçou seu cuxá costumeiro, retirou-se do mosteiro e foi deitar em sua rede, na qual cochilou por seis meses, plenamente satisfeito com a contribuição inestimável que acabara de dar à cultura universal. Sonhou, ao que parece, com a fama que sua obra decerto teria nos séculos vindouros. Findo o semestre de repouso, lá estava ele pronto para produzir mais uma obra-prima.] 

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Epistemologia no Antigo Testamento

Uma breve contextualização da passagem a seguir: Salomão, apesar de sábio, teve um período deveras pecaminoso: entregou-se à riqueza e aos prazeres; entre outras indiscrições, teve 700 esposas e 300 concubinas. Em sua velhice, algumas dessas esposas o incitaram ao pecado máximo do Velho Testamento: a idolatria. Como punição, Deus fez com que o reino de Israel fosse dividido. A maior parte das tribos formaria o novo reino de Israel ao norte, e ao sul, com a linhagem de Davi, ficaria o reino da tribo de Judá (que é também onde fica Jerusalém). O rei de Judá, e o que efetivamente perdeu o território ao norte, era Roboão, filho de Salomão. O rei de Israel era Jeroboão, ex-alto funcionário de Salomão. Logo depois de estabelecido o novo reino, ele abandonou o culto a Deus e estabeleceu o culto aos bezerros de ouro e tornou-se basicamente um inimigo do povo de Deus, identificado agora a Judá (que teve também um período de paganismo, ou ao menos sincretismo).

Essa história (1 Reis, 13) se passa no reinado de Jeroboão em Israel, e envolve um profeta local (curioso que Deus continue suscitando profetas mesmo fora de seu povo) e um "homem de Deus", sem nome, vindo de Judá para fazer um alerta a Jeroboão, que estava na cidade de Betel, onde erguera um bezerro de ouro. 
Ora, estando ele [Jeroboão] de pé diante do altar para queimar o incenso, eis que sobreveio um homem de Deus, vindo de Judá por ordem do Senhor; este se pôs a clamar contra o altar da parte do Senhor, nestes termos: "Altar! Altar! Eis o que diz o Senhor: Na casa de Davi nascerá um filho que se chamará Josias; ele imolará sobre ti os sacerdotes dos lugares altos, que agora queimam ofertas sobre ti, e queimar-se-ão sobre ti ossos humanos." Ao mesmo tempo anunciou o homem de Deus um prodígio, dizendo: "Eis a prova de que é o Senhor quem fala: o altar vai-se fender e a cinza que está por cima se derramará por terra". Ao ouvir a ameaça que o homem de Deus proferia contra o altar de Betel, o rei Jeroboão levantou a mão do altar, e disse: "Prendei-o". Secou-se-lhe, porém, a mão que estendera contra o homem, de modo que não a pôde trazer a si. O altar fendeu-se e espalhou-se a cinza que estava sobre ele, assim como o dissera o homem de Deus da parte do Senhor. 
Então disse o rei ao homem de Deus: "Aplaca o Senhor, teu Deus, e roga por mim para que me seja restituída a mão". O homem de Deus aplacou o Senhor, e o rei pôde trazer de novo a si a mão, que se tornou tal como era antes. O rei disse ao homem de Deus: "Vem comigo a minha casa para restaurar as tuas forças, e dar-te-ei um presente". Mas o homem de Deus respondeu ao rei: "Ainda que me desses a metade de tua casa, eu não iria contigo. Não comerei pão, nem beberei água nesse lugar, porque o Senhor me ordenou que não comesse pão, nem bebesse água, e tampouco voltasse pelo mesmo caminho por onde vim." Partiu, pois, de Betel por outro caminho e não tomou aquele por onde viera. 
Ora, habitava em Betel um profeta já idoso, a quem seus filhos contaram tudo o que o homem de Deus fizera naquele dia em Betel, e o que ele dissera ao rei. O pai disse-lhes: "Por onde se foi ele?" Seus filhos mostraram-lhe o caminho que tomara o homem de Deus vindo de Judá, ao partir. Ele disse aos seus filhos: "Selai o meu jumento". Tendo-o eles selado, montou nele o profeta, e partiu em busca do homem de Deus. Encontrou-o sentado ao pé de um terebinto, e disse-lhe: "És tu o homem de Deus que veio de Judá?" "Sim", respondeu ele. O velho profeta continuou: "Vem comigo para comeres em minha casa". "Não posso voltar, respondeu ele, nem ir contigo à tua casa. Não comerei pão, nem beberei água contigo nesse lugar, porque recebi do Senhor a ordem de não comer pão, nem beber água, nem tampouco voltar pelo mesmo caminho por onde vim." "Mas eu sou também profeta como tu", insistiu o outro. "Ora, um anjo me falou da parte do Senhor: Leva-o contigo à tua casa e dá-lhe de comer". Era mentira. O homem de Deus voltou com ele e comeu em sua casa. 
Enquanto estavam à mesa, o Senhor falou ao profeta que o tinha feito voltar, e este interpelou o homem de Deus, vindo de Judá, nestes termos: "Eis o que diz o Senhor: Desobedeceste à palavra do Senhor e não cumpriste a ordem que o Senhor, teu Deus, te havia dado: voltaste e comeste num lugar do qual Deus te dissera: 'Não comerás pão ali, nem beberás água'. Por isso teu cadáver não será levado ao sepulcro de teus pais." 
Depois de ter comido, o velho profeta mandou selar um jumento para o seu hóspede, e este partiu. Enquanto caminhava, o homem de Deus encontrou no caminho um leão, que o matou. Seu cadáver ficou estendido no caminho, tendo ao seu lado o jumento e o leão. Alguns que passavam por ali, vendo o cadáver estendido por terra e junto dele o leão, foram e divulgaram a notícia na cidade onde morava aquele velho profeta. Ouvindo isto, o velho profeta, que tinha levado à sua casa o homem de Deus, exclamou: "É o homem de Deus que foi desobediente à ordem do Senhor; e o Senhor o entregou a um leão que o despedaçou e matou, como o Senhor lho predissera". E disse em seguida aos seus filhos: "Selai o meu jumento". Eles selaram-no, o profeta partiu, e encontrou o cadáver estendido no caminho, tendo ao seu lado o jumento e o leão. O leão não tinha devorado o cadáver, nem dilacerado o jumento. 
Tomou então o profeta o cadáver do homem de Deus, pô-lo em cima do seu jumento, e levou-o para a cidade a fim de pranteá-lo e dar-lhe sepultura. Depositou-o em seu próprio túmulo, e pranteou-o, dizendo: "Ai, meu irmão!" 
Depois do enterro disse o ancião aos seus filhos: "Quando eu morrer, sepultar-me-eis no túmulo onde repousa o homem de Deus; depositareis os meus ossos junto do seus. Porque se cumprirá a ameaça que ele fez da parte do Senhor contra o altar de Betel e contra todos os templos dos lugares altos das cidades da Samaria."

Eu e o grupo que comigo lia essa passagem ficamos perplexos. O que explica o ato desse profeta? Um profeta que mente conscientemente apenas para fazer outro desobedecer a ordem que recebera de Deus. Notem que ele também não deixou de ser um profeta (alguém que recebe diretamente revelações divinas) por sua mentira, já que no jantar é ele próprio, o corruptor, que serve de canal para a proclamar a culpa do homem de Deus. E depois de brincar tão casualmente com a vida alheia e de causar a morte do homem de Deus - sem ganhar absolutamente nada com isso - parece que se compadece e dá a ele sua própria sepultura.

A passagem é bastante enigmática. Mas um membro do grupo matou a charada: o profeta era um cientista, e o homem de Deus o objeto de seu experimento científico. Pois se aparece, vindo da nação rival, um homem com uma revelação supostamente divina, como saber se ele está dizendo a verdade? Era preciso testá-lo. O teste não era estritamente necessário, dado que o homem de Judá já tinha cumprido sua missão e  Jeroboão já tinha recebido o recado muito claro a respeito de sua idolatria. Mesmo assim, o profeta queria saber; e para isso estava disposto a fazer o homem de Deus violar sua promessa, e até causar sua morte, para só então ficar tranquilo.

Sobra, contudo, uma última pergunta: por que Deus deu ao sujeito a ordem de não aceitar comida em Isarel? Haveria algum motivo para essa ordem aparentemente arbitrária que não exatamente servir de critério para o teste do profeta? Por mais que leiamos os livros da Bíblia, eles nunca se esgotam.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

"Curaram meu câncer: a quem agradeço?"

"Esqueci qual delas era a aorta; então fiz uma oração só para ter certeza."
Salvo de um câncer, depois de uma longa e complicada cirurgia, o sujeito comenta no mural: "Graças a Deus!". Indignado, um amigo ateu dá uma estocada indireta, com um post em sua própria página: "É uma ofensa ao profissional da saúde quando agradecem a Deus ao invés dele. E todo seu estudo, e todo seu trabalho; não servem de nada? É Deus quem cura? Então da próxima vez que ficar doente, vá ao padre ou ao pastor!" Segue-se um debate não tão frutífero.

Acho que podemos, desde já, estabelecer uma solução inaceitável: agradecer somente a Deus, esquecendo-se do homem. Imagine um caso ainda mais gritante que o do médico: você está passeando com seu cachorrinho quando ele se solta da guia e corre em direção a uma avenida movimentada. Um homem que vê a cena corre até o cachorro e, com grande esforço e com algum risco para sua integridade física, salva-o e o traz de volta para você. Ao receber de volta o cachorro, você, sem se conter de gratidão, olha para o céu, estende as mãos e exclama: "Muito obrigado, Deus, por me devolver meu querido MJ!" e então segue em frente com o passeio, ignorando o homem ofegante ali na sua frente. A imagem no início do texto também pode, dependendo de como a interpretemos, ilustrar essa visão: "no fundo, é Jesus que está te operando; é ele quem guia a mão do médico."

O médico é responsável pelo salvamento? É. E Deus? Bem, Deus é o autor da realidade, inclusive desse salvador abnegado de cães; ou seja, é a causa primeira de tudo o que acontece. E portanto todas as coisas boas que ocorrem (assim como todas as más) são sim atribuíveis a Ele. Estamos aqui vivendo, gostamos muito de viver; tudo isso se deve, em última instância, exclusivamente à vontade de Deus.

Seria um erro, contudo, ver Deus e o homem "partilhando entre si" a responsabilidade do fato, como se atribuir mérito a um tirasse, nessa exata medida, o mérito do outro. "Um pouco de graças para você, e um pouco para Deus." Deus e o sujeito são integralmente responsáveis pelo salvamento de maneiras diferentes e não-excludentes. Deus, o mais óbvio, por ser a causa de tudo. Só que como Deus é a causa de tudo? Ele não pegou diretamente o cachorrinho e o colocou de volta em seu colo. Tudo o que Deus faz no universo Ele o faz por causas secundárias, isto é, pelo próprio processo da natureza. As coisas se comportam de acordo com suas naturezas, produzindo seus efeitos, e gerando novos seres e situações. É Deus que age por eles pois Ele as criou e, ademais, criou-os para especificamente este processo que de fato ocorre no mundo, até seus mínimos detalhes. Em casos mais raros, Deus age diretamente, sem causas intermediárias: chamamos a esses eventos de milagres (e deixo também um espaço aberto para o funcionamento da mente humana, que pode ser um âmbito no qual uma influência direta de Deus se dê ordinariamente; embora possa também não sê-lo).

O homem, agindo livremente como é de sua natureza, faz parte da criação divina. Ele é instrumento de Deus assim como todos os outros seres. Mas, diferentemente dos demais seres, ele age por decisão própria. Ou seja, sua participação na obra criadora de Deus não é apenas passiva, mas ativa, o que não muda o fato de que é Deus quem está por trás de tudo, mesmo da ação livre humana (o que me remete à superstição das pessoas que julgam que um evento aleatório - como um jogo de dados ou uma escolha "às cegas" de uma passagem bíblica - revele melhor a vontade de Deus do que a decisão consciente de um homem).

Assim, agradeça tanto a Deus quanto a seu médico (ou ao cara que salvar seu precioso cachorrinho): um não exclui, e nem se opõe de qualquer maneira, ao outro.

terça-feira, 31 de julho de 2012

O dilema de Abraão visto de dentro

De todas as passagens bíblicas, uma das que mais apresenta dificuldades é a ordem de Deus para que Abraão sacrifique seu filho. Abraão, perfeitamente obediente a Deus, leva Isaac ao monte, levanta sua faca e, na hora H, um anjo o impede e explica que Deus estava apenas testando sua fé. O fim da história é perfeito e fácil: Deus não queria o sacrifício humano, e o episódio todo teve um papel de teste (teste para o próprio Abraão conhecer a si mesmo e para provar sua fé aos demais homens; não, obviamente, para Deus, que tudo sabe) e também pedagógico.

Ocorre que, entre a ordem de Deus e o aparecimento do anjo, houve um período em que Abraão não sabia que se tratava de um teste, e mesmo assim o acatou. E essa decisão de Abraão é louvada em todas as correntes monoteístas que dele derivam. A disposição de matar o próprio filho, para obedecer a uma ordem divina, é vista como virtuosa. Deus, portanto, não quereria o sacrifício humano, mas quereria fiéis dispostos a assassinar um inocente se Ele assim o mandasse?

Outro problema é de ordem epistemológica. Suponha que você, pai de família temente a Deus, ouça uma voz que alega proveniência divina (se é o próprio Deus ou um anjo que fala por ele, não importa). A princípio, pode se tratar de três coisas: você pode estar alucinando; pode ser que a voz venha de um ente espiritual e seja de fato divina; e pode ser que a voz seja de um ente espiritual maléfico, demoníaco.

Como saber a proveniência da voz? Um critério é: se a voz ou a aparição pedir ou demandar algo que seja imoral, então ela não é de Deus (este critério é um dos utilizados pela Igreja católica para avaliar revelações privadas). Ora, pedir para se assassinar uma criança é bastante imoral. Portanto, pelos elementos que Abraão tinha para julgar sua situação, ele tinha melhores motivos para julgar que se tratava de uma alucinação ou de um demônio do que acreditar que o pedido vinha de Deus. A decisão correta seria rejeitar a ordem dada.

Ele seguiu a ordem, levou o filho ao monte, chegou a levantar a faca e, felizmente, a ordem viera mesmo de Deus, ele foi impedido e ponto final. Mas e se fosse um demônio ou uma alucinação? Então ele teria conseguido matar o próprio filho; ficaria ali, ensaguentado, assistindo o cadáver pegar fogo, e esse seria o fim. O homem que julgava seguir a vontade de Deus não passaria de um esquizofrênico que acabara de cometer uma barbaridade indizível, ou de um agente de Satanás num ritual horripilante.

Como salvar, ou justificar, esse que é visto como o grande ato de virtude de Abraão? Notem que o fato da ordem ter, de fato, vindo de Deus, não resolve o problema. Pois de seu ponto de vista, Abraão não tinha como saber que ela vinha de Deus. Muito pelo contrário, os elementos de que ele dispunha apontavam mais para o demônio do que para Deus. Se um homem recebesse o mesmo chamado de Abraão hoje em dia e o acatasse, seu ato seria considerado, pela Igreja e por qualquer pessoa com um mínimo de sanidade, um pecado.

Tampouco poderemos justificar o ato de Abraão apelando para alguma convicção interna de que o chamado vinha de Deus. Pois a convicção interna, seja ela qual for (seja um sentimento profundo de paz, ou uma certeza inquebrantável, ou mesmo visões esplendorosas), é apenas uma variação da experiência subjetiva humana, podendo ser produzida igualmente por Deus, pelo demônio ou por alguma alucinação.

Como, então, salvaremos o ato de nosso pai na Fé?

Parece-me que o único modo de fazê-lo é reconhecendo que Abraão - e sua tribo de pastores nômades - era uma homem tão rude e tão selvagem que, subjetivamente, não era culpável por não julgar sua situação de acordo com os critérios mais racionais e propriamente humanos pelos quais qualquer homem minimamente civilizado tem a obrigação de julgar. Do ponto de vista dele, que era um ponto de vista objetivamente muito precário e indesejável, a questão moral de respeito à pessoa humana e os problemas epistemológicos da revelação privada simplesmente não se colocavam. Tratava-se apenas da escolha de entregar ou não tudo a Deus. Que a força maior (que lhe dera um filho no passado) talvez não fosse Deus nem lhe passava pela cabeça; era uma força maior à qual ele estava submetido. Que um filho, ou seja, outro ser humano, não deva ser tratado como uma propriedade da qual o dono tem todo o direito de "abrir mão", como se fosse um televisor ou um terreno, também não lhe ocorria. O filho era seu bem mais precioso, e fora dado por Deus. Ele tinha a fé necessária para abrir mão até desse bem pelo amor/obediência a Deus? Estava disposto a entregar o bem recebido para ficar com a fonte do bem (sim, sim, aqui já é uma interpretação abstrata e filosófica que também não devia passar por sua cabeça)? Seu amor a Deus tinha transcendido o amor pelo benefício que recebera de Deus?

Nesse sentido, a ação de Abraão foi realmente virtuosa, mas só porque seu nível mental (cultural; no que diz respeito a sua natureza, Abraão era provavelmente um homem muito inteligente) era tão baixo que ele não tinha como considerar os elementos que faziam com que sua ação fosse, objetivamente falando, imoral. Ele não tinha capacidade para o bem real neste caso; sua ação refletia o melhor de que ele era capaz dadas as circunstâncias. E sendo Abraão moralmente inocente - e mais, virtuoso - ao aceitar a ordem de Deus, o fato de Deus ter emitido tal ordem não viola a bondade divina (que seria violada se Deus comandasse um pecado).

Assim, conclui-se que virtude e vício dependem das circunstâncias em que cada um se encontra; o que é vicioso em um caso pode ser virtuoso em outro, sem que, no entanto, caia-se no relativismo. A ordem objetiva da moral é mantida, reconhecendo-se apenas que a capacidade humana para se adequar a ela pode variar.

O episódio também mostra, a meu ver, como Deus faz uso inclusive das imperfeições humanas para levar adiante sua obra redentora. Fosse Abraão homem civilizado, a história não poderia ter sido assim; sua virtude teria sido pecado [edição: na verdade, acho mais exato colocá-lo de outra maneira: "a escolha que, no caso de Abraão, foi virtuosa, para um homem de hoje em dia seria pecaminosa ou, no mínimo, errônea"].

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Ao meu Anjo da Guarda

Semper illumina, custodi,
rege et guberna.
Anjo santo, mais amigo
de minh'alma do que eu mesmo,
semeia em meus pensamentos
pensamentos amorosos,
e não deixes de limpar
toda consideração
sobre mim e o meu quinhão;
porque planta alta e sem poda,
quando vê o tempo da ceifa,
frutifica frustração.

Anjo santo, eu gostaria
de esquecer todo direito
a opinar, reivindicar,
exigir como implorar.
Queima em tua espada ardente
tudo o que, vindo de mim,
a mim visa. Limpa já
toda consideração
sobre mim e o meu quinhão;
porque planta alta e sem poda,
quando vê o tempo da ceifa,
frutifica frustração.

Santo arauto de meu Pai,
purifica meu amor
na torrente incandescente
da Paixão do Bom Pastor;
Em seguida purifica
toda consideração
sobre mim e meu quinhão:
toda a culpa de meus crimes
queima no fogo infinito
de Sua Ressurreição.

quinta-feira, 8 de março de 2012

O Fogo Divino, os Santos e os Pecadores

Partiram de Sucot e acamparam em Etam, na periferia do deserto. O Senhor os precedia, de dia, numa coluna de nuvens, para lhes mostrar o caminho; de noite, numa coluna de fogo para iluminar, a fim de que pudessem andar de dia e de noite.
— Êxodo 13, 20-21

A coluna de nuvens que estava na frente postou-se atrás, metendo-se entre as tropas dos egípcios e as de Israel. Para uns a nuvem era tenebrosa, para outros iluminava a noite, de modo que durante a noite inteira uns não podiam ver os outros.
— Êxodo 14, 19-20
Já defendi em outro lugar — e é uma tese em nada estranha à autêntica tradição cristã — que a punição do inferno está intrinsecamente ligada ao estado da alma ao qual ele corresponde: amar uma criatura mais do que ao Criador. Preferir um bem finito e relativo ao Bem absoluto, que é a única fonte possível da felicidade humana, é condenar-se à miséria eterna. A dor sensível é decorrência do mal moral.

Hoje quero explorar um ponto ligado a essa idéia: a dor dos condenados e o deleite dos santos provêm do mesmo objeto. Toda a diferença entre a alma em estado de beatitude e a alma condenada reside na disposição delas perante Deus. Quero ilustrar isso com a imagem do fogo, muito cara à tradição católica, que é composta basicamente da Bíblia, dos ensinamentos magisteriais e dos escritos de santos e místicos.

A primeira imagem que nos vêm à cabeça quando falamos de fogo num contexto cristão é o Inferno. A dor dos condenados sendo consumidos por seus próprios crimes, remorsos e desejos maus é comumente representada pelo fogo, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. O próprio Cristo, por exemplo, explica a parábola do joio e do trigo: “O joio são os filhos do maligno. [...] Como se junta o joio para ser queimado ao fogo, assim acontecerá no fim do mundo. O Filho do homem enviará os anjos e eles recolherão do Reino todos os escândalos e todos os promotores da iniquidade, e os jogarão na fornalha de fogo, onde haverá choro e ranger de dentes” (Mateus 13, 38.40-42). O remorso e o desespero de se saberem claramente maus consome a alma dos condenados; os desejos desordenados de sua vida agora queimam com intensidade máxima; com a morte, a alma dirige-se, determinada e sem titubeios, àquilo que amava em vida. O fogo é uma imagem particularmente forte: é aquilo que a tudo consome e destrói, implacável e doloroso.

Mas essa imagem aparece também em outro contexto: para falar de Deus. A mesma passagem acima continua: “É então que os justos brilharão como o sol no reino do Pai.” João Batista batizava com água, mas anunciava alguém que viria batizar “no Espírito Santo e no fogo”. O Espírito Santo, quando desce aos apóstolos (pouco depois da ascensão de Jesus ao céu), aparece como “línguas de fogo”.

Cristo diz que veio “pôr fogo à terra”. Pensamos em primeiro lugar na justiça terrível a ser feita contra os maus e impenitentes. Mas esse mesmo fogo efetua a salvação dos justos. Explica S. Paulo: “Se sobre este fundamento [Jesus Cristo] alguém edifica ouro, prata, pedras preciosas ou madeira, feno, palha, a sua obra ficará manifesta, pois em seu dia o fogo o revelará, e provará qual foi a obra de cada um. Se a obra constituída sobre o fundamento resistir, o autor receberá o prêmio, e aquele cuja obra for consumida sofrerá o dano; ele, todavia, se salvará, mas como quem passa pelo fogo.” (I Coríntios 3, 12-15). Aqui a oposição não é entre os justos e os condenados, mas entre os justos que se santificam ainda em vida e aqueles que, embora estejam no caminho bom, embora ergam suas obras no fundamento de Jesus Cristo, ainda deixam muito a desejar. É o fogo o teste que revela a obra de ambos. E aqueles cuja obra não resistir ainda terão que passar “pelo fogo” mais uma vez, isto é, pela purificação além-morte, pelo mesmo fogo dos condenados, mas numa duração finita. Em suma, o estado que se convencionou chamar de Purgatório. O fogo consome, mas também purifica e endurece. A argila temperada no fogo (imagem minha), resiste àquilo que quebraria a argila mais frágil.

O fogo também é usado para representar o amor, como no “fogo que arde sem se ver” de Camões. S. Tomás de Aquino usa a mesma imagem para o efeito do fogo: aquecer. Assim como o mesmo fogo age com maior força no que está perto do que no está distante, assim também a caridade ama com maior fervor aqueles que estão unidos a nós do que aqueles mais distantes; e sob esse aspecto o amor pelos amigos, considerado em si mesmo, é mais ardente e melhor do que amor pelos inimigos.” (ST, II-II, q. 27, a. 7). “Deus é amor”, diz S. João. E o que é o fogo do amor-caridade senão o próprio Deus enquanto vive e age na alma humana? Com efeito, o coração de Cristo é sempre representado, na arte sacra, como um coração em chamas.

Nessa mesma linha, o misticismo ocidental usa a imagem do fogo para descrever a ação do Espírito Santo. João de Ruysbroeck (não sei se é o primeiro a usar a imagem a seguir; mas é o primeiro que me lembro diretamente), monge flamengo do século XIII, bota nestes termos: “Se um homem quiser penetrar mais fundo, com seu amor ativo, nesse amor de fruição: então todas as potências de sua alma devem ceder, e devem sofrer e pacientemente suportar a Verdade e o Bem penetrantes que são o próprio Deus. Assim como [...] o ferro é penetrado pelo fogo; de modo que ele faz, pelo fogo, as obras do fogo, pois ele queima e brilha como o fogo. [...] E no entanto cada um permanece com sua própria natureza. Pois o fogo não se transforma em ferro, e o ferro não se transforma em fogo, embora sua união seja não-mediada; pois o ferro está dentro do fogo e o fogo está dentro do ferro…”. Essa imagem é muito rica, e mais tarde rendeu um novo elemento: é pela ação do fogo que o ferro se torna moldável, ou seja, dócil à ação do Espírito na alma que efetua a transformação espiritual e moral do indivíduo, que passa a se assemelhar a Deus e a participar de sua natureza. Como o metal que participa do fogo, a criatura participa do Criador, ainda que ambos preservem suas naturezas. O Céu, lembrou Bento XVI esses dias, é viver no amor de Deus. Portanto, por essa imagem, o Céu, tanto quanto o Inferno, é fogo.

Voltemos à Bíblia: na parábola do semeador que joga suas sementes pelo caminho, é o mesmo sol que faz as plantas nascerem e crescerem e que faz com que aquelas que crescem em solo pedregoso sequem e morram. Quero, com tudo isso, apenas apontar um fato: depois dessa vida, nos encontramos com Deus. E o estado da nossa alma consiste na nossa reação a esse encontro. Para uns é o fogo do amor unitivo, para outros o da purificação esperançosa e para ainda outros o fogo da destruição. Santos e condenados se encontram na presença de Deus. A distância que os separa é a distância espiritual entre amar o Bem ou detestá-lo. Para os egípcios a coluna de nuvens/fogo cegava e aterrorizava; para os judeus, guiava e protegia. É como escreveu C. S. Lewis: “No final há apenas dois tipos de pessoa: as que dizem para Deus ‘seja feita a Vossa vontade’, e aquelas a quem Deus diz, no fim: ‘seja feita a vossa vontade’”.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

A Ordem do Universo Prova a Existência de Deus?

Muito comum o maravilhar-se com a ordem do cosmos e ver, por detrás dela, uma inteligência divina. Afinal, todas as coisas se encaixarem tão bem, produzindo ordens desde o maior até o menor plano que a inteligência humana alcança, parece que tem que haver algum ordenador externo.

Contudo, considerem um exemplo pequeno de ordem: jogamos água num copo cujo interior é completamente irregular e, voilà, depois de alguns instantes a água adquiriu o exato formato, muito complexo, do interior do copo. Onde está a inteligência para garantir que a água adquira precisamente esse formato, e não outro?

Claro, sabemos que pela leis da física, ela tem que adquirir esse formato. Muito bem; mas então precisamos de uma inteligência para garantir as leis da física! Pera lá: aquilo a que chamamos de leis da física são expressões abstratas, em geral matematizadas, de como os seres se comportam. E eles se comportam de acordo com suas naturezas. Logo, a lei da física não é algo exterior, imposto aos corpos, mas algo que decorre de suas naturezas (ok, podemos discutir isso aqui também, mas me parece uma opção bem mais parcimoniosa do que dizer que existem os corpos e que as leis da física são impostas sobre eles, de forma que eles poderiam continuar idênticos mas operar sob leis diferentes). Portanto, é da natureza da água que ela se comporte dessa maneria. E dado que tudo o que é é aquilo que ele é, então seria impossível que a água não manifestasse essa ordem.

Isso vale para todos os seres. Tudo é aquilo que ele é. Portanto, não importa como fosse o universo, não importa que seres existissem, ele teria ordem. "Quem garante que, dando um passo para frente, não chovam donuts de chocolate vindos do nada e que o sistema elétrico que usávamos até ontem simplesmente simplesmente pare de funcionar embora nada tenha quebrado nele? O universo poderia ser completamente caótico." Isso é ilusão verbal. Dado que a realidade é como é (ou seja, que o universo seja composto de tais e tais seres). tais eventos são impossíveis, pois envolvem contradições. Envolvem que, digamos, os elétrons deixem de ser elétrons, que uma natureza seja e não seja ela mesma.

Você me dirá "Ok, mas como e por quê esses seres existem? É preciso um Criador.". E daí concordo plenamente. O que discordo é que, para além da existência, seja necessária uma inteligência para garantir a ordem, pois, conforme meu argumento, dada a existência, a ordem se segue necessariamente.

Há, contudo, um motivo pelo qual acho que a ordem do cosmos aponta (embora não prove) a existência de Deus. O motivo é um argumento que sempre me pareceu meio fraco, mas que hoje reconsidero. Sim, o universo necessariamente tem ordem. Mas isso não nos diz sobre qual ordem, ou melhor, qual o nível de ordem, de distinção entre diferentes tipos de seres. A sopa entrópica final tem uma ordem, mas comparada com a realidade de hoje em dia mais se assemelha ao puro caos, devido à sua homogeneidade. Enfim, a ordem do universo não precisava incluir coisas como a vida, e muito menos a vida humana (negar isso é afirmar que a matéria produz a vida, e mais, a vida humana, necessariamente - o que já é, na minha opinião, uma teologia). Aliás, chama a atenção a improbabilidade da vida humana, que é algo substancialmente superior a tudo o mais que existe no universo.

E há algo que fere nosso senso de justiça (no sentido menos usual do justo como aquilo que cabe, que faz sentido e está no lugar certo) mais profundo em se dizer que um universo tal como o nosso, que permite nossa existência, seja um fruto do acaso sem finalidade. Mas claro que esse senso não prova nada, e por isso o argumento não demonstra a existência de Deus. Mas a indica.
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