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quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Vida Longa ao Rei do Camarote



Perdoem a escolha do tema antigo; isso é tão novembro/2013! Espero que valha a pena. Estiquemos um pouco a memória e voltemos para aquelas duas semanas do mês passado em que o esporte favorito das pessoas lindas foi odiar e ridicularizar o Rei do Camarote. Participei com gosto da segunda modalidade, e não vejo nada de muito errado nisso. Só acho que os motivos que suscitaram essas reações não foram devidamente esmiuçados, e por isso estou aqui para repisar o cadáver. Já aviso que a exposição não será lisonjeira; nem para ele, nem para nós.

E há dúvida sobre os motivos da hostilização? O sujeito é ostentador, rico, fútil; plenamente egoísta. É o que andaram dizendo. Outros, mais conservadores, viram nele a boa e velha “auri sacra fames”, o sórdido amor pelo dinheiro. Seja como for, mereceu.

Pois eu digo que ele não ama o dinheiro. Amor ao dinheiro é um vício ascético. É o que acomete o trabalhador compulsivo, o trader para quem o aumento do saldo bancário é um fim em si mesmo; o poupador muquirana que evita religiosamente qualquer pequeno gasto a mais. Esses têm o dinheiro como um fim, e não como um meio para comprar a felicidade. É um vício bem infeliz e solitário. O Rei do Camarote é infeliz, mas, ao contrário dos amantes do ouro, esbanjador. Se ele tem e quer dinheiro, é para usá-lo; para comprar muito luxo.

Só que os bens de luxo também não são, para ele, finalidades em si. Tem gente (poucos) que querem bens de luxo pela qualidade, pela beleza e por outros prazeres diretos que eles proporcionam. Dirigir uma Ferrari, por exemplo, deve agregar valor, não ao camarote, mas à experiência do sujeito. Sentir o ronco do motor, a velocidade, o poder enorme aliado à elegância das formas; para alguns, isso bastaria.

Não para o Rei do Camarote. Ouçamo-lo: “Ferrari é um sonho de consumo de qualquer pessoa em qualquer parte do mundo.” (CAMAROTE, Rei do. 2013.) Ele quer a Ferrari apenas porque todo mundo quer uma Ferrari. É tudo pelo social; tudo pelos outros. “Uma questão de status”. Ele não é nada egoísta; não coloca a si mesmo acima de tudo. Ele coloca a si mesmo abaixo de todos os outros, seu valor à mercê da opinião alheia. Se vamos acusá-lo de algo, é de excesso de altruísmo, preocupação constante com os outros, em se sacrificar pelos valores dos outros, deixando seus próprios valores de lado. Gosta de vodka, bebe champagne.

Até aí, contudo, nada fora do comum; quem nunca? A ausência de amor próprio pode ser um grande pecado, mas não é o que nos levou a condená-lo. O grande pecado do Rei do Camarote não é procurar a glória dos homens; é falhar nessa busca.

Pobre Alexander. Ele se circunda de todos os sinais exteriores do poder e ainda assim projeta impotência; continua sendo um coitado, um loser, um panguão. Não me levem a mal; aposto que há vários homens e mulheres querendo se aproximar dele; por oportunismo. É impossível acreditar, contudo, que algum homem realmente o inveje e que alguma mulher realmente o deseje. O sucesso feminino de que ele se gaba, e que lhe custa muito dinheiro, é realidade corriqueira de muito pé rapado.

O insuportável no Rei do Camarote é essa desconexão entre pretensão e realidade. Alguém aparentando ser o que não é, um tema clássico do humor (todo mundo sacou, aliás, que o sujeito é gay; isso leva a desconexão a um outro nível). Puxar o tapete das pretensões alheias; colocar cada um em seu devido lugar: sempre para baixo. O riso é a arma mais destrutiva de todas. É a única eficaz na arte da degradação moral e social. Nenhum valor que se queira absoluto pode tolerar o humor; por isso monarquias antigas e políticos modernos querem-no proibido, assim como todas as religiões (catolicismo, islã, feminismo, etc.). O humor é o ácido universal da condição humana e, para quem ainda nutria alguma nobre esperança, não tem absolutamente nada de moral, ético ou sustentável. O Rei do Camarote está nu, e nós aproveitamos para jogar um ácido. Quem mandou sair assim?

Não sei porque achamos graça em demolir pretensões. Tenho uma suspeita, que acho que deve servir para pelo menos alguns casos. Aparentar o que não se é é um jeito de tentar ser o que não se é. Tentar melhorar a própria condição. E no fundinho do coração de muita gente (não do meu, não do meu!) reside uma linda voz que lhes impele a rebaixar todo desejo de melhora alheio; que, por contraste, revela o quanto não temos melhorado em nossa. Humilhá-lo, ainda que em pensamento, alivia um pouco a angústia de nossa própria nudez.

O ambicioso, muito mais do que o pobre ou mesmo do que o rico, é sempre mau; é visto e representado ou como risivelmente falso ou como psicopata. O pecado não é estar em cima, se você nasceu em cima; é tentar chegar lá. Sendo assim, nem vem ao caso se o Rei do Camarote merece as zoeiras todas que recebeu (e não foram só zoeiras; teve muito ódio em estado puro também), pois, merecendo ou não, isso não tem nada a ver com o que nos levou a zoá-lo. A justiça é o melhor pretexto para as piores crueldades.

O que nos redime é a memória curta. Passado um mês, é só mais uma pessoa normal, vagando perdido neste mundo. E aposto que mesmo seu pior algoz das redes sociais, se porventura lembra-se que ele existe, já não sente mais nada de ruim, espera que ele encontre seu rumo e seja feliz.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

A Morte dos Heróis





















It turns out que meus amigos do face são profundos conhecedores e admiradores do “Madiba”. Parece que só eu faltei a essa aula; só eu não li os livros. Todos manifestaram sua dor, alguns arrebatados pela emoção, desestabilizados com a morte do herói, do raio de luz que guiava suas vidas e que os dava esperança de um mundo melhor. Teceram loas ao fim do racismo, à democracia, à paz, ao espírito acolhedor dos sul-africanos. Bem, nem todos. Alguns outros amigos, minoritários, acusaram a farsa, pintando um outro Mandela: terrorista sanguinário e/ou monstro corrupto. Veja este e este links (calma, é da Piauí e da Enciclopédia Britânica; não do ARENA-Jovem).

Há um quê de espírito de porco na tentativa de destruir os ídolos alheios, por mais justa que seja a destruição. Aliás, especialmente se for justa. Mas, sendo justa, como não aceitar suas conclusões? Mandela não foi herói; foi apenas demasiado humano numa escala maior do que a dos outros mortais. Mandela o comunista radical, stalinista, o aliado de ditadores sanguinários e magnatas do diamante; Mandela o terrorista; Mandela o corrupto; é tudo verdade. Sustento, no entanto, que Mandela o herói também existiu. A discussão é o embate entre dois símbolos – um bom e outro mau – que não correspondem ao ser humano real. A posição minoritária não acrescenta nada, e acaba aparentando oposição aos valores representados pelo símbolo bom.

Mandela tinha seus esqueletos no armário. Não foi um puro, um santo. Mas representou para muita gente – via seleção midiática – coisas boas. Sua vida representa a vitória sobre o preconceito racial e, para coroá-la, a atitude da reconciliação ao invés da vingança. Eu penso que, se simboliza coisas boas, e há alguma razão para aplicar o símbolo ao sujeito real, deixem o herói estar. Que me importa se, no fundo, Mandela foi um canalha, ou se seu governo falhou em garantir a paz e prosperidade? Só não acreditem literalmente no herói, no santo. Em verdade, ninguém é santo; nem mesmo os santos.

Os dois lados da polêmica Mandela me lembram das brigas acerca da nossa história. Dos paulistanos que vandalizaram a estátua do Brecheret no Ibirapuera, e que querem derrubar a estátua do Borba Gato em Santo Amaro. Os bandeirantes não foram heróis; foram monstros, gananciosos, caçadores de índios. Concordo, desde que se adicione: e foram heróis. A coragem desses homens do mato, a sede pelo ouro, ou pedras ou escravos ou o que fosse, a determinação de entrar na mata fechada, de ser indiferente à morte como só um predador faminto é capaz; esse pecado desbravou nosso território e formou nosso país. Viva!

Os homens do nosso século são incapazes de querer algo com a mesma veemência e falta de culpa com que os homens da Renascença queriam. Olhamos para trás e nos horrorizamos com a violência. Os vícios dos outros são sempre mais chocantes. Algo similar ocorre quando olhamos os ícones políticos de meados do século 20; todos – Che, Churchill, Mandela –, envolvidos em muito mais violência do estamos prontos a tolerar hoje em dia.

Não quero adotar o papel ridículo daquele que condena o tempo em que vive para exaltar um passado virtuoso, que, sabemos, não existiu. Digo que estamos corretos em condenar a violência política daqueles tempos, mas temos também o dever de compreendê-la em seu contexto; o mesmo vale para a escravidão. E vou além: nossos revoltados anti-bandeirantes também têm um herói legítimo para substituir os bandeirantes: Zumbi dos Palmares. Para o bem da inocência deles, espero que jamais leiam uma biografia de Zumbi. Ou melhor, espero que leiam. Inocência é coisa perigosa; adora atirar a primeira pedra.

O panteão dos homens é como o dos deuses gregos – grandes feitos e grandes defeitos; e não menos digno de culto. Celebremos Mandela, os nossos bandeirantes, Zumbi. A Inglaterra, país tão conciliador, tem lições a nos dar: celebram Henrique VIII e Thomas More – nenhum dos quais era flor que se cheirasse.

Crescer individualmente requer, entre outras coisas, perder a devoção incondicional aos pais, aos professores, etc.; vê-los como os homens que são. Uma cultura madura, da mesma forma, não acredita na verdade literal dos heróis; e por isso mesmo pode prestar-lhe homenagens mais verdadeiras. A admiração de uma figura heroica, que fez algum grande bem, não requer a salvação de sua alma. Mandela lutou pelo bem, marcou a percepção de seu tempo de forma positiva. Sendo assim, viva Mandela, ainda que eu – e não só eu – não saiba nada do homem! 

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Estupros e "estupros"

Nicole Bahls passava uma tarde calma na livraria
quando eis que Gerald Thomas a aborda com a pior das intenções...
Sua expressão facial revela o medo que sentiu.


Existe linguagem não-verbal? Nosso comportamento, nossas roupas, nossas expressões faciais e nossos gestos comunicam algo às outras pessoas? Se sim, não dá pra acusar Gerald Thomas de estuprador, embora seja o que o feminismo militante queira.

Thomas deu uma resposta bem ao ponto em seu blog:
"Vem uma menina, de (praticamente) bunda de fora, salto alto de “fuck me”, seios a mostra, dentro de um contexto chamado PANICO e eu (que não deixo me intimidar e gosto desse pessoal) entro no jogo e viro as cartas – e os intimido ! (que nada! Brincadeira também!) (TUDO BRINCADEIRA, GENTALIA HIPOCRITA que abriu uma facebook Page e debate e me massacra e passa dias editorializando e “moralizando”uma questão tão simples e tão absolutamente inútil:"
O papel da Nicole Bahls, escolhido por ela mesma, é se apresentar e agir sexualmente, sem perguntar se os rapazes querem ou não (afinal, é razoável supor que querem, e muito). Se alguém interage com ela na mesma moeda, é estuprador? Mas o negócio dela não é desconcertar por meio do sexo? A desconcertada agora foi ela.

Claro, um pouco depende do que exatamente fez a mão de Gerald Thomas. Há limites que são relevantes em cada contexto. Seria relevante também saber o que a Nicole Bahls achou da situação? Ela se sentiu violada, humilhada, estuprada? Ou só ficou um pouco constrangida? Ou quem sabe gostou? Vai saber. Isso me lembra do caso velho do estupro no BBB, que foi comentado neste blog também. A própria "estuprada" disse que não se importou; ou seja, que o ato do ficante da ocasião não tinha contrariado a vontade dela. Para muita gente, contudo, a opinião dela era irrelevante para definir se o sujeito violou ou não os limites dela. E isso é lutar pela autonomia de alguém?

É preciso ter um contrato verbal firmado antes de se encostar numa mulher mesmo se a linguagem não-verbal dela comunicar que ela quer ser tocada sexualmente? 



Essa tensão entre linguagem verbal (que, via de regra, reflete um juízo mais prudente e intelectual) e a linguagem não-verbal (que reflete um desejo menos filtrado pela razão) não é simples. Há os casos claros, que vão do sexo plenamente consensual em que a mulher toma a iniciativa até mesmo verbal de iniciar, até o sexo plenamente forçado em que a mulher, amedrontada e enojada pelo homem, sofre calada de medo. Entre esses dois, há muita área cinza, e negar isso é deixar uma ideologia simplória falar mais alto do que a realidade que o próprio indivíduo, sem dúvida alguma, percebe. O caso mais interessante é o da interação sexual que, se for trazida ao nível do discurso verbal, será abortada; ou porque o homem "quebrou o clima" ao pedir sexo diretamente, ou porque uma das duas partes tem alguma vergonha do que está fazendo e portanto se sentirá na obrigação de cortar o contato se ele for formulado conscientemente. "O quê?? Você achou que eu ia fazer isso?? Nem me passou pela cabeça!"

Enfim, negar o papel do contexto e da comunicação não-verbal é dizer que o contexto não importa e que todas as nossas interações se dão (ou deveriam se dar) sob a absoluta falta de pressuposições sobre o comportamento alheio. "Um sujeito com olhar de ódio corre em sua direção empunhando um facão? Vamos perguntar o que ele quer antes de esboçar alguma reação.". Às vezes o homem com o facão tinha a intenção mais pacífica do mundo. falhas de comunicação e sinais equivocados são sempre possíveis; o que não impugna a realidade e o valor dessa via de troca de informações. (Aliás, as pessoas menos capazes de captar e participar dessas trocas não-verbais sofrem muito mais para se relacionar).

Nicole Bahls chegou oferecendo seu produto, achando que Gerald Thomas não teria a coragem de pegá-lo. Ele teve (e qual era a intenção dele: realmente sentir um prazer sexual ou gerar algum constrangimento para a "repórter" que tentava constrangê-lo?). Ela se saiu um pouco embaraçada, como fica qualquer um que tem seu jogo virado.

Um dia, eu passeava à noite com três amigos pela rua. Um carro com três meninas da nossa idade parou para perguntar onde era a balada "Pecato". Percebendo que não éramos os maiores pegadores da vizinhança (pois é, comunicamos muito sobre nós mesmo sem abrir a boca), elas resolveram tirar onda. Depois de acertarem onde eu estudava só pelo meu tipo físico e roupas (!!) ainda disseram que, se a gente as ajudasse, elas nos mostrariam os seios. Vendo nossa inibição, ainda foram além e disseram algo como: "Olha só, são três tetas!". Um dos meus amigos, menos propenso a se intimidar, respondeu na lata para a menina, com uma conotação de curiosidade excitada: "Você tem três tetas?". Nisso elas fecharam a cara, xingaram-nos e foram embora. Bons tempos!

O que há num contexto! Se esse mesmo amigo tivesse se aproximado de uma menina quieta num ônibus e, no ouvido dela, tivesse sussurrado a mesma pergunta, seria um assédio sexual bem condenável e bem nojento. Mas naquela noite, naquela troca com as meninas provocadoras dentro do carro, quem o condenaria? Estava completamente dentro do contexto criado por aquela interação. Embora a intenção fosse explicitamente constrangê-las, jogando o mesmo jogo sexual que elas iniciaram, e que estivesse ligado a um desejo de ver até onde elas levariam a brincadeira, foi uma resposta, na minha opinião, perfeitamente aceitável, dado o contexto.

O barulho sobre a "cultura do estupro", quando feito em casos como esse, sem levar em conta contexto e intenção dos participantes, tem apenas um efeito: banalizar o estupro e tirar a seriedade do assunto. Que, aliás, tem menos a ver com a cultura patriarcal, e mais com a biologia: sim, leitores, os bichos também estupram. Portanto, o melhor remédio talvez seja a velha educação de controle sobre nossos instintos. Mas isso não pega bem, né?

terça-feira, 9 de abril de 2013

Finalidades Naturais e suas Perversões, ou Ética do Bom Senso

O homem é um animal. Racional, é verdade, mas ainda assim partilha com os demais animais toda uma estrutura biológica: instintiva, sensitiva, metabólica, etc. Sentimos fome assim como um cachorro ou um macaco sente fome. Ser animal é parte do que somos. Nosso corpo, e as inclinações e tendências que dele decorrem, apontam para funções naturais, biológicas, que temos que cumprir para continuar a viver e preservar nossa espécie. Seria desumana, irreal, angelical, uma ética que fosse contra, por exemplo, o ato de comer. Afirmar isso não é, nem de longe, propor a ética igualmente desumana que nega nosso lado espiritual e afirma que devemos perseguir apenas os bens do corpo. Há um justo meio a ser buscado, e ele inclui corpo e alma. Negar ou contrariar as finalidades naturais que temos em nós é errado para um ser humano; ou seja, é algo que nos faz menos humanos; menos animais racionais.

Peguemos, então, um membro do nosso corpo para mostrar a aplicação prática disso: por exemplo nossos pés e pernas, que podemos chamar de nosso sistema locomotório. Alternativamente, podemos falar não dos membros em si, mas dos atos que por meio deles efetuamos: andar e correr. Esses atos são naturais para nós (claro, um homem anda de maneira diferente à de um cachorro; um mesmo tipo de função natural se expressa de diferentes maneiras segundo as diferenças de natureza). Analisemos essa função natural tendo em vista sua(s) finalidade(s) própria(s).

Ora, a finalidade dos atos de andar e de correr, e por extensão das pernas e dos pés, é a locomoção. Usamo-los para ir de A a B. É para isso que temos pernas; e se nossas pernas ou nosso ato de andar, por algum defeito, não cumprissem essa função, seriam inúteis. A locomoção é, portanto, a finalidade primária do andar. Mas ela não esgota todas as potencialidades que o ato contém. Há também uma outra função que decorre dessa: ao andar, exercitamos e fortalecemos nossas pernas e nosso sistema cardio-respiratório. Assim, podemos falar dessa outra finalidade, secundária, do ato de andar ou correr: o exercício físico.

Não há necessidade de se prender muito a essa nomenclatura de fins primários e secundários; basta notar que ambos existem e que um decorre do outro: ao nos locomover, ao ir de A para B, também nos exercitamos e melhoramos nossa saúde.

Assim, não há problema nenhum em que uma pessoa ande pela rua, não com a finalidade expressa de chegar a algum lugar, mas apenas com o intuito de se exercitar. É evidente que, ao fazê-lo, ela está plenamente aberta à finalidade locomotória de seu ato: ela vai de fato de um lugar a outro, cumpre a função biológica inseparável ao exercício de caminhar, ainda que esta não seja seu objetivo naquele momento. Não é incomum que uma pessoa saia para dar algumas voltas de jogging no quarteirão e termine no mesmo ponto do qual saiu, e não há nada de errado nisso.

Há, contudo, algumas pessoas que não se contentam em desempenhar essa função natural e insistem, por algum motivo, em tentar cumprir uma das finalidades do ato de andar negando a outra. É o que acontece quando, artificialmente, separam exercício e locomoção. Por meio de um aparelho artificial, chamado "esteira rolante", essas pessoas desempenham um exercício ao mesmo tempo em que frustram deliberadamente a função locomotória. Suas pernas se movimentam conforme o processo biológico, mas o aparelho, colocado ali propositalmente, faz com que o indivíduo fique exatamente no mesmo lugar a cada passada. Aí temos uma clara violação da lei moral natural: a frustração deliberada da finalidade do ato de andar, ou seja, uma violação de uma das finalidades que decorrem de nosso ser. Em última análise, trata-se de um ato contrário à natureza humana.

Vejam, não se trata, de maneira alguma, de uma condenação do exercício físico! Ele é bom e louvável. Mas ele deve ocorrer dentro do contexto natural em que se expressa: a locomoção. Também não se trata de dizer que a pessoa age imoralmente toda vez que mexe as pernas e não sai do lugar. Suponhamos que uma pessoa tente andar num chão muito escorregadio e, por isso, não saia do lugar. Se a pessoa não teve a intenção de fazer com que o chão ficasse escorregadio para frustrar a locomoção que decorre naturalmente do ato de andar, não haveria falta moral nenhuma. Digamos que um proprietário de terreno o tenha coberto de gelo para promover um concurso de patinação. Nada há de errado que, encontrando-se no meio do terreno, ele dê vários passos em falso, sem sair do lugar. Agora, se ele for para o meio do piso de gelo com a intenção de andar sem se locomover, daí sim estará cometendo uma falta moral. O motivo, como já expliquei, é simples: nossa natureza animal atende a diversas finalidades necessárias para que vivamos de forma plena segundo aquilo que somos. Frustrar qualquer uma delas é negar parcialmente, na prática, algo daquilo que somos por natureza. É, ademais, um ato irracional, pois se age de forma a atingir um fim A ao mesmo tempo em que se sabota o fim A.

Esse juízo moral se aplica àqueles que usam seus pés e pernas para andar frustrando deliberadamente a finalidade locomotória do ato de andar. Mas podemos ao menos dizer, no caso deles, que o movimento que praticam ao andar ainda é natural: seus pés e pernas se movem da maneira adequada, e a finalidade desse movimento só não é atingida por causa de um aparato artificial posterior ao ato que acaba negando sua natureza. O que dizer, então, de uma pessoa que, num ato de pura perversão anti-natural - movida sem dúvida por um preguiçoso hedonismo -, usa seu pé descalço para pegar (ato próprio das mãos; não é preciso ser doutor em biologia para sabê-lo!) uma caneta que caiu no chão?

sexta-feira, 1 de março de 2013

Nossos Fariseus

Atire a primeira pedra.

E a nova modalidade esportiva do verão é xingar e agredir pecadores, tal qual os fariseus de 2000 mil anos atrás faziam com mulheres adúlteras. Um tanto antiquado? Até seria, não fossem as novas regras, ou seja, o pecado da vez. Desde há dois mil anos até não muito tempo atrás, a praxe era perseguir os pecadores sexuais: ai de quem não seguisse a estrita cartilha moral preconizada pelos rigores da ortodoxia. Hoje, ao menos nas classes educadas, os tabus do sexo foram abandonados e substituídos por outros. As pedras de agora estão reservadas para o pecado social: superficialmente, qualquer mostra de elitismo, ostentação ou “preconceito”.
Vejam o caso da “praia dos riquinhos”, noticiada pela Veja-Rio. Camila Diniz, que estampou a reportagem de domingo e deu seu depoimento por frequentar uma pequena seção privada (denominada “Aqueloo”) de uma praia carioca, na terça-feira recebia promessas de agressão física caso ousasse pisar na praia pública.
O que ela fez de tão terrível? Em primeiro lugar, frequentar um espaço exclusivo e caro. Em segundo, mostrar isso ao mundo. Em terceiro e para coroar, este comentário: “Deixei de frequentar Ipanema e passei a vir aqui todos os dias porque o público é muito mais selecionado”. Revelou ainda que gosta de beber champagne na taça e fazer chapinha depois que volta do mar, que são algumas das regalias da Aqueloo. Mal sabia ela que uma verdadeira legião de usuários de internet não só desaprova suas preferências como se sente mortalmente ofendida por causa delas. A reação pode se manifestar de várias formas: como raiva, outras vezes como escárnio, outras ainda como pena; sempre exageradas.
Falou-se até mesmo que colegas de profissão indignados teriam se juntado para pedir a cassação de seu diploma de… socióloga. Não é por acaso que a Veja escolheu, dentre as centenas de mulheres jovens no Aqueloo, justo a socióloga; ela bem sabe como atiçar os leitores. Pois se tem uma casta social que não pode cometer esse tipo de impureza são os sociólogos; e, em verdade, todos os parentes dos cursos de Humanidades e Artes. Foram eles, afinal, que criaram o padrão moral vigente, e são eles que o impõe a ferro, fogo e humilhação pública. Não diretamente, é verdade. Duvido que os xingamentos das caixas de comentários venham de membros de nossa elite cultural. Seus meios são outros: comentários decepcionados (que é também uma forma de ostentação, só que de qualidades espirituais) e piadinhas em rodas de conversa, em blogs e no Facebook. Uma patricinha que não fez faculdade, coitada, até se entende que se mostre por aí bebendo champanhe em uma praia exclusiva; peca por ignorância. Mas uma socióloga, essa conhece a Lei; seu pecado só pode ser fruto da malícia.
Em outro caso recente, Valéria Rios, uma mãe que tem um blog sobre crianças, ousou falar, aberta e honestamente, sobre como lidar com babás em viagens. Entre outros crimes contra a humanidade, sugeriu que, para conter as despesas, o casal poderia comprar um lanche no McDonald’s para a babá quando fossem a um restaurante caro. A reação foi tamanha que ela tirou o post do ar. Algo similar ao que aconteceu com a psicóloga (conhece a Lei) que não queria estação de metrô em Higienópolis por causa dos mendigos, drogados e “gente diferenciada”. Ao menos no caso dela a parte mais visível da reação teve um toque de bom humor: jovens indignados, provavelmente oriundos das zonas oeste e região central de São Paulo, organizaram um “churrascão da gente diferenciada” na frente do Shopping Higienópolis.
Os veículos midiáticos bem sabem explorar essa atual moda dos públicos esclarecidos de hostilizar, não quem é rico, mas quem é visto como de alguma maneira ostentando ou derivando um prazer sem culpa da riqueza (para o público mais simplório, a pedida ainda é a Revista Caras, ou seja, a admiração pelos ricos e famosos). A “praia dos riquinhos” ocupa o primeiro lugar das mais lidas da Veja-Rio. E lembram do vídeo das socialites discutindo a USP? O único motivo para ter virado notícia foi a esperteza dos jornalistas da Folha, que bem sabiam a reação que viria. E quem esquecerá a indignação pública de Leonardo Sakamoto, um de nossos doutores da Lei, em meados de 2012, contra as madames entrevistadas por Monica Bergamo (outra da patrulha) sobre os arrastões em restaurantes? É nesse filão que entram programas como o “Mulheres Ricas”, cujas protagonistas adoramos odiar. No caso delas, a ostentação é tão escrachada e cafona que poucos levam a sério; elas são antes objeto de riso do que de raiva. O nível da patrulha pela moral e bons costumes chegou a tal ponto que até mesmo Lola Aronovich, a principal representante do movimento feminista no Brasil, teve que pedir a seus leitoresque se abstivessem de comentários a la “classe média sofre” a um texto de uma convidada sua que, maldita, era de classe média e mesmo assim não era perfeitamente feliz.
São dois os tipos de manifestação repreendida por nossos fariseus com suas pedras morais. Uma é a da pessoa que parece tratar alguém de estrato social mais baixo de maneira inferior a ela própria ou sua família (pergunto-me quantos dos revoltados tomam banho no mesmo chuveiro que suas empregadas), e a outra é a pessoa que, sendo rica, ousa ser feliz e demonstrar que não está tão preocupada assim com o resto do mundo. Talvez ambas sejam duas facetas de uma mesma atitude perante a vida. Falei em “pessoas”, usando um termo neutro e politicamente correto; mas percebo que ele é desnecessário: todas as pessoas dos exemplos que consegui achar são mulheres. Olha só, mais um elemento em comum entre a velha e repressora moral sexual e nossa esclarecida moral social: a opção preferencial pelas mulheres.
Acho que o que desperta essa reação é ver não apenas mulheres ricas; mas mulheres ricas que não sentem vergonha de usufruir de sua riqueza e que, além disso, demonstram ter pouco ou nenhum interesse pelas vidas das pessoas mais pobres e seus sofrimentos de maneira geral. Em outras palavras, mulheres que vivem para si mesmas, e não para os outros. E dos dois sexos, é principalmente a mulher que não pode ser um fim em si; se for, é fútil, frívola, burra, má. Imagino que muitas dessas devem conhecer e se importar por pessoas pobres específicas, concretas; aposto também que muitas participam de ações de caridade e voluntariado para ajudar aos desafortunados. Falta-lhes, contudo, a culpa fundamental que transformaria “os pobres” em abstrato em sua razão de viver ou, o que é mais realista, numa pontinha de culpa que as impedirá de aproveitar a vida plenamente. As mulheres criticadas demonstram não estar nem aí: em meio aos arrastões de restaurantes, preocupam-se com suas joias. Outra vai a uma praia para poder conviver com pessoas mais agradáveis, procurando se separar de gente presumivelmente mais pobre e feia. Outras até discutem questões sociais, mas com uma leveza que deixa claro que o happening importa mais do que a discussão (podemos até dizer que o nível das opiniões mostrados no vídeo da Folha era baixo; mas seria ele mais baixo do que as opiniões que correm em reuniões de um centro acadêmico universitário?). Em todos os casos, mulheres que ousam se comportar como se a felicidade delas próprias fosse um fim em si.
Mas nossos fariseus conhecem suas armas, e acabam prevalecendo. Em geral, isso significa fazer sua vítima baixar a cabeça e professar adesão ao código de valores deles. A psicóloga da “gente diferenciada” disse que não usou a tal expressão. A socióloga e a mãe blogueira dizem que foram mal interpretadas; ninguém parece disposta assumir publicamente que, sim, eu prefiro frequentar uma praia com gente mais fina, bonita e agradável. Um comentador da matéria em que Camila Diniz se defende diz tudo: “Vamos ser sinceros, quem é gosta de ir a praia e dar de cara com os farofeiros da linha 2?” Não sou carioca; nem imagino como sejam, como se vistam e como se comportem os tais “farofeiros da linha 2”. Imagino, contudo, que o sentimento de não querer conviver com eles seja um tanto disseminado, na mesma medida em que é violentamente silenciado.
Em tal cenário, é impossível não pensar em Nietzsche. O ódio aos pecadores da ostentação decorre, não de um desejo moralmente superior por parte dos acusadores de escolher outro tipo de vida; mas de sua incapacidade de viver do jeito que condenam, embora de alguma maneira também o desejem. Não é simples inveja. Seria inveja se os acusadores desejassem ter e usufruir daquilo que suas vítimas usufruem. E em algum nível acho que esse desejo deve existir; somos todos humanos. Mas suspeito que, por uma série de motivos, eles seriam incapazes de aproveitar sua riqueza com a mesma despreocupação, e por isso sentem-se mais felizes em estragar a felicidade alheia do que seriam capazes de se apropriar dela. Acho que isso é pior do que inveja. Fico imaginando se os mesmos sociólogos que professam gostar de conviver com os farofeiros da linha 2, na verdade derivam seu prazer exatamente do sentimento de superioridade moral que essa convivência traz. “Eu fico bem em meio ao povo. Sou superior à elite branca que foge deles”.
Sua arma de ataque é justamente a superioridade intelectual e cultural, que dá a eles um poder de determinar e impor o código de valores oficial, desde que consigam arrancar, ao custo de muita chantagem, o consentimento das vítimas. Têm sido bem-sucedidos.
Não que ir a uma praia exclusiva, usar bolsa de marca ou dar dicas de babá sejam ações particularmente virtuosas. Noto, contudo, que todas elas são perfeitamente inofensivas. Mesmo o artigo sobre a babá, que tinha potencial para classismos e racismos mil, foi rigorosamente justo em suas propostas e atitudes, sempre incluindo, por exemplo, a preocupação em conversar e explicar à babá as decisões tomadas; nenhuma delas, afinal, imprópria ou degradante. Nenhum dos casos de escândalo público aqui citados teve como objeto um ato ou atitude verdadeiramente reprováveis. Quem age realmente mal nesses casos, penso, são os acusadores, que sentem ao que parece uma verdadeira compulsão de tornar públicas suas condenações; afinal, é condenando em público que eles próprios adquirem um status moral mais elevado. Isso sim é coisa a se lamentar, sempre cientes de que nós mesmos muitas vezes o fazemos.
A autoridade de nossos fariseus não é de hoje. Resgato aqui trechos do artigo que Ayn Rand escreveu sobre o suicídio de Marilyn Monroe, e que tenta colocar em palavras o que devia se passar nas almas de seus detratores, tão similares aos nossos doutores da Lei em seus piores momentos.
“Se alguma vez houve uma vítima da sociedade, Marilyn Monroe foi essa vítima – de uma sociedade que professa dedicação ao alívio do sofrimento alheio, mas que mata os alegres.
(…)
Sobreviver e preservar o tipo de espírito que ela projetava na tela – um senso de vida de uma benevolência radiante, que não pode ser fingido – era uma conquista psicológica quase inconcebível, que requeria um heroísmo do mais alto grau.
(…)
‘Inveja’ era o único nome que ela conseguia dar à coisa monstruosa que a confrontava, mas era muito pior do que a inveja; era o profundo ódio à vida, ao sucesso e a todos os valores humanos, sentido por um certo tipo de mediocridade – aquela que sente prazer ao ouvir falar das desventuras de um estranho. Era ódio ao bem por ser o bem – ódio à habilidade, à beleza, à honestidade, à sinceridade, à realização e, acima de tudo, à alegria humana.” (Through your most grievous fault, 19/08/1962, LA Times)
Não estou, já disse, elevando as vítimas da nossa patrulha farisaica à condição de exemplos de virtude moral. Estou apontando que aquilo dentro de nós que nos leva a querer colocar para baixo essas pessoas não é bom. Se a alegria alheia nos ofende, se nos causa indignação ver que aqueles acima de nós riem sem olhar para baixo, o problema está mais em nós do que neles. Assim, recomendo a todos que guardem as pedras e as mostras de indignação e vão aproveitar a dia; perto ou longe dos farofeiros da linha 2.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Pai de Saia - dilemas da paternidade



Uma notícia e uma foto verdadeiramente tocantes. Um pai, sabendo que seu filho estava sendo hostilizado pelos colegas e pela sociedade em geral por usar vestidos e saias, resolveu ele também vestir saias junto do garoto para dar-lhe apoio.

Acho que ninguém consegue ler isso e ver a foto sem se sentir comovido pelo ato de generosidade e amor do pai. Ele estava disposto a jogar pela janela sua própria imagem pública para que o filho pequeno, que ainda não entende direito por que tem sido hostilizado e é plenamente indefeso frente à agressão, sinta-se seguro e amado. Isso é profundamente admirável.

Devo admitir que minha admiração diminui um pouco quando leio o depoimento do pai: "Sim, eu sou um daqueles pais que tentam criar seus filhos de maneira igual. Eu não sou um daqueles pais acadêmicos que divagam sobre a igualdade de gênero durante os seus estudos e, depois, assim que a criança está em casa, se volta para o seu papel convencional: ele está se realizando na carreira profissional enquanto sua mulher cuida do resto." E ainda: "É absurdo esperar que uma criança de cinco anos consiga se defender sozinha, sem um modelo para guiá-la. Então eu decidi ser esse modelo". Na hora de falar sobre sua ação, de quem é que ele fala? De si mesmo e de como quer ser visto. O filho parece quase um acessório que ele, o pai, usa para brilhar. Bem sei que não dá para julga-lo por essas frases que chegaram a nós mediadas pela edição do jornalista, e no fundo tanto faz: muitas de nossas ações têm várias motivações simultâneas - algumas boas e algumas não tão boas.

Quero pensar na tensão que há entre a atitude do pai (considerada no que ela tem de admirável) e o caráter problemático daquilo que ele concretamente acaba incentivando no filho. Pois não é totalmente verdadeiro dizer que o menino apenas queria "usar saia", como se seu desejo fosse primariamente por uma opção de uma peça de vestuário entre outras que, para ele, ainda desconhecedor dos padrões sociais masculinos e femininos, eram equivalentes. A princípio, poderia ser isso; poderia ser apenas o desejo de usar um outro tipo de roupa sem nenhuma conotação de sexo ou gênero (por ela ser mais confortável, ou ele achar mais bonita). Mas um detalhe revela que não é só isso: ele também gosta de pintar as unhas. Então, não é que ele tem um desejo de "usar saia"; usar saia é um componente, um meio, um modo de concretizar um desejo de identidade mais profundo: ser mulher. (E tudo indica que é ser mulher adulta, e não menina, pois pintar unha não é coisa de menina).

Agora penso: se o meu filho, do sexo masculino, revelar desejos de ser e se comportar como uma mulher, acho que tomarei duas atitudes iniciais: 1) tentar entender o porquê disso, isto é, o que ele procura; 2) tentar levá-lo por um caminho pelo qual ele possa transcender, superar, esse desejo. Bem sei que há casos e casos, e em alguns deles a predisposição a querer ser do sexo oposto é tão forte que é invencível; não sei o que eu faria nesse caso, mas acho que acabaria aceitando a decisão, sem contanto incentivá-la ao longo de seu desenvolvimento. Mas até que isso fique claro, o papel do pai é ajudar o filho a se desenvolver, tornando-se plenamente aquilo que ele é. Depois do vestido, vieram as unhas pintadas; depois das unhas, o que virá? Maquiagem? Lingerie? Em que ponto seu desejo deixa de ser encarado como autoexpressão e passa a sinalizar desvio preocupante no desenvolvimento?

Como é que, afinal, um pai um dia "percebe" que seu filho de 5 anos gosta de usar vestidos? Não é como se um menino de 5 anos tivesse toda uma vida própria independente e desconhecida dos pais. Os pais no mínimo deixaram e provavelmente incentivaram o filho a usar vestido, prática que está longe de ser inédita na Europa. Baseados na ideia de que o gênero é uma construção social e histórica, pais procuram libertar os filhos de toda e qualquer imposição de caminhos prévios, para que cada um cresça e se desenvolva à sua maneira.

Entretanto, a relação entre sexo biológico e psicológico é forte. O que não quer dizer, obviamente, que as formas particulares em que cada cultura expressa os sexos não sejam criações históricas. É claro que são. Na Escócia medieval, homem usava o que nós chamaríamos de saia. Em países muçulmanos, ainda é comum o uso da túnica, que é similar a uma camisola. Mas essas variações todas, e a forma como elas se articulam e se integram na cultura e na autopercepção individual, variam; um escocês de saiote sente-se muito diferente, e significa algo muito diferente, de um brasileiro de saia. As variações culturais são radicadas em dados da biologia. A natureza biológica não tem, em si, valor normativo; mas o desvio dela não raro é sintoma de problemas que o próprio sujeito reconheceria como tais. Se um indivíduo se vê e se associa com o outro sexo, isso é sinal claro de que algo em seu desenvolvimento psicológico não seguiu o caminho normal, e é preciso descobrir o quê.

Dar ao filho opções iguais, tratá-lo como um sexo neutro, sendo que seu sexo biológico é um só, talvez só confunda a cabeça da criança. Longe de ajudá-la, os pais podem estar interferindo negativamente no desenvolvimento saudável de sua personalidade. Não que seja o fim do mundo, e que toda criança que passe por isso sairá traumatizada; digo apenas que talvez não faça bem. (Nesse sentido, também sou contra fazer um tempestade em copo d'água no caso do filho pequeno apresentar um comportamento desviante; talvez a própria tempestade feita pelos pais ajude a tornar importante algo que do ponto de vista da criança não era importante, mas só uma fase passageira).

E portanto chega-se a um impasse: o apoio que o pai dá ao filho, mesmo às custas de sua imagem, é louvável. No entanto, há situações em que a criança pode estar seguindo por um caminho errado, e nesse caso é preciso não só apoiar como redirecionar. Um pouco de proibição e de reprimenda (leves, é claro; o foco deve ser sempre no reforço positivo), embora não sejam tão admiráveis, podem ser as atitudes que, a longo prazo, mais contribuem para o bem do filho. E é isso que realmente importa.

Para quem realmente não consegue me acompanhar até aqui porque rejeita fortemente a ideia de que o gênero não seja pura construção cultural, pense em um exemplo análogo. Pense em uma criança pequena que se identificasse, sabe-se lá por quê, com indumentária e estética nazistas (algo que pode também ter um componente sexual latente?), ou com sangue, cadáveres e coisas extremamente mórbidas. Por um lado, seria bonito ver um pai apoiar o filho mesmo nesses casos; por outro, não é o tipo de coisa que devesse ser incentivada. Talvez um equilíbrio entre os dois, com apoio público (afinal, não é do dia para a noite que o menino mudaria) associado à tentativa privada de melhor direcionar os gostos e a identidade dele tentando também restringir suas escolhas? Dilemas da paternidade que não se resolvem facilmente...

terça-feira, 31 de julho de 2012

O dilema de Abraão visto de dentro

De todas as passagens bíblicas, uma das que mais apresenta dificuldades é a ordem de Deus para que Abraão sacrifique seu filho. Abraão, perfeitamente obediente a Deus, leva Isaac ao monte, levanta sua faca e, na hora H, um anjo o impede e explica que Deus estava apenas testando sua fé. O fim da história é perfeito e fácil: Deus não queria o sacrifício humano, e o episódio todo teve um papel de teste (teste para o próprio Abraão conhecer a si mesmo e para provar sua fé aos demais homens; não, obviamente, para Deus, que tudo sabe) e também pedagógico.

Ocorre que, entre a ordem de Deus e o aparecimento do anjo, houve um período em que Abraão não sabia que se tratava de um teste, e mesmo assim o acatou. E essa decisão de Abraão é louvada em todas as correntes monoteístas que dele derivam. A disposição de matar o próprio filho, para obedecer a uma ordem divina, é vista como virtuosa. Deus, portanto, não quereria o sacrifício humano, mas quereria fiéis dispostos a assassinar um inocente se Ele assim o mandasse?

Outro problema é de ordem epistemológica. Suponha que você, pai de família temente a Deus, ouça uma voz que alega proveniência divina (se é o próprio Deus ou um anjo que fala por ele, não importa). A princípio, pode se tratar de três coisas: você pode estar alucinando; pode ser que a voz venha de um ente espiritual e seja de fato divina; e pode ser que a voz seja de um ente espiritual maléfico, demoníaco.

Como saber a proveniência da voz? Um critério é: se a voz ou a aparição pedir ou demandar algo que seja imoral, então ela não é de Deus (este critério é um dos utilizados pela Igreja católica para avaliar revelações privadas). Ora, pedir para se assassinar uma criança é bastante imoral. Portanto, pelos elementos que Abraão tinha para julgar sua situação, ele tinha melhores motivos para julgar que se tratava de uma alucinação ou de um demônio do que acreditar que o pedido vinha de Deus. A decisão correta seria rejeitar a ordem dada.

Ele seguiu a ordem, levou o filho ao monte, chegou a levantar a faca e, felizmente, a ordem viera mesmo de Deus, ele foi impedido e ponto final. Mas e se fosse um demônio ou uma alucinação? Então ele teria conseguido matar o próprio filho; ficaria ali, ensaguentado, assistindo o cadáver pegar fogo, e esse seria o fim. O homem que julgava seguir a vontade de Deus não passaria de um esquizofrênico que acabara de cometer uma barbaridade indizível, ou de um agente de Satanás num ritual horripilante.

Como salvar, ou justificar, esse que é visto como o grande ato de virtude de Abraão? Notem que o fato da ordem ter, de fato, vindo de Deus, não resolve o problema. Pois de seu ponto de vista, Abraão não tinha como saber que ela vinha de Deus. Muito pelo contrário, os elementos de que ele dispunha apontavam mais para o demônio do que para Deus. Se um homem recebesse o mesmo chamado de Abraão hoje em dia e o acatasse, seu ato seria considerado, pela Igreja e por qualquer pessoa com um mínimo de sanidade, um pecado.

Tampouco poderemos justificar o ato de Abraão apelando para alguma convicção interna de que o chamado vinha de Deus. Pois a convicção interna, seja ela qual for (seja um sentimento profundo de paz, ou uma certeza inquebrantável, ou mesmo visões esplendorosas), é apenas uma variação da experiência subjetiva humana, podendo ser produzida igualmente por Deus, pelo demônio ou por alguma alucinação.

Como, então, salvaremos o ato de nosso pai na Fé?

Parece-me que o único modo de fazê-lo é reconhecendo que Abraão - e sua tribo de pastores nômades - era uma homem tão rude e tão selvagem que, subjetivamente, não era culpável por não julgar sua situação de acordo com os critérios mais racionais e propriamente humanos pelos quais qualquer homem minimamente civilizado tem a obrigação de julgar. Do ponto de vista dele, que era um ponto de vista objetivamente muito precário e indesejável, a questão moral de respeito à pessoa humana e os problemas epistemológicos da revelação privada simplesmente não se colocavam. Tratava-se apenas da escolha de entregar ou não tudo a Deus. Que a força maior (que lhe dera um filho no passado) talvez não fosse Deus nem lhe passava pela cabeça; era uma força maior à qual ele estava submetido. Que um filho, ou seja, outro ser humano, não deva ser tratado como uma propriedade da qual o dono tem todo o direito de "abrir mão", como se fosse um televisor ou um terreno, também não lhe ocorria. O filho era seu bem mais precioso, e fora dado por Deus. Ele tinha a fé necessária para abrir mão até desse bem pelo amor/obediência a Deus? Estava disposto a entregar o bem recebido para ficar com a fonte do bem (sim, sim, aqui já é uma interpretação abstrata e filosófica que também não devia passar por sua cabeça)? Seu amor a Deus tinha transcendido o amor pelo benefício que recebera de Deus?

Nesse sentido, a ação de Abraão foi realmente virtuosa, mas só porque seu nível mental (cultural; no que diz respeito a sua natureza, Abraão era provavelmente um homem muito inteligente) era tão baixo que ele não tinha como considerar os elementos que faziam com que sua ação fosse, objetivamente falando, imoral. Ele não tinha capacidade para o bem real neste caso; sua ação refletia o melhor de que ele era capaz dadas as circunstâncias. E sendo Abraão moralmente inocente - e mais, virtuoso - ao aceitar a ordem de Deus, o fato de Deus ter emitido tal ordem não viola a bondade divina (que seria violada se Deus comandasse um pecado).

Assim, conclui-se que virtude e vício dependem das circunstâncias em que cada um se encontra; o que é vicioso em um caso pode ser virtuoso em outro, sem que, no entanto, caia-se no relativismo. A ordem objetiva da moral é mantida, reconhecendo-se apenas que a capacidade humana para se adequar a ela pode variar.

O episódio também mostra, a meu ver, como Deus faz uso inclusive das imperfeições humanas para levar adiante sua obra redentora. Fosse Abraão homem civilizado, a história não poderia ter sido assim; sua virtude teria sido pecado [edição: na verdade, acho mais exato colocá-lo de outra maneira: "a escolha que, no caso de Abraão, foi virtuosa, para um homem de hoje em dia seria pecaminosa ou, no mínimo, errônea"].

quarta-feira, 11 de julho de 2012

A Complacência do Naturalismo

Encontrei, meio que por acaso, seguindo links do Facebook, este texto ("Usos e Abusos da Falácia Naturalista") de Filipe Faria para o blog O Insurgente, do qual eu mesmo participei, muito brevemente, em algum momento da minha vida.

Não resisti iniciar esta discussão porque trata de um tema que muito me interessa: a chamada "falácia naturalista", cuja primeira expressão clara foi feita por David Hume. Os partidários da tese da "falácia naturalista" dizem, basicamente, que de uma afirmação positiva (que tenta descrever como a realidade é) não se segue necessariamente nenhum juízo normativo (que tenta prescrever como a realidade deve ser). Isso se opõe a um certo naturalismo ético, que diz que, se a realidade, ou a natureza, ou a natureza humana, é de determinada maneira, então esse fato tem poder normativo; ele prescreve como as coisas devem ser. Ou seja: se algo é naturalmente assim, então ele deve ser assim. Os partidários da falácia naturalista dizem, em essência, que o naturalismo é falacioso. Eu sou um desses partidários.

Filipe Faria, ao contrário, se autodenomina naturalista. Em outras palavras, para ele a realidade tem sim, pelo mero fato de  ser como é, um caráter normativo para o ser humano. Se o homem é naturalmente de uma forma, seria ingênuo, utópico e perigoso propor ou sonhar que ele seja de outra forma. Ou aceitamos a própria natureza humana como ela é ou entramos numa luta contra a realidade; estaremos exigindo do homem mais do que ele pode ser.

Segundo Faria, os partidários da falácia naturalista "dizem que não podemos cair na ideia de que lá porque algo é naturalmente assim, tal significa que tenha de ser aceite como regra." Ou seja, sua definição é a mesma que a minha. E embora ele aceite limitadamente a validade da tese, ainda assim diz que, ao adotarem essa posição, os partidários da falácia naturalista efetuam "uma forma de negação dos factos para dar lugar ao sonho, à utopia confortante e, em última instância, à engenharia social".

A menção à engenharia social já aponta que ele tende a identificar posições éticas a propostas de políticas públicas. Assim, se alguém não aceita que o natural deva ser aceito como norma de conduta, então essa pessoa provavelmente defenderá medidas governamentais que não levem em conta a natureza humana ou - pior ainda - que visem a alterar a natureza humana.

O primeiro ponto a se notar é que é preciso distinguir entre natureza humana e atos humanos. Na imensa maioria dos seres, seus atos, isto é, aquilo que fazem ou aquilo que ocorre com eles, é determinado por sua natureza. No caso do homem, contudo, por mais que tenhamos tendências naturais, instintos e pulsões que não estão sob nosso comando, é quase sempre possível agir à revelia deles. Para nós, homens, o natural, aquilo que se verifica na maioria dos casos, não é de forma alguma determinante. Nossa natureza não escolhe por nós.

Faria cita alguma evidência do nepotismo nas ações humanas; e é bem possível que seja verdade que os homens tendam a favorecer seus familiares. Qual a conclusão que um naturalista, como ele, tira desse fato? Que devemos louvar e aceitar o nepotismo (pensemos apenas no nepotismo que todos consideram ser condenável, como o favorecimento de parentes com cargos públicos) como um dado imutável da natureza? Ora, mas é possível ao homem não ser nepotista. Na política brasileira (e na portuguesa?) o nepotismo é endêmico e notório, mas duvido que se encontre graus comparáveis de nepotismo na política neo-zelandesa ou sueca. E se aceitarmos o nepotismo como fato imutável de nossa condição, daí é que ele não irá embora nunca; pelo contrário, só piorará.

Escolhas individuais produzem culturas diferentes, que por sua vez criam incentivos diferentes para a conduta individual. O motorista suíço, regrado, quado se muda para o Rio de Janeiro, em poucos meses já se aclimata ao trânsito local... O mesmo loiro de olhos azuis, com seus genes germânicos perfeitos, está lá furando farol vermelho e xingando pedestre da mesma forma que o taxista negro do Botafogo. Genes, por mais que possam determinar tendências reais (não podemos negar a priori a possibilidade do fato, por mais que possamos e devamos dizer que ainda não se chegou a nenhum tipo de resultado definitivo nessa direção), não são destino.

Aliás, é gritante a ingenuidade com que Faria aceita resultados altamente polêmicos sobre o comportamento humano, baseado em alguns estudos estatísticos. Sua aceitação da validade da medição de QI e até, aparentemente, de teses racistas, torna seu naturalismo ainda mais preocupante; pois o que ele procura naturalizar, normatizar, é justamente o que há de menos nobre no grosso da humanidade.

É claro que a cultura humana tem bases biológicas. Faria acerta ao apontar a tola separação entre biologia e cultura como um caso da velha e falsa dicotomia corpo-alma. Mas apontar a falsidade da dicotomia é muito diferente de dizer que o corpo determina a alma. Povos com genética idêntica podem ser muito diferentes: Coréia do Sul e do Norte; Alemanha ocidental e oriental; norte e sul da Bélgica; Inglaterra, Escócia e País de Gales; etc. A base biológica nos dá, como Faria aponta, alguns limites; e mesmo esses limites, conforme a tecnologia avança, se mostram cada vez menos restritivos. É possível que, algum dia, dar 50 piruetas no ar seja um ato plenamente factível por qualquer idoso. Portanto nem mesmo os aparentes limites de hoje em dia devem bloquear as mentes dos inovadores, descobridores e empreendedores cujas inteligências trabalham para melhorar nossa vida.

Embora Faria se oponha a algo que eu também considero mau, a engenharia social, ele o faz por motivos espúrios. Não é porque a natureza humana é de tal maneira que não devemos tentar mudar a conduta dos indivíduos. Aceitar isso é aceitar o racismo, o nepotismo, a ignorância, o ressentimento e tudo o que há de pior no homem comum como imutável e até mesmo como "bom".

O real motivo para se opor a propostas de engenharia social é porque ela viola os direitos (ou a dignidade) mais fundamentais dos indivíduos por ela afetados. Não é que ser oportunista ou nepotista seja algo bom; é que uma proposta política que não leve em conta o oportunismo ou nepotismo dos cidadãos será desastrada e não atingirá seus fins. E uma proposta que, sob a bandeira de extirpar o oportunismo e o nepotismo, promova grandes limitações à nossa liberdade e privacidade, gerará uma sociedade pior de se viver do que aquela que é assolada por esses vícios privados.

Outro dia um casal de mendigos brasileiros achou e devolveu 20 mil Reais. Tanto a cultura nacional quanto o instinto de sobrevivência (talvez até mesmo os genes? O brasileiro, afinal, não tem a mesma "pureza" racial dos portugueses; se bem que lá em Portugal também houve uma boa dose de mistura) diziam ao casal: "fiquem com o dinheiro". Não ficaram; fizeram a coisa certa. O naturalismo perdeu essa batalha. E a falácia naturalista foi mais uma vez revelada: não é porque as coisas costumam ser assim que elas devam ser assim. 

Ideais elevados, que vão além da mera normalidade estatística, não são, de forma alguma, sonho ou utopia; são uma possibilidade real a todos que estiverem dispostos a vivê-la. E essa possibilidade, ela sim, é que destrói um sonho mau e confortante que lateja em nossas mentes e que por vezes encontra o respaldo intelectual do naturalismo: "seus vícios e seus defeitos não são culpa sua. Não há nada que você possa fazer". Há.

terça-feira, 3 de julho de 2012

A Família em Xeque



“Single, childless and very proud”
Going Solo: The Extraordinary Rise and Surprising Appeal of Living Alone, de Eric Klinenberg, apresenta-nos com uma das mudanças demográficas mais significativas de nosso tempo: o crescimento sem precedentes do número de solteiros, isto é, pessoas que vivem sozinhas.  Cada vez mais a vida solo deixa de ser uma transição entre a casa dos pais e a formação de uma nova família, tornando-se um estado duradouro ou até mesmo permanente. Solteiros sempre existiram, e mesmo hoje em dia essa vida pode ser escolhida por motivos muito diferentes: uma viúva idosa e um padre católico ambos entram na conta demográfica dos solteiros, mas não são esses que melhor representam o fenômeno. Quando falamos no grupo dos solteiros, pensamos nos adultos em idade profissional que vivem sozinhos por opção e que, embora via de regra se relacionem romanticamente, não pensam em constituir união duradoura com ninguém.
Klinenberg, que é ele próprio casado e pai de família, oscila entre a descrição desse fenômeno social, com seus custos e benefícios, e uma certa celebração do estilo de vida que ele preconiza. A mudança social é grande, mas a cultura e as instituições não parecem ter se adaptado plenamente a ela. Apesar de todas as séries de TV, o normal na mente da maioria das pessoas é a família nuclear. E por isso temos reações como a de Petronella Wyatt, jornalista britânica que gerou polêmica com o artigo “The state penalises women who are childless and unmarried: ‘I might be single, but I’m not a failure’”.
Muitas reações são possíveis a esse fenômeno social e cultural; uma delas é a já citada celebração. Outra, a de Benjamin Schwartz escrevendo para a The American Interest (“Selfishness as Virtue”), é a indignação moral. Para Schwartz, essa mudança social é sintoma do egoísmo e do individualismo que tomaram conta de nossa sociedade e agora estão para dar-lhe um fim. Diferentemente de nossos antepassados (e dos valores supostamente legados pelos Founding Fathers), que se sacrificavam para constituir famílias e se reproduzir, o homem contemporâneo pensa demais em si mesmo, e por isso é incapaz desse ato de autonegação.
Schwartz faz pelo menos dois pontos que me parecem bons: o primeiro é que a prevalência de solteiros como unidade residencial mais comum tem implicações sérias para um outro dado muito relevante da demografia atual: a geração e a formação dos filhos. Seja boa ou seja má, a instituição da família nuclear é um arranjo reproduzível ao longo das gerações; isto é, ela se repõe. Já os solteiros convictos, a não ser que criar um filho sozinho vire prática quase universal, dificilmente repõem a população.
Mas não é justo esperar que alguém escolha seu modo de vida baseado num cálculo global do que é melhor para a perpetuação da espécie, ainda mais hoje em dia, quando, apesar dos alarmismos de ambos os lados, nem a super e nem a subpopulação apresentam perigos iminentes. A decisão só pode depender da consideração intrínseca dos diferentes modos de vida; de uma análise honesta, humana, de seus prós e contras, não para a população global, mas para o indivíduo que os vive.
E é nessa questão que o artigo de Schwartz, embora faça inicialmente um bom ponto, perde o rumo. Onde ele acerta: há algo faltando na concepção de felicidade que Klinenberg e, aparentemente, muitos dos modernos “solteiros”, buscam. Pois quais são os indicadores positivos que Klinenberg elenca para mostrar os benefícios da vida a um? “Eles têm maior probabilidade de comer fora de casa, se exercitar, participar de aulas de arte e de música, assistir eventos e palestras e participar de algum tipo de voluntariado”. Em outro momento, um indivíduo que se separou e hoje vive sozinho e que foi entrevistado para o livro, conta alguns dos benefícios da nova vida, em que ele desfruta tudo aquilo de que o casamento lhe privara: sai com mulheres diferentes, fica fora de casa até tarde, assiste esportes na TV, vê filmes, sai com amigos. Ao mesmo tempo, o espectro da solidão está sempre à espreita. O grande dilema é se ele será afugentado com um filho ou (o que Klinenberg julga ser a opção de menor custo) um bicho de estimação. Em outras palavras, parece que há algo de muito inseguro na felicidade solteira.
Será que a vida deve ser levada de maneira tão leve? Será que o indivíduo, quando chegar ao fim da vida, olhará para trás e para frente sem arrependimentos? Uma pergunta difícil e que cabe a cada um responder por conta própria. A mim chama a atenção, por exemplo, que todos os elementos citados acima se refiram ao consumo, e não à produção; a felicidade é buscada nas coisas que o mundo traz para nós, e não naquilo que nós podemos criar, cultivar e alterar no mundo (mesmo o voluntariado, a não ser quando encarado como uma verdadeira vocação, acaba sendo mais uma forma de uso do tempo livre; importante para quem o faz, sim, mas que não cria um legado duradouro). O solteiro tem mais facilidade para o consumo; mas e para a produção (tanto em termos materiais quanto intelectuais e pessoais)? São coisas a se pensar.
Schwartz, contudo, não vê essa escolha de modos de vida como uma escolha entre diferentes formas de se buscar a felicidade; para ele, trata-se de uma escolha entre o bem moral de um lado, e a satisfação individual de outro. E por isso sua grande conclusão parece resumir-se num suspiro: “Que época imoral a nossa! Se ao menos os homens abandonassem seus sonhos de felicidade e seguissem as tradições dos bons e velhos tempos”. Ao se colocar assim diante do problema, Schwartz já deu uma resposta muito clara; mas não é a resposta que ele gostaria de ter dado.
A mera conformidade ao que era feito no passado não é virtude alguma. E se os Founding Fathers e toda a tradição multimilenar estivessem errados nesses pontos? Já o estiveram em outros. Ou talvez a vida em família (primeiro a família estendida, e depois a nuclear) fosse uma triste necessidade em épocas e sociedades mais pobres, em que uma rede de proteção era sempre necessária. Mas como vivemos em tempos mais ricos, ou como essa rede de proteção agora vem de outras fontes (o Estado, por exemplo), os altos custos de se manter essas instituições naturais não vale mais a pena; viraram sacrifícios sem propósito. Não estou dizendo que acredito nisso; estou dizendo que é, a princípio, uma possibilidade. E se assim for, nada garante que as escolhas de nossos antepassados sejam as melhores para nós.
O moralismo de Schwartz (que não é só dele; é a coisa mais comum do mundo entre as pessoas que não gostam da ideia de uma mulher de 50 anos que nunca tenha se casado ou virado freira) é inútil como persuasão. Quem já considera o fim da instituição familiar algo ruim concordará com ele, mas quem quer a vida de solteiro jamais a deixará de buscá-la só porque as gerações passadas, a Bíblia ou os Founding Fathers não pensavam assim. Seu único efeito é o de fortalecer o que ele visa atacar: pois se a escolha entre família e vida de solteiro é uma escolha entre se sacrificar ou buscar a felicidade, então já se concedeu o principal: a felicidade está na vida de solteiro; o resto é gente querendo estragar a festa.
O que falta na resenha é uma comparação – ou melhor, um convite à comparação, que tem que ser feita por cada um para sua própria vida – sóbria, sem julgamentos e condenações, de diferentes modelos de vida que nos são propostos. O que a vida de solteiro proporciona, e o que ela custa?
Uma mudança de comportamentos, se algum dia vier, virá porque os indivíduos passam a ver nos bens da vida a dois e em família algo superior aos benefícios da vida de solteiro. O ideal de não criar laços humanos profundos, que por sua vez trazem responsabilidades e portanto limitam o quanto cada um pode satisfazer desejos imediatos, tem seus custos. O conceito econômico de custo de oportunidade aqui se faz útil: os benefícios que se deixou de receber ao não se agir de determinada maneira. Ao se escolher um caminho com menos responsabilidades, perde-se aquilo pelo qual as responsabilidades existem. E pelo quê elas existem? Para que possamos melhor imitar as gerações que já morreram? Para que possamos repor a população global? Sem responder a isso, todo o moralismo apenas fortalece o que ele visa a atacar.
Quando os valores desses laços, da amizade mais profunda, do matrimônio e da paternidade/maternidade forem recuperados, daí sim talvez vejamos mais pessoas escolhendo modos de vida compatíveis com a continuidade a longo prazo da espécie humana. E não por algum sentido de dever para com os antepassados, ou porque isso é afirmado por algum livro sagrado, mas porque é a melhor vida que elas podem buscar.
Não há como negar a importância secundária de tradições para ajudar na vida humana. Elas dão um incentivo a mais para se agir mesmo quando não se vê claramente o bem pelo qual se age; uma certa confiança no que nos foi ensinado e que ajuda a viver bem mesmo nas fases de dúvida. Mas não podem nunca constituir o motivo central de se viver de uma determinada maneira, ou certamente virarão aquilo que tantos sermões as fazem parecer: obrigações pesadas e sem qualquer finalidade que não o se adequar a algum modelo inventado sabe-se lá por que antepassado nosso no neolítico.
Se se casar, ter filhos e educá-los for algo bom, se for a fonte de uma das maiores e mais profundas felicidades possíveis nesta vida, então a decisão de se fazê-lo não precisa – e não deve – ser motivada pelo sentido de obrigação, de dever, de sacrifício. A perspectiva do sacrifício é apenas uma consideração parcial: para se alcançar esses bens, é preciso abrir mão de outros – por exemplo, da liberdade de ficar fora de casa até tarde qualquer dia da semana. Mas se essa escolha é baseada na convicção, ou na confiança, de que se está trocando um bem menor por um maior, então ela é antes, e essencialmente, um grande ganho para o indivíduo, e não uma forma de autossacrifício.
Encarar a vida em família como um sacrifício me parece puxar o tapete dessa escolha. Pois são justamente aquelas ações feitas contra nosso melhor julgamento, e escolhidas para se conformar ao que os outros esperam (ou ao que nossa projeção pessoal de uma opinião externa diz), que causam mais arrependimento e ressentimento. E daí sou levado a indagar: o tipo de reação moralista maldosa às escolhas dos novos solteiros, não viria exatamente de quem, partilhando dos mesmos valores e ideais, não teve coragem de fazer as mesmas escolhas? Benjamin Schwartz acaba, portanto,  tendo um efeito dúbio na defesa da instituição da família.
Se a família depende de que abramos mãos de nossos sonhos e ideais, daquilo que há de melhor em nós, para que o mundo continue a se reproduzir, ela está fadada a desaparecer. Mas, se a família for justamente um componente de nossa felicidade mais profunda e uma estrutura que permita a realização de nossos melhores sonhos e ideais (de consumo e, principalmente, de produção), então ela não sairá de cena tão facilmente. Seja qual for a escolha que cada um faça, parece-me certo que, para os melhores, ela será tomada com base na percepção pessoal do que é o melhor, e não evitada com uma rendição automática à prática de gerações passadas ou às expectativas dos seriados da Sony.

sábado, 23 de junho de 2012

Dilemas para testar nossas intuições morais

Vou propor dois cenários básicos, cada um deles composto de três dilemas, e gostaria de discutir as implicações deles. Em todos os seis dilemas, o resultado final de se fazer a escolha em jogo é que uma pessoa morre e cinco pessoas vivem. Creio, contudo, que haja diferenças morais relevantes entre eles.


CENÁRIO 1:

Dilema 1: Você está na plataforma de uma estação ferroviária à espera de um trem. O trem se aproxima e você nota que ele está desgovernado. Cinco meninos brincam no trilho do trem e estão na rota de colisão (se o trem estivesse funcionando bem, eles não estariam, pois brincam depois do local de parada do trem); se o trem atropelá-los, a morte é certa. Num trilho paralelo, há um menino brincando sozinho, o Jalmir. Na plataforma, ao seu lado, há uma alavanca que permite desviar o percurso do trem do trilho atual, onde os cinco brincam, para o trilho paralelo, onde ele atropelará (e matará) apenas o Jalmir. É certo puxar essa alavanca? É moralmente obrigatório fazê-lo?

Dilema 2: A situação é exatamente a mesma. Ocorre que dessa vez não há alavanca para mudar o curso do trem. MAS, você, como exímio conhecedor de física de trens, sabe que se um objeto denso e grande o bastante for jogado na frente do trem, o trem diminuirá sua velocidade o bastante para os cinco meninos se salvarem. Ao seu lado, na plataforma, está Jalmir, um homem muito gordo, que preenche perfeitamente os requisitos desse objeto. Se você empurrar Jalmir nos trilhos, ele será atropelado e morrerá, mas os cinco meninos se salvarão. É certo fazê-lo? É moralmente obrigatório fazê-lo?

Dilema 3: Exatamente como o dilema 2, mas neste dilema o homem gordo é você mesmo, e não há nenhum Jalmir por perto. E você então considera: "Se eu pular nos trilhos, serei atropelado e morrerei, mas salvarei os cinco meninos". É certo fazê-lo? É moralmente obrigatório fazê-lo?


CENÁRIO 2:

Dilema 4: Você é um médico num grande hospital. Cinco pacientes estão na fila de espera para doação de órgãos, precisando de um órgão cada um, e morrerão hoje caso não consigam um doador. Se conseguirem os órgãos, viverão vidas perfeitamente saudáveis.. Um outro paciente, Jalmir, também em estado de urgência, necessita de cinco órgãos, e será perfeitamente saudável se consegui-los. Um novo paciente morre, deixando cinco órgãos saudáveis para serem doados. Originalmente, a enfermeira que cuidou do caso alocou os cinco órgãos desse paciente para o Jalmir. Você olha o prontuário e considera que, se tirar o Jalmir da lista e levar os órgãos para os outros cinco, poderá salvá-los. É certo fazê-lo? É moralmente obrigatório?

Dilema 5: Mesmo cenário acima. Você é médico e os cinco pacientes precisam desesperadamente de órgãos. Jalmir, contudo, é um homem saudável que entrou no hospital só para usar o banheiro. Ele tem os órgãos de que os cinco precisam. Você, como médico, considera que, se der uma injeção de calmante no Jalmir e levá-lo para uma sala de operação, poderá extrair os órgãos dele e salvar os cinco pacientes. Jalmir, evidentemente, morrerá. É certo fazê-lo? É moralmente obrigatório?

Dilema 6: O cenário se repete. Dessa vez, contudo, não há nenhum Jalmir saudável por perto. Você se olha no espelho e constata que está em perfeito estado de saúde e tem os órgãos em perfeitas condições. Se você chamar um colega de profissão, ele poderá extrair seus órgãos e salvar os cinco doentes. Você, evidentemente, morrerá. É certo fazê-lo? É moralmente obrigatório?

***

(É, esse é o tipo de post que só funciona se vocês participarem. Convoco todos os membros do blog, e convido os leitores, a darem suas respostas.)

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Aborto moralmente lícito? - uma qualificação

Alguns meses atrás argumentei que o aborto é errado mesmo no caso do anencéfalo, por consistir numa destruição direta e voluntária de uma vida humana inocente. Levantei, contudo, um caso em que é lícito abortar: quando o feto apresenta risco real de vida para a mãe, caso em que o aborto seria moralmente equivalente à legítima defesa. (O fato do agressor, neste caso, ser inocente, não é relevante; afinal, é moralmente lícito enfrentar um agressor com força letal mesmo que ele seja portador de deficiência mental séria, ou mesmo que ele aja sob efeito do sonambulismo, casos em que sua ação seria, do ponto de vista moral, perfeitamente inocente).

Com efeito, não creio que ninguém negue que, num caso extremo como uma gravidez ectópica (em que o feto se desenvolve fora útero, e cujo resultado é a morte tanto da mãe quanto do próprio feto), seja lícito retirar o feto, mesmo sabendo que ele morrerá. No meu texto original, contudo, eu fui além disso e disse que seria lícito mesmo matar o feto. Um conhecido apontou que isso, a destruição voluntária do feto, também seria errada, pela doutrina católica atual. Fui pesquisar e vi que, de fato, no caso da gravidez ectópica, considera-se lícito retirar o feto, sabendo que ele morrerá, mas não destruí-lo.

Inicialmente achei um preciosismo desnecessário, mas depois me convenci que, de fato, a posição está correta (aproveitei a alterei o texto inicial). Pensemos em exemplos análogos.

Um navio naufraga e um grupo de pessoas consegue subir num bote salva-vidas, que chega à sua lotação máxima, já dando claros sinais de que, se mais gente subir, ele pode afundar. Você, único membro da tripulação do navio em meio aqueles passageiros, é a autoridade natural naquele barquinho. Ocorre que você vê, a 5 metros de distância, um sobrevivente do naufrágio nadando até o bote. É muito provável que o bote vire/afunde se o homem conseguir subir, matando a todos. Não parece, contudo, que ele possa ser dissuadido por esse argumento razoável; para ele, subir no bote é ter uma chance de sobreviver, enquanto ficar na água é a certeza da morte. O que fazer?

Uma alternativa que, ao que julgo, ninguém consideraria imoral, é impedir fisicamente que o homem suba no bote: empurrando-o com um remo, por exemplo, ou remando o bote para longe dele.

Será diferente, no entanto, se, ao ver o sujeito, você sacar uma arma e der-lhe um tiro. Se ele se mostrasse resoluto a subir no bote e a única maneira realista de impedi-lo fosse dando o tiro, daí sim seria moralmente lícito; mas até que se saiba disso deve-se tentar mantê-lo longe sem matá-lo o máximo que for razoavelmente possível. Afinal, não queremos matá-lo, mas apenas defender os que estão no bote. Se isso se revelar realisticamente impossível, daí sim muda-se de estratégia. E mesmo nesse caso a intenção não é matá-lo, mas apenas salvar as vidas que a presença dele coloca em risco, agora com força letal; a tomada da estratégia inicial - não-letal - prova que essa é nossa intenção.

** O uso dos advérbios e adjetivos - "realista", "razoavelmente", etc. - se faz necessário porque no plano da ação humana nunca chegamos a circunstâncias claras e absolutas. Nunca se tem a "certeza" de que nenhuma outra forma de dissuasão é possível; "talvez se todos os presentes no bote começarem a gritar e se debater ele ache que estamos possuídos pelo demônio e desista de subir" - em circunstâncias reais, não dá para testar todas as possibilidades, portanto o juízo sempre conterá um tanto de julgamento pessoal e falível; o mais importante não é que esteja absolutamente certo, mas que seja razoável. 

Isso impede que se estabeleça uma medida universal do "quanto" se deve tentar impedir o cara sem matá-lo, mas ao menos mantém a relação qualitativa entre os dois tipos de ação: primeiro tenta-se aquilo que o impede de subir sem matar, e apenas depois de algum esforço infrutífero nesse sentido procede-se a ações que, com grande dose de certeza, matá-lo-ão.



Assim, é claro que, em certas circunstâncias, não há tempo ou recursos que sejam, na perspectiva da razoabilidade, suficientes para que se tente primeiro uma abordagem não-letal e depois, se ela falhar, proceda-se à letal. Se alguém com cara de maníaco, segurando um machado, corre na sua direção no meio da noite, atire primeiro e pergunte depois. **

"Mas o feto vai morrer de qualquer jeito! O sujeito do bote salva-vidas ao menos teria alguma chance de viver mesmo fora do bote, por isso devemos evitar matá-lo". Pense então num outro caso: um homem cai de um arranha-céu rumo à morte certa no chão de concreto; sua morte é inevitável. Dado esse caso, seria um ato moralmente indiferente dar-lhe um tiro de rifle no meio de sua queda? A pessoa que fizesse isso não seria uma assassina? Matar é diferente de deixar morrer.

Claro que minha afirmação vai um passo além: estou dizendo que matar (causar diretamente o dano letal) é moralmente diferente de agir de uma forma tal que o indivíduo morra por causas terceiras alheias à minha vontade. Estou argumentando que, se o homem estiver caindo do prédio e embaixo dele houver um transeunte, é melhor empurrar o transeunte para fora da rota de colisão do que desintegrar o homem em queda com um tiro de bazuca. Desligar as máquinas de um paciente em life support é diferente de dar-lhe uma facada no peito. Matar é moralmente diferente de deixar morrer. Ou seriam ações equivalentes?

Em contextos não dramáticos, as ações são equivalentes; isto é, equivalentemente más. Se voluntariamente impeço um amigo de entrar na minha casa durante uma nevasca mortal, trancando a porta, sou tão assassino (ou quase tão assassino) quanto se tivesse lhe dado um tiro no peito; um desprezo tal pela vida alheia é equivalente ao desprezo que nos levaria a tirá-la. Mas em condições dramáticas, cujas circunstâncias são tais que os atos (em si perfeitamente defensáveis) de um indivíduo sejam a causa de dano grave para os demais, é lícito se defender dele. O objetivo é apenas se defender do dano, mesmo sabendo que, em consequência de nossa ação, ele estará sujeito a causas terceiras que o matarão (e se fosse razoavelmente possível barrar essas causas, salvando a vida do sujeito, é o que faríamos). Finalmente, nos casos em que isso é impossível, temos que mesmo se a consequência direta de nossa defesa for a morte do agressor, o ato é lícito; é o caso da legítima defesa normal. Em uma gravidez em que o feto comprometa a vida da mãe e, por algum motivo médico, seja impossível retirá-lo sem antes matá-lo, o aborto direto seria lícito.

Quem negar isso - e será produtivo se alguém negar, para promover alguma discussão - terá que apontar porque o feto merece mais consideração do que um agressor adulto (que pode ser tão moralmente inocente quanto um feto - louco, deficiente mental, sonâmbulo, etc.), de quem é perfeitamente lícito se defender com força letal se necessário.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Tomás de Aquino: ninguém nunca quer o mal, Agostinho viajou na batatinha


**TRECHO DA MINHA (ASSIM ESPERO) DISSERTAÇÃO DE MESTRADO**

3.4.3.3 Problema: o mal enquanto tal
Do que foi exposto até aqui, fica claro que o mal nunca é uma finalidade direta da ação humana. O argumento, sinteticamente, é esse: nossas inclinações racionais primeiras visam a um bem. Toda ação humana tem um fim dado por alguma inclinação racional primeira. Portanto, toda ação humana visa a um bem. Logo, nenhuma visa ao mal enquanto tal.
Tomás é bastante consistente nesse ponto, repetindo-o ao longo de toda sua obra. “A vontade é o apetite racional. Todo apetite é apenas de algo bom” [1]. Considerando apenas o primeiro princípio prático, já havia-se concluído que todo agente busca o bem considerado formalmente; agora conclui-se que, para além da consideração puramente formal do bem (cuja busca seria compatível com perseguir algo mal em si mesmo, sob a ilusão de que tal coisa má era boa), há sempre um bem concreto que atrai o agente. Ou seja, mesmo no pior dos pecados haverá algum bem que o agente procura, e esse bem é de fato bom para o agente e digno de busca pelo ser humano, embora esteja sendo buscado numa ocasião, ou de maneira, inadequadas.
O mal em si não movimenta a vontade. Ele só pode ocorrer, portanto, “à parte da vontade do agente”, seja de maneira totalmente involuntária (como quando o agente pensa beber mel mas bebe veneno de gato) ou como um efeito colateral previsível mas que não foi o suficiente para desviar o agente do bem que ele buscava com aquela ação específica [2]. Mesmo um ato plenamente autodestrutivo como o suicídio é feito por motivos bons, inteligíveis a qualquer animal racional; Tomás cita a perspectiva de uma vida infeliz, a vergonha do pecado, o medo do estupro e mesmo o medo de que, se não morrer, consentir-se-á a algum pecado (perdendo portanto a vida eterna) [3]. Nenhum desses, é preciso deixar claro, justifica o suicídio aos olhos de Tomás. Eles apenas mostram como mesmo uma ação destrutiva da felicidade do indivíduo é feita em vista de algum princípio prático; e, portanto, em vista de algum componente da mesma felicidade que se destrói no ato. Mesmo nesse caso, o mal não é desejado enquanto tal.

3.4.3.3.1 As peras de Agostinho
Essa posição contrapõe-se a uma forte tradição de pensamento filosófico cristão que chegara até Tomás e com a qual ele frequentemente dialoga: o pensamento de Agostinho, segundo o qual a liberdade da vontade e a corrupção da natureza humana são tais que o homem é capaz de, e de fato busca se não for ajudado pela graça divina, o mal enquanto tal. Embora fuja ao escopo deste trabalho comparar a fundo as diferenças entre o pensamento de Tomás e o de Agostinho (e ainda menos entre este e a tradição agostiniana com a qual Tomás tinha contato), é instrutivo apontar um caso peculiar que sublinha exemplarmente essa diferença.
Na obra de Agostinho, entre as muitas passagens que se dedicam a expor e explorar a maldade do pecado e da condição humana, uma se sobressai na história do pensamento como singularmente eloquente: o relato de um aparente pequeno delito da juventude, o furto de algumas peras junto a amigos, que na verdade ocultou a mais profunda maldade na alma de Agostinho. Suas palavras não poderiam ser mais claras quanto ao que ele desejara:

“Carregamos uma grande quantidade de peras, não para comer, mas para jogá-las aos porcos mal as tendo provado. Isso nos aprouve ainda mais porque era proibido. Assim era meu coração, ó Deus, assim era meu coração – do qual vós vos apiedaste mesmo naquele poço sem fundo. Observe, deixe meu coração confessar a vós o que ele procurava, naquela prodigalidade gratuita, sem nada que me induzisse ao mal que não o próprio mal. Era torpe, e eu o amei. Amei perecer, amei minha própria falta; não aquilo pelo que eu a cometia, mas a falta em si.” [4]

Tomás não tem nenhum comentário às Confissões e, embora citações e referências a Agostinho sejam quase onipresentes em sua obra, raramente se detém sobre ele como seu objeto de estudo. Tampouco há alguma questão ou algum artigo de sua obra que se refira diretamente a essa passagem. Contudo, no De Malo, Tomás se refere a essa passagem. E, condizente com o que foi apresentado sobre seu pensamento até aqui, vê-se forçado a contradizer o texto de Agostinho. Cito a ocorrência integralmente, que se dá em dois momentos no artigo 13 da questão 3, em que se pergunta se é possível a um homem pecar por malícia deliberada.
O primeiro momento em que a passagem de Agostinho ocorre é em um argumento da seção dos argumentos em contrário, que, embora concorde com a posição que Tomás defenderá (a de que é possível pecar por malícia), discorda na hora de definir o que é a malícia.

“Segunda objeção em contrário: Agostinho diz em suas Confissões que quando ele estava roubando frutas, ele amou sua delinquência, isto é, o próprio roubo, e não a fruta em si. Mas amar o próprio mal é pecar por malícia. Portanto, uma pessoa pode pecar por malícia.”

O segundo momento se dá ao fim do artigo, quando Tomás responde a esse argumento, um expediente incomum (o normal é que ele só responda aos argumentos que discordam de sua tese) embora não único:

“Embora os argumentos apresentados na seção cheguem a conclusões verdadeiras, devemos notar, com respeito ao segundo argumento, que quando Agostinho diz que amava sua própria delinquência, e não o fruto que ele roubava, não devemos entender essa afirmação como se a própria delinquência ou a deformidade da falta moral pudessem ser primária e intrinsecamente desejadas. Na verdade, seu desejo primário e intrínseco era ou exibir um comportamento típico a seus pares ou experimentar algo ou fazer algo proibido ou alguma coisa do tipo.” [5]

É uma pena que Tomás não tenha se dedicado mais longamente à passagem das Confissões, pois seus exemplos dos possíveis bens buscados por Agostinho fogem um pouco à listagem normal. Tendo que adequá-los à lista apresentada anteriormente, classificaria os possíveis motivos aventados por Tomás da seguinte maneira: o desejo de impressionar seus pares provavelmente se encaixaria no princípio da amizade ou sociabilidade; o “experimentar algo” (“experientiam habere alicuius”) se encaixa, possivelmente, no princípio prático do conhecimento; a grande incógnita é o “fazer algo proibido”; Tomás pareceria indicar que há um bem intrínseco em se agir de forma autônoma, em afirmar a própria individualidade ou poder. Que o homem seja mais livre que o resto da criação material, e que essa sua autonomia seja um bem metafísico, é afirmado em diversos momentos. Mas a concretização dessa autonomia livre é justamente agir segundo o ordenamento da razão, ou seja, segundo leis, coisa de que as feras são incapazes. Aqui, o bem da autonomia vem justamente de se violar um preceito racional (não roubar, constante do Decálogo), e permanece, portanto, enigmática.
Seja como for, está bem claro que, segundo Tomás, o mal não pode ser desejado enquanto tal; isso vai contra a própria definição do que é o mal humano (aquilo que repele o homem e que, conforme o primeiro princípio, ele busca evitar). Mesmo nos atos mais baixos, há um bem que guia a vontade do agente; ocorre que, naquela instância, a busca daquele bem ignora ou até impede a busca dos demais bens que compõem a felicidade, tornando-se portanto má. O pecado é trocar o bem permanente por um bem transiente. E o pecado por malícia ocorre quando essa troca não advém de uma ignorância ou de uma paixão incontrolável, mas de um “hábito [que] às vezes inclina a vontade, quando o comportamento costumeiro transformou, por assim dizer, a inclinação a tal bem em um hábito ou disposição natural pelo bem transiente, e então a vontade, por seu próprio movimento e independentemente de qualquer emoção, se inclina por si mesma ao bem em questão” [6]. A malícia é antes uma absolutização de um bem parcial do que a busca intrínseca pelo mal; ocorre quando, num ato deliberado da razão, o agente, “para se deleitar no bem desejado [a pessoa] não evita incorrer no mal” [7].


[1] ST I-II, q. 8, a. 1.
[2] SCG III-I, 4.
[3] ST II-II, q. 64, a. 5, ad 3.
[4] Agostinho. Confissões, III, 4.
[5] De Malo, q. 3, a. 13, rsed 1-2.
[6] De Malo, q. 3, a. 13.
[7] Ibid., ad 1.
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