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domingo, 2 de junho de 2013

Os Filhos do Divórcio, ou Leiam o “Claro Escuro” do Corção!

"Il est plus facile de légaliser certaines choses que de les légitimer".
Nicolas Sébastien Roch Chamfort

Li recentemente o “Claro Escuro”, uma coleção de breves ensaios onde Gustavo Corção comenta um infame projeto de lei que estava para ser votado ao final da década de 50 e que pretendia legalizar o divórcio no Brasil.* Naquelas páginas (publicadas em jornais, à época) ele discute as ideias dos chamados “divorcistas”, que militavam pela dissolubilidade do casamento baseando-se quase somente no argumento de que as pessoas, plenas de dignidade humana, deveriam ter o direito de tentar novamente caso o casório lhes trouxesse mais tristezas que alegrias, mais pobreza que riqueza, menos saúde e mais doença.

A coletânea é valiosa, pois trata não só das questões sociais envolvidas no problema do divórcio, mas também dos princípios que sustentam a indissolubilidade do matrimônio. Recheados de análises fenomenológicas, os ensaios têm o mérito de dialogar com o leitor suscitando-lhe, inevitavelmente, a reflexão.  Pode parecer ultrapassado discutir o assunto, visto que a lei foi aprovada e já há algumas décadas os casais exercem seu direito legal de deixar seus filhos sem família. Mas o fato de algo ter sido legalizado não significa que foi legitimado. E me parece sumamente válido tocar no assunto, uma vez que o divórcio é uma realidade cotidiana cujas vantagens quase todos nós tivemos a sorte de em algum grau experimentar.

Não é difícil para nós, habitantes da virada do milênio, notar que casamento não significa mais a mesma coisa que significou durante a história humana. A palavra é a mesma, mas o que jaz por trás do conceito? O fato de termos sido criados no mundo onde o divórcio faz parte da vida matrimonial privou-nos de entender com clareza a natureza desse fenômeno. E ao que parece, tira-se a indissolubilidade e o casamento perde o sentido. Mas por quê?

Para entender é preciso meditar sobre o que é o casamento, sobre as regras intrínsecas que o regulam e, principalmente, sobre os seus propósitos, seus frutos. Essa análise não é fácil. Qualquer um que tenha se esforçado para entender o porquê do “até que a morte os separe” notou que o assunto é grave, enlaça desde a vida mais imediata do casal até a constituição de um Estado social. Mas não só isso, é preciso pensar o que é o sexo, o supremo ato comunicativo em que dois corpos viram uma só carne e dão vida a outro ser. É preciso pensar na natureza desse novo ser, e ainda na relação dele com o casal, e com o mundo. Não é simples entender, muito menos explicar, o que vem a ser o casamento. No entanto...

Basta uma breve conversa por aí para perceber que a grande maioria – muitos dentre os quais cristãos, católicos, conservadores – define o casamento como “a união entre pessoas que se amam.” Ora, o “amor”! O termo está entre aspas porque a palavra amor também pode ser entendida como um sentimento originado num ato de vontade, onde ele perderia o caráter puramente passional e se tornaria uma espécie de “sentimento racional”. No falar cotidiano, entretanto, não é esse o significado dado a amor, sendo a palavra usada para designar um movimento erótico, misto de afeto e desejo sexual, que seria mais propriamente chamado de cupidez, ou simplesmente paixão. Mas estou aqui falando com a voz do povo, por isso o amor entre aspas. Voltando, o “amor” entendido nesse contexto refere-se a um sentimento muitas vezes tão arrebatador quanto efêmero. Que pode permanecer, com sorte, aceso por alguns anos, mas que inevitavelmente se atenuará com o tempo. As pessoas que se unem tendo por única causa esse “amor” estão fadadas ao divórcio. Assim que a chama se apaga, cada qual pega sua trouxinha, repartem as crianças ao meio, e caminham para lados opostos, quase sempre atrás de um novo “amor”.

Para tentar encontrar, rapidamente, uma alternativa à definição de “casamento por amor”, deixemos em suspenso todas as implicações filosóficas que existem no conceito e vamos pensar no mecanismo mais imediato, e prático, que regula o matrimônio: numa situação natural, quando homem e mulher se casam eles formam uma célula social de onde surgirão filhos. Os filhos são a manifestação viva dessa união, são o ponto em torno do qual o casal costuma orbitar. Eles são o motivo e o motor, são o fruto dos esforços dos pais que, a fim de sustentá-los e educá-los, precisam se manter unidos, cada qual atuando em sua função: a mãe sendo mãe, o pai sendo pai. Sem precisar discutir a questão da grandeza humana, onde vós sois deuses criados à imagem do vosso Criador, os filhos são, ao menos, cidadãos. E a mínima função dos pais seria a de criá-los para que fossem saudáveis membros da sociedade. Para que tivessem o apoio e a segurança imediata que uma criança precisa, os limites e exemplos que nutrem um adolescente e, por fim, a coragem e disposição com que um adulto se torna independente e faz girar a roda da vida. A família é o núcleo que dá forma e sustento à sociedade. E a união de pai e mãe é a condição de possibilidade da família.

 Amar e cuidar dos filhos, esse é o primeiro fim do casamento. Poderia ser também uma definição melhor, mais condizente com a natureza da coisa, e sobrevivente às intempéries passionais do casal. Porém, o que vemos atualmente quando se fala em casamento é quase o oposto dessa ideia. Pensa-se muito na relação entre o casal, e a relação do casal com os filhos é empurrada para debaixo do tapete. A paixão, a fidelidade, a divisão de tarefas, tudo parece ser mais importante do que a criação das crianças. Crianças essas, coitadas, que estão se tornando cada vez mais escassas, visto que os casais de hoje parecem ter refutado o ditado do “um é pouco...”

Agora pensem na ideia do divorcio e decidam: ela leva em consideração os pais ou os filhos? O argumento mais comum na defesa do divórcio é a garantia da felicidade do casal. Não sejamos hipócritas, em casos extremamente raros vemos o divórcio ser defendido para garantir a felicidade dos filhos. O bem-estar do casal está sempre em primeiro plano, e as crianças, que deveriam ser o centro das atenções, acabam relegadas a um fim de semana aqui, um feriado ali. O divórcio só se explica – e se aplica – numa sociedade que já não entende mais para que existe o casamento. O divórcio é como uma ideia-vírus, que destituída de vida própria, invade uma instituição e começa a roer os laços que a sustentam, invertendo o eixo natural e fazendo com que os membros da família passem a pensar primeiro, e antes de tudo, em si mesmos. Sendo a família destruída, a sociedade se dilui, se tornando algo próximo ao ambiente no qual cresceu a minha geração: nós, os filhos do divórcio.

Visto isso, é espantoso notar que quase todos os prognósticos feitos há cinco décadas por Corção a fim de alertar o poço sem fundo em que se metia a sociedade brasileira se concretizaram. Desde a moral do egoísmo hedonista que move a vida atual até o fato de habitarmos todos, não em lares, mas empilhados em caixas cada vez mais apertadas, está tudo lá, previsto, explicado, solucionado. É de se admirar – e lamentar – que esses ensaios não estejam em circulação. Ao que me consta, a última edição do livro foi em 1963, e hoje só se acha em sebos. Esse livro tem o poder de discutir sobre sexo, casamento, família, num nível tão alto, e ao mesmo tempo tão acessível e necessário, que escrevi esse texto para lhes pedir ajuda: leiam e divulguem o Claro Escuro do Corção e cumpram com sua boa ação do ano. Mas chega. Não vou mais falar. Que o livro fale por si mesmo:

“Todo o mundo sabe que o divórcio é extremamente nocivo aos filhos. Em recente inquérito feito nos Estados Unidos foi reconhecido, e proclamado em termos patéticos, que as deformações psicológicas criadas nos filhos pelos divorciados são muito mais graves que as deformações físicas criadas pela poliomielite. Há cerca de cinco milhões de aleijados psíquicos produzidos pelo divórcio nos Estados Unidos. Convém, entretanto, acentuar um aspecto do problema que frequentemente escapa aos psicólogos que aproximam os efeitos do divórcio dos efeitos produzidos pelos conflitos familiares. Bem sabemos que não é só o divórcio que fabrica crianças neuróticas, e que em muito ambiente familiar se torturam inocentes. Mas há alguma coisa diferente e específica nas consequências do divórcio. Para a criança em baixa idade, a união de pai e mãe tem um caráter especial que o adulto, sem alguma reflexão ou intuição de amor, não pode atingir. Para nós, que vimos os noivos individualmente separados, que os vimos viver um aqui outro acolá, com nomes diferentes, em bairros diferentes – para nós a união tem caráter moral, mas fisicamente nos aparece como um fenômeno acidental. Qualquer jovem casal produz em nós, durante alguns anos, um sentimento vagamente divertido e espantado. Sentimos bem o que há de gratuito e fortuito no encontro dos sexos, e temos que fazer apelo a considerações morais e religiosas para sentirmos o mistério do vínculo que une aqueles dois na mesma carne. Para a criança, ao contrário, a união dos pais é física, metafísica e necessária. Melhor do que os filósofos e teólogos, a criança vê, “d´un simple régard”, o vínculo que faz dos pais um bloco, uma base. É uma experiência afetiva e intelectual de uma importância enorme para a criança essa primeira apreensão da realidade familiar.

Assim como se abrem os olhos para o jogo das leis naturais, abrem-se também para essa realidade de pedra que a protege, que a envolve, como paredes de uma casa viva. Por isso, a separação dos cônjuges terá para a criança um aspecto de alucinação. Não se trata apenas de um afastamento livremente consentido de duas pessoas que livremente se uniram. Não será apenas a quebra de um juramento ou a rescisão de um contrato. A separação dos pais, para a criança, é um absurdo. Não é um drama moral, é uma tragédia cósmica. Não é conflito de duas pessoas, é conflito dos elementos constitutivos do universo. O mundo enlouqueceu se os pais se separam. Na mente infantil, a repercussão afetiva e intelectual significa um abalo de todas as fundamentais experiências até então colhidas. É como se a água deixasse de molhar, o sol deixasse de brilhar, a pedra deixasse de ser dura. Não é muito difícil extrapolar as consequências de tão brutal experiência: os psiquiatras estão aí para dizer no que dão os filhos do divórcio.”

Trecho retirado do ensaio “Os inocentes castigados”, do livro Claro Escuro de Gustavo Corção.

* Ao que parece, aqueles que estavam contra a aprovação do divórcio conseguiram adiar a tal votação por quase vinte anos, sendo o divórcio aprovado no Brasil somente em 28 de junho de 1977.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

De como Dostoiévski foi o primeiro olavete; e o desaparecimento iminente dos moderninhos com cara de nojo

I

Escrevi recentemente um artigo sobre Dostoiévski onde avalio a relação deste com a noção de Ocidente e a cultura ocidental. O artigo foi lido por Joel Pinheiro e Julio Lemos e desagradou a ambos pelo que seria um excessivo tom “olavista-voegelinista”. (Nota: Não conversei com Julio Lemos sobre o assunto; sua apreciação me foi brevemente transmitida por Joel Pinheiro. Já com este último venho discutindo abundantemente todas as questões em torno do malfadado artigo, de modo que boa parte do que direi nesse texto não lhe será novidade. No entanto, creio que a grande maioria das pessoas tem sobre Dostoiévski a mesma impressão truncada que verifiquei ser a do Joel. Este texto é uma tentativa de desfazer parte desses nós e de quebra pegar o gancho da discussão mais interessante que a internet viu nos últimos tempos: aquela em que Olavo de Carvalho respondeu às indiretas de Julio Lemos.)

No que pese a crítica razoável de que meu artigo deveria citar menos comentadores (notadamente, Ellis Sandoz, discípulo de Eric Voegelin) e mais o próprio Dostoiévski, é notório que o problema de Joel Pinheiro é principalmente com a linha interpretativa que eu sigo no artigo, tomada, sim, a Sandoz-Voegelin, uma vez que desconheço fonte teórica mais acertada para interpretar o Dostoiévski político (e acrescento que Dostoiévski é o objeto da minha pesquisa de mestrado; há pelo menos três anos não faço outra coisa senão ler interpretações de sua obra). Mas faço o mea culpa que me cabe: o leitor não-especializado, que não leu as mil e quinhentas páginas de textos jornalísticos de Dostoiévski, tampouco suas cartas e cadernos de notas, além, evidentemente, de sua obra literária, não tem obrigação de saber que o ideólogo por trás de obras enigmáticas como Os Irmãos Karamázov e Crime e Castigo identificou pioneiramente o fenômeno a que Eric Voegelin chamou “gnose moderna”. Eu deveria, portanto, ter escrito algo como um preâmbulo justificando a pertinência de minhas fontes teóricas. Concedido isto, sigamos adiante.

Joel Pinheiro declara que, ao invés do meu artigo, gostaria de ler

um ensaio sobre Dostoiévski, e não apenas sobre o "processo político/espiritual gnóstico da modernidade que foi profundamente percebido por Dostoiévski quando ele se defrontou, despido de todas as ideologias, com o problema do nada na alma russa, e como sua crítica vislumbrou os males do séc. XX e de nossa sociedade à beira do apocalipse".

E diz ainda que Ellis Sandoz, ao interpretar a Lenda do Grande Inquisidor à luz da teoria histórica voegeliniana, não está falando de Dostoiévski, mas usando o russo para “fazer política”. O que me faz inevitavelmente exclamar de mim para mim: que raios o Joel pensa ser o conteúdo e o sentido último da obra dostoievskiana?! Subtraia-se a Dostoiévski o sentido do “processo político/espiritual gnóstico da modernidade” e tem-se perfeitamente um corpo sem forma, um significante sem significado. O que não falta são leituras de Dostoiévski politicamente neutras como a desejada pelo Joel, mas eu continuo achando muito mais válido ler um autor pela chave que ele, com todas as letras, declarou ser a sua, e desse modo desdobrar os conteúdos ali implícitos, dando continuidade àquilo que o próprio autor se comprometeu com dizer.[1] No caso de um escritor prolixo como Dostoiévski, esse tipo de crítica é mais do que bem-vindo; mostrar quem é o Dostoiévski de carne e osso sob a parafernália polifônica alardeada pela leitura formalista de Mikhail Bakhtin é o melhor que se pode fazer, nos dias de hoje, pela memória de um autor com os pés tão fincados no real e muito pouco interessado em formalismos e abstrações.

Mas, com efeito, é bastante compreensível que um leitor não-especializado não dê pela importância disso, pois desconhece o projeto literário-político-filosófico do mentor de Os Demônios. Eis algo de que só me dei conta quando da discussão em torno do meu artigo: a grande maioria das pessoas não faz a mínima ideia de quem tenha sido o ideólogo Dostoiévski. Isto se deve, é claro, à dicção literária do romancista russo, que, tendo intenções filosóficas e não raro políticas muito bem definidas para cada uma de suas obras (e isto se verifica de modo muito claro em seus textos não-literários), não consegue senão retratar a realidade de forma polissêmica, dando um equivalente literário ao caos das coisas elas-mesmas. Donde resulta seu recrutamento pelos grupos ideológicos mais díspares, de socialistas a aristocratas wannabe.

É um fato atualíssimo: todos amam Dostoiévski. O autor russo que viveu administrando pedradas e cusparadas e aplausos os mais efusivos chegou, enfim, a ser plenamente adorado. Mas isto tem seu custo: diferentemente dos leitores de hoje, seus contemporâneos o conheciam, liam-no tanto em seus romances como – e talvez até mais – nos textos jornalísticos em torno dos quais ele construiu sua persona intelectual. E, assim, na Rússia do século XIX não era possível macaquear Dostoiévski: quem fosse partidário do velho Fiódor Mikháilovitch trazia necessariamente a si o estigma de suas opiniões tão controversas. Já seus leitores de hoje não o levam às últimas consequências e elogiam-no cada qual na medida de suas conveniências e interesses – seja pelo simples fato de ser um autor canônico, e assim não lê-lo é de uma deselegância inaceitável, seja por ele retratar o caos da alma humana, pelo que serve à causa-mor da contemporaneidade desnorteada – a implosão das ordens tradicionais.

Mas quem era, em verdade, esse Fiódor Dostoiévski? Pudesse ele avaliar seus leitores de hoje e o mundo de hoje, o que diria? Mais interessante ainda: se alguns de seus entusiastas atuais vivessem na época que o viu nascer, seriam ainda entusiastas, ou quem sabe engrossariam o time de seus detratores? Ainda uma última elucubração: se tivéssemos nos dias de hoje um intelectual com ideias semelhantes às de Dostoiévski e eloquência parelha à do autor russo, como seria sua recepção pelos nossos críticos e tão bem penteados homens de letras?


II

"Há uma grande tristeza em não se ver o bem no bem."
- Atribuído a Gógol por Lúcio Cardoso


Um paralelo entre Dostoiévski e Olavo de Carvalho é inevitável quando se leem os escritos jornalísticos de um e de outro. Não apenas suas preocupações político-culturais vão no mesmo sentido, como seus papéis sociais, na Rússia do século XIX e no Brasil do século XXI, respectivamente, são curiosamente semelhantes. Ambos partem de uma experiência pessoal, de um corpo a corpo com o movimento revolucionário de esquerda: Dostoiévski passou quatro anos em uma prisão na Sibéria por ter feito parte de um grupo simpatizante das ideias socialistas (o chamado círculo de Petrachévski); Olavo foi militante do Partido Comunista Brasileiro. Se a vida madura de ambos é marcada pelo combate à mentalidade revolucionária (termo olavético que – salvo engano meu – se aplica perfeitamente à realidade psicossocial de que tratava Dostoiévski, assim como a gnose de Voegelin), isto certamente deve remeter-se a terem visto de perto o olho do furacão. Diz Dostoiévski:

Todas essas convicções quanto à imoralidade das próprias fundações (cristãs) da sociedade contemporânea e à imoralidade da religião, da família, do direito à propriedade privada, e assim por diante – tudo isso eram influências a que éramos incapazes de resistir e as quais, de fato, capturaram nossos corações e mentes em nome de algo muito nobre. (...) Aqueles entre nós – isto é, não só os do círculo de Petrachévski, mas em geral todos os infectados e que no entanto mais tarde rejeitaram completamente toda essa escuridão e terror que se preparava para a humanidade supostamente para regenerá-la e restaurar-lhe a vida – nós àquela época ainda não conhecíamos as causas de nossa doença e portanto ainda éramos incapazes de lutar contra ela. E por que, então, os senhores supõem que mesmo um assassinato à la Nietcháiev nos teria parado – não todos nós, é claro, mas ao menos alguns de nós – naqueles tempos frenéticos, tomados por doutrinas que nos haviam capturado as almas, em meio aos devastadores eventos na Europa de então – eventos que nós, negligenciando nosso próprio país, seguíamos com angústia febril?

(In: Diário de Um Escritor, “Uma das falsidades de hoje”, 1873. Nietcháiev foi o mentor do evento que inspirou o romance “Os Demônios”, em que um jovem foi morto ao tentar desligar-se de uma célula revolucionária.)

O relato de Olavo sobre sua experiência comunista complementa muito naturalmente o de Dostoiévski:

Levei décadas para compreender que a sedução esquerdista não me conquistou – nem a mim nem a meus companheiros de geração – pelo conteúdo ativo da sua proposta ideológica, que só conhecíamos muito superficialmente, mas sim pela oferta implícita de um novo código de moralidade, que chegava a nós sem palavras, pela impregnação difusa na convivência diária. (...) Libertávamo-nos da “moral burguesa” escravizando-nos à autoridade irracional de um círculo de “companheiros”, cuja afeição se tornava o único fiador da salvação da nossa alma ante o tribunal da História. O apego ao grupo era fortalecido pelo ódio a inimigos que não conhecíamos, dos quais nada sabíamos, mas de quem imaginávamos com facilidade as piores coisas, deleitando-nos então de pertencer à comunidade dos bons. (...) Considerando-se a extensão e a gravidade dos crimes praticados pelo comunismo contra a espécie humana, o dever mais óbvio daqueles que se desiludem com ele é aprofundar a ruptura, investigando dentro de si até extirpar as últimas raízes do erro monstruoso em que se acumpliciaram. (In: http://www.olavodecarvalho.org/semana/080731jb.html)

Dostoiévski, como Olavo, saiu da experiência socialista disposto a dedicar sua vida a combater o movimento revolucionário. Isto se verifica com clareza em seus romances, mas é também um dos principais motivos de seus artigos jornalísticos. Tal combate, no entanto, toma a forma de uma crítica social ampla, buscando nos fatos correntes do cotidiano de seu país os indícios de que a mentalidade revolucionária se alastrava, o que o obrigava a insistir terminantemente – os moderninhos enojados diriam “histericamente” – nas terríveis consequências que adviriam da tomada do poder pelos autoproclamados “novos homens”. Eu me sinto segura o bastante para afirmar que Dostoiévski de bom grado teria aberto mão de toda sua obra literária por um único artigo que tivesse sido eficaz no combate às ideias revolucionárias em seu país. Essa era sua “tarefa cívica”, sua justificada obsessão. E não poderia ser de outro modo.

Não poderia ser de outro modo porque não há nada mais importante na história da cultura russa do século XIX do que o advento do pensamento socialista. Qualquer homem minimamente inteligente, interessado por cultura e que vivesse naquele tempo percebê-lo-ia. Em se tratando não apenas de um homem minimamente inteligente, mas de uma potência criativa como Dostoiévski, era inevitável que ele se voltasse à maior das questões de seu tempo, uma vez que tinha diante de si a gestação de uma ideia com o potencial destrutivo de uma bomba atômica – de efeitos materiais mas sobretudo morais. Repito: vivendo quando e onde viveu, e tendo o alcance intelectual que tinha, Dostoiévski não poderia senão ocupar-se da maior questão de seu tempo: é o que fazem os grandes homens.

Mas o Brasil do início do século XXI não é nenhuma Rússia pré-revolucionária, dirão. Não, não é; o Brasil contemporâneo é, sim, um país em plena revolução, e nós, que aqui vivemos hoje, presenciamos a cada dia o avanço da onda que há aproximadamente duas gerações vem desfigurando nossa sociedade civil e esterilizando nossa cultura. É muito difícil perceber isso, e seria praticamente impossível sem os esforços de Olavo de Carvalho. Ele é nosso Dostoiévski, e não lhe faltam no Brasil atual detratores como os teve Dostoiévski. Também o russo teve de viver sob acusações de loucura e conspiracionismo; também ele não se amedrontou e manteve até o fim sua convicção de que alguma coisa gigantesca estava sendo gestada na Rússia oitocentista e que em breve o mundo o testemunharia.[2]

E é assim que, sempre que leio um Julio Lemos fazer pouco de Olavo de Carvalho porque este suja demais as mãos no excremento dos fatos do dia, respiro fundo e penso em Dostoiévski, e me consola a certeza de que a injustiça do momento será paga com a justiça da História. Não tenho dúvidas de que, estivesse Dostoiévski vivo e tivesse a peculiar sorte de nascer brasileiro, ele estaria precisamente denunciando o Foro de São Paulo e as falcatruas do PT – ele estaria, de modo geral, chafurdando naquilo que reconhecesse como o mal no mundo. Se tem coisa que eu não entendo é esse nariz empinado de quem diz “vocês são uns suburbanos denunciando o mal no mundo!”. Ora, eu me pergunto, se um sujeito com veleidades de ser um “homem de ideias” não ocupa seu pensamento com a busca pelas metamorfoses do mal em seu tempo (e identificar o mal é inerente a delinear a verdade), faz o quê? Julio Lemos aparentemente já fez de tudo, já passou por todos os processos em que agora se debatem os olavetes suburbanos, que, ingênuos, creem ter descoberto a pólvora quando ele próprio, o Buda da internet, agora estuda as ciências naturais porque já colheu todos os frutos da metafísica.

Mas realmente não me cabe ficar aqui divagando sobre a psicologia dos detratores de Olavo de Carvalho, pelo simples fato de que Ronald Robson já o fez num texto definitivo. De 2008 a 2012 o cenário parece ter-se agravado, tornado-se mais copioso, mas sem uma mudança substancial na dinâmica de forças. E é ao mesmo Ronald Robson que eu tomo a citação que dá de modo irretocável a razão da superioridade de figuras como Dostoiévski e Olavo de Carvalho sobre seus críticos nojentinhos: “só está apto a produzir algo que fale a todos os homens de todas as épocas o indivíduo que olhou com clareza atroz o que se passa ao seu redor e amou ou odiou, com todo o empenho do seu ser, a sua particularíssima situação concreta.” O que por sua vez remete a uma carta escrita por Dostoiévski a seu amigo Nikolai Strákhov, em que critica um artigo de Turguêniev onde este descreve sua incapacidade de olhar de frente uma execução pública:
 [O]s filhos dos homens não têm o direito de dar as costas a nada que aconteça sobre a terra; não, segundo os princípios morais mais elevados, eles não têm. Peculiarmente cômico é quando ele [Turguêniev] de fato as costas, assim evitando assistir à execução. “Vejam, senhores, que refinada educação é a minha! Eu não pude suportar uma tal cena!” O tempo todo, ele se trai. A impressão mais definitiva que se tem do artigo de modo geral é que ele está desesperadamente preocupado consigo próprio e sua paz de espírito, mesmo quando se trata de cabeças sendo decepadas.

Does it ring a bell, leitor? Temos ou não temos entre nós vários filhotes de Turguêniev? Mais engraçado ainda é ver como Dostoiévski, antecipando os sofrimentos de Olavo de Carvalho, tinha de justificar o tempo todo sua escolha pelos temas do dia, os mais provincianos possíveis (no sentido que “província” tem no supracitado texto de Robson). A partir de 1873 ele passa a publicar o Diário de Um Escritor, periódico em que comentava os principais assuntos do momento e respondia a cartas – espécie, digamos assim, de True Outspeak por escrito –, sobre o qual escreve a uma conhecida:

A senhora escreve que eu estou desperdiçando meus talentos com bagatelas no Diário. Não é a primeira pessoa de quem escuto isto. Portanto quero agora dizer à senhora e aos outros: eu cheguei à conclusão de que um artista deve estar a par, até o mais mínimo detalhe, não apenas da técnica da escrita, mas de tudo – tanto eventos atuais quanto históricos – relativo à realidade a qual ele deseja retratar. (...) Eu devo dedicar-me especialmente a certas peculiaridades do momento presente. E neste presente momento a geração mais jovem me interessa particularmente e, relativa a ela, a questão da vida em família russa, a qual, em meu entendimento, é bastante diversa hoje do que era vinte anos atrás. Também várias outras questões do momento interessam-me.

Veja bem, leitor: nada disto quer dizer que é obrigatório ao intelectual tomar para si o trabalho de escrutínio do presente de que se ocupam Dostoiévski e Olavo de Carvalho. Quer dizer, as pessoas têm vocações e desígnios diferentes. Felizes seremos todos se Julio Lemos se tornar um grande lógico ou matemático; eu mesma não quero fazer outra coisa senão escrever poesia, assim como alguns serão críticos literários e outros engenheiros, e desse modo nem todos combaterão de frente o projeto diabólico da mentalidade revolucionária – mas daí a desdenhar de quem o faz é necessário um grande salto de desonestidade. Não se trata de ignorância, pois Julio Lemos sabe que Olavo de Carvalho se ocupa de coisas importantes, assim como sabe que o olavete de Facebook não representa os verdadeiros discípulos do Olavo – entre os quais não me incluo, pois diante de Ronald Robson e Rafael Falcón sou meramente uma pessoa que gosta de poesia.

Quem julgar que este texto é de um nauseante baixo nível, por tratar “de pessoas e não de ideias”, vá lamber sabão. Devíamos estar todos fartos de viver de aparências. Os debates no Brasil são essa coisa inócua porque instituiu-se que não se pode proferir palavra sem antes embrulhá-la com o papel de seda do bom mocismo.

Agora, voltando a Dostoiévski, faço uma última pergunta: alguém aí, que não seja especialista em cultura russa do século XIX, já ouviu falar em Dobroliúbov, Granóvski, Píssariev, Vladímir Zotóv? Dou um dente a cada pessoa que disser que sim. E então façam as contas e descubram quem chegará à posteridade, se Olavo de Carvalho ou as miniaturas de aristocratas que, na falta de coisa melhor, lhe fazem as vezes de críticos.



***

P.S.: Por falta de espaço, não pude comentar, como planejara, outros trechos de cartas de Dostoiévski muito interessantes ao paralelo do russo com Olavo de Carvalho. Mas postarei esses trechos em apêndice no primeiro comentário desse post, apenas para curiosidade e deleite do leitor.







[1] A título de breve exemplo, vejam-se os seguintes trechos de cartas escritas por Dostoiévski à época da criação de Os Irmãos Karamávov, em que discorre sobre suas intenções para esta obra:

“Its idea is the presentation of extreme blasphemy and of the seeds of the idea of destruction at present in Russia among the young generation that has torn itself away from reality. Ivan’s convictions form what I consider the synthesis of contemporary Russian anarchism. The denial not of God, but of his creation. The whole of socialism sprang up and started with the denial of the meaning of historical actuality, it arrived at the program of destruction and anarchism. The principal anarchists were, in many cases, sincerely convinced men.” (…)  
“The modern denier, the most vehement one, straightway supports the advice of the devil and asserts that that is a surer way of bringing happiness to mankind than Christ is. For our Russian socialism, stupid, but terrible (for the young are with it) – there is a warning [in the Legend], and I think a forcible one. Greed, the Tower of Babel (i.e. the future kingdom of socialism), and the completest overthrow of conscience – that is what the desperate denier and atheist arrives at. The difference only being that our socialists (and they are not only the underground nihilists) are conscious Jesuits and liars, who will not confess that their idea is the idea of the violation of man’s conscience and of the reduction of mankind to the level of a herd of cattle.”  (…) 
“The West has become blinded and has lost Christ. The course of the whole misfortune in Europe, everything, everything, everything without exception, has been that she gained the Church of Rome and lost Christ, and then decided that they could do without Christ.”

[2] Se é verdade que a crença positiva de Dostoiévski era sobretudo no potencial russo de produzir uma mensagem capaz de salvar o mundo do ateísmo revolucionário, essa era uma crença complementar à sua convicção de que, se os socialistas tomassem o poder, seria o fim; donde vencê-los seria um acontecimento tão significativo que deveria implicar necessariamente a posse da chave para os problemas não só da Rússia como de todo o Ocidente.

sábado, 15 de setembro de 2012

Sociedade dos Molengas


Desde que me entendo por gente, sei que funciono melhor à noite. Se obrigada a acordar e a atender a compromissos de manhã, sinto-me um zumbi. O horário mais confortável para o meu funcionamento seria acordar às duas da tarde e dormir às quatro, cinco da madrugada. Gosto de estudar, escrever e pensar enquanto todos dormem e não há barulho ou movimento lá fora. O que há de errado nisso?

Não sei se há algo de intrinsecamente errado nisso, quer dizer, se ignorar todo o resto para viver no “ritmo da noite” de algum modo, a curto ou longo prazo, faz mal. Mas, pensando bem, paralelamente ao instinto notívago sempre tive algo como um contra-instinto que me fez buscar atividades diurnas; escolhi cursar a graduação de manhã e agora, na pós, que só tenho aulas à tarde, me matriculei num curso de língua russa optativo pela manhã. Se acordar cedo me é tão penoso, por que busquei essas aulas matinais? Juro que nunca tinha pensado a fundo sobre isso, caro leitor. Até que li essa matéria na Folha Online.

A Suécia começa neste mês uma nova revolução social, com a introdução da chamada "Sociedade B" -- uma sociedade que leva em conta os diferentes ritmos biológicos dos indivíduos para introduzir horários alternativos de funcionamento para escolas, locais de trabalho, universidades e organizações. (...) A Sociedade B se baseia em pesquisas científicas que indicam que cada indivíduo tem seu próprio ritmo biológico, uma espécie de "relógio interno" que é geneticamente determinado. (...) esses diferentes ritmos biológicos também são uma realidade nas escolas, onde um grande número de crianças e adolescentes tem dificuldades de concentração pela manhã. Ou seja, esses alunos não têm exatamente preguiça de levantar para ir à escola -- eles são apenas "pessoas B".

Dois conhecidos me enviaram a matéria dizendo: “Olha aí a solução dos seus problemas”. Eu li e minha reação instantânea foi pensar: “Esse mundo está cada dia mais louco!”

Acontece, leitor, que uma iniciativa como a tal Sociedade B tem sua origem nas mesmas ideologias e é suportada pelos mesmos grupos que defendem coisas como a extinção da diferenciação de gêneros nas escolas e a “liberdade” para interromper gravidezes psicologicamente estressantes, tudo em nome de uma dita “qualidade de vida” que é maior ou menor segundo confirmam “as pesquisas científicas”. Não quero dizer que rejeito a ideia da Sociedade B por causa das conexões ideológicas de seus defensores – às vezes ideias boas surgem de locais insuspeitados, sobretudo quando lidam com questões de ordem prática (nada impede um abortista de ser o inventor de um excelente descascador de bananas). O que quero dizer é que todas essas iniciativas – a liberdade para se viver de dia ou de noite, não ser chamado nem de menino nem de menina e se livrar do estresse de gerar um filho – têm a mesma raiz perniciosa, são afinal de contas a atualização de um mesmo princípio cultural.

Parece que a palavra de ordem da cultura contemporânea é não sentir dor, desviar de todos os obstáculos possíveis, principalmente daqueles que transformariam você em gente grande, não deixar que a ditadura da dificuldade oprima seus instintos mais viscerais, e nunca, jamais, em hipótese alguma, passar vontade. No reino do relativismo o barato é “ser o que se é”, e isto é nada menos do que se entregar ao acaso, abrir mão do próprio destino, ir sendo ao bel prazer dos acidentes que cruzarem o seu caminho. Pois é isso que acontece quando você se põe à disposição dos seus “instintos viscerais”. Há tanta contradição dentro de um ser humano, tantas pulsões conflitantes, que a cultura do “siga o seu coração, não oprima seus instintos” só poderia resultar nisso que estamos vendo cada vez mais: pessoas totalmente desnorteadas, incapazes de firmar compromissos, chafurdando até o último fio de cabelo no aqui-e-agora, pois já não são donas do próprio futuro. Isso se reflete de modo mais catastrófico (por atacar um âmbito tão básico da existência humana) nos relacionamentos amorosos feitos de algodão-doce: desfazem-se ao menor sopro. Eu estou com você hoje, mas amanhã posso sentir vontade de estar com outra pessoa, e eu sou livre demais para não seguir as borboletas no meu estômago, por isso chegarei aos trinta anos tomando ecstasy nas baladas.

Voltando ao ponto específico das “criaturas da noite”. Eu creio que em parte essa tendência notívaga (seja ela inata ou adquirida, não faz tanta diferença) deva ser explorada por seus portadores. Trabalhar à noite tem suas vantagens. Mas daí a institucionalizar a coisa, apagando o conflito noite-dia, já é demais. Para mim o ponto-chave é que esse é um conflito necessário: sair do conforto da noite para as obrigações ensolaradas, forçar-se a funcionar segundo a normalidade, eis algo de que as pessoas de hoje em dia necessitam. Eu, inclusive. Obrigo-me, duas vezes por semana, a acordar às seis da manhã e frequentar o mundo dos diurnos, senão por outro motivo, apenas por este não ser o meu mundo, e porque é difícil, porque exige disciplina, abnegação, resignação. As pessoas de hoje em dia precisamos demais de tudo isso. Nos demais dias da semana não acordo tão cedo, mas tento também não acordar muito tarde, com exceção de, talvez, dois dias, nos quais exerço plenamente minha potência noturna. Creio encontrar assim certo equilíbrio. Tornar a noite em regra apenas reforçará em todos esses molengas da Sociedade B sua imobilidade em relação a seus próprios acidentes.

domingo, 29 de julho de 2012

Confessionário no Parque Buenos Aires


I

Porque só tenho vinte e quatro anos,
boa parte deles desvivida às cegas,
impressiona-me este parque, os pombos
de andar nobre e pescoços cintilantes

e também a aparência de felizes
dessas famílias, cachorros, crianças.
Vim aqui hoje para andar um pouco,
sabendo bem que ao invés de exercícios

eu ficaria sentada num banco,
longe do sol. Mas vim sem maquiagem,
vim com os cachos molhados, sem vaidade,
e não sei bem o que isso justifica.

Basta dizer que empreendi tal viagem
dos confins do meu quarto à rua aberta
(e antes do meio-dia, ó que coragem!)
para buscar no mundo o que a desdita

(a doença interior) me intercepta.
É preciso por vezes ver a vida
limpa de lágrimas, de abstrações,
chocar os olhos com as coisas ridículas

mas que são afinal a solução
para os problemas que a mente inexplica.
Porque só tenho vinte e quatro anos,
medo de quase tudo e muita fome,

andar a esmo às vezes é bendita
resolução, como a que tive hoje.
Trouxe comigo “O Mundo Como Ideia”,
li de passagem uns dois ou três poemas,

mas senti logo água vazar dos olhos,
como se com saudades do poeta
que eu nunca conheci, que eu nem vi morto
como o viu meu amigo Diego Ivo.

Se bem que, se tivesse tido a chance
de ir ao “escandaloso funeral”,
também não tinha ido, pois me espantam
as coisas findas, esse afã final

que por algum motivo ataca a tudo.
Talvez para entendê-lo e suportá-lo
me falte a força ainda, o ter vivido.
Porque só tenho vinte e quatro anos

e nunca tive o amigo Tolentino.


II

Nunca te vi, Bruno, sequer de longe,
numa palestra, ou conferência, ou festa,
nunca te vi como os que viram e contam
hoje da tua fala franca, aberta.

E, incrível que pareça, não é tanto
o poeta que tu foste o que eu queria
ter tido por perto uma vez que fosse,
antes o homem, o ser humano, o guia,

um avô talvez, um amigo, um complemento
apaziguante das ideias fixas
que me preenchem horas de sofrimento.
Digo que um complemento porque fito

esses poemas teus que em mim refletem
(no mal em mim), mas também têm um alento,
coisa de quem viveu e tomou tento
da vida mesma, não somente em versos,

vida domada à força pela crina,
e emendando as réstias de mistério
que escapam por quaisquer vagas cortinas
compôs cristais inteiros. São remédios,

são como antídotos aos tempos tísicos
em que vivemos novo mal-do-século,
porém sem já saber como imprimi-lo
em poesia que valha um milésimo

de quanto há condensado nos teus versos.
(Por onde anda a luz de Tolentino?
Resta nos livros, mas será só isso?
Se eu sei senti-lo, não será que vive?)


III


Por fim, no epílogo ao confessionário
que armei entre árvores, gentes e pombos,
eis um adendo ainda necessário:
esse poema meu não é pilhérico,

mas como a rima ele mesmo escolheu,
dedico esses versos finais ao Érico,
poeta grande que ao Bruno alegrou
com a esperança de um viço tão jovem.

Pensemos nos poetas do futuro
(seguramente assim Bruno pensou)
quando ao redor demorarem a dar frutos
as plantas ressequidas que ora soam.

Eu mesma não sei se serei poeta,
só sei dessa alegria que me inventa
mil e um motivos para refazer
e desfazer até engendrar num verso

a coisa implícita que me impregnou.
Vai que lá em frente essa coisa mesmíssima
atenta um outro, coitado, que, só,
será tão só quanto eu nesta manhã

antes do parque, da herança do Bruno.
Havemos que alentar nosso futuro;
se boca pouca foi o que nos sobrou,
façamos dela a pequenina herança,

quem sabe dela não nasça outro Bruno
(já vimos que em 2000 escreve um Érico!),
e ainda de quebra vai-se-nos a angústia
ludibriada n’alguns tortos versos.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Um Certo Distanciamento Crítico


Eles são especialistas daqueles tão especializados que passam a ver seu objeto de estudo com o que chamam de distanciamento crítico — e apenas assim. É verdade que distanciadamente é único modo como algumas pessoas conseguem se aproximar (paradoxo significativo) das coisas, e contudo eu tenho uma dificuldade enorme para entender isso. Como pode? Como, um ateu estudioso de Santo Agostinho? Como, um comunista dostoievskiano? Eu me pergunto: como, e a resposta é sempre a mesma: com distanciamento crítico.

Nossas universidades estão cheias disso. O que me faz lembrar de mim mesma aos dezesseis para dezessete anos, estudando para ingressar no curso de Letras porque lá eu encontraria pessoas que gostassem de literatura. Para mim a relação era simples e direta: todas as pessoas que lêem poesia são sensíveis e interessantes. Sim, eu fui uma adolescente ingênua e uma leitora sem muitos comparsas. Depositei todas as minhas esperanças, pois, no bendito curso de Letras, onde todos seriam como eu e sincera e devotadamente amariam a literatura!

Criança miserável, estavas errada. Quem eram aquelas pessoas? O que faziam com livros de poesia entre as mãos? Não eram muito diferentes dos broncos ignorantes do meu colégio. Liam literatura, mas com distanciamento crítico. “Todos os problemas de Drummond já estão resolvidos em Baudelaire”, diz o cínico aspirante a crítico literário, nenhum sinal de tremor nas mãos, nenhum tique nervoso de pálpebra que denunciasse um mínimo princípio de incerteza.

Para esses seres (costuma ser complicado chamá-los de indivíduos), filosofia e literatura são “coisas” paralelas à realidade, que pairam sobre o mundo propriamente dito. Afinal de contas, ler as Confissões de Santo Agostinho, e estudá-las teoricamente, não precisa levar ninguém a fazer um exame de consciência em si mesmo (exemplo roubado de uma das inspiradas falas de minha BFF, Day Teixeira), certo? Trata-se de um mundo em que o envolvimento do estudioso com seu objeto é coisa não só dispensável, mas até indesejada, pois a qualidade do trabalho será diretamente proporcional à quantidade de distanciamento crítico empregado pelo dito pesquisador ao lidar com seu objeto.

Não faz muito tempo ouvi da boca de um doutorando uspiano: “São Tomás de Aquino é bem legal, mas religião em si é um horror.” E eu me pergunto: como?! Dentro da psicologia de uma pessoa viva nesse mundo — como?! Porque em verdade eu ainda não me livrei daquela adolescente de dezesseis anos e, se preciso escrever um artigo sobre um romance para uma matéria da faculdade, busco um jeito de me envolver com ele, se não puder ser por empatia, que seja por discordância, por simples repulsa — mas é preciso haver alguma relação, um canal direto entre a minha subjetividade e o que quer que seja o bendito objeto. E que eu compreenda esse objeto pelo que ele é plenamente, sem qualquer recurso a essas lentes mágicas que os scholars usam para retalhar uma obra em pedacinhos não necessariamente comunicáveis entre si. Modo pelo qual conseguem, por exemplo, estudar Dostoiévski sem passar pelo cristianismo, pois “a obra não é do autor, é do mundo, já que desde Freud não se pode mais falar em intenção do autor.”

Todas as frases entre aspas neste texto são verídicas. Eu gostaria que não fossem, mas são, e essa última é de autoria de um Professor Doutor do Departamento de Letras Modernas da USP.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Elogio do Silêncio


Os meus bens já não estavam fora, nem eram procurados sob este sol pelos olhos da carne. Aqueles que querem gozar fora de si mesmos facilmente dissipam-se e derramam-se naquelas coisas aparentes e temporais, lambendo com o pensamento faminto as imagens de tais objetos. Oh! se eles se debilitassem com a fome e dissessem: “Quem nos mostrará o Bem?”

Santo Agostinho, Confissões


Um dos mais famosos aforismos de William Blake é aquele que diz: The road of excess leads to the palace of wisdom. Contemporâneo da Revolução Francesa e seu irmão ideológico, Blake mantém com o espírito do nosso século vinte-e-um a mais natural afinidade: para ambos o homem é um poço sem fundo que, tendo em seu centro uma ausência, tão menos infeliz será quanto mais tomar do fluxo mundano para dentro de sua goela imensurável; é, afinal de contas, um ser que não tem nada a perder, aquele a quem o acaso jogou no palco da vida e, sem finalidade ou vigilantes, só tem contas a prestar com seu aparelho sensório.

Deixando de lado a questão da filiação ambígua ou cambiante do poeta William Blake a essas ideias, assinalemos simplesmente que em tempos atuais essa é a interpretação que mais apelo tem junto ao populacho (o qual muitas vezes coincide com nossa “classe letrada”). Vivemos em tempos de idolatria do excesso enquanto signo de vida em movimento, tempos em que a vida interior ou contemplativa é suplantada pelo mergulho passivo no mundo dos sentidos.

Isto é válido sobretudo para a cultura das grandes cidades. E aqui entramos no tema deste texto propriamente dito: as grandes cidades, em geral; a cidade de São Paulo, especificamente. Falo de São Paulo porque é a única megalópole que conheço de perto, mas é bastante provável que muito do que se verifica a seu respeito valha também para os outros grandes centros urbanos do mundo, pelo menos quanto aos tipos sociais gerados por eles ou, dizendo de outro modo, ao efeito que a cultura da megalópole tem sobre o humano.

São Paulo é uma cidade totalmente voltada às exterioridades. É um lugar cuja cultura se resume a uma palavra: dispersão. Inclusive o fascínio que ela exerce sobre tantas pessoas, residentes ou visitantes, é comumente expresso por alguma variante da ideia de que São Paulo é um lugar de “tudo ao mesmo tempo”; aqui todas as culturas se encontram, todas as raças e classes sociais convivem, pode-se almoçar por 250 ou 2,50 reais. “São Paulo é a metrópole das oportunidades”, dizem. Já eu digo que São Paulo é o palácio do excesso, onde mais facilmente do que em qualquer outro lugar murcham as sementes da sabedoria.

É preciso, de fato, muita fortaleza interior para não se deixar corromper por essa cidade. Ela tem incontáveis facetas, por isso vou falar apenas daquela que conheço melhor, porque julgo que por trás de todas as suas máscaras existe o mesmo rosto ressequido. Eu convivo, desde que moro aqui, há seis anos e alguns meses, com uma das dimensões de que São Paulo mais se orgulha das tantas que tem: a de metrópole cultural. E afirmo que não preciso mais conhecer lugar nenhum para saber que encontrei aqui o arquétipo do culturette inculto – aquele que, vomitando por onde passa seus conhecimentos em alta cultura, se lhe trancarem num quarto vazio com uma obra de arte, será incapaz de encontrá-la (e, por outro lado, se adentrar um chiqueiro com a informação de que ali se encontram as últimas tendências em arte contemporânea, medirá os porcos, beberá a lama e tomará notas sobre a experiência). É como se o excesso de informação – o excesso de formas tão pretensiosas quanto esvaziadas de arte – esterilizasse a sensibilidade daqueles que vão pouco a pouco aprendendo a ignorar qualquer possível relação entre (parafraseando o poeta) a vida apenas, sem abstração, e o conteúdo de obras artísticas, chegando ao ponto de estas nem precisarem mais ter um conteúdo intelectualmente apreensível, bastando excitarem os sentidos. Esse tipo de expressão artística irracional é como uma extensão lógica das estruturas da cidade de São Paulo, a qual tem em sua anti-arquitetura o símbolo perfeito de sua cultura (disforme, assimétrica, sem comunicação entre suas múltiplas partes, egocêntrica). E no olho desse furacão está o tipo humano que incorpora aquele paradoxo, que consiste em as pessoas mais esterilizadas ou incultas serem justamente as que mais buscam (ou ao menos aparentam) se cultivar.

Para entender melhor esse interessante fenômeno psicológico, falemos de sua versão ampliada e massificada, o evento em que o mencionado paradoxo ganha corpo em uma terrível multidão expressando em uníssono a relação problemática de São Paulo com o objeto “cultura”. Refiro-me ao evento Virada Cultural.

Aquilo que teoricamente se define como “eventos culturais acontecendo durante 24h por toda a cidade de São Paulo” tem pelo menos duas dimensões, ambas lamentáveis. A primeira e mais evidente para quem, curioso e desavisado, resolve ir ver do que se trata é a que chamarei de dispersiva: sob o pano de fundo dos “eventos culturais”, a multidão se embriaga, se droga e se dissipa moralmente ao longo de 24h durante as quais tudo é permitido. Eu já estive lá, leitor, acredite: as ruas da cidade, especialmente as do Centro, viram verdadeiras terras de ninguém. Confesso que, circulando pelo meio da Virada Cultural, cheguei inclusive a experimentar certo prazer, de fundo meio antropológico, meio estético; era como estar diante da materialização de um grotesco antes só acessível através de livros e filmes. Os brasileiros, que não temos guerras nem catástrofes naturais em nossa memória coletiva, carecemos de certo tipo de experiência do trágico capaz de nos mostrar a nós mesmos cruamente. A Virada Cultural de certo modo oferece isso: quem se propuser enfrentá-la terá diante de si um quadro horrendo, dantesco, que deve ser visto na mesma medida em que é preciso um homem examinar sua própria consciência de tempos em tempos e encarar a sujeira presente ali.

Por outro lado, há uma segunda dimensão concomitante à da mera dispersão sensorial e que difere desta não tanto por seus objetivos finais, mas sobretudo pelos meios que utiliza;  trata-se de mera continuação adensada daquilo que constitui a relação normal do paulistano com arte e cultura: pessoas correndo de um lado para o outro, enfrentando filas intermináveis, se acotovelando e competindo para ver quem atende a mais eventos. São uma variação da figura do turista que, visitando ruínas do Velho Mundo, passa pelos marcos históricos segundo o critério de já haver ou não tirado fotografias ali; uma vez que as tirou, corre para entrar na fila do próximo local/monumento e assim por diante. Aqueles paulistanos que não consideram a Virada Cultural como mero pretexto para as mais diversas modalidades de dissipação sensória, isto é, que colocam os eventos culturais em primeiro plano, já não praticam a dispersão por se imiscuírem sexualmente com o primeiro bêbado ao lado ou encherem de química seu cérebro a ponto de já não sentirem coisa alguma (não seria isso, no fim, o que buscavam?); eles anestesiam, sim, seus sentidos, mas buscam fazê-lo já não com álcool e drogas e sim por meio da famigerada arte.

O que acontece aqui é o mesmo que faz pessoas lerem bombas morais como Dostoiévski e saírem intactas. A obra de arte bate na consciência da pessoa sem conseguir penetrá-la, limitando-se a causar certa excitação sem forma definida. Por um lado há aí a simples incapacidade de entender a boa arte, complexa por necessidade de sua essência, mas não é só isso; não se trata apenas de um problema intelectual, de carência em educação escolar; há no fundo disso um problema moral, de caráter – quando um ser humano desconhece a si e a sua situação no mundo ao ponto de nem saber que perguntas fazer, é natural que, se um artista lhe oferece respostas cifradas simbolicamente, esteja o homem confuso desde a base inapto a acompanhá-lo. Não tem jeito. Então as pessoas ficam patinando sobre a superfície de obras de arte, sem qualquer critério ou com critérios risíveis de apreciação, até que já não se diferenciam as boas obras daquelas produzidas pela pressa e ignorância da cultura pop-urbana. É tentativa de expressão artística, tá valendo – essa é a ideia da Virada Cultural paulistana e o que faz a cabeça de seus frequentadores mais cultos, que julgam pensar sobre o assunto.

Eu, indivíduo, Lorena Miranda, não sou melhor que ninguém, mas já não posso lutar contra os fatos; se tenho qualquer respeito por minha faculdade racional, afirmarei que o certo é o certo, o errado é o errado, tal objeto é arte e tal outro não é, quando essas verdades se me impuserem. Eu já estive lá. Como diria Sylvia Plath, I know the bottom. E está tudo errado. Eles se movimentam em círculos viciosos e tudo se estrutura diabolicamente para gerar sofrimento, para aniquilar a noção de pessoa, para minar toda e qualquer autoestima. Essa máquina mortífera opera a todo vapor em São Paulo com sua cultura da dispersão. As pessoas são jogadas na noite dessa cidade e amanhecem só o pó. Muitas, acostumadas a ser pó, nem se dão conta de que existem outras alternativas e pensam: viver é assim mesmo, é ter a vista turva contínua e nauseantemente e de vez em quando receber um baque do chão.

Eu já andei demais por São Paulo olhando a cidade pela janela do ônibus, ouvindo música e vendo tudo passar; já me encantei e ainda me encanto com seus meandros de concreto, seus grafites, seus mendigos pitorescos, seus pombos como sentinelas egípcios, seus jovens fantasiados de mendigos pitorescos de luxo, o luxo de nunca ver uma face repetida na multidão. Mas tudo isso só alimenta temporariamente, como assistir a um filme; tudo isso não passa de exterioridade, de luzinhas piscando para preencher nosso campo de visão. É barulho e mais barulho e sentido nenhum.

Pela minha experiência pessoal, São Paulo resulta nisso: cansaço, distância, confusão mental. Morar nessa cidade é como se debater dentro de uma armadilha: você sai de manhã bem disposto e ao fim do dia ela lhe terá sugado todas as forças. A lenda da convivência harmônica de classes, aliás, é outra de suas mentiras. Os bairros aqui são pequenas vilas onde, para se ser estrangeiro, basta vir de uma linha diferente do metrô. Nada é mais fácil para São Paulo do que separar seus ricos de seus pobres, seus paulistanos de seus nordestinos. Nada é mais fácil para São Paulo do que dificultar o contato entre as pessoas, e tanto, que seus habitantes acostumados a tal lógica da distância logo desenvolvem esse mesmo traço em sua psicologia.

Não existe amor em SP? Mas não há lugar sobre a Terra privado de amor. Há, sim, lugares onde estabelecer e expressar laços afetivos é mais difícil, onde ter vida interior e silêncio para contemplar a realidade do espírito é mais difícil. São Paulo é um desses lugares. São Paulo é um desses lugares onde vive muito bem quem só precisa de uma desculpa para se esquivar da própria consciência.

domingo, 13 de maio de 2012

Carta aos brasileiros

Por Day Teixeira
“Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte; nem se deve acender uma candeia e colocá-la debaixo do alqueire, mas no velador, e assim iluminar a todos que estão na casa” (Sermão da Montanha)
Feto segurando o dedo do médico que o operaNuma época de homens enfraquecidos e covardes, que esperança restará se nem nós, mulheres, sairmos em defesa de nossos filhos?

Está impressa na memória de todos a imagem de soldados marchando para guerras, carregando bandeiras, embarcando em navios e deixando para trás mulheres e filhos chorosos. Ainda que o povo brasileiro não tenha passado por nenhuma guerra recente, a imagem do pai arriscando a própria vida para defender e salvar sua mulher e filhos é mais que simbólica – parece fazer parte da ordem natural das coisas. Porém, em tempos de hoje, a ordem natural parece ter saído de moda.

Assistimos todos com pacífica indiferença ao Superior Tribunal Federal aprovar com folga a legalização do aborto em caso de anencefalia. Deixando de lado a discussão absurda sobre se o feto sem cérebro é ou não um ser humano (seguindo o conselho do Filósofo: discutamos sobre tudo, mas não sobre se o céu é azul) vou ao que importa: as conseqüências quase inevitáveis dessa decisão.

O fato de não ter havido nenhuma manifestação mais expressiva do que frases em twitters e facebooks mostra que, sim, a população brasileira já está amaciada quando o assunto é liberação do aborto. Está se tornando feio ser contra a legalização, remexer nesse assunto que já não é tabu em países desenvolvidos - como anuncia a mídia com um suspiro de satisfação. Ninguém quer dar a cara a tapa para defender crianças anencéfalas que viverão dias insuficientes para agradecer pelo esforço. O problema é que as coisas não irão parar por aí.

Basta ter um pingo de noção sócio-política (e confesso não ter mais que um pingo) para notar o rumo que as coisas vão tomando. A proposta de legalização do aborto em casos de anencefalia foi feita pela CNTS em 2004, mas só agora a votação foi realizada – por quê?

Depois de eleições em que o tema foi parar na berlinda e a população recebeu como promessa de campanha que o aborto não seria legalizado no Brasil, vimos, faz poucos meses, surgir um novo nome para a tal “Secretaria de Políticas para Mulheres”: Eleonora Menicucci. A nova ministra, além de ter sido “colega de cadeia da presidenta”, é como que PhD em políticas e técnicas abortivas. A feminista que foi colocada para assegurar o bem-estar das mulheres brasileiras assegurou-se de passar a vida toda se dedicando à legalização e prática do aborto – em toda e qualquer circunstância. Ora, objetará o bom senso, mas foi legalização do aborto de anencéfalos e não do aborto “aborto mesmo”. Ah, é?

Lembro-me de quando das eleições um rapaz foi parar na cadeia por distribuir panfletos anti-abortistas, e teve aquela manifestação na Sé, e discursos inflamados na internet de pastores e padres e até o Papa se manifestou... E então eu pensei: Ufa, seguraremos essa peteca por bons anos ainda; afinal, não será fácil aprovar na cara dura uma medida que é abominada por quase noventa por cento da população. Como eu fui ingênua. Boba de pensar que esses mestres da manipulação social tentariam fazer as coisas assim, como fazemos todos. Não, eles são muito mais espertos.

Quem seria firme o suficiente em sua convicção anti-abortista para recusar à mulher, grávida de um filho com os dias contados, o direito de antecipar o inevitável e evitar todos os possíveis traumas provenientes da extensão desse sofrimento? Quem seria contra o aborto de anencéfalos num país que já se acostumou com a ideia do aborto-por-estupro? Para além do absurdo de condenar à pena capital um filho inocente pelo crime de seu pai, o aborto-por-estupro abre como prerrogativa a preservação da “saúde psicológica da mãe”, que nesse caso (e agora no de anencefalia) vale mais que a vida do filho. Muito poucos, na verdade, se alarmariam com mais essa concessão, e muitos aceitariam a medida, é verdade que meio a contragosto, tentando com isso aliviar aquele peso na consciência de não poder ser assim tão radical. E é exatamente aí que a malícia faz a festa.

Quando o STJ aprovou (sabe-se lá como, considerando que eles são o judiciário) o aborto de anencéfalos alegando a defesa da saúde mental da gestante, abriu-se a porteira para todo tipo de absurdo jurídico. Será questão de tempo até que várias doenças congênitas, malformações e síndromes dos mais diversos tipos entrem no balaio. O argumento geral só precisará de uma retorcida aqui e ali para valer para inúmeros casos (o bebê cego, o bebê aleijado, o bebê autista, o bebê com pé torto) todos eles causarão futuros traumas psicológicos e deverão ser, com todo o suporte do Estado de direito, picados e sugados para fora dos úteros de suas mães – que, coitadas, graças a isso poderão seguir curtindo sua vida sem dor.

A aprovação do aborto por motivo de deficiência do feto cria um nó moral: a quem é permitido julgar a validade de uma vida? Ao Estado? Às mulheres? Agora que se pode matar um filho “porque já ia morrer mesmo”, quanto tempo restará até que se possa matá-lo “porque o mundo é cruel”, “porque ele seria pobre”, “porque não quero minha barriga flácida”, “porque tenho a minha liberdade”? Ora, existe um grande perigo em se colocar valores acima da vida – principalmente quando se trata da vida dos outros (sim, porque os fetos são outros). E ao ceder ao aborto por anencefalia, os brasileiros estão por tabela aceitando a descriminalização do “aborto mesmo”. Sim, assim desse jeito, sem nem perceber. Estão aceitando um inevitável futuro sangrento para nossas crianças só porque não querem ser assim tão radicais. Percebam: é questão de tempo.

Que homens crescidos e magistrados façam isso contra seus pequenos compatriotas já é alarmante, mas que mulheres (mulheres!) aceitem isso como um direito e ainda se sintam lisonjeadas por saberem que agora os filhos de sua nação poderão ser mortos, para mim, é absolutamente inexplicável. Homens e mulheres favoráveis ao aborto para mim são simplesmente loucos. E por isso aqui não falo com eles, mas com aqueles que tendo a cabeça no lugar não têm, no entanto, força suficiente para falar mil vezes contra o aborto em toda e qualquer circunstância. Tomemos cuidado, pois estamos lidando com cobras astuciosíssimas que se valerão de todos os recursos para atingirem seus objetivos.

Por isso cabe a nós – seres humanos já nascidos e crescidos, tão orgulhosos de nossa iluminada razão – usarmos de nossa condição para garantirmos a esses indefesos pequeninos o direito – dado a eles pela própria natureza – de chegarem um dia a ver a luz desse mundo.

terça-feira, 20 de março de 2012

A Donzela Enjeitada

Eu, que estas cousas senti
n'alma, de mágoas tão cheia,
--- Como dirá, respondi,
quem alheio está de si
doce canto em terra alheia?
Como poderá cantar
quem em choro banha o peito?
Porque, se quem trabalhar
canta por menos cansar,
eu, só, descansos enjeito.
- Camões, estrofe 15 de “Sôbolos rios que vão...”
Os povos não se salvam pelo arrependimento, como as almas. Os povos morrem de uma só vez, pelos erros que cometeram. E a ressurreição de um povo dura séculos.
- Lúcio Cardoso, “Diário Completo”
A poesia e a música são o próprio território da liberdade. Pois se colocam no ápice da arte. E esta, como já vimos, por mais de uma vez, é o domínio do poder ser. Enquanto a moral é o dever ser. E a filosofia, e a ciência de que ela é também a ponta extrema, é a própria expressão do ser. A filosofia e a ciência, portanto, são servas da verdade. Enquanto a poesia e a música são donas da verdade, pois se colocam no plano do possível e não do que é ou do que deve ser. Daí ser a liberdade a própria essência da beleza. E a poesia e a música expressões extremas da criatividade humana. A música como poesia do som. E a poesia como música da palavra. (...) Não há grandes poetas para pequenos leitores.
- Tristão de Athayde, Jornal do Brasil – 23.06.1978

Tendo abordado a face atual da poesia, ou o que poderíamos chamar de a atmosfera em que paira a produção poética contemporânea, fica em suspenso a pergunta que na verdade deveria presidir a todas as outras: ainda faz sentido lutar para escrever poesia no Brasil desse início de século? Existe algum motivo sólido para a permanência do verso em face a tantas novas formas simbólicas de comunicação? O desinteresse do grande público (aí inclusa não desprezível parte do público letrado) pela poesia não apontaria para o ocaso natural e irreversível da mesma?
Recuperemos alguns pontos do artigo anterior. Eis alguns fatos sobre a situação brasileira: 1) Há um número incrivelmente pequeno de poetas e leitores de poesia. Não, o que há em abundância nos blogs e respectivas caixas de comentários não são poetas nem leitores de poesia, mas arremedos dos mesmos; 2) Tem-se acercado da poesia uma aura pejorativa, um cunho feminil, flébil, fleumático, uma condescendência de avó, em cujo fundo se encontra a confirmação do item 1: o que há por aí, nas feiras e baladas literárias, nos saraus hippies de faculdades de Letras, são caricaturas de poetas, e a ideia que se faz de poesia hoje ignora o que é poesia realmente. Poesia não é o modo por excelência de um sujeito exprimir seus sentimentos. Nem toda quebra de linha se pode chamar de verso, como nem toda disposição vertical de linhas quebradas onde se leiam confissões sentimentais é um poema. (Isto não é um poema.)
Mas o ponto agora já não é lamentar o miserável estado em que se encontra a atual poesia brasileira, e sim levantar a questão: apesar de tudo, ainda é mais do que delírio solitário, egocêntrico e dead-ended um sujeito decidir, hoje, lutar contra as circunstâncias para se tornar um poeta, tendo a certeza de que terá pouquíssimos leitores, entre outros desestímulos? Reclamar dos poucos leitores não é querer ter fama ou aclamação popular. No artigo anterior eu dizia, repetindo João Cabral de Melo Neto, que um poeta, como todo artista, deve estar consciente de sua inserção sócio-temporal e deve compor sua obra como monumento a seu próprio tempo – como chave, como registro formulador desse tempo. Obras de arte dissolvem-se na atmosfera cultural de um povo, fecundando seu inconsciente, mas para isso é preciso que sejam minimamente consumidas. O que me parece particularmente problemático no Brasil atual é que obras de arte de verdade, aquelas que se colocam à altura das tradições a que se reportam, dando-lhes continuidade – obras de arte realmente boas, hoje, não conseguem alcançar o inconsciente coletivo, pois não há a quota mínima de sua circulação. Ou seja, parece que não estão conseguindo surtir o efeito desejado (ao menos não ainda), pois há um fosso aberto entre a realidade e o povo brasileiro, por assim dizer. Não ignoro que tudo o que existe seja real e legítimo, inclusive a ignorância dos povos, mas refiro-me a isso que se assemelha a um delírio coletivo, um distanciamento tão cabal das noções mais básicas que sustentam a dignidade humana, que é difícil colocá-lo no mesmo nível de “realidade” da realidade ela-mesma. Um povo que esqueceu que tem alma continua sendo humano e imortal, mas delira e, nessa espécie de cegueira, perde, entre outras coisas, a capacidade de entrar em contato com obras que o deem a ver a si mesmo, como ele realmente é, não a imagem distorcida com que se aprendeu a identificar.
Graduei-me em Letras na Universidade de São Paulo. Foram cinco anos de curso, ao longo dos quais nunca – NUNCA –, isto é, nenhuma vez sequer, ouvi o nome de Bruno Tolentino integrar qualquer reflexão acerca de literatura ou cultura que se fizesse ali. Não reclamo de não ter tido cursos inteiros sobre esse grande poeta, como os tive sobre Manuel Bandeira, Carlos Drummond, Machado de Assis e Shakespeare – digo que nunca nem sequer ouvi falar em Tolentino dentro daquelas salas de aula. Eventualmente, soube de sua existência por meio de colegas de curso, mas nunca, nunca ouvi qualquer referência a ele da parte dos Professores Doutores. E isto, prezado leitor, não é sem relevância para a totalidade do que somos enquanto povo, não é uma exceção casual – isto é o próprio coração do problema. Tolentino legou às culturas de língua portuguesa um livro como As Horas de Katharina, entre outros, mas que só este já bastaria para serem erguidos para ele templos de culto em todas as faculdades de Letras desse país. Ao invés disso, os caciques e seus seguidores calam-se solenemente sobre o autor e sua obra, e não duvido de serem capazes de rir com escárnio à menção de seu nome (nunca fiz o teste, mas ainda farei).
E eis, pois, a questão: se não há ponto de contato entre a poesia e a mentalidade de quem seriam seus destinatários imediatos, se se sabe que se vai dar tiros n’água, por que escrever, por que ser um poeta? A mera satisfação pessoal a partir da prática da escrita não é resposta suficiente – nenhum artista o é exclusivamente para si mesmo. (Me vem à mente o caso de Emily Dickinson, a introvertida poeta americana, famosa por sua vida reclusa e que escreveu poesia lírica, subjetivista, avessa a pensamentos sociais. A poesia de Emily, vinda a público somente após sua morte, foi cuidadosamente organizada pela autora em pequenos cadernos feitos à mão. Difícil pensar que tamanho esmero não aguardasse vir à tona um dia.) A existência dos poucos gatos pingados, contemporâneos do poeta, que o hão de ler e que ele ajudará a educar é, por sua vez, um bom estímulo ao autor de versos, porém há algo mais, e eis o “x” da questão: há os poetas do futuro. Pode ser que no presente e ainda durante algum tempo faltem leitores, mas me parece que a atividade do poeta em tempos de seca ainda se justifica pelo que podemos chamar de o vínculo intergeracional entre poetas.
Na falta de imagem melhor, pensemos o seguinte: a tradição poética de uma língua é como uma escada a que cada geração acrescenta um novo degrau (sendo que o fim da escada, e se ela sobe ou desce, não interessa, é apenas uma sobra da imagem). Com a mudança dos tempos, muda a linguagem poética correspondente, mas, diferente da História, que se faz como à revelia das vontades individuais dos homens (cf. Tolstói, Guerra e Paz), a linguagem poética é produto direto da consciência individual do poeta, do modo como ele interpreta a si mesmo e suas circunstâncias. O que um poeta é enquanto poeta não lhe foi dado de graça pelo ambiente, como se gosta de pensar nos Núcleos de Estudos Relativistas de nossas universidades; um poeta não é a voz espontânea do tempo; que ele seja a voz do tempo, estamos de acordo, mas de modo algum sê-lo-á sem esforço, automaticamente: antes, o raro, o excepcional poeta a que se possa conceder a alcunha de tradutor simbólico de seu tempo só a conquistará após incansáveis tentativas laboriosas e conscientes de dominar o reino do verossímil, para qual tarefa só dispõe de si mesmo e dos poetas que o precederam.
E não todos e quaisquer poetas, mas especialmente os poetas de sua própria língua. Porque poesia é a arte da imagem, sim, mas apenas na mesma medida em que também é a arte da dicção. Um poeta aprende a pensar e a imaginar com os poetas do mundo, mas o expressar-se poeticamente é lição tomada aos poetas de sua própria língua. Ler Dante, Baudelaire, T. S. Eliot é, por um lado, fundamental, indispensável mesmo à formação de qualquer poeta brasileiro que escreva em português; mas é também certo que esse poeta jamais desabrochará na ausência de um conhecimento profundo – de uma imersão total na poesia em língua portuguesa de todas as épocas. Porque poesia é como escultura que se faz com o barro da língua, e cada língua é maleável a seu próprio modo; conhecer a musicalidade da língua na qual se escreve – aprender a tirar dela certos padrões sonoros como se tiram acordes de um instrumento musical, isso é fazer poesia. E isso só se aprende in loco: dentro da tradição a que escrever em determinada língua necessariamente filiará você.
É preciso ter ainda em mente a fundamental importância, para um poeta, da produção das duas ou três gerações anteriores à dele, e como o sucesso delas fomenta o trabalho de quem as sucede. Aqui retornamos à metáfora da escada: sem o suporte das gerações imediatamente anteriores, o salto que o poeta terá de dar para chegar onde deve pode tornar sua tarefa impossível. O poeta que escreveu cinquenta anos antes de mim está mais próximo daquele que escreveu há cem anos do que eu estou; ele me aproxima deste. Falando de modo menos abstrato: sem Bruno Tolentino e João Cabral, sobrar-nos-ia o Modernismo brasileiro em sua bruta forma; aqueles dois poetas, tendo transcendido este movimento, legaram aos poetas de hoje as soluções que os levaram adiante, seus degraus na escada. Seria muito mais difícil escrever poesia hoje sem o link lógico provido pela poesia das gerações de intermédio entre o Modernismo e nós  o que nos permite pensar que, a despeito da esterilidade de suas circunstâncias imediatas, o poeta contemporâneo encontra sua razão de ser na tarefa de comunicar-se com os poetas do futuro, "mantendo a chama acesa" ou algo que o valha.
Poderia dizer ainda que um livro como As Horas de Katharina é um bem em si, cuja composição se justificaria mesmo que para deixá-lo enterrado por todo o sempre, pois o fato de a espécie humana ter vindo a produzi-lo testemunha a nosso favor diante da Eternidade – mas afirmá-lo seria ofuscar os motivos mais imediatos, que existem, para que jovens poetas persistam na tarefa de dizer, ainda que solitários, as verdades mais altas – as quais, evidentemente, só vêm à tona através de formas tendendo à perfeição. Nos nossos dias e em nossa situação, escolher dizer tais verdades por meio da poesia é escolher um caminho dificílimo: além de nadar contra a corrente, e muitas vezes contra si mesmo, para compreender a realidade (e até aqui se está no mesmo barco do filósofo e do cronista), ainda cabe ao poeta reaprender todo um código de representação simbólica e reacostumar-se a formas musicais perdidas, para levar adiante uma arte quase de todo desmoralizada, reduzida pelo senso comum ao ridículo da confissão sentimental.
E tudo isso para quê? Consegui argumentar, creio que suficientemente, no sentido da importância de um poeta para outros poetas – mas e para as pessoas em geral? Por que, afinal, a poesia? Será que, aumentando a erudição (ou a inteligência) de um povo – digamos, da população brasileira – recuperar-se-á o interesse pela poesia? Nos países ainda um pouco educados, ainda se lê e escreve poesia? Eu não sei ao certo, mas sou capaz de apostar um dente da frente na resposta positiva. Se o que nossa população precisa é se reaproximar de verdades eternas e da dignidade humana, tenhamos em mente que poesia e verdades eternas têm andado de mãos dadas há uns milhares de anos. Há alguns casos em que confiar no que é constante ao longo do tempo não é mero conservadorismo covarde, sobretudo quando dentro de nós vive o impulso por integrar essa constância.
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