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quarta-feira, 11 de abril de 2012

Escolástica como decadência filosófica? - Da discussão entre Júlio e Olavo

Um novo debate entre meu amigo e colega de Dicta Julio Lemos e o filósofo Olavo de Carvalho tem sido travado acerca de se a filosofia tem uma função de formadora moral do praticante ou do estudante. Não tenho opinião formada no assunto; dedico-me a ler e ouvir diferentes lados. Já sei, contudo, quais posições definitivamente não me convencem. Uma delas é a da filosofia como puro exercício do intelecto sem relevância moral para a vida da pessoa, como é o caso, ou ao menos parece-me ser, da matemática. Claro, o matemático pode ter sua vida afetada de várias maneiras pelo seu objeto de estudo: pode enlouquecer, pode clarear seu juízo e entender melhor diversos aspectos do mundo, etc. Mas tudo isso são, digamos, efeitos extrínsecos ou acidentais (em oposição a intrínsecos ou essenciais) de seu trabalho intelectual. Ele não lida diretamente com as questões mais importantes da vida humana e do lugar do homem no universo. Já o filósofo lida.

E por isso é quase certo que ele confrontará, de forma muito direta e visceral, os princípios que regem suas ações e suas crenças básicas sobre Deus, o mundo e todo o resto. Se levar sua tarefa a sério, não sairá moralmente incólume. Mas nada nos diz que esse efeito moral será necessariamente positivo. Tal qual Zenão sereno frente ao leão que se aproximava - pois ele provara que todo movimento é ilusório -, um filósofo pode se arruinar - em sentidos mais profundos do que o da anedota de Zenão - justamente por causa de sua grandeza filosófica. Se fosse mais tímido, menos corajoso, menos profundo, não botaria em risco as convenções, as crenças e opiniões fáceis e o senso comum que contribuem para nos fazer homens de bem, piedosos, dotados de consciência social, etc. A busca da verdade enquanto tal é um ideal moral nem sempre em harmonia com os demais. Ele por vezes exige que desempenhemos o papel do iconoclasta, do destruidor da certeza e da segurança em nome de uma visão mais clara. A Fé pode dizer que, no limite, tudo se encontra e se harmoniza (e será que ela diz isso mesmo? Quanto que já se passou por Fé inquestionável foi depois abandonado?); e a Fé é exatamente a crença no que ainda se é incapaz de ver...

(Claro, nada disso exclui a possibilidade do efeito moral da filosofia ser bom. E mesmo quando ele é mau, quando o efeito da filosofia é imoral e destrutivo, não descarto que ela possa ser bom numa consideração mais profunda.)

Daí já dá para ter uma ideia de outra posição que me parece indefensável: a da filosofia como escola moral, estética e espiritual; às vezes até com conotações iniciáticas. Olavo não vai tão longe, mas um ponto de sua exposição dá a entender justamente isso: que o escolasticismo medieval já era um período de decadência filosófica se comparado à educação dada nas escolas de catedral, que consistia no exemplo e no carisma do mestre e era veiculada por meio de doutrinas não-escritas, passadas primariamente pela convivência e ao se assistir o mestre filosofando in loco. Essa afirmação já foi feita aqui no AdHominem, numa discussão minha com o Ronald Robson. Olavo menciona essa tese polêmica (dizer que no século XI fazia-se melhor filosofia e investigação racional em geral do que fizeram os escolásticos é, no mínimo do mínimo, altamente discutível) como se fosse ponto pacífico da historiografia contemporânea. No passado não se sabia, mas hoje é dado certo que no século XI as escolas de catedral formavam filósofos tão profundos e elevados que, dizia-se, até os anjos lhes invejavam; ao contrário dos já decadentes escolásticos, que trocaram a filosofia viva por sistemas mortos.

Newman inspira-se no exemplo da universidade medieval do século XIII, mas hoje sabemos, e ele na época não poderia saber, pois só a historiografia posterior o revelou, que aquela instituição, longe de representar o cume da educação na Idade Média, não constituiu senão a cristalização tardia, institucionalizada, mais formalizada e menos vigorosa, daquilo que se ensinava nas chamadas “escolas catedrais” dos séculos X a XII.[3] E o que nestas se ensinava eram precisamente as qualidades do gentil-homem – “um intelecto cultivado, um gosto delicado, uma mente cândida, equitativa e desapaixonada, uma conduta nobre e cortês” – como preparatórias à aquisição das virtudes cristãs, no mesmo sentido em que Clemente de Alexandria proclamara ser a filosofia “o pedagogo que conduz ao Cristo”. O ensino aí alcançou tais alturas, e tão visíveis eram os seus frutos de bondade e sabedoria, que se afirmava, na época, que os anjos mesmos o invejavam. Malgrado o seu fulgurante e breve prestígio intelectual, as universidades que vieram depois, com toda sua história de greves, arruaças e até morticínios e a sua queda posterior numa esterilidade deprimente, jamais mereceram nem mereceriam louvor semelhante.

Essa polêmica histórica é importante ao debate atual porque concretiza as duas posições em disputa: a escolástica representa obviamente um momento da filosofia/teologia descolada da formação humana completa (literária, dos costumes, etc.), muito especulativa e com pouca relação com a vida prática, enquanto o período das escolas de catedral caracterizava-se exatamente por essa visão da filosofia como parte de uma educação para a virtude defendida por Olavo. O grande ponto é: qual desses dois sistemas presta-se mais à filosofia? Olavo claramente julga as escolas de catedral como filosoficamente superiores. A referência que ele dá é o livro The Envy of Angels: Cathedral Schools and Social Ideals in Medieval Europe, 950 - 1200 de C. Stephen Jaeger. Não conhecia o livro, e pelo que vi na Amazon, ele parece mesmo ser muito interessante. Embora eu já tivesse ouvido falar em "humanismo medieval" relacionado ao período, não tinha a noção clara de que se pode falar num período educacional e cultural distinto entre a Renascença Carolíngia e a Escolástica. Mas o pouco que pude ler revelou que o próprio Jaeger discorda da opinião do Olavo (de que os humanistas medievais foram superiores aos escolásticos enquanto filósofos). Diz ele na conclusão do livro (disponível na página da Amazon), cujo trecho que nos é mais relevante coloquei em negrito:

"This study ends with a general reflection on its subject rather than a summary. The movement it has observed is the second of three major events in the education of the European Middle Ages. Each produced changes in western thought, culture and institutions.

The first were the Carolingian educational reforms. They shaped or reshaped the seven liberal arts as a school curriculum and as the basic framework of education. They made rudimentary grammatical, rhetorical and scriptural learning available on a broader scale and created a literate culture in Europe where there had been virtually none before. The institutional shift that made learning possible in a large scale was the revitalizing of monastic and cathedral schools.


The second began in the Ottonian educational innovations and flowed into the intellectual trend I have referred to as medieval humanism. Its institutional basis was the cathedral school as a conveyor of “civil manners” (civiles mores) and educator of future administrators in worldly and ecclesiastical courts. It considerably broadened the basis on which court and civil education were available. Its contribution to rational thought was minimal, in fact retarding, since it was based on personal authority and discouraged skeptical, critical thinking. Its cultural contribution, however, was the social values of European aristocracy, at least that side of their social values that set gentleness and modesty against harshness and arrogance, the codes of behavior we know as civility and courtesy.

The third change occurred in the course of the twelfth century. It represented a shift to rational inquiry and systematic critical thought. Its institutional foundation were the independent schools in Paris which emerged in the course of the twelfth century as a result of the end of the bishop’s monopoly on instruction. Its intellectual contribution was scholasticism. Its cultural contribution was minimal; the individual schools evolved into the institution of the university, and its bequest is that institution with its tradition of systematic, critical thought.

Monasticism gave Europe new ways of studying; humanism gave it new ways of behaving; scholasticism gave it new ways of thinking. Political policy and patronage was behind each of these shifts. The first was Carolingian, the second Ottonian, the third Capetian.

The first and third of these movements have commanded the attention of intellectual historians. The history of the second has still to be written. I have tried to formulate a typology of its curriculum, an outline of its development and a conceptual framework within which its history can be described. Its main points are – (...)"
.


Que houve um período notável de florescimento dos costumes e da formação humana global (ao menos na preocupação dos homens refletida no ensino) é um fato, e é isso que Jaeger afirma. Que esse período tenha sido um cume filosófico e intelectual do qual a escolástica é cristalização decadente e tardia, aí já é interpretação do Olavo.

A interpretação que Jaeger dá nesta breve conclusão é justamente como tendo a pensar. Esse tipo de educação moral e preparação espiritual, embora muito louvável, não é propriamente filosofia. Ela não pode questionar suas próprias bases, e nem debater a sério, pois sua finalidade de formar um certo tipo de homem virtuoso já está dada de antemão; e portanto não resultará em grandes filósofos (os dois grandes pensadores que eu consigo pensar do período não refletem esse sistema das escolas de catedrais: um é S. Anselmo, um verdadeiro gênio solitário no interior do monasticismo e com uma visão pra lá de pessimista da cultura secular humanista; e o outro é Pedro Abelardo, que com sua razão crítica e iconoclasta basicamente criou a escolástica). A relação carismática, ou mesmo iniciática, entre mestre e pupilo não substitui o debate racional. É ridículo e ingênuo imaginar que "sábios" semi-anônimos do século XII que não deixaram obra escrita tivessem pensamento superior ao dos grandes escolásticos. Os poucos registros escritos que sobraram deles mostram que, muito pelo contrário, seus pensamentos eram muito mais conservadores e convencionais, ainda que belos e nobres.

O foco na relação mestre-discípulo e na sabedoria não-verbal (e que, por isso, não pode ser escrito sem ser, em alguma medida, traído) nos aproxima novamente dos sonhos tradicionalistas e perenialistas, dos sistemas simbólicos esotéricos e da imersão em tradições orais. Mas Filosofia é perseguir avidamente o real; e isso é a fuga consumada.

Não estou dizendo que o que o Olavo faz e ensina em suas aulas se pauta por esse modelo fantasioso do tradicionalismo; evidentemente não o faz. E por isso é estranho que ele e tantos de seus seguidores continuem a ter esse tipo de fantasia como ideal de vida e de formação filosófica; mais ou menos como empresários que prestam homenagem ao socialismo.

O humanismo medieval é um fenômeno histórico notável e tem diversos méritos; seu aspecto angelical, contudo, aparentemente devia-se mais ao refinamento dos costumes do que à clareza na contemplação das ideias. A escolástica, por sua vez, como Olavo bem aponta, teve um milhão de contradições, defeitos e fraquezas. Mas um ponto ela teve: fez-se, ao menos por um tempo, filosofia de primeiro nível. Nesse quesito ela é muito superior a qualquer coisa que tenha vindo antes na cultura e nas instituições medievais.

E por isso, para o verdadeiro filósofo, que quer a verdade acima de tudo, acima do refinamento, acima da beleza, acima dos esquemas e das harmonias, das opiniões e das belas crenças, dos costumes louváveis, dos dogmas e da prudência - quase acrescentei "acima da salvação da alma", mas estaria mentindo, pois para ele o maior pecado imaginável seria abandonar essa busca -, os escolásticos de formação parcial e truncada, latim tosco, sem literatura e nada refinados lhe serão de mais interesse do que os anjos da finesse e do saber global humanista e do que os sábios a proferir ensinamentos (ainda que ensinamentos santos!) do fundo de algum eremitério.

quinta-feira, 1 de março de 2012

O Cristianismo não é Conservador

Dessa vez meu interlocutor é Fábio Blanco, que em artigo recente no MSM (O conservadorismo religioso não se opõe à razão), alimentando a querela sobre esse triste movimento que é o conservadorismo, deu um diagnóstico avassalador sobre meu posicionamento: minhas opiniões advêm da total ignorância teológica e moral.
"Alguns liberais podem até entender alguma coisa de economia, mas quando adentram pelo campo do debate moral e religioso vacilam, menos por serem eles mesmos amorais e mais por não entenderem nada de teologia, que é o fundamento da moral conservadora."
Começo apontando que Blanco errou o alvo da minha crítica ao centrar o debate na religião e na relação entre fé e razão. Pois não vejo, e nem meus textos apontam, nada de errado na religião (e olhe que "religião" é outro termo que engloba coisas muito diferentes); a bronca é com o conservadorismo. É possível ser conservador sem ser religioso - presumo que seja o caso de Lara Resende e Mellão Neto. Embora não saiba se eles são ou não religiosos, seu conservadorismo é secular; não faz referência à fé, a Cristo, à Bíblia, etc. É possível ter um conservadorismo religioso (baseado na fé), como é o caso de Nivaldo Cordeiro e Fabio Blanco. E é ainda possível ser religioso e não ser conservador - e esse é o meu caso e de outros na história, como por exemplo - lanço uma provocação intencional - S. Tomás de Aquino.

Até onde posso ver, Blanco e eu temos concepções similares no que diz respeito à fé e sua relação com a razão. A fé não é algo irracional, embora também não possa ser demonstrada. Argumentos inconclusivos, experiência pessoal e certa atitude para com o mundo, tudo isso guiado pela graça de Deus (falo, obviamente, como quem tem fé), contribuem para aceitar algo que, considerado de forma puramente fria e analítica, ou acadêmica, careceria de evidências suficientes. E uma vez aceita, inicia-se um processo que, se incluir o desenvolvimento intelectual, levará a pessoa a encontrar motivos mais profundos e sólidos para certas coisas (não para tudo) que antes aceitara na base de uma espécie de confiança. Nisso estamos de pleno acordo.

Mas Blanco comete um equívoco bíblico que o permite salvar o conservadorismo cristão da pecha de "irracional". Em minha resposta a Nivaldo Cordeiro, eu indagara se a "Lei de Deus" na qual os conservadores religiosos se baseiam era a Lei Antiga (os Dez Mandamentos, e podemos somar a eles a regra de ouro: "faça aos outros o que queres que façam a você") ou a Lei Nova dada por Cristo. Blanco vê nessa minha distinção uma ignorância não apenas teológica mas até mesmo catequética:
"Neste ponto, seu equívoco se encontra na incompreensão da natureza das duas alianças bíblicas. Qualquer catecúmeno logo aprende que quando Cristo apresentou o amor a Deus e aos homens como o primeiro e segundo mandamentos, o fez afirmando que a antiga lei se resumia nisso."
Ocorre que o erro está é com ele. Há uma leitura equivocada (muito comum, por sinal) do Evangelho que confunde duas coisas: a Lei Nova dada por Cristo e a síntese que Cristo faz da Lei Antiga (que, quando apreendida pela razão, chama-se lei natural). A síntese que Cristo faz da Lei Antiga é "Amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a si mesmo" (Mt 22, 36-40); ao fazer isso, Cristo apresenta o sentido último da Lei Antiga. Embora seja similar à Nova Lei que formulará depois, na Última Ceia, elas não são iguais. Pois a Nova Lei diz: "Amai-vos uns aos outros como eu vos amo" (Jo 15,12) . Essa Nova Lei difere da síntese da Lei Antiga ao dar uma nova medida do amor que os homens devem ter uns pelos outros: a medida do amor de Deus. Esse amor divino a que o homem é chamado chama-se "caridade". É um amor que em muito excede a capacidade humana, e para o qual precisamos da graça de Deus, que nos permite 1) ver nos homens a imagem de Deus, e esse é o fundamento da caridade, e 2) de fato sentir e agir com base nessa percepção iluminada pela graça. A Nova Lei, portanto, vai além da Lei Antiga, e não é acessível à razão de quem não tem fé.

E qual era meu argumento? Que a Nova Lei de Cristo não pode ser a base da política: primeiro porque ela é inacessível à razão enquanto tal, e a política é âmbito de todos, crentes e descrentes; segundo porque ela é algo estritamente pessoal (pois decorre da relação do indivíduo com Deus), não podendo ser de forma alguma compelida; e, terceiro, porque a condição extrínseca que nos predispõe à Nova Lei é justamente a boa vivência da Lei Antiga, e portanto é ela que nos deve ocupar na política. Tentar transformá-la em programa, o que significaria substituir as demandas da lei natural pelas da caridade, é desastroso. A postura política cristã (como eu a vejo), portanto, não precisa e nem deve ir além da lei natural.

Reconheço que esse ponto é um pouco vão, dado que as Leis nas quais o conservadorismo religioso em discussão se baseia são claramente os preceitos da Lei Antiga. E a esses conservadores, só posso dizer: não usem a Bíblia como ponto de partida, pois ao fazê-lo alienam todo mundo que não aceita a Bíblia: transformam questões a princípio solúveis pelo debate e pela convivência em partidarismos que só podem se resolver pela força. Posicionar-se politicamente com base na razão e na lei natural em nada contradiz ser um homem de fé e deixar-se guiar pela fé em suas ideias, palavras e atos. O que a lei natural, isto é, o uso da razão como guia da vida humana, contradiz é tomar as tradições e convenções que nos foram legadas como o critério da verdade e do bem. Ela insta todo homem a colocar-se a si mesmo, indivíduo dotado de razão, como juiz daquilo que chegou até ele; consciente, é claro, de sua própria limitação, assim como da limitação de seus antepassados, e disposto a tratar com eles em pé de respeitosa igualdade.

A consideração que fiz acima sobre a caridade toca no ponto principal que quero tratar neste artigo, e que é a questão mais interessante: seria o Cristianismo uma religião naturalmente conservadora? *Pausa para suspense* Não, não é. É claro que é possível ser cristão e conservador, como tantos são (não tenho o menor receio em também dizer que é possível ser cristão e esquerdista - coisa que não sou). Mas não são coisas que combinam tão bem assim.

Para início de conversa, o Cristianismo começou como uma novidade no mundo. Até hoje, aliás, ele é a novidade no mundo. Para quem nasceu em meio cultural cristão é difícil enxergar o tamanho dessa novidade, e mesmo de sentir seu apelo: Deus nos ama para muito além do que somos capazes de imaginar, e oferece a chance de nos unirmos a Ele, partilhando de sua natureza; algo muito além do que nossas capacidades naturais podem almejar ou mesmo imaginar. Ele se fez homem para viver conosco, nos ensinar, partilhar nossas angústias e efetuar essa união. Esse espírito da descoberta da novidade e do maravilhamento que ela traz pode ser facilmente sufocado pelo peso de tradições e convenções que, ainda que muitas sejam até boas em si mesmas (nem sempre são), tomam o primeiro plano.

Intelectualmente, o que há de melhor no Cristianismo sempre foi a capacidade de integrar e usar criativamente fontes díspares para se chegar a novas concepções. S. Justino Mártir e Clemente de Alexandria citados por Fábio Blanco se encaixam aí; sem falar em seu sucessor S. Agostinho. Poderia citar também S. Gregório de Nissa, pensador cristão que, entre outras coisas, foi o primeiro a condenar a instituição da escravidão enquanto tal; essa condenação - tão anacrônica no século IV d. C. - é uma mostra do espírito e do poder inovadores do Cristianismo.

Não posso deixar de mencionar S. Tomás a esse respeito, e a enorme (e virulenta) oposição que suas posições, muitas delas revolucionárias, sofreram do clero e dos professores conservadores. Foi entre cristãos que surgiu a ciência natural verdadeira, primeiro com a elaboração do método experimental e depois com a libertação gradual dos erros aristotélicos que nos aprisionavam; e isso só ocorreu porque tiveram a coragem de dizer que antiguidade não é prova. Os gigantes sobre os quais sentamos eram tão falíveis quanto nós, e erraram muito. O espírito cristão é o espírito da descoberta e da audácia, dos altos ideais e da sede pelo bem, e não o do conformismo conservador e cansado.

Assim, embora os cristãos, em sua maioria, tenham sido conservadores (como são provavelmente a maioria das pessoas), empenhados em manter a tradição pela tradição, o brilho cristão floresceu mais vivo exatamente nos inovadores e criativos; cujo espírito, ironicamente, foi contrariado ao terem suas obras transformadas em novos cânones e tradições inquestionáveis. É o caso de todos os Doutores da Igreja (vide esta tentativa de se refutar Darwin com base na metafísica de S. Tomás) e de tantos outros dentro e fora do âmbito religioso, dado que essa mesma dinâmica opera em quase tudo.

Por fim, politicamente, o Cristianismo é a religião que dessacralizou os reis e imperadores; que os colocou ao nível dos reles mortais. Que relativizou a autoridade soberana ao ensinar que uma lei pode ser injusta a ponto de não dever ser obedecida. Que chegou até mesmo a defender o tiranicídio. Que deu origem ao conceito de direitos individuais inalienáveis e ao entendimento da economia de mercado. Nesse âmbito também o conservadorismo da maior parte dos membros da Igreja se fez sentir ao longo da História, mas foi exatamente o elemento não-conservador, inovador, racional, vivo, que falou mais alto; tão mais alto que o conservadorismo ocidental (do tipo saudável; não estou falando em momento algum de tradicionalismo e esquisitices similares) é notadamente menos reacionário que seus correlatos em outras culturas.

Foi o Cristianismo que deu origem à civilização ocidental, e o que é essa civilização se não o reinado da razão e, portanto, a relativização da tradição enquanto valor? Quem valoriza a tradição acima do indivíduo e da razão individual (e ela só pode ser individual) deve ir pra Arábia, pra China, pra Rússia; o Ocidente não é seu lugar. Com tudo isso, é mesmo uma pena ver gente inteligente dizendo que o traço fundamental e mais importante de nossa civilização é a obediência à tradição! Sim, o conservadorismo de hoje em dia defende em parte as conquistas anti-conservadoras feitas pela sociedade cristã alguns séculos antes; contudo, defende-as exatamente pelo motivo que dificultou seu nascimento. Foi também o espírito conservador e reacionário que, pouco a pouco, criou a cisão lamentável que existe entre o clero (que em diversos períodos se prestou a bastião do conservadorismo mais tacanho) e o resto da sociedade; cisão que não é de hoje e que talvez seja o que mais prejudica a Igreja.

Hoje em dia o conservadorismo serve de caminho e porta de entrada para o Cristianismo? Acidentalmente sim, dado que nossa tradição é cristã e que o conservadorismo valoriza a tradição. Como o Cristianismo caiu em descrédito na opinião dominante, o conservadorismo acaba sendo seu aliado natural. Mas uma vez convertido, cumpre se livrar dos erros desse pensamento que, se levar a melhor e tomar conta da Igreja, será bem-sucedido apenas em dar-lhe um aspecto ranzinza e fechá-la num gueto.

***

Uma nota final: quanto ao comentário sobre o movimento conservador da população brasileira: concordo que ele possa ter efeitos bons, como por exemplo barrar a legalização do aborto. Mas não posso deixar de apontar o óbvio: ele é insustentável a longo prazo. Comparem a aceitação social de sexo antes do casamento há cinquenta anos (ou trinta anos!) e agora; o sentimento popular muda muito rápido. Se o motivo de se defender algo é "sempre foi assim", seus dias estão contados. Não é com base no moralismo carola que a sociedade há de se endireitar; a não ser, é claro, que nosso ideal de sociedade seja a Arábia Saudita.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Conservadorismo Religioso Não se Salva - Uma Resposta a Nivaldo Cordeiro

Meu artigo comentando o artigo de João Mellão Neto foi por sua vez comentado por José Nivaldo Cordeiro em artigo (Direita, volver!) para o Mídia Sem Máscara. Temos ali um conservadorismo diferente daquele advogado por Mellão Neto e, antes dele, por André Lara Resende. Um conservadorismo religioso e primariamente moral, aparentemente distante da versão laica e puramente política dos outros dois autores. Os problemas, contudo, permanecem, e mesmo o recurso aos Evangelhos é incapaz de salvar o posicionamento de Nivaldo.

Em primeiro lugar, vejamos as críticas que ele faz a meu texto:

O autor comete o duplo equívoco de identificar a direita apenas com o conservadorismo, esquecendo dos liberais direitistas, e de associar os conservadores com o apego a formas sociais injustas já superados. São inimigos do cristianismo e não perdem tempo para difamar a religião de Cristo.
Sou inocente das duas partes do "duplo equívoco". 1) Fui bem explícito em dizer que "direita" engloba tanto conservadores quanto liberais (e, a bem da verdade, outras criaturas da noite, como tradicionalistas, monarquistas, etc.); por esse motivo, o termo é pouco útil, pouco informativo. 2) Não disse que os conservadores têm apego a formas sociais injustas. Disse, apoiado no texto de Mellão Neto (que ecoou Lara Resende e, até que se prove o contrário, Burke), que os conservadores têm apego a formas sociais estabelecidas, sejam elas quais forem; eles têm a tradição como um valor em si, independente dela ser boa ou má, justa ou injusta. Não os acusei de forma alguma de difamar a religião de Cristo; disse que, seguindo os critérios de conservadorismo apresentados, um judeu conservador do século I difamaria a religião de Cristo. Um conservador de hoje em dia obviamente louva essa religião, mais uma evidência do vazio moral que está no cerne desse pensamento. No que diz respeito à política, eu mesmo concordo com várias das bandeiras do conservador atual (defesa do direito de propriedade, responsabilização do criminoso individual e não da sociedade, etc.); sou o primeiro a dizer que eles defendem também formas sociais justas. Só que essa defesa se dá por motivos errados, e aí está o problema. Sigamos o texto de Nivaldo.

Segundo ele, a essência do conservadorismo está em defender "o núcleo permanente da moral cristã".  Ou seja, trata-se antes de tudo de uma postura moral, e não de uma doutrina política. Só que no que se funda essa defesa da moral cristã? "Na tradição e nas Escrituras". Note-se de partida, portanto, que é uma posição baseada na fé, sem qualquer apelo, portanto, a um japonês ou árabe que não partilhe dessas mesmas tradições e dessa mesma fé.

Nivaldo não deixa claro se os Mandamentos aos quais se referem são os Mandamentos antigos, presentes já no Antigo Testamento (sinteticamente, os Dez Mandamentos), ou se são a nova lei dada por Cristo aos discípulos. O plural dá a entender que são os Dez Mandamentos, mas a citação de S. João, embora usada para apontar um fato irrelevante (o fato do termo "permanência" ser repetido inúmeras vezes na passagem, como se contagem de palavras na Bíblia fosse argumento em prol de uma postura moral e agenda política que usem a mesma palavra), é justamente a passagem na qual Cristo "institui" sua nova lei: "amai-vos um aos outros como eu vos amei".

Bom, se o núcleo moral do conservadorismo forem os Dez Mandamentos, então é realmente infeliz que Nivaldo (e, presumo, Kirk?) enxergue o fundamento deles nas Escrituras e na tradição. A origem e o fundamento da ética revelada por Deus na Bíblia é a natureza humana; e a natureza humana é cognoscível pela razão; e quando derivada da razão, chamamo-la de lei natural. Deus revelou os Dez Mandamentos para facilitar a vida do povo rude, para dar-lhes de pronto um motivo fácil ("Deus mandou") para "não matar" ou "honrar pai e mãe", coisas que, mesmo que Deus nunca tivesse falado aos homens, seriam igualmente acessíveis à razão. Trocar a razão humana pela tradição é trocar o fundamento pelo efeito, e por um efeito incerto. Como a própria tradição é falível, e falhou diversas vezes ao longo de nossa história, usá-la como critério moral último (junto das Escrituras, interpretadas, é claro, à luz dessa mesma tradição) é cegar-se aos erros que ela pode conter. Quem toma água do rio longe da fonte, corre maior risco de encontrá-la poluída. E é também a rejeição da razão que faz com que seja um posicionamento sectário, incapaz de persuadir quem não comungue da mesma fé, e portanto inútil no mundo plural em que vivemos. É o custo de se preferir, na política, a tradição à lei natural.

Por outro lado, se o núcleo moral do conservadorismo for a lei de Cristo, que não é estritamente derivada da razão, mas depende também da confiança em Cristo e no amor de Deus por nós, então ele tem que necessariamente abrir mão de qualquer proposta política. A lei dada por Cristo é algo eminentemente pessoal e não diz respeito à esfera dos direitos, indo além dela. Não há nenhuma derivação política, ou mesmo moral imediata do "Amai-vos" (por isso, inclusive, que essa nova lei não abole a lei natural, mas a pressupõe). Com efeito, as tentativas de se instaurar o reinado universal do amor cristão na terra, associadas em geral a comunidades heréticas bem distantes do bom senso (ou, modernamente, aos hippies), nunca são duradouras e nem terminam bem. A lei que se presta ao pensamento político é a lei natural, aquela que nossa razão é capaz de apreender.

A política e a ética estão, e têm que estar, no campo da razão. Não é se curvando à tradição que se resolverá o problema moral e político, mesmo porque, embora eu considere o balanço moral do Ocidente superior aos dos demais povos, nosso passado também carrega suas (muitas) máculas, algumas delas  duradouras. É inútil se esconder atrás do tempo, dos antepassados, ou mesmo da Bíblia.

Ao elogiar o surto de moralismo e escândalo que tomou conta das eleições presidenciais passadas, Nivaldo apenas ilustra a fraqueza de sua própria posição: pois se aquela histeria é exemplo do que, na concepção dele, devemos almejar, se aquele é o tipo de debate político que ele espera do Brasil, então estamos num dilema entre o estatismo amoral e o fundamentalismo furioso. O ideal do conservador religioso está mais para uma turba de fanáticos do que para uma população educada e bem-intencionada.

Sim, a política no Brasil e no mundo é dominada por uma esquerda hegemônica, má e imbecil. Dá algum alento ver o surgimento de uma oposição a ela. Mas enquanto essa oposição se basear num moralismo de fundo religioso ou tradicional, isto é, no conservadorismo (que, não nego, nas condições atuais é menos danoso socialmente do que o progressismo), ela será ineficaz e burra; ineficaz porque burra. Quando tivermos claro que a oposição ao mau na política se dá com valores, e não com nostalgias fracassadas ou histeria religiosa condenatória, e que esses valores têm que vir da razão e não do medo de usá-la, daí sim, quem sabe, construiremos um Brasil melhor, mais rico, mais virtuoso e mais propício - para quem quiser - à vivência da lei de Cristo.
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