Mostrando postagens com marcador Juliano Torres. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Juliano Torres. Mostrar todas as postagens

domingo, 5 de agosto de 2012

Por que não existe um partido de “direita” no Brasil?

Volta e meia aparece alguma matéria ou texto na imprensa de alguém perguntando e tentando explicar a ausência de partidos de direita no Brasil. Eles acabam usando a direita para englobar conservadores, neoconservadores, libertários e esse povo xenófobo como os integralistas e autoritários de outras estirpes. Não concordo com essa classificação (prefiro me classificar como Libertário), mas o fato é que essas correntes ideológicas não têm representação política no atual cenário partidário brasileiro. 

E entendendo isso, acredito que a resposta para a pergunta seja muito mais simples do que acabam apontando. A inexistência desses partidos mais fortes ideologicamente (os de esquerda também estão cada dia mais sem ideologia) é uma consequência direta da existência e dependência dos partidos ao fundo partidário. 

Sim, esse é o principal motivo. A existência da ditadura também é um fator para atrapalhar a vida dos conservadores, assim como questões culturais, mas acredito que os recursos estatais sejam de longe o maior impedimento. 

Para servir de comparação, vejam o caso americano. Apesar de lá também existirem alguns fundos estatais para os partidos, eles dependem muito mais de doações privadas para ganhar eleições e se manter do que no Brasil. E o resultado disso é que eles têm que se fortalecer ideologicamente para atrair esses doadores. Defender qualquer coisa não fará as pessoas doarem para uma campanha. 

Aqui no Brasil já ocorre o contrário, e com a independência que os partidos políticos brasileiros têm da ideologia dos grupos que compõem a população, vemos partidos como o PMDB que tem mais de 1 milhão de filiados. Se esses filiados tivessem que pagar anuidades, arrisco dizer que não existia 1% dos atuais, a não ser que o partido incorporasse alguma ideologia específica. 

Um dos resultados diretos de fazer isso seria a existência do partido “Democratas” realmente conservador (não que isso seja bom) e alguns outros partidos que seriam chamados de “direita” provavelmente iriam surgir. Os partidos de esquerda iriam acabar se aglomerando em alguns poucos, mas não veríamos uma desideologização da esquerda, mas também um fortalecimento do discurso deles com as bases; que é o contrário do que vem acontecendo com o partido democrata nos EUA, que cada dia mais depende de recursos do estado e vê a sua base e ideologia se enfraquecerem em consequência. 

Então se você quer um partido de “direita” no Brasil, a única panaceia disponível é aumentar o peso que as pequenas doações têm no financiamento dos partidos; até mesmo colocando 100% de desconto no imposto de renda para essas doações com um teto absoluto.

domingo, 1 de julho de 2012

Você gostaria de viver para sempre?

Se já conversei com você mais de uma vez, provavelmente você já deve ter sido indagado sobre isso. Não tenho como rotina fazer essa pergunta, mas acredito que seja uma forma simples de entender um pouco sobre a pessoa com a qual estou lidando e ao mesmo tempo satisfazer uma espécie de curiosidade, ou seja, entender por que as pessoas são fatalistas em relação à morte ou, em termos mais corretos, por que elas não gostam de viver. 

Acredito que seria bem adequado falar aqui sobre como o cristianismo é um dos maiores fatores na geração dessa visão pessimista (ou às vezes otimista) sobre a morte, mas não sou nem de longe um conhecedor da teologia cristã e deixo isso para outras pessoas do Ad Hominem que vão poder abordar de uma forma melhor esse tema. Com isso só quero destacar que a religião é um dos fatores, mas não é o único. 

Dito isso, tenho a impressão de que os maiores fatores para as pessoas não verem com bons olhos viver para sempre são coisas simples como medo do desconhecido, medo de não adaptação e a sensação de que a vida não é algo que vale a pena, pois na minha visão a maior parte das pessoas não tem um projeto de vida, e quando tem, não o seguem como gostariam. 

Toquei nesse tema porque nas últimas semanas foram publicadas algumas reportagens sobre criogenia na imprensa brasileira. O caso em que ela está ocorrendo é altamente bizarro, mas a imprensa até que está dando uma cobertura justa ao fato. Acho bizarro porque a pessoa não manifestou o desejo de ser congelada; e no final das contas o caso é simplesmente uma filha apegada ao pai que quer ressuscitá-lo, não se importando com o que ele acharia disso. Como vivo dizendo, isso não é egoísmo, é exatamente o oposto, a indiferença. 

Dando certo ou não a saga da filha para enviar o corpo do pai para o túmulo de criogenia, não acho que atualmente a criogenia tenha muitas chances de sucesso. Mas mesmo assim, pretendo em breve estar inscrito no programa, já que alguma chance é melhor do que nenhuma. O problema principal na minha visão é que provavelmente devemos estar fazendo algo errado no processo de congelamento, o que vai impedir que a pessoa seja ressuscitada ou fazer com que a mente se perca no meio do caminho. 

Mas o motivo do texto é fazer um questionamento se baseando em um cenário que a criogenia funcione. Se você fosse congelado e só fosse possível ressuscitá-lo daqui a 300 anos e nenhuma das pessoas que você conhece atualmente estivessem vivas, você gostaria de viver? Para minha surpresa, grande parte das pessoas a que faço esse questionamento responde que preferem estar mortas. 

As explicações ficam variando entre não devo conseguir me adaptar a um mundo completamente diferente e não faria sentido viver sem as pessoas que tenho ao meu redor. 

Esse tipo de dilema é reproduzido de alguma forma no filme Vanilla Sky (ou Abra Los Ojos na versão anterior em espanhol) e acredito que seja facilmente rebatido. Penso que cada vez que o agregado de tecnologia aumenta fica mais fácil de viver em determinado contexto; sendo assim, é mais fácil viver bem hoje em dia do que na ideia média ou na idade antiga. Quanto a isso, não há necessidade de preocupação, até porque se alguém tem implantes para melhorar a Inteligência nesse mundo novo, você também poderá ter. Quanto ao círculo social, já era de se esperar esse apego aos amigos e familiares. Isso é parte importante de nossas vidas e de alguma forma é algo insubstituível, mas você nasceu sem conhecer nenhum deles e não seria algo mais traumático do que os colonizadores do novo mundo ou mudar atualmente para o outro lado do mundo. 

Mas ainda existe um terceiro receio quanto ao futuro, que é a predominância do digital sobre o não-digital, dando calafrios em boa parte das pessoas. Isso levanta uma série de temas sobre o que pode ser considerado real e verdadeiro e até que ponto vamos conseguir conviver com a inteligência artificial e no final das contas pode ser um ponto extremamente complicado para a maior parte das pessoas que não têm um ponto de vista positivo sobre isso, porque nesse caso é importante existir durante a transição para ir incorporando a aceitação a esse tipo de contexto; isso seria de forma ampliada o choque que as pessoas da década de 40 e 50 teriam com o mundo digital atual.

Então, você gostaria de viver para sempre?

sábado, 5 de maio de 2012

Um test drive intelectual


O vídeo abaixo é um documentário que tenta estabelecer uma teoria sobre o todo, usando como base teorias recentes da neurociência, relatividade geral, mecânica quântica e muitas outras. O tom do documentário não é nada parecido com coisas como "O Segredo" ou "Zeitgeist", apesar da estética e do título às vezes lembrar esse tipo de documentário que não tem nada de sério.

Ele fica um pouco menos sério porque o criador da "Teoria do Todo" é conhecido como Athene, que é autointitulado o maior jogador de jogos online de todos os tempos; e pelo que pesquisei na internet, seus recordes são realmente dignos do título. Além disso, ele não tem formação em nenhum dos campos que ele aborda e é extremamente novo. Em geral isso costuma diminuir a credibilidade, mas é bem possível que alguém aprenda e consiga criar uma teoria revolucionária sem precisar entrar na Academia; não criei nenhuma teoria revolucionária na economia e política, mas entendo relativamente bem do assunto sem ter aprendido isso no meio acadêmico. No mínimo o sujeito merece o crédito pela criatividade.

Falando mais diretamente sobre os temas tratados, na parte que está legendada no momento - que é a parte completa que fala sobre neurociência - são abordadas ideias de porque em alguns momentos as pessoas não conseguem absorver alguma ideia e em outros consegue com muita facilidade, o que muda no mundo desde o descobrimento dos neurônios espelho, pensamentos sobre sistema de crenças, o que nós somos, uma nova fundação da moralidade e até porque matar outra pessoa pode ser matar uma parte de nós mesmos. Enfim, existem coisas comprovadas no meio do documentário, mas muito do que é apresentado é a teoria original do Athene; então críticas e pensamentos sobre serão essenciais nos comentários, principalmente porque não existe nenhum artigo comentando ou refutando o documentário na internet.


domingo, 29 de abril de 2012

Pensando fora da caixa sobre a Revolução Industrial

O que causou a Revolução Industrial? Por que ela não ocorreu antes na China ou em Roma? Essas duas perguntas geralmente são evitadas em qualquer conversa ou até mesmo livros de historiadores. É muito mais fácil simplesmente narrar a ocorrência dos fatos utilizando uma linha do tempo, gráficos e fotos bonitas, objetos da época e até mesmo história de pessoas comuns. O problema é que isso só desvia a atenção da falta de uma explicação aceitável e que ao menos pareça definitiva sobre o que causou a Revolução Industrial na Inglaterra. 

A explicação tradicional é que a Inglaterra reunia naquele exato momento um contexto com instituições necessárias para esse salto civilizatório juntamente com a existência de depósitos de carvão que poderiam ser extraídos com relativa facilidade. O problema com essa explicação é que esse mesmo ambiente existiu em diversos outros momentos da história e com outras sociedades, com mais destaque para a China e Roma antiga. Isso não quer dizer que essa explicação está errada, mas que ela está incompleta. 

Um ponto de vista destacado por alguns historiadores nos últimos anos é a influência que o pensamento holandês teve para gerar essas transformações na Inglaterra. Alegam que os holandeses foram pioneiros no que conhecemos como engenharia atualmente, que é utilizar teorias abstratas para criar equipamentos concretos que facilitam a nossa vida. O problema dessa alegação é que a engenharia não surgiu nesse momento, já que esse tipo de comportamento sempre existiu, mas também podemos conceder o ponto que isso se deu de forma mais generalizada na Holanda naquele período que em qualquer outro momento na história, quer dizer, os romanos tinham conhecimentos avançados de engenharia e isso me transpareceu também como algo generalizado. 

Um terceiro enfoque que pode ser usado para complementar a explicação tradicional é a ideia de aleatoriedade. É a ideia de que alguns indivíduos excepcionais nasceram e conviveram na mesma época e conseguiram ligar os pontos para gerar o que conhecemos como a Revolução Industrial. Por isso a referência ao pensar fora da caixa no título. Esses empreendedores e inventores (no caso inglês eram a mesma pessoa) conseguiram “pensar fora da caixa” do seu tempo e ligaram os pontos de forma correta, utilizando o carvão como combustível e outros métodos que aumentaram a produtividade de forma incrível. Nada de errado com essa explicação, até porque talvez ela esteja presente em qualquer mudança histórica, mas ela é difícil de ser verificada – acredito até mesmo que esse grupo de notáveis ocorreram em diversos outros momentos da nossa história, como a Athenas, Vienna e a Revolução Americana. 

Mas como essa explicação tradicional com os seus adicionais não explica definitivamente o motivo pelo qual a Revolução Industrial não ocorreu antes – o caso da China é emblemático porque eles eram mais evoluídos tecnologicamente que a Inglaterra naquele período, além de terem melhores instituições que são consideradas propícias para a produção industrial – surgiram diversas teorias que tentam explicar isso, e a maioria parece tentar “pensar fora da caixa” de forma radical. 

Uma a que Eu tenho prestado bastante atenção é a do pensador Hans-Hermann Hoppe. Hoppe alega que a peste negra gerou uma pressão de seleção natural em um período de cerca de dois séculos, o que fez com que houvesse uma seleção dos mais inteligentes (que ele diz que sobreviveram em maior quantidade à peste) e com isso pessoas mais inteligentes tornaram possível a Revolução Industrial. Está chocado com essa explicação? Eu também fiquei. Mas a explicação não é tão maluca e sem sentido quanto parece; há alguns pontos interessantes na ideia. 

Meus conhecimento de biologia e genética me fazem desacreditar completamente que esse tipo de mudança genética possa ocorrer em um período tão curto de tempo. Porém, lembro de ter visto uma pesquisa alguns anos atrás dizendo que existiam alguns indícios de mudanças genéticas em povoados do Caribe em menos de 500 anos. Isso não prova nada, principalmente porque talvez não existam um maior número de pesquisas sobre isso, mas já mostra que ao menos existe algum tipo de possibilidade disso acontecer. Porém, mesmo partindo do princípio de que esse tipo de mudança genética ocorreu em um curto espaço de tempo, a ideia de que existem genes da inteligência é altamente questionável, até porque definir inteligência me parece uma tarefa inglória e vai muito além de sobreviver à peste negra. 

Outro ponto que ajuda a teoria é uma pesquisa recente indicando que é possível que os ingleses tenham um pool genético mais propenso a ideias individualistas que os povos em geral, principalmente os asiáticos que estariam no outro extremo, o do coletivismo. Temos aqui o problema de ligar algumas coisas que são altamente culturais à genética, mas não tenho como comentar muito sobre isso; talvez faça sentido, mas não me parece algo que se possa usar para embasar alguma coisa. Mas lembro que essas diferenças genéticas são possíveis já que é relativamente famoso o caso de um povoado na Itália em que as pessoas têm uma mudança genética que garante a eles a imunidade ao vírus da aids. 

Sendo assim, mesmo faltando à teoria provas extraordinárias, já que as alegações são extraordinárias, e o próprio autor não ter dado nenhuma prova, já que disse que a Revolução Industrial ter acontecido é a prova da sua teoria (o tal argumento circular débil mental), a ideia não é uma total maluquice já que de acordo com alguns estudos isolados há uma possibilidade remota dela ser verdadeira, apesar de não levar essa probabilidade muito a sério. 

Essa explicação dos motivos que levaram a Revolução Industrial seria algo que preencheria os pontos de disputa atualmente, mas seu tom é altamente politicamente incorreto para os nossos dias, mesmo com os avanços da ciência evolucionária nos últimos anos, além da falta de credibilidade do autor para tratar sobre o tema que embasa sua teoria, incluindo ai a sua falta de vontade de provar ou mostrar quais os indícios de que isso ocorreu, já que essas fatos foram descobertos em pesquisa que Eu fiz de forma totalmente desvinculada da explicação dada por Hoppe. 

Esse é talvez um dos poucos artigos em que não concluo alguma coisa, então aproveitem porque isso é algo raro e se possível indiquem pontos que possam ajudar ou atrapalhar essa teoria e a tradicional, além de trazer alguma outra explicação que Eu possa não conhecer, como a de que o café foi o responsável por tudo.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

O Brasil será mais livre daqui a 10 anos?


Escuto com certa frequência libertários dizendo que não viverão em liberdade em seu tempo de vida. Não apenas que eles não viverão em total liberdade, mas que dificilmente eles terão muito mais liberdade do que existe atualmente. Como você pode não desconfiar, eles estão errados, por três motivos.

O primeiro motivo é que, como um Transhumanista, não acredito nessa questão de que “a única certeza que temos na vida é que vamos morrer”. Sendo assim, as pessoas terão que no mínimo esperar que a situação vá continuar dessa forma ou pouco pior ou pouco melhor nos próximos anos. Acredito que a estimativa de vida que essas pessoas têm sobre si mesmas não passe de 100 anos, então eles só pensam que em cerca de 70 anos a liberdade não dará as caras no Brasil.

O segundo motivo é que essa visão fatalista (tão tradicional e presente entre os brasileiros) esconde a revolução que está acontecendo. E a palavra revolução aqui é bem adequada, porque muita gente não faz ideia de como o movimento libertário está crescendo no Brasil. Mas o motivo do meu realismo (ou talvez otimismo) é que prevejo que o movimento libertário brasileiro será tão relevante por aqui quanto o americano é por lá atualmente, senão maior do que o que existe lá atualmente.

Isso acontecerá devido à existência de um grande movimento libertário americano, que acaba gerando uma externalidade positiva gigantesca para os libertários brasileiros. Nós não precisamos nos dar ao trabalho de criar muita coisa, devido a existência desse material em inglês, o que faz com o nosso principal trabalho seja aprender o que eles já fizeram, copiar o máximo possível e focar nossas forças restantes em criar soluções somente para nossos problemas e realidade específica. Com isso, vamos alcançar os americanos muito mais rápido do que eles demoraram para chegar a esse nível de movimento pela liberdade, da mesma forma que a China, Japão ou Coréia do Sul estão alcançando a renda per capita americana muito mais rápido do que se estivessem isolados do mundo.

O que as finanças foram (e ainda são) para acelerar o crescimento econômico sem precisar de acumulação de capital e invenções locais, é o que a internet é para o embate de ideias, que faz com que o custo de transação entre libertários (e todos os outros grupos) seja reduzido drasticamente, fazendo com que as melhores ideias sejam copiadas e compartilhadas mais rapidamente.

E por fim, o terceiro motivo para ser otimista quanto ao futuro da liberdade é que o status quo estatista é muito mal organizado no Brasil, ficando muito mais fácil tomarmos o debate público por aqui que os libertários tomarem o debate público nos Estados Unidos. Não existe nenhum grande instituto sério defendendo o estado e o nível de pesquisas e argumentos dos estatistas são algo difícil de ser levado a sério, deixando evidente para todos quem está certo. Como a propagação deles depende de criar cabides no estado, quanto mais formos vencendo no campo das ideias (e isso vai continuar crescendo exponencialmente por um bom tempo), mais rapidamente vamos conseguir eliminar o poder da máquina estatal e dessa forma assegurar o declínio do estatismo de uma vez por todas no Brasil.

Se há um local em que existe uma conjuntura positiva para a liberdade no futuro, esse local é o Brasil. Podem esperar que em cerca de 10 anos já seremos muito relevantes nos rumos que a sociedade brasileira buscará.

quarta-feira, 7 de março de 2012

A estratégia do Ron Paul está funcionando?

Libertários que estão acompanhando as prévias do partido Republicano (GOP) para as eleições presidenciais de 2012 nos Estados Unidos parecem desanimados com os resultados obtidos por Ron Paul, principalmente depois da Superterça que ocorreu ontem. Como Eu não compartilho desse pessimismo e dessa visão de que ele está indo mal nas prévias, vou tentar explicar aqui de forma resumida por que Ron Paul está fazendo tudo certo para ter alguma chance de se tornar o próximo presidente americano. 

A estratégia de Ron Paul – ou de seu cunhado e gestor da campanha Jesse Benton – é conseguir o maior número de delegados possíveis. Até ai nenhuma novidade porque todos os candidatos querem atingir a marca de 50% dos delegados e encerrar a disputa e com isso poder começar a focar a campanha em Barack Obama. Mas a diferença da estratégia do Ron Paul nessas prévias para os outros candidatos é que ele está levando a sério as regras que existem e com isso focando exclusivamente em obter delegados, mesmo que os delegados acabem não expressando o que a maioria dos eleitores do GOP desejam ao sair de casa e dar uma quantidade de votos maior para os outros candidatos do que para o Ron Paul. E isso só é possível porque o sistema eleitoral americano é extremamente complexo (alguns diriam que é propositalmente confuso) e principalmente devido à existência do que eles chamam de caucus. Nos caucus, o que importa é obter a maioria dos delegados, que não são selecionados pelo voto popular, apesar da escolha deles vir acompanhada de votações. Sabendo disso, a campanha do Ron Paul está focando (há muito tempo com o Campaign for Liberty) em fazer os libertários galgarem posições de comando no GOP e em se tornarem os delegados aonde eles são escolhidos por meio de caucus. 

Entender o que está sendo feito é a primeira etapa para saber se o sucesso está chegando ou não. E pelas minhas lentes parece que está tudo ocorrendo como o planejado. É claro que Ron Paul poderia ganhar votações populares em alguns estados e atrair mais atenção da mídia, mas isso demandaria muito mais dinheiro e duplicaria esforços, tornando a estratégia dos delegados menos efetiva. E o apoio da mídia não viria da mesma forma que vem para os outros candidatos porque as suas posições não são apenas polêmicas, são uma ameaça a “tudo que está ai”. 

Uma outra questão que desanima os simpatizantes são as contagens “oficiais” de cada canal/jornal, já que não existe uma contagem oficial feita pelo GOP. Os dados da CNN, Fox, Real Clear Politics e muitas outras diferem bastante quanto ao número de delegados que cada candidato tem, mas eles têm algo em comum: Ron Paul sempre está em último. E isso é a demonstração de que eles não entenderam a estratégia do Ron Paul ou estão achando que ele não está sendo bem sucedido em colocá-la em prática. Mas de acordo com relatórios de sites de militantes e a campanha do Ron Paul, eles estão conseguindo um bom resultado em infiltrar seus membros nos caucus. Até mesmo a mídia volta e meia cita o nível de dedicação dos militantes do Ron Paul, que é uma prova de que ele tem os recursos humanos necessários para conseguir isso. Uma prova mais evidente é que devido às acusações de fraudes para prejudicar os votos do Ron Paul, diversos diretórios estaduais do GOP estão caindo; e em todos eles o diretório está sendo inteiramente formado por gente do Ron Paul. A estratégia de tomar o partido está funcionando, como ficou claro nas eleições internas e Iowa e Nevada e as que vão acontecer agora no Maine, só pra citar alguns exemplos. 

Mas pra não ficar sem algo pra mostrar, segue abaixo uma estimativa minha de quantos delegados o Ron Paul tem, que é tão arbitrária quanto as outras contagens não oficiais, mas ao mesmo tempo leva em conta a particularidade dos caucus. 

Iowa: 22 delegados (estimativa)
New Hampshire: 3 delegados (primária)
South Carolina: 0 delegados (primária com o vencedor levando tudo)
Florida: 0 delegados (primária com o vencedor levando tudo)
Maine: 19 delegados (estimativa)
Nevada: 22 delegados (estimativa)
Colorado: 28 delegados (estimativa)
Minnesota: 32 delegados (estimativa)
Arizona: 0 delegados (primária com o vencedor levando tudo)
Michigan: 0 delegados (primária)
Washington: 34 delegados (estimativa)
Alaska: 21 delegados (estimativa)
Georgia: 0 delegados (primária com o vencedor levando tudo)
Idaho: 25 delegados (estimativa)
Massachusetts: 0 delegados (primária)
North Dakota: 22 delegados (estimativa)
Ohio: 0 delegados (primária)
Oklahoma: 0 delegados (primária)
Tennesse: 0 delegados (primária)
Vermont: 4 delegados (primária)
Virginia: 3 delegados (primária híbrida)
Wyoming: 20 delegados (estimativa)

Parece surreal Ron Paul ter 255 delegados? Parece sim. E por isso avisei que essa contagem é tão arbitrária quanto a contagem dos principais veículos, pois não tem como saber o número real de delegados nos caucus até a convenção estadual do estado, que ainda vai demorar bastante em todos eles. Essa estimativa é a feita por diversos membros do GOP que fazem campanha pro Ron Paul e estiveram presente nas assembleias que definiram os delegados; e por isso pode não ser uma fonte confiável, mas é uma possibilidade real, já que eles estão vendo o processo acontecer, e a estratégia da campanha é conseguir isso. Por fim, agora que a Superterça passou o próximo mês deve ser o melhor para o Ron Pau, já que nele acontecem cinco caucus quase seguidos, terminando com isso sua estratégia de explorar os caucus; porque daí pra frente só restam 25 primárias, e ai o Ron Paul vai ter que jogar o jogo das primárias e não sabemos o que pode acontecer. Mas mesmo se ele só ficar com o número de delegados que tem agora, ele vai chegar com força na convenção, já que nenhum dos outros 3 candidatos devem conseguir os 50% necessários para obter a nomeação automática, o que não acontece há muito tempo, e com isso abrindo espaço para que possam aparecer candidaturas de consenso como Rand Paul, Sarah Palin e até mesmo Judge Napolitano.

P.S.: Correção do número dos delegados. Os números continuam os mesmos, mas a somatória estava dando um resultado menor que a soma dos estados. Com isso o número total passou de 225 para 255.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Transhumanismo e uma “nova” teoria da mente

O Transhumanismo é um movimento que surgiu há duas décadas e que defende que o homem deve buscar uma integração com as máquinas, gerando o que é conhecido como pós-humano. Apesar desse movimento e a roupagem que ele utiliza serem bem recentes, a ideia de se fundir com os outros materiais é um sonho antigo da humanidade, presente em mitos gregos, indianos, chineses, etc. Mas dada a evolução recente da tecnologia, pela primeira vez na história esse sonho parece algo factível, principalmente quando entendemos a dinâmica da ciência como algo que segue a Lei de Moore.

Em alguma medida somos todos Transhumanistas na atualidade. Achamos comum o uso de implantes dentários, válvulas no corpo e até mesmo quando isso é utilizado para questões estéticas, como o silicone. O ponto que começa a gerar problemas para algumas pessoas é quando a máquina que está sendo inserida no ser humano passa a torná-lo mais poderoso que os humanos normais, como algumas pernas que podem vir a existir nos próximos cinco anos. Sendo assim, haverá aceitação de uma pessoa que mesmo com uma perna sadia resolver arrancá-la e colocar uma feita em laboratório? E a questão da imortalidade do indivíduo, a humanidade está preparada para enfrentar as mudanças drásticas que vão ocorrer nesse processo?

Falando em imortalidade, acabei escrevendo sobre esse tema porque tive uma discussão recente sobre a possibilidade de transferir a mente de uma pessoa para um recipiente para em seguida ser colocada em outro corpo; a questão girou em torno desse assunto porque já tínhamos estabelecido que todas as outras partes do corpo poderiam ser alteradas sem nenhum problema. O primeiro problema dessa discussão é conseguir chegar a um consenso sobre o que nos torna um indivíduo. Minha visão da questão pode ser entendida utilizando alguns nomes da informática. Para mim o cérebro é o hardware e a mente é o software. Sendo assim, não ajuda em nada ficar tirando ressonâncias e tomografias do cérebro porque elas não vão dizer muita coisa, só irão mostrar onde determinadas capacidades (programa) estão rodando no cérebro; você não vai encontrar conceitos escritos em algum lugar do tecido cerebral e nem mesmo quem você é. Com isso, a minha definição do Eu (indivíduo) é o software único que está em funcionamento na cabeça de cada um.

Com essa definição, não consigo ver nenhuma impossibilidade de se transferir o Eu de determinada pessoa para um novo corpo gerado para ela, mantendo a vida dessa pessoa eterna. Uma das alternativas a essa ideia de ver a mente como um software é a que considera que o Eu está fisicamente presente no tecido cerebral; ou até mesmo a corrente que entende que o Eu está na alma e por isso não pode ser encontrado.
Lembro que quando ainda era muito pequeno já conhecia essa ideia de que o Eu se encontrava no espírito devido a minha mãe ser espírita. Curiosamente sem ter o menor contato com Transhumanismo ou qualquer coisa parecida Eu vivia dizendo que não iria morrer nunca (com minha mãe acrescentando, já que Eu não lembro, que Eu dizia que quando ela ficasse velha era só tomar uma pílula que rejuvenesceria novamente) e cheguei a propor uma alternativa para testar essa hipótese da mente existir no espírito, que era fazer um transplante de cérebro entre duas pessoas; porque se os corpos se trocassem, ao menos teríamos uma evidência forte de que de alguma forma o Eu se encontra dentro da caixa craniana, mesmo ainda existindo a possibilidade do espírito acompanhar o cérebro, etc.

Mas somente nessa teoria do Eu conter no espírito que não permite que a tecnologia nos torne imortais, porque na teoria do Eu estar grava no cérebro e ser a ligação entre os neurônios, é só uma questão de desenvolver a técnica certa para extrair o Eu de um corpo e passá-lo para outro.

Sendo assim, não há nenhum impedimento teórico que impeça o desejo dos Transhumanistas; tudo então não passa de uma questão de tempo até que a tecnologia necessária seja desenvolvida, e boa parte das lideranças do movimento acredita que em no máximo 50 anos já estaremos vivendo dessa forma no mundo, juntamente com a inteligência artificial.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

O patrimônio histórico importa?

Às vezes chego a pensar que devo ser o único mineiro que não gosta de Ouro Preto; ou colocando em outros termos, o único que defende o tombamento da cidade, mas no sentido literal da palavra. Não consigo vislumbrar qual o motivo de ficar preservando cidades como Ouro Preto, Mariana, Tiradentes e outras centenas de cidades históricas que existem em Minas Gerais. Mas como Eu geralmente sou mal compreendido quando falo essas coisas, vou tentar aqui formalizar os motivos que me levam a ser contra “tudo que está ai”, abordando o tema por meio de questões utilitárias e alguns argumentos soltos que podem entrar em qualquer outra categoria.

Do ponto de vista da eficiência a preservação do Barroco mineiro é um monumento ao atraso e à ineficiência; ruas estreitas, falta de rede de esgoto decente (quando elas existem), impossibilidade de utilizar novos materiais e uma gigantesca burocracia para alterar qualquer mínimo detalhe das construções. Isso não apenas atrasa o progresso, mas o transforma em um vilão, quando o contrário é a verdade. Já cansei de ouvir casos de pessoas que adquirem alguma coisa que não tem importância alguma e depois de fazerem uma reforma recebem uma notificação do ministério público dizendo que eles têm que demolir tudo e refazer exatamente do jeito que estava antes. E o uso desse exemplo não tem o objetivo de pegar uma exceção e tentar provar algo geral; isso é algo que acontece recorrentemente, em fazendas e casas que nenhum turista nunca pensou em visitar.

Sobre turistas, não tenho os números do turismo de Ouro Preto (até porque eles não existem), mas a minha impressão pessoal é que ninguém visita aquele lugar, e os poucos que visitam não deixam lá muito dinheiro. Os únicos locais que retêm algum dinheiro são uns 2 ou 3 restaurantes absurdamente caros para o local e alguns hotéis aquém do preço cobrado. Turista mesmo que vai pra lá é mineiro e algumas pessoas de fora do estado, o que na maioria das vezes não é devido à cidade e ao patrimônio histórico em si, mas a alguma festa, quando realmente a cidade fica cheia, o que mostra que preservar a velharia que tem lá não traz nenhum benefício.

Mas a crítica não fica apenas no quesito eficiência. Talvez a questão moral seja o maior problema em preservar o Barroco. Acredito que cada indivíduo deve sempre buscar o melhor para sua vida, e isso significa abraçar em alguma medida as maravilhas tecnológicas que estão à nossa disposição, e quem gosta de morar em uma construção de no mínimo três séculos atrás não tem uma mentalidade voltada ao progresso, o que considero algo altamente desagradável e de alguma forma condenável.

E não é que Eu seja contra preservar coisas antigas, é que não há sentido em preservar algo além de objetos e estátuas em um museu, já que assim eles não vão atrapalhar o desenvolvimento do local. Congonhas, que é uma cidade horrível devido às leis de preservação, fica parada no tempo por causa de meia dúzia de estátuas de Aleijadinho e uma igreja. Que arranquem as estátuas e coloquem no museu e tentem fazer o mesmo com a igreja; mas não faz sentido condenarem toda a cidade ao atraso.

Mas deixando a questão um pouco mais ampla, o Barroco Mineiro não é algo digno de ser preservado como as Pirâmides do Egito, a Grande Muralha da China ou alguma catedral europeia. Essas coisas sim são um marco civilizatório; são relacionadas a quebras de paradigmas e grandes feitos durante a nossa história, na maior parte das vezes em sua era de ouro. Já o Barroco Mineiro representa apenas um período de extrativismo/exploração que não criou nada de novo, sendo superado em importância talvez até pelo ciclo da borracha no norte do Brasil, que criou algo de novo e era movido por uma mentalidade progressista (no sentido antigo e correto dessa palavra). A civilização portuguesa em si é demasiadamente carente de conquistas; talvez com algum exagero possamos considerar as grandes navegações, mas, como isso é supervalorizado no ensino de história do Brasil, nem tenho tanta certeza se globalmente esse fato foi algo relevante.

Por fim, a implicância com Ouro Preto é que essa cidade acaba servindo pra mim como um bastião representando tudo que há de atrasado no mundo, pois não consigo entender como a principal cidade do Brasil no começo de sua história conseguiu, com o ciclo de exploração do ouro, se tornar apenas isso, um morro com ruas estreitas e sujas que não produziu nada de bom.

P.S.: Acredito que da mesma forma que não temos um pensamento sério no Brasil, não temos uma modernidade séria no Brasil.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

A Complicada Relação entre Educação e Religiosidade: uma resposta

Fiquei intrigado com este último texto do Joel sobre as religiões. Já conhecia essas estatísticas e sempre pensei que elas expressavam uma tendência verdadeira ligando riqueza com declínio da religião, não que existisse uma correlação perfeita. Mas o texto foi suficientemente convincente para me fazer abandonar essa ideia. Realmente o a mentalidade coletivista seria uma variável mais adequada para explicar esses dados.

Porém, Eu acredito que existam problemas em duas coisas: os resultados da pesquisa e a ideia de que o Cristianismo carrega os valores que fazem as sociedades serem mais individualistas.

O problema com a pesquisa é que ela não avalia adequadamente se o entrevistado realmente não tem religião. Ele simplesmente pensar isso e responder não significa que ele realmente não tenha religião. Tenho no meu círculo social muitas pessoas que se reconhecem como espíritas, e elas tem enorme dificuldade em aceitar a ideia de que espiritismo é uma religião. Outros grupos com que tenho contato, como os teosofistas, também negam de todas as formas possíveis que o que eles defendem é religião. Talvez isso seja explicado por um conceito diferente de religião que eles utilizam, identificando religião somente como um grupo organizado, com dogmas, etc. Uma boa explicação pra isso é que apesar da maior parte da população ser religiosa, a visão sobre as religiões não é das melhores, principalmente porque no ocidente falar mal de religião é falar mal da igreja católica, e existe muita publicidade negativa sobre acontecimentos históricos ou casos recentes de pedofilia, sejam eles verdade ou não.

Sendo assim, acredito que a pesquisa deveria tentar entender a parcela da população que acredita em alguma forma de misticismo e separa-la da que rejeita isso. Não acredito que os europeus sejam os não religiosos que aparecem na pesquisa, porque quando são confrontados com a ideia de vida após a morte, divindade, destino e outras coisas parecidas, eles podem acabar respondendo positivamente, tornando-os automaticamente em religiosos.

Seguindo essa mesma linha, apesar de os asiáticos em geral não terem religiões organizadas, eles são altamente supersticiosos, e não vejo porque não enquadrar isso como uma religião. Então no caso da Coréia, o que pode estar acontecendo é simplesmente a migração de um conjunto de crenças místicas desorganizadas para um conjunto de crenças interligadas que faça mais sentido.

E então vem o segundo problema, que não descaracteriza o que o Joel disse no texto, mas que talvez deixe mais claro: não existe um único cristianismo. Isso pode explicar porque um país cristão como os Estados Unidos pode ser menos coletivista que países mais religiosos como os africanos. Isso aconteceria por uma questão que de forma vulgar vou chamar de raízes do cristianismo. Acredito que a raiz da religiosidade americana venha diretamente da reforma protestante, e no passar dos anos, não houve um sincretismo como o observado no Brasil e na África, apesar dos Estados Unidos também terem tido contato com indígenas e com africanos. O mesmo não aconteceu em partes da América espanhola. Com essa raiz que remonta a reforma protestante, que entendo como um rompimento com as tradições católicas, o cristianismo anglo-saxão acabou se misturando com a tradição inglesa de direitos individuais, liberdade e individualismo.

Ao contrário do cristianismo protestante, a raiz do cristianismo brasileiro vem de uma junção da doutrina católica pré-reforma protestante e recebeu muitas influências do pensamento religioso africano e indígena, que devido a seu tribalismo era altamente coletivista. Com isso, o catolicismo no Brasil e na África não significa que os valores anglo-saxões acompanhem a religião. Isso pode de alguma forma ser a explicação das diferenças nos resultados da pesquisa.

E nem mesmo o protestantismo brasileiro (que está se difundindo rapidamente pela África) segue uma tradição diferente, já que acredito que ele seja somente uma radicalização do catolicismo, como uma tentativa de resgate do fundamentalismo presente na idade média, e como ele não tem ligação com a reforma protestante, ele também acaba não influenciando as sociedades onde está presente a irem de encontro com uma sociedade com valores individualistas.

Com isso, acredito que possa realmente existir uma relação (pequena) entre falta de religião e coletivismo e individualismo com religião, apesar de acreditar que a tendência dessas sociedades individualistas é migrarem para sociedades verdadeiramente sem religião, longe do misticismo europeu; como a venda do livro “O Segredo” demonstra.

sábado, 10 de dezembro de 2011

A dinâmica populacional e o Estado de Bem Estar Social

Quando alguma iniciativa ou estudo é feito sobre a população mundial, geralmente ele acaba caindo em dois extremos: a ideia de superpopulação e a de diminuição dramática da população. Pelo lado da superpopulação temos geralmente grupos de eugenistas, progressivistas e ambientalistas; e já do outro lado temos grupos religiosos ou defensores de valores tradicionais e planejadores que ficam alarmados com as projeções usando como base a evolução e contexto atual.

De certa forma os dois grupos pecam por desenhar um cenário catastrófico, quando a coisa em geral tende a se estabilizar sozinha com o tempo; mas isso com certeza não dá dinheiro para pesquisas e muito menos agrada os planejadores governamentais, que acreditam que algo deve ser feito, geralmente se esquecendo que sempre algo é feito, mas sem a ajuda de burocratas.

Mas o que me motivou a lembrar dessas discussões sobre população foi o documentário “DemographicWinter” (disponível na íntegra). É um bom documentário, e apesar de ser algo sério – com presença de renomados cientistas -, ele peca fazer uma montagem que passa um tom alarmante. Mas isso acaba não comprometendo muito o documentário, já que eles conseguem levantar as causas do declínio populacional que vem se desenhando, principalmente nos países da OCDE.

As causas principais segundo eles são a invenção dos métodos contraceptivos, a entrada da mulher no mercado de trabalho, aumento do número de separações, casamentos tardios e o custo de ter que criar vários filhos. Todos esses pontos realmente podem estar ajudando a desenhar o fenômeno de declínio no número absoluto da população mundial, mas acredito que eles tenham ignorado talvez a maior causa desse declínio: o Estado de Bem Estar Social (EBES).

Apesar de num primeiro momento parecer que o EBES estimula o crescimento populacional, existes alguns detalhes que fazem o efeito ser inverso. O que fica aparente é que como o estado garante saúde, educação e toda uma série de benefícios, as pessoas não precisam se preocupar com o perigo de terem vários filhos, porque o restante da sociedade vai pagar por grande parte dos gastos que eles vão gerar. Esse ponto pode até ser verdadeiro em países como o Brasil, como ocorreu na época dos auxílios do Getúlio Vargas que fez as famílias terem mais filhos, assim como o atual Bolsa Família. Mas em países com o EBES mais amplo e funcional, como o Japão e a Europa, a população vem declinando cada vez mais rápido, mesmo com uma rede maior de proteção.

E como Eu disse acima, existe uma consequência não intencional do EBES, que é minar valores como a família e a comunidade. Devido às pessoas terem em mente que em alguma necessidade o estado vai socorrê-las, elas não precisam mais se esforçar tanto para fortalecer os laços com a família. A família e a comunidade ficam mais fracas porque os membros não dependem mais entre si em alguma situação negativa.

Então ao mesmo tempo que o EBES gera incentivos para ter filhos (acredito que esse incentivo seja pequeno em países desenvolvidos), ele gera um incentivo muito maior ao comportamento contrário a família e a comunidade. Pode-se usar como exemplo a diferença entre a sociedade chinesa e a europeia. Na China, como não existe um sistema para garantir requisitos mínimos para os idosos e doentes, as pessoas dependem da família para recorrer nesses momentos. Por isso os chineses desejam ter mais filhos, porque assim eles vão poder contar com um maior número de pessoas. Já os europeus estão tendo cada vez menos filhos, e em mais de 60% dos lares não há mais crianças, combinado que uma parte crescente da população não mora mais aonde nasceu.

Identificado o problema, devemos considerar essa situação ruim? Devemos intervir para alterar essa situação? Devemos usar o estado para intervir em um problema causado por uma intervenção estatal? Bem, em geral mais pessoas significa que há mais espaço para ganhos de escala, mas Eu não sei até que ponto uma variação pequena pra baixo na população mundial possa influenciar isso. O documentário tenta também passar a ideia de que o capitalismo depende de aumento de população para continuar criando riqueza, o que não é verdade; o que importa mesmo são os ganhos de produtividade.

Mas já que as pessoas acabam pensando em intervir de qualquer maneira utilizando o estado, acredito que a melhor forma de resolver isso seja através da abertura completa desses países para a imigração. Com isso, pessoas com baixa produtividade poderão anular o efeito do custo de criar um filho decorrente da mulher focar no mercado de trabalho, já que o custo de ter uma babá vai reduzir drasticamente, além de esses novos entrantes virem de uma situação que os leva a valorizar a família, aumentando as taxas de natalidade. Mas sem a redução da amplitude do EBES, no longo prazo esse problema vai voltar a acontecer. E Eu não poderia deixar de comentar a medida mais comum utilizada para aumentar as taxas de natalidade, que é dar dinheiro diretamente ou incentivos monetários para casais que queiram ter mais filhos. Como esperado, isso funciona (mas não tanto quanto esperavam), mas a um custo muito alto e fica muito claro que as pessoas que não tem filhos estão sendo obrigadas a criar os filhos de outras pessoas.

Sobre não estar funcionando como os planejadores esperavam, isso pode ser o efeito da desintegração da instituição da família e da comunidade. Eu particularmente não tenho admiração por esses valores, mas creio que seja evidente que eles são a chave para entender a dinâmica das populações; pois esses declínios ocorreram pelo mesmo motivo nas civilizações romana e grega. Além disso, a diminuição da influência da religião pode estar contribuindo pra isso diretamente ou contribuindo por meio da desintegração da família que costuma acompanhar a falta dela.

Por fim, sendo um pouco não ortodoxo, tenho um motivo relevante para ver com bons olhos essa redução da população. Se a evolução da tecnologia ocorrer como os Transhumanistas planejam, o que conhecemos como morte terá acabado por volta de 2050. Com isso, se a colonização do espaço não se tornar uma realidade até esse momento, uma população estável será algo desejável, porque apesar dos ganhos de produtividade terem conseguido até o momento sustentar com alimentos e energia uma população crescente, isso tem um limite (que acredito que esteja longe).

Bônus: Talvez alguém ainda não tenha visto o filme Idiocracia que fala sobre o tema em uma comédia nada inteligente, mas muito divertida.
Tecnologia do Blogger.

Total de visualizações