Mostrando postagens com marcador utilitarismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador utilitarismo. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 28 de maio de 2013

Considerações sobre o veganismo

Por que não sou vegano?

A pergunta não é tão fácil de ser ignorada, ó leitores hedonistas. "Gosto mesmo é de um bom churrasco!" - Eu também gosto, mas você gosta tanto de um bom churrasco que está disposto a matar vários animais de forma excruciante, fazendo com que seus últimos momentos de vida sejam de dor e desespero? Se você, como eu, não é vegano, sua resposta já é sim.

Ao contrário do que alguns pensam, o veganismo não depende de se denunciar o "especismo". Não depende de considerarmos que homens e animais têm o mesmo valor. Imagine um bombeiro que, num prédio em chamas, prefira salvar dois ratos a salvar uma criança. Seria monstruoso; e um vegano pode afirmá-lo sem problemas. Ele pode reconhecer que o homem é, em alguma instância, superior aos outros animais e, mesmo assim, julgar que essa superioridade não é tal que justifique escravizar e matá-los apenas para proporcionar-lhe um prazer gustativo e um conforto maior na vida.

Hoje em dia, com a tecnologia que temos, matar animais - para comer, para se vestir e para quase qualquer outro fim - é uma escolha conveniente, e não uma necessidade. É possível viver sem escravizá-los e matá-los: com um pouco menos prazer e conforto, mas nada de outro mundo. Talvez seja impossível zerar completamente o dano direto causado a animais? Talvez. Mas dá para diminuí-lo muito, e isso não seria já um objetivo salutar?

Parece-me, contudo, que mesmo esse veganismo mais razoável leva, ele também, a conclusões práticas nada razoáveis. E portanto deve haver algo de errado com ele, ainda que não saibamos mostrar bem o quê. 

Se diminuir o sofrimento animal deva ser um fim relevante para nós, então não podemos ficar indiferentes ao sofrimento que não é causado por nós. Voltemos à comparação com seres humanos: o sofrimento de uma criança é algo que devemos tentar diminuir, sem considerar se ele é causado por homens ou se vem de alguma causa não-humana. Claro, devemos ter como princípio jamais causar voluntariamente sofrimento sério a uma criança. Mas se uma criança sofre por uma causa não-humana - digamos, malária - isso é também algo que devemos investir recursos para sanar. Com os animais vale a mesma coisa: se devemos nos preocupar com o sofrimento animal, então nos interessará diminuir não apenas o sofrimento que causamos a eles mas também, na medida do possível, o sofrimento oriundo de outras causas.

Sabemos que a vida "no meio natural" é marcada por sofrimentos imensos e recorrentes. A vida do leão na savana depende da morte do filhote de zebra. E se o sofrimento animal nos diz respeito, então o sofrimento desse filhote de zebra nos diz respeito. Cabe a nós impedi-lo, salvar o tal filhote da morte dolorosa.

Mas e a fome do leão? Deixar alguém morrer de fome também não é muito ético. Como conciliar essas duas necessidades incompatíveis? Uma ideia é permitir a morte da zebrinha, mas torná-la indolor por meio de anestésicos. Outra é alimentar os leões com carne sintética. "Pera aí cara, você já está indo longe demais!" Não estou não; existem utilitaristas não-especistas que defendem exatamente isso: intervenção no meio natural para minimizar o sofrimento que nele ocorre. E essa conclusão prática me parece absurda.

O fato de haver sofrimento humano ainda não sanado, e de, tudo mais constante, o homem ser mais importante do que os outros animais, não impede que essa mesma conclusão prática seja alcançada. Pelo simples motivo de que, havendo alguma comensurabilidade entre bem-estar humano e animal (e no início aceitamos basicamente isso ao dizer que um pequeno desprazer humano não justifica um enorme sofrimento animal), conclui-se que pode haver sofrimentos animais intensos o bastante para justificar que tomem nossa prioridade, mesmo com sofrimentos humanos ocorrendo paralelamente.

Até agora estive supondo que temos alguma obrigação de sanar o sofrimento alheio. Talvez se essa premissa cair, a conclusão absurda não se siga (continuará sendo meritório sanar o sofrimento alheio; mas não obrigatório - assim como é meritório ajudar uma abelha que perdeu o rumo dentro de casa, mas ninguém diria que é uma obrigação nossa zelar pelo bem-estar das abelhas). Mas me parece que abrir mão dessa premissa é adotar um egoísmo muito grande. Não temos obrigação nenhuma para com os sofredores do mundo? Acredito que devamos sim ajudá-los, e que negligenciar isso seria errado (o que não quer dizer que algum deles tenha direito sobre nossos recursos e nosso tempo). Já negligenciar o sofrimento animal natural não me parece errado (exceto talvez em casos muito específicos e de muita proximidade). Se for, segue-se a conclusão acima apontada.

Como mencionei antes, se nosso foco for o direito e não a minimização do sofrimento, a coisa muda um pouco de figura. Se o importante for preservar direitos dos animais, então que eles sofram por causas não-humanas é um problema mas não necessariamente exige solução nossa. Do nosso ponto de vista, o importante é não violar o direito deles. Se um homem é atacado por um leão, isso é uma tragédia, mas seu direito à vida não foi violado, como seria se ele fosse atacado por outro homem. 

O problema é que falar em direitos exige que se fale também na defesa do direito; inclusive no direito de se defender um direito com violência. No fundo, afirmar que alguém "tem direito a X" implica afirmar que essa pessoa tem direito de usar a violência para garantir seu X se alguém tente tirá-lo dela. Então se aceitamos que animais têm direito à vida, por exemplo, teremos que concluir que um homem que viole esse direito é um assassino e que, para evitar esse assassinato, é lícito usar violência contra ele; mesmo que a violência seja letal. Novamente, chegamos a uma conclusão que considero absurda: é lícito matar um homem que esteja prestes a agredir um animal (o funcionário de um abatedouro, ou alguém que veja e pise numa formiga?).

A ordem natural das coisas

Uma objeção às considerações acima seria a de que não dei devido peso ao valor da ordem natural, do equilíbrio dos ecossistemas que vigora em diferentes partes. O bem da natureza não é apenas o bem-estar de seus indivíduos constitutivos, mas também a saúde do todo, do sistema de interdependências que eles compõem. Assim, o veganismo não depende de tratar os bichos como indivíduos dotados de direitos, mas sim da percepção de que o mundo natural tem um valor intrínseco.

O problema dessa visão é que, desde Darwin, sabemos que a natureza não opera num equilíbrio. O que, para um observador casual, parece ser um ecossistema estático, é na verdade um curto período de um processo de mudanças ininterruptas. 99% das espécies de seres vivos que um dia existiram já se extinguiram, e apenas uma minúscula parcela dessas extinções se deu por mãos humanas. A natureza está sempre mudando.

Além disso, o homem é parte da natureza (um vegano aliás tenderá a afirmar isso com mais afinco do que um cristão). As alterações que ele causa no meio natural são também parte da natureza. A cidade humana é um ecossistema da mesma forma que a selva virgem. Por que a fauna de homens, ratos, baratas, formigas, pardais e pombas seria menos valiosa do que aquela de onças, antas e araras?

O único critério para se fazer um juízo de valor desses é o próprio homem. Para o homem, não é bom que as selvas sejam todas destruídas, ou que todo o planeta seja convertido em pastagens e parques industriais, e que o ar seja inundado de gás carbônico e fuligem. Já para os ratos, isso seria muito bom. E sendo o critério o bem do homem, a conclusão vegana não se segue. Pois para esse critério, toda vez que um bem humano puder advir de um mal para algum animal, não haverá problema em se perseguir esse bem e causar, portanto, o mal animal.

Por que não sou vegano mesmo?

Ah sim, voltando ao tópico. Pelas razões aludidas acima, ou seja, pelas conclusões práticas absurdas ou ao menos muito contraintuitivas do veganismo (ou melhor, dos possíveis embasamentos do veganismo), penso que há um problema de princípio nelas. E esse problema está exatamente em afirmar uma comensurabilidade entre sofrimentos animais e humanos; afirmação que parece razoável, mas que leva a consequências não razoáveis.

Afirmo sem problema a superioridade humana, pois somos capazes de alcançar bens inacessíveis aos animais. Aliás, enquanto agentes racionais, somos a origem dos juízos de valor no cosmos. Mesmo um pequeno bem nosso (ex: maior prazer gustativo) pode justificar um mau muito grande (ex: morte dolorosa) causado a muitos animais (parece horrível quando dito, não? Mas nossa vida, da alimentação às pesquisas científicas, depende dela; saiba o que você está defendendo). O sofrimento animal deve ser absolutamente evitado apenas quando ele não tem nenhuma contrapartida boa humana (por exemplo, no caso da crueldade: o prazer em fazer o animal sofrer - aqui, diferentemente do prazer de se comer, a satisfação vem da própria dor causada; é um desejo irracional).

Outro suporte do meu não-veganismo é a suspeita de que antropomorfizamos demais a psicologia animal. A bem da verdade, antropomorfizamos até mesmo objetos inanimados e plantas. Com os animais é ainda mais forte. Duvido da ideia de que existe na mente deles uma narrativa da própria vida, mais ou menos como a nossa, na qual sofrimentos e medo da morte apareçam como questões cruciais e terríveis. Eles não são pessoas nesse sentido. São uma sucessão de estados subjetivos - informados por uma memória, é verdade; não se trata de uma pura sucessão de sensações desconexas - sem grandes preocupações ou pensamentos sobre o que não é presente ou que é atualmente desejado ou temido.

Vejo meu gato. Ele me adora; dou carinho nele rotineiramente. Ele vem se esfregar em mim, ou mesmo deitar em mim, sempre. Mas quando ele está num lugar onde não deve (na cadeira onde quero sentar, por exemplo), enxoto-o com um empurrão e uma voz brava, e ele sai. Nem por isso nossa relação sai prejudicada, e nem há nele qualquer ressentimento ou ressabio com relação a mim. Sou sua autoridade; mando nele e posso machucá-lo, mas também posso fazer-lhe se sentir bem e dar-lhe uma ração úmida que ele pede toda noite. Não há expectativa alguma de "tratamento humano", e ele é feliz assim.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Utilitarismo Cristão

A preocupação maior do Cristianismo é a salvação da alma. É a melhor coisa que podemos querer para nós mesmos e para os outros. O amor cristão é compatível, em casos extremos, com querer até mesmo a morte do próximo (por exemplo, se for um terrorista perigoso), mas não - nunca - sua perdição eterna. A "salvação das almas", entendida genericamente, é, segundo alguns, o princípio que deve guiar os atos individuais.

Chegamos assim a uma espécie de utilitarismo cristão. O bom cristão é aquele por cujas ações salvar o maior número de almas possível e que, obviamente, queira salvá-las; se um homem comete um crime terrível com a intenção de ficar rico e, acidentalmente, isso acaba convertendo e salvando milhões de seres humanos, isso não faz dele um homem bom. (É óbvio que quem salva os homens é Cristo; aqui estamos usando a linguagem popular, a mesma que usamos ao dizer que fulano converteu ciclano.) E como a salvação da alma é, sem dúvida, o evento com maior utilidade imaginável (utilidade infinitamente maior do que mesmo o maior deleite possível aqui neste mundo), pode-se mesmo dizer que o bom cristão busca maximizar a utilidade (ou felicidade) do maior número de pessoas; só que isso se faz mandando suas almas para o Céu.

Mas e se for possível, pecando, salvar uma alma? A resposta tradicional é que não se deve fazê-lo, mas sempre junto da convicção de que é quase impossível haver um dilema desse tipo. Afinal, a comunhão dos santos é tal que uma boa ação, uma ação movida pela caridade, beneficia a todos os homens; e uma má ação, mesmo que tenha efeitos imediatos bons, prejudica a vida espiritual dos demais cristãos. E que mesmo esse efeito imediato bom dificilmente incluirá a salvação de uma alma. Afinal, como isso seria possível? Matando alguém que está em estado de graça? Mas você nunca sabe se uma pessoa está realmente em estado de graça.

Só que existe uma situação na qual essa relação acidental entre pecado e salvação da alma alheia (pois a relação essencial é entre virtude e salvação) pode ser consistentemente produzida. Isso ocorre porque existe um estado da vida, plenamente observável (ao contrário do estado de graça nos adultos), em que, se o indivíduo morre, ele vai com certeza absoluta para o Céu: o do bebê batizado.

A salvação de um homem adulto é incerta (segundo os Verdadeiros Católicos, é quase certo que a maioria das pessoas no mundo moderno se destinam ao Inferno). A de um bebê batizado é infalível. Portanto, se aceitamos que a salvação da alma é um bem tal que comparado a ele todos os outros são praticamente irrelevantes (é comparar o infinito ao finito), segue-se que o homem que mata um bebê batizado lhe faz um grande serviço: priva-lhe de uns noventa anos de felicidade imperfeita e lhe garante, desde já, a felicidade perfeita e eterna.

Alguém pode contra-argumentar que o bebê que morre e vai para o Céu não teve tempo de ser bom e virtuoso, e que portanto a alma do adulto que se salva tem uma felicidade maior no Céu. Logo, pode ser um desserviço ao bebê matá-lo para que ele garanta o Céu. Essa objeção não procede. Primeiro porque a felicidade essencial de todos os salvos é a mesma; a diferença é apenas acidental, ou seja, finita; uma ou duas cerejas a mais no mesmo bolo. Esse ganho acessório não pode ser comparado ao ganho básico que é garantir a salvação da alma. Ademais, é bem capaz que muitas pessoas que se salvem cheguem ao fim da vida num estado espiritual pior do que o bebê; isto é, mais voltados para o mal do que para o bem. São salvos por se arrependerem, quererem de forma tíbia o bem, embora seu deslocamento durante a vida tenha sido mais na direção contrária. Chegar à idade adulta, portanto, torna a salvação incerta e, mesmo que o indivíduo se salve, não garante que seu estado beatífico seja melhor do que o da alma do bebê que morreu sem pecado.

(Olhando o bebê, não temos como saber se ele, quando for adulto, se condenará ou se salvará, e qual será o estado final de sua alma. Portanto, na falta de maiores informações, e sendo conservadores, supomos que haja 50% de chances de uma pessoa se salvar e que, dos que se salvam, 50% estão melhores que a alma pura dos bebês e 50% estão piores. Ou seja, comparando as utilidades esperadas (tendo a salvação como 100 e a perdição como zero) temos: bebê batizado: 1*100 = 100. homem adulto: 0,5*0 + 0,5*(0,5*99 + 0,5*101) = 0 + 0,5*100 = 50. A utilidade esperada do que morre bebê é maior do que a do que morre adulto. Se quisermos maximizar o número de salvos ou a beatitude esperada, matar os bebês batizados é a melhor estratégia.)

Portanto, um serial killer católico, que matasse o maior número de bebês batizados (se considerarmos acertada a crença mais aceita hoje em dia de que não há Limbo, e que portanto mesmo os bebês não-batizados são salvos, a qualificação batizados é desnecessária), não por sadismo ou sede de sangue, mas para garantir a salvação de suas almas, estaria agindo bem? Ora, ele certamente estaria tomando a "salvação das almas" como o guia máximo de seus atos. Estaria condenando sua alma ao Inferno? Sim, mas o que é a perdição de uma alma se comparada à salvação de milhares e milhares de outras? E sacrificar-se pelo bem do outro não é justamente a mais nobre ação possível? Pois esse homem sacrifica seu bem máximo, a salvação, para que o resto do mundo a alcance. Ele quer a melhor coisa possível para o próximo, e seu desejo não fica estéril: ele garante com certeza absoluta que o próximo ganhará esse bem. Não seria nosso serial killer católico, verdadeiramente, um santo?

***

É óbvio que o assassino em questão é um monstro, e não um santo. Quero apenas indicar como certos lugares-comuns, alguns deles bem tradicionais, com os quais se tenta explicar e formular filosoficamente a ética cristã, não dão conta do recado. A pergunta de se a pessoa deve estar disposta a ir para o Inferno para que outra seja salva é sempre respondida - e acertadamente, na minha opinião - com um "não". Mas é uma restrição imposta, extrínseca e até meio contraditória com o resto da ética, formulada em termos de que "fazer o bem é se sacrificar pelo próximo", "tudo deve ser feito pela salvação das almas", ou ainda que a vida neste mundo não importa, só importa a salvação da alma.

Resta, então, a pergunta: Onde está o erro no raciocínio do serial killer cristão; ou, melhor dizendo, de nosso utilitarista cristão? Por que sua ação não é boa?

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

De Foie Gras e Couve-flores

Minha experiência pessoal é a de que o vegetarianismo tem crescido. Conhecidos, amigos e até parentes já aderiram ou pensam em aderir à causa. Alguns, é verdade, aderiram e voltaram atrás, e há a possibilidade de que seja uma moda; depois de um tempo, como o impacto do movimento será pequeno (aqui no Brasil, por exemplo, o que se tem é o aumento maciço do consumo de carne conforme as classes mais baixas ascendem economicamente), uma hora o grosso do movimento cansa e o núcleo de militantes e convictos volta a ficar só. Contudo, acho que além de moda há algo mais aí: um problema ético que o vegetarianismo (e veganismo e outros) levanta e que tem que ser respondido, pois vai se tornar cada vez mais agudo.

Estou falando aqui exclusivamente de um tipo de vegetarianismo: não o por motivos de saúde, ou de ascese espiritual, ou até o de pena pelos bichos ("tenho pena de comer o cordeirinho, mas não digo que seja imoral comê-lo"). Tenho em mente o vegetarianismo moral, que diz exatamente que provocar o sofrimento e a morte animais para nosso bem-estar é errado, imoral; ou seja, aderir ao vegetarianismo não é questão de gosto ou opção subjetiva, mas um adequar-se a uma ordem moral objetiva. E dentro das justificativas morais, trato apenas das ligadas ao direito dos animais (e não, por exemplo, do suposto auxílio que o vegetarianismo dá ao combate da fomehumana no mundo).

De certa maneira, se adotarmos como nossa postura ética o utilitarismo ou algo próximo dele, as conclusões vegetarianas são inescapáveis. O sofrimento é um mau e deve ser minimizado. Mesmo se se aceita que o sofrimento animal é, genericamente, de tipo inferior ao humano (ou seja, que é menos mau que um cachorro quebre a pata do que que um homem quebre a perna), ainda assim é possível algum tipo de correspondência ou proporcionalidade: a morte dolorosa de um milhão de golfinhos é obviamente pior do que uma unha humana encravada.

Por que um homem do mundo urbano de hoje em dia come carne? Dois motivos: costume e gosto. Nutricionalmente é possível substituir a carne por alternativas que saem inclusive mais barato (do que a carne de vaca certamente; frango já não sei- isto é, mantendo-se uma alimentação gostosa e variada, humana, sem cair na ração). Só que nenhum dos dois justifica o sofrimento animal causado pelo consumo de carne: seja a morte do bicho em si, seja o tipo de tratamento ao qual ele é sujeitado antes do abate.

Mas é claro que o argumento vai muito mais longe do que isso. Todo nosso uso de animais é para fins não-essenciais. Ovos, leite, couro, tantos outros derivados animais que exigem ou a morte ou ao menos a "escravidão" deles (vou passar batido aqui pelo argumento de que certas ocupações animais, como as vacas leiteiras, têm vida melhor e mais prazerosas do que teriam in natura). No limite, chega-se a:

"Adoro música clássica e às vezes vou a concertos, durante os quais, mesmo estando com a mente a anos-luz de distância, inebriado por todo aquele som, aquelas dezenas de instrumentos em acordo, levado por relevos sonoros inimagináveis, há sempre algo me cutucando os neurônios: esses arcos são feitos com crina de cavalo! Incômodo que não passa nem na mais delicada sinfonia. E fico pensando: o que mais deve haver de origem animal nesta orquestra? Será que essa flautista de gestos e expressões tão doces é uma devoradora de cadáveres?" (Tirado do blog do meu amigo Dennis Bluwol)

O veganismo radical é a consequencia lógica inescapável do raciocínio ético acima, mas é também algo assumidamente incompatível com: a) a população mundial contemporânea, alcançada apenas com a industrialização e a alteração maciça de muita natureza b) a civilização e a cultura como a conhecemos e, enfim, todos os desenvolvimentos da história humana desde o homem das cavernas (que já comia carne e domesticava alguns animais) até hoje. Enfim, se se é coerente, deve-se abraçar as vertentes mais radicais (e consistentes) do veganismo, que vêem que a relação supostamente problemática entre homens e animais vai muito mais fundo do que apenas comer ou não comê-los; tudo teria que ser diferente.

É um trabalho meritório mostrar por que essa visão está errada (se é que ela está), mas não é um que eu me sinta agora capaz ou desejoso de fazer (o que envolve discussões não só estritamente éticas mas antropológicas, biológicas e históricas). Vou partir do pressuposto, que é partilhado pela imensa maioria das pessoas - o que não prova nada -, de que o ideal do veganismo radical não é desejável (por quê? p. ex: incapacidade de sustentar grandes populações e dos benefícios culturais que a divisão de tarefas nos proporciona). O mundo seria um lugar pior se fôssemos todos monges jain.

E o jainismo é ainda benigno, pois troca este mundo de dores pela eternidade. Para o utilitarismo não-especista, este mundo é tudo o que há, e portanto não devemos apenas nos abster de causar sofrimento aos bichos. Temos o dever até de diminuir o sofrimento dos animais in natura (quem sabe anestesiando as presas logo antes de serem caçadas?).

o vegetariano moderado, normal, a meu ver, padece de uma inconsistência filosófica. Eu considero essa inconsistência louvável, mostra de bom senso. Ainda assim, é algo que, idealmente, deveria ser eliminado. Talvez alguns lidem com ela dando de ombros e lamentando que o mundo fica muito aquém do que deveria ser, que não dá pra ser santo no mundo moderno; ou seja, admitindo derrota. É uma maneira de se lidar com inconsistência entre crenças e ações, mas é também uma forma triste de encarar a realidade.

Para sair da inconsistência, ou se adota o veganismo, ou se nega o princípio ético da coisa toda: o prazer/sofrimento como fundamento da ética, que chamo aqui, em sentido largo, de utilitarismo. Isso significa dizer: não é a capacidade de sentir prazer e dor que confere valor moral a um ser. É o homem, dotado de razão, que confere valor moral ao universo, e apenas o seu bem tem verdadeiramente o caráter de fim. O resto da criação deve ser tratado como meio pelo homem.

Isso não quer dizer que deva-se ser cruel com os animais. Afinal, o sofrimento é um mau. Uma conclusão que se tira disso é que causar o sofrimento pelo sofrimento, por sadismo, é mau. Agora, se o mau do animal tiver uma finalidade humana (o que inclui não só a pesquisa de remédios, mas o prazer na alimentação, a diversão da tourada, etc) não há a priori nenhuma quantidade de dor animal que o torne imoral. Que venha o foie gras!

Ao mesmo tempo, não digo que a compaixão pelos animais seja equivocada. Ela é mostra da bondade de coração da pessoa. Mas não é, digamos, obrigatória. Não tê-la pode indicar certa falta de consideração pelos outros (seres humanos), mas não necessariamente. De fato, em muitos casos é bom não tê-la (ou então viveríamos tristes pelas mortes de gazelas na África); algo que é verdade, em grau menor, até para a pena humana. Digo que mesmo o vegetarianismo por pena pode ser bom, contanto que não vire uma condenação da morte de animais para o bem humano (a linha entre os dois é tênue, mas real: uma coisa é ter pena do bebê chorando por um chocolate e dar-lhe o chocolate; outra coisa é dizer que seria imoral recusar-lhe; bem conheço esse dilema!).

A razoabilidade (que não é prova de nada; se nosso modo de vida for completamente equivocado como argumentam os veganos, nossos parâmetros de razoabilidade são igualmente imprestáveis) exige que reconheçamos o homem como categoricamente superior ao resto dos seres vivos, e digno portanto de usá-los como meios para seus fins.
Tecnologia do Blogger.

Total de visualizações