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quarta-feira, 7 de março de 2012

A estratégia do Ron Paul está funcionando?

Libertários que estão acompanhando as prévias do partido Republicano (GOP) para as eleições presidenciais de 2012 nos Estados Unidos parecem desanimados com os resultados obtidos por Ron Paul, principalmente depois da Superterça que ocorreu ontem. Como Eu não compartilho desse pessimismo e dessa visão de que ele está indo mal nas prévias, vou tentar explicar aqui de forma resumida por que Ron Paul está fazendo tudo certo para ter alguma chance de se tornar o próximo presidente americano. 

A estratégia de Ron Paul – ou de seu cunhado e gestor da campanha Jesse Benton – é conseguir o maior número de delegados possíveis. Até ai nenhuma novidade porque todos os candidatos querem atingir a marca de 50% dos delegados e encerrar a disputa e com isso poder começar a focar a campanha em Barack Obama. Mas a diferença da estratégia do Ron Paul nessas prévias para os outros candidatos é que ele está levando a sério as regras que existem e com isso focando exclusivamente em obter delegados, mesmo que os delegados acabem não expressando o que a maioria dos eleitores do GOP desejam ao sair de casa e dar uma quantidade de votos maior para os outros candidatos do que para o Ron Paul. E isso só é possível porque o sistema eleitoral americano é extremamente complexo (alguns diriam que é propositalmente confuso) e principalmente devido à existência do que eles chamam de caucus. Nos caucus, o que importa é obter a maioria dos delegados, que não são selecionados pelo voto popular, apesar da escolha deles vir acompanhada de votações. Sabendo disso, a campanha do Ron Paul está focando (há muito tempo com o Campaign for Liberty) em fazer os libertários galgarem posições de comando no GOP e em se tornarem os delegados aonde eles são escolhidos por meio de caucus. 

Entender o que está sendo feito é a primeira etapa para saber se o sucesso está chegando ou não. E pelas minhas lentes parece que está tudo ocorrendo como o planejado. É claro que Ron Paul poderia ganhar votações populares em alguns estados e atrair mais atenção da mídia, mas isso demandaria muito mais dinheiro e duplicaria esforços, tornando a estratégia dos delegados menos efetiva. E o apoio da mídia não viria da mesma forma que vem para os outros candidatos porque as suas posições não são apenas polêmicas, são uma ameaça a “tudo que está ai”. 

Uma outra questão que desanima os simpatizantes são as contagens “oficiais” de cada canal/jornal, já que não existe uma contagem oficial feita pelo GOP. Os dados da CNN, Fox, Real Clear Politics e muitas outras diferem bastante quanto ao número de delegados que cada candidato tem, mas eles têm algo em comum: Ron Paul sempre está em último. E isso é a demonstração de que eles não entenderam a estratégia do Ron Paul ou estão achando que ele não está sendo bem sucedido em colocá-la em prática. Mas de acordo com relatórios de sites de militantes e a campanha do Ron Paul, eles estão conseguindo um bom resultado em infiltrar seus membros nos caucus. Até mesmo a mídia volta e meia cita o nível de dedicação dos militantes do Ron Paul, que é uma prova de que ele tem os recursos humanos necessários para conseguir isso. Uma prova mais evidente é que devido às acusações de fraudes para prejudicar os votos do Ron Paul, diversos diretórios estaduais do GOP estão caindo; e em todos eles o diretório está sendo inteiramente formado por gente do Ron Paul. A estratégia de tomar o partido está funcionando, como ficou claro nas eleições internas e Iowa e Nevada e as que vão acontecer agora no Maine, só pra citar alguns exemplos. 

Mas pra não ficar sem algo pra mostrar, segue abaixo uma estimativa minha de quantos delegados o Ron Paul tem, que é tão arbitrária quanto as outras contagens não oficiais, mas ao mesmo tempo leva em conta a particularidade dos caucus. 

Iowa: 22 delegados (estimativa)
New Hampshire: 3 delegados (primária)
South Carolina: 0 delegados (primária com o vencedor levando tudo)
Florida: 0 delegados (primária com o vencedor levando tudo)
Maine: 19 delegados (estimativa)
Nevada: 22 delegados (estimativa)
Colorado: 28 delegados (estimativa)
Minnesota: 32 delegados (estimativa)
Arizona: 0 delegados (primária com o vencedor levando tudo)
Michigan: 0 delegados (primária)
Washington: 34 delegados (estimativa)
Alaska: 21 delegados (estimativa)
Georgia: 0 delegados (primária com o vencedor levando tudo)
Idaho: 25 delegados (estimativa)
Massachusetts: 0 delegados (primária)
North Dakota: 22 delegados (estimativa)
Ohio: 0 delegados (primária)
Oklahoma: 0 delegados (primária)
Tennesse: 0 delegados (primária)
Vermont: 4 delegados (primária)
Virginia: 3 delegados (primária híbrida)
Wyoming: 20 delegados (estimativa)

Parece surreal Ron Paul ter 255 delegados? Parece sim. E por isso avisei que essa contagem é tão arbitrária quanto a contagem dos principais veículos, pois não tem como saber o número real de delegados nos caucus até a convenção estadual do estado, que ainda vai demorar bastante em todos eles. Essa estimativa é a feita por diversos membros do GOP que fazem campanha pro Ron Paul e estiveram presente nas assembleias que definiram os delegados; e por isso pode não ser uma fonte confiável, mas é uma possibilidade real, já que eles estão vendo o processo acontecer, e a estratégia da campanha é conseguir isso. Por fim, agora que a Superterça passou o próximo mês deve ser o melhor para o Ron Pau, já que nele acontecem cinco caucus quase seguidos, terminando com isso sua estratégia de explorar os caucus; porque daí pra frente só restam 25 primárias, e ai o Ron Paul vai ter que jogar o jogo das primárias e não sabemos o que pode acontecer. Mas mesmo se ele só ficar com o número de delegados que tem agora, ele vai chegar com força na convenção, já que nenhum dos outros 3 candidatos devem conseguir os 50% necessários para obter a nomeação automática, o que não acontece há muito tempo, e com isso abrindo espaço para que possam aparecer candidaturas de consenso como Rand Paul, Sarah Palin e até mesmo Judge Napolitano.

P.S.: Correção do número dos delegados. Os números continuam os mesmos, mas a somatória estava dando um resultado menor que a soma dos estados. Com isso o número total passou de 225 para 255.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Como Inutilizar a Política, ou O Movimento Conservador

Ao invés de, nas eleições, discutirmos política, economia e questões de Estado, que tal prendermo-nos em questões morais pontuais? Foque num tema (casamento gay, aborto, drogas, suicídio assistido) e exclua todos os outros. Dê atenção demasiada, também, para a vida pessoal do candidato: a campanha deve virar um palco de fofocas maldosas; quem sair menos prejudicado delas, ganha. E assim a irrelevância vira o foco. Gostou da proposta? É o que os conservadores têm feito à perfeição. É que eles confundem salvação da alma com administração pública; um erro comum.

Quando digo que as questões morais pontuais são irrelevantes, não falo do ponto de vista moral. Falo do ponto de vista político. O que importa, por exemplo, se o governo dá respaldo e um pedaço de papel aos casais gays? Isso é consequência, na prática inevitável, de um processo cultural de longa data. Mudar isso requererá algo mais profundo que a vontade de um político e briga eleitoral. E, uma vez aprovado o casamento estatal gay, no que isso prejudica as famílias, igrejas ou quem quer que seja? O mesmo se dá no campo da virtude pessoal: o que importa se um candidato teve ou não uma amante? Que os conservadores se prendam a isso mostra apenas o quão descolados estão do mundo real, contentes em seu conto-de-fadas em que os melhores políticos são os indivíduos mais virtuosos; o que, dada a mesquinhez das massas, em geral significa os mais certinhos. Digo que esses estão, não raro, entre os piores!

Das questões morais em pauta, a única que merece atenção política é, na minha opinião, o aborto, pois ela envolve a violação direta de um direito fundamental alheio. Mesmo ela, contudo, é relativizável, posto que um político (ainda mais do Executivo, que é onde o moralismo tem tomado mais conta) tem poder muito limitado para mudar a lei na direção que for; vide George W. Bush nos EUA (que não proibiu o aborto), e todos os presidentes desde a redemocratização no Brasil (que não o legalizaram). É imoral votar num presidente a favor do aborto? Então quem votou em FHC foi imoral. E se bobear FHC - ateu e de esquerda - era, em 94 e 98, mais a favor do aborto do que Lula, cria da TL (que, apesar de todos os pesares, é contra o aborto).

Por isso é tão desalentador ver o apoio efusivo recebido por Rick Santorum na disputa americana; um candidato cujas únicas credenciais são seus "valores conservadores" e sua vida pessoal. Ele tem todas as opiniões da cartilha sobre questões morais (mais algumas próprias dele, como o combate aos contraceptivos e a reabilitação histórica das Cruzadas); quer também bombardear o Irã e se bobear o resto do Oriente Médio; usa analogias tiradas do Senhor dos Anéis para se referir à guerra do Iraque; vai barrar os imigrantes ilegais. Não sabe nada de economia, repete as fórmulas da vez, jurando que discorda em tudo do Obama. Se eleito, deve colocar em prática a mesma responsabilidade fiscal e o mesmo "livre mercado" de George W. Bush. Ah, - dirá o mui piedoso conservador - contanto que ele mantenha a referência a Deus na cédula do dólar, tá valendo!

A importância dada ao caráter moral é também muito curiosa. A insistência na virtude pessoal do governante é feita por clérigos e intelectuais desde pelo menos a Idade Média (talvez em Roma também?), mas raramente - e em alguns períodos curtos e negros da história europeia - é levada a sério. Os founding fathers americanos eram exemplos de santidade moral? E a imensa maioria dos reis europeus, nosso D. Pedro I incluso? A quantidade de filhos bastardos já os desqualificaria numa corrida presidencial atual. Contra Newt Gingrich, o argumento que pegou não foi seu diletantismo (embora muito inteligente, não tem uma teoria consistente para se guiar; é mais Estado para tudo, junto com uma retórica de livre mercado), mas o fato de ter traído esposas e, acima disso, ter possivelmente proposto a uma delas um casamento aberto. O Papa S. Pio V foi um santo; mas seu reinado foi politicamente ruim para a Igreja. Sua inimiga, a rainha inglesa Elizabeth, teve amantes (e para um monarca a aura de virtude é mais importante que para um líder democrático), e foi uma das maiores monarcas da história do país. Robespierre era mais probo e honesto que Luís XVI. Savonarola, mais puro que os Médici. Quem foi o melhor líder?

A campanha de Santorum, ao apelar, antes de tudo, para "valores", apela para o que há de mais medíocre e moralista no eleitorado americano. Se ele vencer, iupi!, os americanos não precisarão temer o casamento gay e ONGs contrárias ao sexo pré-conjugal ganharão mais dinheiro e/ou apoio. E os EUA continuarão no mesmo caminho do socialismo crescente, da burocratização e controle estatal da vida humana, do déficit insustentável que se reverterá em mais impostos e da inflação da moeda; com todos os efeitos morais que essas situações engendram. Mas nada disso importa, agora que os candidatos republicanos descobriram que seus votos dependem apenas de afagar a consciência do eleitorado conservador com promessas de combate aos males terríveis deste mundo anti-cristão. A preocupação moral exacerbada por parte dos eleitores alimenta o oportunismo cínico dos candidatos, que ao invés de ideias e propostas gritam os slogans e repetem os ditames da sharia da vez.

Politicamente,a estratégia tem sido questionável. Santorum conseguiu, de saída, alienar todos os homossexuais e simpatizantes (em entrevista sua em 2003, ele disse ser a favor dos governos coibirem relações sexuais homossexuais por serem uma "ameaça à família"). Isso é um feito, pois fez com que seus valores sejam não só o motivo pelo qual é apoiado, mas também pelo qual é detestado. É duro afirmá-lo, mas vamos lá: mesmo com uma família unida e feliz é possível ser um total incompetente e ignorante no que diz respeito a governar um país.

Vejam o exemplo alternativo, de Ron Paul: pessoalmente, ele parece ser uma figura exemplar: avô, casado, médico obstetra por muitas décadas, fiel, respeitoso, amável. Nunca ficou alardeando sua família ou seus valores da família por aí. Sua campanha é baseada em ideias: ideias sobre como o governo americano deve ser e agir. A campanha de Obama de 2008 também o foi (a de 2012 dificilmente será; vai ser de contenção de danos e de aposta no pragmatismo do possível, junto com a demonização do republicano rival, trabalho que será muito facilitado se o oponente for Santorum). Nesse sentido, Romney também é superior a Santorum: sua campanha baseia-se na ideia de que o governo pode e deve ser eficiente, como uma empresa de sucesso, área na qual Romney tem experiência. Infelizmente, na hora crucial de defender a demissão de funcionários, recuou; se nem ele acredita em sua mensagem, quanto menos os eleitores! É outro que, embora moralmente exemplar, não faz da moral sua bandeira primeira; é um (e o único) Republicano plenamente mainstream na corrida.

O efeito da ascensão conservadora dos dias de hoje tem sido "moralizar" a política; elevando questões secundárias ao primeiro plano. O resultado primeiro disso foi o aumento exponencial da fofoca e da hipocrisia (já pensaram esse tipo de campanha na época do Kennedy, do Nixon ou mesmo do Reagan?). O segundo será eleger um total inepto cujo grande mérito é ter seis filhos, querer proibir a sodomia e se enxergar como um tipo de cruzado moderno contra o inimigo sarraceno. E então colheremos os tão esperados frutos do conservadorismo; e pelos frutos o conheceremos...

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

The Errors of Ron Paul

(Written in English in the hope that foreigners might come and read)

Ron Paul, my favorite presidential candidate ever (including Brazilian elections), is making a good show on the caucuses so far. I doubt he'll get the nomination, but I'm confident he'll get enough votes to make everyone take libertarianism (understood here merely as defending a radically smaller State) seriously.

I would be lying, though, if I said I completely agree with all he says. In this article I set out what I consider to be wrong with Ron Paul. It comes down to three items.

1) Immigration: this topic has become so polarized in the US that the only opinion a Republican will get away with is a draconian plan to expatriate every single individual who entered the country illegally, even if they are settled, employed and have ties to the community for decades. Paul defends this too; but isn't that a bit too much? I won't go to the extremes of  someCatholic bishops who propose open borders or universal amnesty; this can't be done in a rich Welfare State, as it would quickly drain the system (a lot of new entrants who consume services but do not contribute taxes) and reduce everyone to poverty. Paul is right to oppose free immigration (in a free market society open borders do not pose a problem). The borders must be controlled and illegals sent back, provided they just came in, have no job, committed a crime or something on those lines. On the other hand, if a person is working and settled, if he or she has lived in the country for decades and has family and friends there, it is inhuman to expatriate them; the system must have this flexibility. Gingrich proposed this in a debate, but took so much heat that he dropped the subject. Sanity should never allow itself to be silenced like this.

2) "End the Fed". Sure, I agree, the Fed must end, provided that in its place we get a stable gold standard or completely free-market currencies. The problem is that many leftists, including politicians, love Paul's message about how the Fed is an evil conspiracy of bankers to control the economy, and agree that it should be abolished. In its place they would go back to direct government control of currency, which is much, much worse. Sure, the Fed should be transparent (which, by the way, would increase economic stability) and pursue a more conservative policy so as to avoid or at least decrease boom and bust cycles like the ones we are living through. If we can move beyond monetary policy altogether (that is, taking money out of the government's hands: either gold standard or free-market currencies), great. But if not, it is better to stay with an independent Central Bank than to give politicians direct control over monetary policy. Paul proposes the right thing; but many who endorse him have different plans in mind; and the rhetoric he uses in his public appearances (which casts the bankers in the Fed as evil conspirators) lends itself very easily to this wrong leftist anti-business and pro-government agenda.

3) His justification for bringing the troops home. Again, I agree with his policy here: much less military activity outside the US. The war in Iraq was a huge mistake; attacking Iran will be even worse. Cut back on military spending (by the way, wars are the single most effective means to government growth and fiscal deficit), let those barbarians bomb each other as much as they want; invest more on a defensive program with direct and brutal retaliation (or preemptive action if needed) in case anyone attempts an attack. Cease financial support of Israel (or at least decrease it) and Israel's enemies. I'm for the whole package, as it would hugely benefit and enrich the US, allowing it to better defend itself; militarized States always lose in the end as more and more of their production goes to this unproductive end.

My problem is again with Paul's rhetoric, which comes dangerously close to blaming the US for terrorism and Muslim antagonism. I'm sure he doesn't mean it, but it sounds almost as if he justifies America's enemies based on supposed American atrocities. Sure, the fact that kids lost brothers and fathers who were bombed or gunned by the American army probably makes them hate America, and is a good pretext for radical Muslim groups to exploit. But it can never justify their atrocious acts and it is not the root cause of their poisonous anti-Western ideology. The terrorists are evil; the responsibility for their crimes is only theirs; and these crimes are perfectly accounted for by their beliefs and (anti)values. The American military helps them indirectly by providing an easy excuse (which it should stop providing at once), but it's not the cause of their actions.

On the same note, the reason why the USA shouldn't invade Iran is not because its government is good and can be trusted; it is not and cannot. It's just that no good can come to Americans from pursuing this aggressive policy, as no good came from invading Iraq (help in dismantling Al Qaeda? Well, as Bin Laden's death showed, that can be achieved in discreeter ways), only more trouble, more Islamists, more factions, more deaths and a whole lot of monetary cost sending the government in a fiscal deficit it has never recovered from (Obama inherited it from Bush Jr. and made it even worse). Leave them as they are. These failed States are incompetent and stupid enough never to be a serious threat to American society; get out of their and the terrorists' sight and they'll quietly revert to bombing each other as they have done (and still do - most of Al Qaeda's attacks are against Muslims) for ages.

If Ron Paul could get his wording and rhetoric in shape, he would avoid giving easy shots for his opponents, especially on foreign policy.
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