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quinta-feira, 23 de maio de 2013

Eu sou o tolerante e você o preconceituoso




Pessoas fracas não gostam da sinceridade como virtude política. Os fracos preferem cultuar o que têm de melhor: sua fraqueza. Os fracos não são os famintos, os marginalizados, os economicamente miseráveis, os tantos que a roda da fortuna faz questão de castigar. Os fracos são, exclusivamente, aqueles cuja condição de vítima é adotada como procedimento normativo, como a única posição política aceitável e necessária – ou mesmo desejável – na construção de um igualitário mundo melhor; por esta razão, os fracos também são extremamente arrogantes e, acima de tudo, como veremos, expressam um tipo perigoso de egoísmo. 

Muito provavelmente este seja um princípio da natureza humana: ninguém gosta de conflitos. Diria um tal filósofo aí que o fim da história coincidirá com fim da guerra; não à toa que a expressão "viveremos felizes para sempre" marca o fim de todos os contos de fadas. Não há uma única alma que não almeje, em última instância, a felicidade. Tentar realizar plenamente aquilo que se é: eis uma constante da nossa condição no mundo. Com efeito, o problema consiste, justamente, no fato de que nós co-existimos, ou seja, no fato de que os nossos interesses são divergentes; na maioria das vezes, contraditórios e, ipso facto, os conflitos inevitáveis. No limite, essa é a insuperável definição de bellum omnium contra omnes. Portanto, as reflexões políticas são, em última instância, tentativas falíveis de mediar essa paradoxal realidade humana, enquanto que as reflexões éticas são tentativas, igualmente falíveis, de mediar essa realidade na paradoxal relação de um homem consigo mesmo. 

Contrariando as mais sofisticadas teorias sociológicas e antropológicas criadas na época em que a Terra ainda se apoiava no casco de uma tartaruga, recentemente um garoto de 16 anos confessou as razões pelas quais ele teria entrado para o mundo do crime: "um dia pedi um tênis de R$ 400 para minha mãe e ela disse que não podia comprar. Via muita gente com moto nova, roupa boa. Perguntei, por que eu não posso? Decidi traficar". A lógica do "pequeno" é reveladora: "ele tem o que eu não tenho! E por que eu não tenho? Ora, porque ele tem! Eu quero, então eu decido que eu posso". Embora os intelectuais, piamente deterministas, enfatizam que jovens entram para o mundo do crime porque "foram privados de políticas de atendimento de saúde, educação, moradia e até de reconhecimento pela sociedade" e acham "no tráfico, isto é, no crime essa oportunidade de se destacarem".

Contudo, o que sustenta esse tipo de justificativa é basicamente o seguinte argumento: "sou infeliz porque fulano é feliz"; "sou pobre por que fulano é rico"; "sou fracassado por que o outro é realizado", "minha desgraça é de responsabilidade deles" etc. E o problema emerge quando toda complexidade dos conflitos políticos é reduzida a esse teorema de regras simplórias, fruto imediato da crença na bondade natural do ser humano, afinal quem faz sempre o mal é a sociedade, o capitalismo, o sistema, a Igreja Católica etc. Não obstante a ordem política derivar, na verdade, do reconhecimento e da experiência do homem ao tomar consciência de seus próprios conflitos internos e limites. A maturidade tem um preço elevado.

Na medida em que a nossa experiência interior deduz de forma imediata e ingênua que a nossa própria interioridade caracteriza-se como o único parâmetro aceitável de uma espécie de representação natural e suprema da cidade ideal constantemente ameaçada por saqueadores (metáfora para tudo o que ameça a estabilidade do imaginário de alguém), a realidade da ordem política é assaltada pela desordem dessa infantil vida interior -- "espero que todos sejam tão bons para mim quanto eu sou autossuficientemente tão bom para mim mesmo!", mas já que sou "bom", então "por que eu não posso? Ora, eu posso sim! Porque eu decido que posso!". Essas sentenças são exemplos típicos da desordenada relação imediata e ingênua do homem consigo mesmo, cuja marca decisiva é a auto-determinação da trindade "Vontade, Liberdade e Poder" hipostasiada por meio da fórmula mágica "eu quero, eu decido, logo eu posso", ou seja, justamente aquele risco que o filósofo norte-americano Hilary Putnam chamou de o risco da "deificação do homem". 

Isso pode ser lido como o resultado deformado da má compreensão da noção de sujeito na modernidade, o que Philippe Lacouse-Labarthe e Jean-Luc Nancy chamaram de a ideologia do sujeito e que, segundo eles, identifica-se com o fascismo quando o homem coloca-se como "sujeito absoluto e autocriador" de si mesmo (LABARTHE & NANCY, Le mythe nazi, 1991, pp. 23-25), ou, como avalia Jean-François Mattéi, quando "a relação do eu consigo mesmo, experimentada pelo sujeito moderno, o conduz a identificar-se com qualquer instância material que possa dar-lhe um predicado, lastro virtual para sua vacuidade de origem", então este sujeito deformado "revela sua impotência para quebrar sua clausura e aceder, como existente, à experiência da exterioridade" (MATTÉI, 2002, Barbárie interior, p. 27).

A consequência inevitável dessa imediata auto-compreensão ingênua de si mesmo -- e, por isso, da vida em sociedade -- não é outra senão que a fraqueza transforma-se no único e aceitável parâmetro da virtude política; "ora, se a minha experiência interior revela imediatamente o quanto eu sou bom para mim mesmo, então, afinal, por qual razão a experiência exterior diz o contrário?" Essa é a expressão categórica do ressentimento aferindo o debate político. E como o ressentido não é capaz de suportar as sinceras verdades do seu interlocutor (os saqueadores da "cidade ideal" - a metáfora que usei para alteridade), logo apela-se exaustivamente para o derrotismo, para o sentimentalismo caduco e nocivo: "seja sincero, mas não seja tão duro comigo", "não precisava ser tão violento com as palavras", "isso é discriminação!", "pedi um tênis de R$ 400 para minha mãe e ela disse que não podia comprar etc", "na escola, ele tinha uma lancheira e eu não".

A estratégia dos fracos é dar um jeito de se valer da sua condição de fraco a fim de justificar os seus piores fantasmas. Em vista disso, o objetivo ideológico principal é mostrar que os fracos são os únicos efetivamente capazes de propor um mundo melhor; mundo que só não se realiza efetivamente por que os outros não permitem. Os totalitarismos emergem da imposição desse vício do imaginário interpretado segundo uma perspectiva coletiva, neste caso o sujeito já não é um indivíduo concreto, mas se dá no processo de abstração da comunidade ressentida que substancializa-se em uma espécie difusa de sujeito-coletivo. O sentimentalismo é tão somente um instrumento de propaganda dessa ideologia.

Enfim, o método do fraco pode ser resumido em quatro pontos básicos:

Primeiro, mostrar que sua fraqueza é diretamente determinada pela condição dos outros. Jamais é da responsabilidade das pessoas fracas a sua própria condição. "Minha fraqueza só existe por que o outro é violento; eu não faço mal a ninguém, no meu mundo tudo seria perfeito. E eu só quero ser feliz".  

Segundo, dissimular a sinceridade e se desviar da verdade. Como não são capazes de enfrentar a dureza da realidade, nega-se a sua possibilidade. "A verdade não existe, é uma invenção". É necessário calar a ousada pergunta pela verdade da realidade. Quem ousar tentar falar a respeito da verdade é tachado imediatamente de autoritário. Desviar a atenção do raciocínio sério para a retórica emotiva e carregada de sentimentalismo. A objetividade das discussões é colocada de lado em nome de um vago subjetivismo sentimental.

Terceiro, vender a todo custo o sentimento de que o mundo só não é melhor por que o outro não permite. Esse tipo de sentimentalismo precisa ser espalhado como norma fundamental da moralidade. Só é válido o que não ofende. Tolera-se tudo, menos a indelicadeza da sinceridade e da ostentação da realidade. Aliás, a ostentação, sobretudo financeira, é concebida como agressão e, por isso, como impendimento da auto-realização do mundo ideal*. 

Quarto, criar um vocabulário e uma gramática facilmente assimiláveis e comungadas sem a necessidade de qualquer esforço intelectual, uma espécie de intuição pura de um eu repleto de si e da certeza de que o seu mundo é o melhor: “eu sou o tolerante e você o preconceituoso”.
_________

Nota

* Li recentemente em um texto de um "psicanalista-social" distribuído para professores de Filosofia da Rede Pública do Estado de São Paulo:  "A humilhação social consiste em uma modalidade de angústia disparada pelo impacto traumático da desigualdade de classe, isto é, a angústia que se sofre quando alguém se depara com um abismo chamado desigualdade", continua, "a desigualdade experimentada do lado de fora é internalizada como sofrimento, ao qual muitas pessoas já estão habituadas", pois "existe em nossa sociedade uma hierarquia constante que leva o humilhado a sentimentos que o agridem [...e] angústia que os pobres conhecem bem e que, entre eles, inscreve-se no núcleo de sua submissão [...] a humilhação é uma modalidade de angústia que se dispara a partir do enigma da desigualdade de classes. Os pobres sofrem freqüentemente o impacto dos maus-tratos. Psicologicamente, sofrem o impacto de uma mensagem estranha, misteriosa: ‘vocês são inferiores'". 

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Ver o Circo pegar Fogo

Francisco Razzo

Quando o circo está prestes a pegar fogo, a última pessoa recomendada pra ajudar na tarefa de conter as primeiras chamas é o frentista do posto de gasolina. Botar fogo na Briga do Circo, enquanto se assiste de camarote, é tão niilista quanto a sádica brincadeira em que os garotos amarram o gato e o cachorro pelo rabo só pra ver o pau comer. Em certas situações, como dizia meu falecido avô, se você não vai ajudar, então não atrapalhe. Acredito que a principal tarefa de qualquer ensaio que se pretenda “filosófico”, parafraseando as orientações de William James a respeito do sentido da atividade filosófica, seja a de persistir no “resíduo de problemas não resolvidos”.
Como nós sabemos o que uma pessoa de fato deseja? Ora, visto que ninguém tem acesso direto e imediato ao desejo do outro, então o acesso ao desejo alheio é, necessariamente, mediado por formas de comunicação e comunhão simbólica. Quando pessoas comungam do mesmo desejo é porque partilham da mesma experiência da ausência de algo em comum expresso numa considerável variedade de símbolos. Querer é, em última instância, sempre querer algo. E o que une as pessoas em comunidade, de certa forma, é a capacidade, mediada pela comunicação, de reconhecer no outro a mesma carência, o empenho comum na busca de realizar o sentido da própria existência.
O que o IPCO (Instituto Plinio Corrêa de Oliveira) quer e o que os Ativistas da Causa Gay de Curitiba querem? Certamente, alguma coisa contrária ao desejo um do outro; e, precisamente por esta condição de interesses contraditórios, jamais formarão uma comunidade, no sentido aristotélico do termo, isto é, não no sentido puramente descritivo, mas no de valoração, isto é, o intercâmbio mediado pelo senso de irrestrito de justiça (haplos dikaion) (Cf. ARISTÓTELES, Ética à Nicômaco VIII). Portanto, se o IPCO conseguir alcançar o seu objeto de desejo, isso significa que o grupo de Ativistas da Causa Gay de Curitiba não conseguiu alcançar o seu, e se o grupo de Ativistas da Causa Gay de Curitiba conseguir, consequentemente, significa que o IPCO não conseguiu. Nessa relação não há nada de luta de classes, mas o mais puro conflito pessoal de valores consubstancializados na forma e ação de um determinado grupo, seja ele piegas aos olhos alheios ou não.
A partir desta perspectiva, pode-se compreender melhor em que medida cada um dos membros desses grupos representam, de uma forma ou outra, o embate dos valores políticos que transitam no tecido da atual sociedade pluralista, na qual, como avaliou Alasdair MacIntyre, a “grande diversidade de julgamentos sobre tipos particulares de assuntos” subjaz em “um conjunto de concepções conflitantes de justiça, concepções supreendentemente em desacordo umas com as outras, de vários modos”, sendo que um dos fatores “mais surpreendentes nas ordens políticas modernas é que elas não possuem foros institucionalizados nos quais as discordâncias fundamentais possam ser sistematicamente exploradas e mapeadas, e muito menos fazem qualquer tentativa de resolvê-las”; pelo contrário, pois “o próprio fato da discordância frequentemente não é reconhecido, sendo escamoteado por uma retórica do consenso”, o que só “serve”, em última análise, “para impedir que o debate se estenda aos princípios fundamentais que informam as crenças de fundo”. (MACINTYRE, 2008, Justiça de Quem? Qual Racionalidade, p. 12-13).
O IPCO é um grupo de cristãos; contudo, evidentemente, não fala em nome de todos os cristãos. Cada um dos seus membros representa, por ser cristão, alguns valores gerais ou “crenças de fundo” comuns a todos os que que professam o credo cristão, certamente, deveriam partilhar. Por outro lado, os Ativistas da Causa Gay de Curitiba é um grupo procedente do cenário da Militância pelos Direitos dos Homossexuais, entretanto também não falam em nome de todos aqueles que militam pela causa Gay, apesar de partilhar de alguns valores gerais ou “crenças de fundo”, os quais todo membro da Militância Gay deve ou deveria professar. Dessas “crenças de fundo” emergem “os princípios fundamentais” que dão base para as efetivas concepções conflitantes de “família”, “pessoa”, “sociedade”, “justiça” etc. Esse é o núcleo do problema, e o resto - se eles cantam, marcham, fazem a dança da chuva, pintam a cara, sambam, são feios, bregas etc - é apenas uma acidental questão de gosto.
A questão nuclear reside no fato de que toda atividade política se caracteriza essencialmente pelas pessoas que se autocompreendem partícipes de um universo de valores e almejam que esse universo se realize na experiência de uma vida significativa. Quanto mais conscientes a respeito da natureza desses valores, menos fundamentalistas e dogmáticas os agentes políticos serão. O que não significa que, do grau de consciência de reconhecimento desses valores, serão mais ou menos violentos ou que dissimularão serem as vítimas a fim de conseguir o que desejam. Uma coisa é o fim, outra coisa, completamente diferente, é o meio. Fundamentalismo e dogmatismo, neste caso, revelam o grau de estupidez diante da compreensão dessas “crenças de fundo”, enquanto que a violência (ou o vitimismo) revela o grau em que a estupidez se encarna na história por meio da atividade política. Ser ou não violento é só uma complexa opção estratégica (assim como também pode ser estratégico idealizar que, por ser a vítima, e em razão disso, é legítimo partir pra pedradas, insultos etc), isto é, o modo pelo qual a estupidez toma forma e entra mundo. Não obstante, um movimento político pode ser consciente ou inconscientemente violento por meio da imposição de um perverso processo de aniquilamento do estatuto de humanidade no outro. Um processo perverso de “purificação e destruição”, como demonstra Jacques Sémelin em seu livro (Purificar e Destruir – Usos políticos dos massacres e dos genocídios) que trata, precisamente, da lógica desse processo:
Os agentes que sabem utilizar essa ferramenta do imaginário têm, em todo caso, uma arma poderosa que lhes permite pensar em conquista do poder. O primeiro ponto dessa retórica imaginária consiste em transformar a angústia coletiva, que mais ou menos se propagou na população, em um sentimento de medo intenso, com relação a um inimigo, do qual eles vão expor toda periculosidade. De fato, a angústia e o medo não tem a mesma natureza. A característica da angústia é a de ser difusa ou mesmo inapreensível, enquanto o as causas do medo são mais denomináveis e, assim, identificáveis. O que se tenta é, de certa forma, ‘coagular’ essa angústia sobre um ‘inimigo’, ao qual se dá uma ‘figura’ concreta e do qual se denuncia a malignidade, no interior mesmo da sociedade. Os discursos mais extremados apresentam essas figuras do inimigo como necessariamente assustadoras ou mesmo diabólicas. [...] Essa tentativa de canalização da angústia sobre um inimigo bem identificável já é uma maneira de responder ao traumatismo da população: explica-se de onde vem a ameaça. A partir dessa ‘transmutação’ da angústia embrionária em medo concentrado por intermédio de uma ‘figura’ hostil desenvolve-se o ódio contra esse ‘outro’ pernicioso. O ódio não é, neste caso, o ingrediente de base, que definiria previamente as relações ‘naturais’ entre os grupos. É, antes, uma paixão construída, produzida, ao mesmo tempo, por uma ação voluntária dos seus partidários extremosos e por circunstâncias favorecendo sua propagação. No final, a saída lógica e temível dessa dinâmica – da angústia e do medo – recai, inevitavelmente, no surgimento, em uma determinada sociedade, do desejo de destruir o que lhe foi designado como causa do medo. É evidente que se trata ainda de um ‘desejo’: permanecemos no registro do imaginário. Mas é um imaginário de morte. (SÉMELIN, 2005, Purificar e Destruir. Os imaginários da destruição social. p. 39. Grifos e itálicos são meus)
A questão é: se os membros do IPCO saíram às ruas manifestando um desejo, certamente não foi o desejo de ser agredidos; não obstante eles efetivamente foram agredidos, ofendidos, ridicularizados, impedidos de manifestarem suas convicções, isto é, violentados. Podem, segundo a hipotética análise provisória, até ter usado isso como “estratégia” para alcançar seus interesses – eu pessoalmente duvido, já que não tenho bola de cristal capaz de acessar a mente alheia e os dados empíricos, aos quais tive acesso, não mostraram nada parecido que justifique essa interpretação –, mas o objeto efetivo do que almejavam não era exatamente esse. O evento não foi em busca de um meio (a suposta estratégia da vitimização), mas exclusivamente almejava um fim (contra a aborto, contra a PL 122). Concordemos ou não com os fins e, sobretudo, com os meios.
Segundo os próprios organizadores do evento, a manifestação tinha como principal objetivo defender, segundo suas “crenças de fundo”, a “família”, eu compartilhe ou não dessa concepção de “família”, eu concorde ou não com o “método”: “A Cruzada pela Família, promovida pelo Instituto Plinio Corrêa de Oliveira, está percorrendo o Brasil fazendo uma campanha ordeira e pacífica contra as leis de aborto e contra a agenda do movimento homossexual, como o kit homossexual nas escolas, a lei de homofobia, etc.”. Ou seja, a campanha organizada pelo IPCO, por mais que se acha brega, não é contra um inimigo concreto, uma figura real encarnando a malignidade, mas contra uma possibilidade de lei, isto é, contra uma ideia e uma agenda.
Enquanto que o grupo dos Ativistas da Causa Gay de Curitiba agrediu os membros da passeata, exatamente, com a justificativa de que o IPCO é uma ameaça à sociedade, de que os seus membros efetivamente encarnam a figura hostil. Nesse caso, todos aqueles ativistas formaram um grupo precisamente por se sentirem ameaçados, em outras palavras, vítimas e, além disso, porta-vozes defensores de toda sociedade em perigo. Ao ponto de uma das ativistas pedirem para os motoristas não buzinarem em solidariedade à “Cruzada pela Família”, mas atropelarem. Como as imagensdeixam bem claro, as constantes provocações não esperavam outra reação dos “fascistas da IPCO” senão o contra-ataque violento, o qual, felizmente, não aconteceu. 
Há um outro vídeo circulando no Youtube que mostra, inclusive, uma edição comparando a “cruzada” do pequeno grupo do IPCO com a Marcha de algum pelotão Nazista. A descrição do vídeo demonstra quem se autocompreende como vítima ameaçada que, precisamente por isso, justifica as suas agressões e provocações “com unhas e dentes”:
Na segunda semana de janeiro a cidade foi surpreendida por uma marcha contra a família, que proclamava hinos de ódio (desde quando Ave Maria é hino de ódio?) e preconceito (contra quem? A lei do Aborto?). Nós, curitibanos e curitibanas conscientes e a favor da família, expulsamos estes radicais de extrema direita, que não são bem-vindos em nossa cidade (mas eles não são curitibanos também?). Que façam seu hino de ódio (Pai Nosso) em outro lugar. Curitiba é uma cidade para o amor. E aqui nós defendemos o amor e a alegria com unhas e dentes.
Em um dos comentários é possível notar a dinâmica da imaginação política, isto é, pressupor, num ato puramente imagético, que aquele grupo é, efetivamente, uma ameaça de proporções históricas, tal como é vinculado ao temerário e assombroso imaginário da “Ditadura Militar”, dos “Nazistas” etc.
Aos senhores que conhecem a TFP desde os tempos da ditadura vociferavam contra eles, casais heterossexuais, gays, enfim, e se eles voltarem serão rechaçados de novo pela mesma população (população ou alguns ativistas?) que não tolerará um Brasil fascista. A TFP é uma vergonha, nem a Igreja Católica tolera esses dinossauros proto-nazis, qualquer manifestação que pregue a intolerância e o preconceito ferindo o princípio da dignidade humana e da cidadania será combatida.
Por fim, fica evidente que a ação política deriva dessa exclusiva capacidade humana da autoconsciência pessoal de participação na realidade dos valores e no fundamental reconhecimento de que o outro, ao seu modo, também participa e se realiza como um valor e não como uma ameaça. Os conflitos políticos emergem, justamente, da perda desse reconhecimento ante o permanente “registro do imaginário de morte”. A liberdade da ação política, quando não impõe a si mesma esse limite ou princípio básico de reconhecimento ético, demoniza-se com a realização de suas fantasias, como mostrou Jacques Sémelin em seu livro supracitado.
Para concluir, cito uma passagem de Cioran, sobre essa essência demoníaca da liberdade:
O assassino faz uso ilimitado de sua liberdade, e não pode resistir à ideia de seu poder. Está ao alcance de cada um de nós tirar a vida de outro. Se todos os que matamos em pensamento desaparecessem verdadeiramente, a terra já não teria habitantes. Carregamos em nós um carrasco reticente, um criminoso irrealizado. E aqueles que não têm a audácia de confessar suas inclinações homicidas assassinam em sonho, povoam seus pesadelos de cadáveres. Pois nunca houve um ser que não tivesse desejado – ao menos inconscientemente – a morte de um outro ser. Cada um arrasta atrás de si um cemitério de amigos e inimigos; e pouco importa que esse cemitério seja relegado aos abismos do coração ou à superfície dos desejos. A liberdade concebida em suas inclinações últimas coloca a questão de nossa vida ou a dos outros; ela carrega a dupla possibilidade de nos salvar ou de nos perder. (CIORAN, Précis de Decomposition, p. 76-77).
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