Mostrando postagens com marcador cultura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador cultura. Mostrar todas as postagens

sábado, 5 de janeiro de 2013

Ad Hominem Entrevista: Poetas Brasileiros Contemporâneos


Dando sequência ao Ad Hominem Entrevista, conversamos com alguns nomes representativos da mais recente poesia brasileira. Eles responderam às seguintes questões:

Há atualmente duas atitudes extremas em relação à poesia brasileira contemporânea: uma, pessimista e saudosista, considera que a poesia no país perdeu-se à altura dos anos 1960 e desde então vem lutando, sem sucesso, para reencontrar-se; outra, normalmente entusiasta das novas poéticas urbano-pós-modernas, crê que a poesia, como as artes em geral, vai muito bem nesse Brasil do início do século XXI, afinal de contas os saraus universitários vão de vento em popa.
Qual sua percepção sobre o estado presente da poesia brasileira? Como você avalia sua obra dentro do cenário atual? Essa segunda pergunta pretende abranger tanto suas intenções quanto os resultados concretos que já alcançou com sua poesia.

O objetivo era que o entrevistado respondesse a uma caricatura, cabendo-lhe desenhar um cenário mais realista para a poesia brasileira contemporânea. Felizmente a proposta deu certo e obtivemos excelentes pontos de vista que, cotejados, nos dão uma boa ideia do que se passa no âmbito de nossos fazedores de versos.

Com a palavra, os poetas:



Emmanuel Santiago – São Lourenço-MG, 1984. Autor de Pavão Bizarro, ainda inédito.

Com a internet e a proliferação de editoras de menor porte e revistas especializadas, a produção poética foi muito pulverizada. Por um lado, o fenômeno é positivo, pois torna muito mais fácil a divulgação do trabalho, principalmente para poetas estreantes; por outro, torna mais difícil para os bons poetas colocarem a cabeça para fora da boiada, destacando-se. Criou-se, no Brasil, uma situação paradoxal: há uma inflação na oferta de poesia ao mesmo tempo em que houve, de umas décadas para cá, uma retração da cultura literária entre o público, daquele background necessário à fruição da literatura mais exigente, o que afeta, sobretudo, a recepção da poesia. Como consequência, há pouca ou nenhuma possibilidade de um novo poeta construir seu nome pelo reconhecimento do público, de um público mais amplo e heterogêneo, que atravessa diferentes grupos sociais, com formações culturais diversificadas. Ficamos então cada vez mais dependentes de pequenos grupos que, devido a sua posição no campo literário, são capazes de conceder algum prestígio. O problema é que tais grupos funcionam geralmente segundo a lógica da panelinha, em situação de constante concorrência institucional com os demais, o que significa que um poeta reconhecido em determinado círculo corre o risco de ser excluído dos círculos concorrentes.

Tendo em vista tal lógica de funcionamento do campo literário atual, devo reconhecer que fiz algumas péssimas escolhas quando resolvi levar a sério a poesia. Em primeiro lugar, cortei uma possibilidade de identificação com um público maior, em meio ao qual vigora uma concepção da poesia como a expressão exclusiva de sentimentos e emoções, de conteúdos de natureza irredutivelmente pessoal — a ideia da poesia como confissão íntima do poeta. Abracei, logo de saída, um construtivismo eivado de reflexões metalinguísticas, de referências intertextuais e demonstrações de virtuosismo técnico, que contrariam a noção de que a poesia deva ser algo espontâneo e natural. Tais características, que integram o repertório das mencionadas “poéticas urbano-pós-modernas”, não são o suficiente, entretanto, para me facultar a entrada no círculo dos poetas antenados, da poesia up-to-date, devido ao meu flerte descarado (meio irônico, meio a sério) com as poéticas do final do século XIX, como o simbolismo e o malfadado parnasianismo, detestado por toda a galerinha que se filia à escola que vai desde nossos primeiros modernistas — sobretudo Oswald e Mário de Andrade —, passando pelo concretismo, até chegar aos tropicalistas e poetas marginais. Tenho uma compreensão artesanal do trabalho poético, que parece estar ultrapassada. Contudo, tampouco posso ser sumamente vinculado a uma poética tradicionalista, pois incorporo muitos procedimentos que tiveram sua origem com a experimentação poética levada a cabo pelos concretistas. Para piorar, minha poesia — que visa, muitas das vezes, o efeito de choque — assume alguns tons que podem desagradar sensibilidades mais suscetíveis, apelando constantemente para o erotismo, a pornografia, o sadismo, o satanismo, a blasfêmia etc. Pelo que pude notar também, o caráter fortemente virtuosístico de minha poesia tem um potencial de desagradar a gregos e troianos.

Em suma, minha poesia se dirige contra um amplo arco de expectativas de recepção, o que tende a me deixar isolado, de fora das panelinhas, não por uma grande originalidade de minha parte, mas pelo grande número de dissonâncias que procurei deliberadamente incorporar ao meu trabalho. Acho que para tal situação contribuíram tanto um espírito de revolta juvenil quanto uma tendência pessoal ao individualismo, assim como o fato de minha formação cultural e intelectual ter se dado fora dos grandes centros nos quais as linhas dominantes da poesia contemporânea (e aquelas que a elas reagem) se consolidaram. Um misto de idiossincrasias e condições geográficas, portanto, é em grande parte responsável pelo não lugar que minha poesia ocupa frente ao panorama atual.

***

Érico Nogueira – Bragança Paulista-SP, 1979. Autor de O Livro de Scardanelli (2008) e Dois (2010), ambos pela É Realizações.

Desde logo, dizer que a poesia brasileira vai bem ou vai mal não implica, creio, subscrever as posições ou atitudes extremas, como você as descreve. Há uma pletora de razões possíveis que podem justificar um juízo positivo ou negativo a esse respeito. No que me toca a mim – e seguindo, nisto, o conselho de Pound, que propôs e realizou, em poesia, o que chamou de crítica por comparação –, acho que a poesia brasileira vai bem, obrigado, e isto simplesmente porque leio e vibro com certos poetas contemporâneos em quem noto enorme competência técnica aliada a sensibilidade, bom gosto e profundidade de pensamento e emoção: gente pra quem a poesia, em suma, como bem disse o Drummond, “é toda a minha vida que joguei”. Quem acha que exagero vá ler o Cláudio Neves e o Marco Catalão, por exemplo, compare-os com o Murilo ou o Bandeira dos dois ou três primeiros livros, e tire suas próprias conclusões. Nesse sentido – isto é, partindo da comparação mais ou menos objetiva de grandezas poéticas mensuráveis, tais como a perícia técnica, o escopo teórico e teor emocional de um poema –, não temo dizer que Yacala, de Alberto da Cunha Melo, é o maior poema-livro que já se escreveu por aqui, seguido de perto por A balada do cárcere, de Bruno Tolentino. De modo que, pra mim, o auge da poesia brasileira foi o final dos anos noventa, veja só.

Quanto à minha poesia, gosto de vê-la na confluência entre João Cabral, Bruno Tolentino e Haroldo de Campos – mistura explosiva, logo se vê. Do primeiro herdei a obsessão pelo rigor formal; do segundo, a tendência a filosofar sobre a forma; – e do terceiro, enfim, a compreensão profunda de que a tradução é uma das atividades mais nobres e úteis a que um poeta pode se dedicar: e é uma verdadeira “singing school”, além disso, como diz o Yeats naquele poema.  

Finalmente, sou um poeta classicista e um classicista poeta, à semelhança dos bibliotecários de Alexandria – coisa que o Pedro Sette-Câmara já disse, aliás, referindo-se a certa atitude mais ou menos comum a vários poetas brasileiros, hoje. Não separo a atividade acadêmica, de investigação de problemas filológicos, da atividade propriamente poética, de tradução de poesia alheia e invenção da própria. O que aprendi com o mestre e amigo João Angelo Oliva Neto, pesquisador de ponta e tradutor de escol – o melhor em atividade, hoje, no Brasil.

***

João Filho – Bom Jesus da Lapa-BA, 1975. Autor de Três sibilas (Ed. Dulcinéia Catadora, 2008) e A dimensão necessária e Raízes aéreas, ainda inéditos.

Apesar de geral, tendo a concordar com essa descrição inicial dos dois extremos. A reinvenção da roda, o vanguardismo a todo custo, é mais insistente na poesia do que na prosa brasileira. O que denota uma perspectiva equivocada com o tempo histórico, que, nesse caso, é amputado, quando muito tratado como objeto e quase nunca como diálogo autêntico, reciprocidade. E falo de cátedra, pois passei por tudo isso. No entanto, atualmente, há um nicho no qual certa linhagem poética prospera; são alguns elementos delineadores dessa linhagem o diálogo consciente com a tradição ocidental, reutilização inteligente das formas fixas e do verso livre, a verticalidade (mas nem sempre) do conteúdo, a condição humana trabalhada em termos metafísicos etc.; esses elementos dialogam com poetas do tipo como Cecília Meireles, Alphonsus de Guimaraens Filho, Dante Milano, Orides Fontela, Alberto da Cunha Melo, Hilda Hilst, Bruno Tolentino, para citar alguns. Penso que o que escrevo se inclui aí. Uma das minhas ambições é o livro-poema, uma unidade perfazendo o conjunto. E a busca incessante de cruzamentos de ritmos, formas, vozes, construções etc. Com isso, a tentativa é abarcar o máximo de possibilidades possíveis, por isso criei heterônimos: o poema-flash assino como Lúcia Delorme; o soneto, como Fabiano Garcia Meireles; o poema ético-narrativo longo, como Dom Filipe; como João Filho assino os poemas com maior tendência metafísica. Confesso, porém, que insatisfação e insegurança soem estar de sentinela. O conteúdo, que para mim é importante, contempla-se no que disse O. Maria Carpeaux citando I. A. Richards, que por sua vez citava o Chung Yung, livro clássico chinês “o isolamento do homem no universo, a pavorosa incompreensibilidade de nascimento e morte, a imensidade do espaço e o lugar do homem no tempo, e a nossa infinita ignorância humana que nos impõe a humildade.”

***

Marco Catalão – Campinas-SP, 1974. Autor de Palimpsestos (2008), O Cânone Acidental (É Realizações, 2010), Sob a face neutra (Funarte, 2012).

Minha percepção sobre a poesia brasileira contemporânea é lacunar e arbitrária. Depois de ter me interessado sinceramente por dezenas de supostos gênios anunciados pelos cadernos culturais ― e de ter me decepcionado repetidamente com cada um deles ― fui ficando escaldado, e hoje não leio mais do que dois ou três por ano. Mas não sou saudosista a ponto de imaginar que tenha havido uma “época de ouro” da poesia brasileira. Hoje, como sempre, basta um pouco de paciência para encontrar um ou outro bom poema em meio a centenas de poemas medianos e milhares de poemas medíocres. Difícil mesmo, terrivelmente difícil, é descobrir um livro memorável, e mesmo na primeira metade do século XX não encontramos mais do que meia dúzia de livros de poesia realmente memoráveis. Onde estaria o Claro enigma ou o Libertinagem da última década? Ainda não os encontrei, mas isso não significa que eles não existam... 

Com relação à segunda pergunta, eu me vejo como uma daquelas tartaruguinhas que acabaram de sair dos seus ovos e se arrastam desajeitadas em direção ao mar. Olho para um lado e vejo o poeta Érico Nogueira se lançando numa direção; olho para o outro e observo que o poeta Ricardo Domeneck segue no sentido oposto; à minha direita, o poeta João Filho tenta um caminho alternativo; à esquerda, o poeta Caio Gagliardi aponta uma quarta via... E esses são só os mais próximos numa multidão de tartaruguinhas. Sei que a maior parte de nós sequer vai conseguir chegar ao mar e vai cozinhar na areia escaldante. Mesmo entre as que escaparem do sol e da areia, a maioria vai ser engolida na água rasa pelos peixes que há muito tempo esperam com a boca aberta. O que eu posso fazer, a não ser me lançar na direção a que o meu instinto e a minha precária razão me impelem? Para mim, escrever poesia é isso: uma aposta cega e absurda, sem qualquer garantia de êxito.

***

Mariana Ianelli – São Paulo-SP, 1979. Autora de Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005), Almádena (2007), Treva alvorada (2010) e O amor e depois (2012), todos pela Ed. Iluminuras.

O que vejo é, de um lado, uma poesia mais suspicaz e, de outro, uma poesia que ainda acredita no inefável. Não são incomunicáveis, pelo menos, certas expressões poéticas, quando produzem menos admiração que desconfiança, abrem grandes espaços vazios onde fica visível o desafio de ainda ser capaz de comover, de vincular, de saber ler a realidade na sua dimensão simbólica. Poesia e espírito crítico hoje vêm juntos e inspiração é um termo que acabou degenerado por más interpretações, mas a poesia que me importa dentro desse panorama é a que não se esgota em justificações teóricas ou literárias por mais consciencioso que seja o trabalho do poeta, uma poesia que inclui mistério, sutileza, comoção, que se coloca no lugar da paciência e do silêncio, não competindo com uma época que promove seu contrário, uma poesia, portanto, otimista num sentido menos aparente e nada imediato.

***

Paulo Henriques Britto – Rio de Janeiro-RJ, 1951. Autor de Liturgia da matéria (Civilização Brasileira, 1982), Mínima lírica (Livraria Duas Cidades, 1989), Trovar claro (Companhia das Letras, 1997) e Macau (Companhia das Letras, 2003).

O negativismo em relação à poesia atual normalmente tem uma de duas causas.

Uma, comum em todas as épocas, é o que podemos chamar de falha de perspectiva. O crítico olha para trás, e vê no passado Bandeira, Drummond, Jorge de Lima, Murilo Mendes, João Cabral; aí olha a sua volta, não vê nada comparável e diz: estamos na decadência. Quando a gente lê sobre a história de uma arte, seja a poesia ou a música ou qualquer outra, volta e meia encontra esse sentimento. Não tenho dúvida que mais de um contemporâneo de Leonardo e Michelangelo, contemplando a arte da Grécia, exprimiu sentimentos semelhantes, sem imaginar que as gerações seguintes viriam aquele momento que ele próprio estava vivendo como um dos maiores na história da arte ocidental. A falha de perspectiva tem dois aspectos: (a) Contrastar “o passado” com “o presente” é injusto, porque “o passado” é, por definição, muito mais extenso que “o presente”. Bandeira, Drummond e Cabral pertencem a três gerações diferentes; o período em que Bandeira estava no auge não é o mesmo em que Cabral publicava suas obras definitivas. Sem dúvida, há períodos em que há mais grandes artistas atuando do que em outros, mas (b) é sempre mais difícil julgar o presente do que julgar o passado; o que está próximo demais não pode ser visto com nitidez. É só do ponto de vista de agora que podemos avaliar, por exemplo, a década de 1950 como um período de extraordinária criatividade para a poesia brasileira. Para quem estava vivo e acompanhando a poesia na época, o quadro ainda não estava tão claro; muitas vezes só se faz justiça à grandeza de uma obra com um certo distanciamento no tempo. É só daqui a vinte anos que vamos poder ter uma visão distanciada do momento atual.

A outra causa do negativismo é um problema especificamente brasileiro — ou, talvez, de nações que, como o Brasil, acabam de sair de um longo período de construção nacional. Podemos dizer que mais ou menos entre o romantismo e a tropicália, um período de pouco mais de um século, a questão do que significava ser brasileiro era a que mais preocupava os artistas e intelectuais. Era importante afirmar-se brasileiro — num primeiro momento, em oposição a Portugal; depois, em oposição à França; e por fim, já chegando ao meu próprio período de formação (anos 60), em oposição aos Estados Unidos. A tropicália foi, sobre esse aspecto, a última das vanguardas e uma antivanguarda; ao contrário das vanguardas propriamente ditas, que se definiam por negatividade — os naturalistas negando os românticos, os modernistas de 22 negando o parnasianismo, o concretismo negando a geração de 45, o poema-práxis atacando os concretos — a tropicália se definiu justamente pela inclusividade: João Gilberto e Roberto Carlos, baião e rock, Batman e macumba. Os tropicalistas, em última análise, estavam afirmando: o Brasil, enquanto nação, está construído, e é um construto sólido o bastante para não precisar mais temer o estrangeiro; também a arte sofisticada não precisa amaldiçoar a arte de consumo, porém pode utilizá-la como matéria prima. Mas alguns críticos, da minha geração ou um pouco mais velhos, até hoje continuam mentalmente no período pré-tropicalista. Para eles, a poesia tem que ser, como dizia Mário de Andrade, uma arte “interessada”, contribuindo para a construção do Brasil, criticando o capitalismo, afirmando valores genuinamente nacionais etc. — ou então, ainda dentro da lógica da vanguarda, realizando experiências formais radicais, dando mais “um passo à frente” em relação aos últimos movimentos e afirmando a posição do Brasil como nação “moderna”. Para esses críticos, tanto os da vertente engajada quando os da vanguardista, uma poesia que não esteja interessada na questão nacional, ou que não seja o dernier cri em matéria de experimentação, não tem nenhum valor. Eles não conseguem entender por que motivo os poetas do século XXI não são mais como os poetas da primeira metade do século XX, porque jamais conseguiram sair da primeira metade do século XX.

A meu ver, a poesia [brasileira] vai bem. Há muitos poetas em atividade, o que me parece algo positivo: quanto mais praticantes de uma arte, maior a possibilidade de que ao menos uns poucos entre eles venham a se tornar grandes artistas. Dos poetas de agora, uns me parecem melhores, outros mais fracos; como todo mundo, tenho minhas preferências, meus critérios de avaliação; mas o fato de eu estar imerso no presente me nega aquele distanciamento que me parece fundamental para uma avaliação mais certeira. Creio que daqui a uma ou duas décadas grande parte da poesia produzida agora vai se revelar efêmera, e uma outra parte — necessariamente menor — vai perdurar. Não posso ter certeza de que os poetas que me parecem os mais fortes agora sejam os que vão ficar; é bem possível que algum poeta que eu nem conheça, que tenha publicado um ou dois livros mal distribuídos, ou que ainda nem tenha saído em livro, venha no futuro a ser reconhecido como o principal nome do nosso tempo. Quem viver verá.

Se já é difícil avaliar a poesia dos contemporâneos, avaliar a poesia que se produz, então, é dificílimo. Deixo essa avaliação para os outros. Não sou um vanguardista; não escrevo com intenções de atingir tais e tais resultados concretos. Escrevo os poemas que consigo escrever.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Ad Hominem Entrevista: Rodrigo Gurgel

Prêmios literários no Brasil obedecem a uma curiosa regra: existem para confirmar reputações tidas e havidas como indiscutíveis ou alavancar reputações futuramente tidas e havidas como indiscutíveis. O que menos se espera de um jurado, aparentemente, é que julgue e premeie obras literárias de fato relevantes. E se a literatura brasileira “é uma das formas mais eficazes do tédio”, da crítica literária brasileira não se poderia mesmo esperar outra coisa que não enfado e subserviência.


Ocorre que, de tempos em tempos, aparece alguma figura rigorosamente sensata que, de tão deslocada no cenário nacional acostumado a pantomimas e salamaleques, passa a impressão de quixotesca ou, como se costuma dizer nesses casos, polemista.


É o caso de Rodrigo Gurgel, o famigerado Jurado C, na última edição do nunca assaz celebrado Prêmio Jabuti. Desde o desaparecimento do curitibano Wilson Martins, não se tinha notícia de crítico que julgasse obras literárias com os dois únicos ou principais critérios com que se espera um crítico julgue uma obra e, por conseguinte, seu criador: inteligência e honestidade inegociável.

Gurgel acaba de se tornar figura non grata entre os escritores e respectivos editores que preferem a adulação ao julgamento; o compadrio ao destemor; a imitação à literatura. 

E é com tal figura a nós gratíssima que achamos por bem começar o Ad Hominem Entrevista.

***

Você provocou um pequeno rebuliço nos meios editorial e literário brasileiros apenas por julgar um livro a partir do que considerou seus deméritos intrínsecos, e não pelo nome do autor. Qual a sua avaliação final do incidente? O que lhe diz sobre as condições da crítica literária hoje no Brasil?


Como já disse em meu blog, a avaliação do incidente pode ser resumida no pensamento de Samuel Johnson: “É difícil contentar aqueles que desconhecem o que exigem ou aqueles que exigem propositalmente o que julgam impossível obter”. No que se refere à crítica literária, em 2010, numa entrevista ao jornal O Globo, o professor de literatura da PUC-RJ, Karl Erik Schøllhammer, questionado pelo jornalista Miguel Conde sobre os críticos que receavam fazer julgamentos de valor, respondeu claramente: “As pessoas não têm coragem. A dura verdade é essa. Existe no Brasil uma cordialidade exagerada entre crítica e escritor, que é ambígua, mas que é mantida assim: o crítico diz para o autor ‘Isso é muito bom’, mas vira a cabeça e diz ‘Isso é uma droga’. Essa cordialidade, essa falsa afinidade, essa conivência bloqueiam a franqueza na discussão. Com poucas exceções. Existem algumas exceções na crítica brasileira”. Quando li essas palavras, fiquei em estado de júbilo: alguém pensava como eu. Essa é, portanto, minha avaliação. Grande parte dos nossos críticos esconde sua opinião nos jargões acadêmicos exatamente para não julgar. Quando não utilizam o discurso hermético, ficam naquilo que minha avó chamava de “conversa para boi dormir”. Nos dois casos, trata-se do que eu chamo de síndrome do bom-mocismo. No fundo, uma forma de hipocrisia.
Por falar em julgar uma obra pelo que lhe é intrínseco... O seu livro, Muita Retórica Pouca Literatura (Vide, 2012), adota um procedimento similar aos do new criticism: comentar os textos lidando com passagens específicas, sem se afastar da materialidade da obra para incorrer em afirmações muito genéricas. É de se supor que considere esse um procedimento útil aos nossos meios jornalístico e acadêmico. Ou não? E por quê?


Utilizo essa forma de analisar o texto por um motivo didático e não por ser filiado ao new criticism. Não entendo a crítica literária como um exercício acadêmico e narcisista, que busca apenas sua autossatisfação. Não. A crítica literária é um instrumento a serviço do homem. Serviço, aliás, extremamente honroso, pois elabora o diálogo que sempre deve haver entre a obra literária e o leitor. O discurso da crítica é imprescindível e deve ser feito com destemor e autoridade. Sem ele, sem a crítica, teríamos o depauperamento da cultura, da própria civilização. 

Qual é, na sua opinião, o papel da literatura na vida humana?

A literatura pode servir como bom passatempo. Pode também desempenhar o papel de força inspiradora – são inúmeros os casos de escritores que, antes de começar o exercício diário de escrita, leem uma ou duas páginas de autores geniais. Mas ela tem duas funções primordiais. A primeira é permitir ao leitor que ele se abra à variedade da experiência humana; ou seja, reconstituir, na imaginação, os conflitos humanos, como Olavo de Carvalho sempre repete. Poucas pessoas têm a oportunidade, em suas vidas, de experimentar, por exemplo, situações em que uma extrema coragem é exigida. Refiro-me àquele momento em que você se torna herói ou covarde. Em termos morais, em termos de aperfeiçoamento da personalidade, trata-se de uma situação fundamental, que testa os limites do ser humano. Pois bem, a literatura coloca nas mãos do leitor a chance de experimentar tal realidade, ainda que de forma, digamos, oblíqua ou indireta: basta ler “Lorde Jim”, de Joseph Conrad. A segunda função primordial é “ajudar o indivíduo a se confundir, em paz e na alegria, com a uniformidade do ser”. Essa ideia, defendida por Milan Kundera, agrada-me, pois é um aprofundamento do que costumamos chamar de leitura por prazer: na verdade, essa relação prazerosa com a literatura é apenas o sintoma de algo mais profundo: nossa reintegração no Ser.

A visão de mundo do crítico (sua religião ou ausência dela, bem como convicções morais e políticas) influi na atividade crítica de maneira geral? E no seu caso específico; se você visse a realidade de maneira diferente, sua opinião sobre obras literárias seria afetada?

Essa é uma pergunta que não pode ser respondida com um “sim” ou um “não”. O fato de eu ser católico impregna toda a minha vida, todo o meu ser. O crítico literário francês Patrick Kéchichian, convertido, creio, em 2009, afirma com sabedoria: “Católico não é um adjetivo, mas um substantivo. Não sou um crítico ou um escritor católico; sou crítico, escritor e católico”. Então, é evidente que a fé católica está comigo não só quando leio uma obra. No entanto, penso como Robert Louis Stevenson. Em um de seus ensaios, “The Morality of the Profession of Letters”, ele diz que, na verdade, quando se trata de literatura, todos, escritores e críticos, dispõem de uma só ferramenta: a empatia. Ele afirma que (traduzo sem ser literal) “quando um livro é concebido sob grande tensão, com um espírito que, graças a essa tensão, multiplicou seu poder, aqueceu e eletrificou, por meio do esforço, a sua obra, as condições do nosso ser se veem presas de uma iluminação tão vasta que, ainda que o conceito básico da história seja trivial ou vulgar, não pode deixar de surgir do livro algo belo e verdadeiro”. E concluía: “Da força nasce a doçura; mas algo ruim pobremente executado é algo ruim do princípio ao fim”. Esses trechos resumem a maneira como me aproximo de uma obra literária: disposto à empatia, ainda que o tema seja, digamos, anticristão; certo de que a beleza e a verdade vencem tudo, inclusive um tema eticamente duvidoso.


Você considera que a literatura brasileira tenha valor verdadeiramente universal, e que nossos escritores – os maiores, especialmente: Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Osman Lins – possam ser colocados, lado a lado, com os maiores ficcionistas do cânone literário?



Temos ótimos escritores, mas nenhum pode ficar, lado a lado, com Dante Alighieri, Tolstói, Dostoiévski, Henry James ou Joseph Conrad. Somos um país que ainda está engatinhando. Temos um Manuel Bandeira, cuja obra caminha, ombro a ombro, com a maioria dos poetas do século XX. E Machado de Assis, claro. Mas nenhum deles é um desses gênios cuja leitura é obrigatória a toda a humanidade. Um russo, por exemplo, pode passar a vida sem ler Machado, mas não sem ler Shakespeare. 


Hoje, muitos jovens no Brasil têm saltado a formação literária para ir direto ao estudo de outras áreas, como filosofia, ciência política e economia. A ignorância da literatura brasileira, em específico, excetuado um Machado ou um Bandeira, é até bem maior. O que você pensa a respeito?

Nosso sistema escolar é medíocre. Basta ver as listas de compra de livros de ficção para escolas públicas. Ali há autores contemporâneos brasileiros que, dentro de duas décadas, já estarão na lata de lixo da história literária. Outros demorarão um pouco mais... Na verdade, a escola se encarrega, hoje, de transformar os alunos em presas fáceis de quaisquer discursos, de qualquer besteira ou mentira lida ou ouvida na Internet, nos jornais, na tevê. O país está se desintegrando sob um populismo rasteiro. Os jovens não são treinados para serem mestres do seu próprio intelecto. Essa expressão, aliás, não é minha, mas da escritora Dorothy Sayers, que no ensaio “The Lost Tools of Learning” resumiu bem, creio que na década de 1940, o problema que só se agravou até hoje. A solução defendida por Sayers, ainda que radical, é a que recomendo a quem me pergunta como romper essa ordem na qual o cinismo marxista tornou-se hegemônico: devemos retornar ao Trivium. Qualquer outra saída será apenas um paliativo. 

O seu livro – assim como o que lhe seguirá – trata apenas de prosadores brasileiros. De um modo geral, o que você tem a dizer sobre a poesia brasileira?

Como leitor, digamos, profissional, dedico-me exclusivamente à prosa. Leio poesia, mas minha relação com esse gênero é essencialmente amorosa. Tenho alguns poetas que aprecio – e sempre retorno a eles. E, em suas obras, gosto às vezes de alguns poucos poemas. É o caso de Carlos Drummond de Andrade, por exemplo. Dos brasileiros, só Bandeira tem meu amor irrestrito. 

Certa vez Olavo de Carvalho afirmou que Bruno Tolentino era o maior poeta em língua portuguesa desde Camões. Na sua opinião, qual o papel de Tolentino para essa nova geração de poetas brasileiros?

Sempre que penso no Tolentino lembro-me de meu professor de latim na PUC-SP, o brilhante padre Matheus Nogueira Garcez. Tínhamos duas aulas por semana com ele – e sempre éramos premiados com um dito irônico sobre os concretistas. Só percebi muitos anos depois como aqueles comentários tinham o efeito de um conforto moral, pois ali, no templo semioticista paulistano, em que pontificava, na pós-graduação, o próprio Haroldo de Campos, alguém tinha coragem de ir contra o pensamento hegemônico. Tolentino foi um dos que ousou apontar as deficiências do movimento e os males que sua hegemonia causou. Ao mesmo tempo, a poesia de Tolentino tem o mérito de recuperar à nossa imaginação a força, a energia das formas fixas. Temos, em língua portuguesa, uma versificação riquíssima – basta ler o Tratado de versificação, do Olavo Bilac –, mas que permanece, apesar dos esforços do Tolentino, esquecida. Como disse Manuel Bandeira, “precisamos urgentemente voltar à métrica, à rima, à sintaxe lusíada [...]. O modernismo era suportável quando extravagância de alguns. Agora é a normalidade de toda a gente. Então depois que reinventaram a brasilidade, a coisa tornou-se uma praga. [...] Confesso que acho um certo sabor nos poemas dos iniciadores. Os meninos que vieram depois é que estão caceteando”. E continuam caceteando até hoje. 

A presente geração é marcada pelo advento da Internet. Uma das consequências dessa nova realidade é que as pessoas podem produzir literatura e publicá-la imediatamente, em sites e blogs, sem a mediação de editores e casas de publicação. Você vê esse cenário com bons olhos?

O cenário é irreversível. E permite, como a própria realidade, coisas boas e ruins. A “estranha pretensão” de que falava Ortega y Gasset, a pretensão “de ser mais que qualquer outro tempo passado; mais ainda: por se desligar de todo o passado, não reconhecer épocas clássicas e normativas, e ver-se a si mesmo como uma vida nova superior a todas as antigas e irredutível a elas”, veio para ficar. O homem-massa é indestrutível. Vivemos e viveremos sob o império dos filisteus. É o que previu Jacob Burckhardt em suas cartas: “Um dia o mundo irá sufocar e cair sobre o estrume de seu próprio filisteísmo”. Por isso mesmo não podemos ficar em silêncio ou agir como vaquinhas de presépio. 

Desde o ponto de vista privilegiado de jurado de um grande prêmio literário, você diria que há boa literatura em nossa produção recente, ou tem razão de ser a não rara impressão de que o momento é de estagnação e mesmice?

Ontem, hoje e sempre, não só no Brasil, mas em qualquer lugar do mundo, precisamos analisar a produção literária dos nossos contemporâneos usando uma pinça. Posso dizer, utilizando-a de modo cirúrgico, que, na última década, começamos a sair do beco escuro controlado pelo eterno vanguardismo. Sim, é verdade que estamos impregnados da cultura contemporânea, relativista, materialista, de um niilismo que chega a ser atroz. Mas nossos escritores estão começando a criar coragem para desobedecer os departamentos de Letras das universidades e os críticos que só valorizam acrobacias linguísticas. Abandonar o vício de recriar constantemente um dialeto exclusivo, que só pode ser entendido pelo escritor e meia dúzia de amigos, é apenas o primeiro passo. Será um longo caminho até sermos curados da doença à qual dei o nome de narratofobia. Há, no entanto, bons escritores, dispostos a contar boas histórias, corajosos a ponto de escrever com bom humor, sem se preocupar com discursos politicamente corretos. E há outros, em menor número, que já percebem que boa literatura não é, necessariamente, literatura niilista; que um bom livro não precisa falar apenas de fracasso, vileza e perversidade.


Recentemente vieram à mídia dois casos ímpares para a cultura brasileira atual: o seu voto polêmico no prêmio Jabuti e o projeto da Vara Criminal de Joaçaba-SC, idealizado pelo juiz Márcio Bragaglia, que propõe a diminuição da pena dos detentos que lerem grandes obras da literatura universal. Ambos os casos nos proporcionaram ver expostas na grande mídia ideias até então confinadas ao “gueto conservador”. Tanto você quanto o juiz Márcio são admiradores confessos do pensamento de Olavo de Carvalho. Será que já podemos dizer que a “contrarrevolução cultural”, cujas bases o filósofo preparou, está começando a dar frutos?



As ideias de Olavo de Carvalho estão fadadas a produzir frutos – e bons frutos. Ninguém faz tudo que o Olavo já fez – e ainda vai fazer –, com a sinceridade de coração, com as intenções retas que o impulsionam, para ser tratado como a figueira estéril. Ao contrário. Estamos, assim, só no começo, nos primeiros gemidos de uma contrarrevolução cultural. É a primeira batida de coração de um feto que não será abortado.

Está chegando o Natal. Deixe-nos de presente a indicação de um bom livro que nos ajude a viver o espírito natalino.

“Sangue sábio”, de Flannery O’Connor, pode nos ajudar a compreender não apenas o mistério da Encarnação, mas, principalmente, o da Redenção. Ou seja, compreender o sentido da existência humana e o mistério da Graça, pois, para Flannery, e ela estava certa, “a Graça é o acontecimento perante o qual o homem entende o seu destino, o seu verdadeiro destino”.
Tecnologia do Blogger.

Total de visualizações