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domingo, 23 de fevereiro de 2014

Nariz empinado também é filho de Deus



Esnobismo é o sentimento de quem tem um bem restrito a poucos, que o vê sendo invadido por uma classe recém-chegada que o desvirtua e que tenta recolocar o invasor em seu lugar inferior. É patrimônio coletivo da espécie humana. Nobres esnobavam burgueses; judeus, góis; dinheiro antigo, novos ricos; pessoal true, posers; acadêmicos, divulgadores; populares, nerds; e nerds – que recentemente virou motivo de orgulho – esnobam os nerd wannabes.

Há segmentos culturais inteiros dedicados à exclusão: o hipsterismo, por exemplo. Se todo mundo conhecer a banda, a banda não é mais tão legal assim; conhecer e gostar do que é de poucos é parte essencial do que os define. Isso pode não ser lá muito admirável, mas é humano; o homem é um ser hierárquico, quer se sobressair e ser admirado. E para isso é preciso manter os outros em seu lugar.

Não são só os ricos que o fazem. Há o esnobismo da falta de dinheiro (ou da aparência da falta de dinheiro), que esnoba os agentes da gentrificação. O barzinho é descolado até chegarem os playboys. Essa versão indireta, esse esnobismo de segunda ordem, gosta de se pintar como superior, mas é igual a sua versão mais vulgar praticada por socialites e mauricinhos. Talvez seja pior. Uma coisa é o vício ali por inteiro, aberto, direto ao ponto; até inocente. Outra é o vício retorcido, disfarçado, indireto, que tenta dissimular sua real natureza. Quanto mais refinada a mente (e por que negar que meio intelectuais meio de esquerda sejam mais inteligentes que dondocas? Nosso igualitarismo chega a isso?), maior a perversidade de que ela é capaz.

Nossos sentimentos e até nosso corpo incorporam certo esnobismo, certa rejeição pelo que é mais popular. O salgado gorduroso num boteco de favela junto ao córrego não é digno de nossa boca, embora os favelados o adorem; idem para o copo d’água suspeito nas ruas de Nova Deli. Ainda que o cérebro igualitário prevaleça, o intestino não será tão democrático.

A esnobada pode ser ofensiva, quando o alvo é um invasor isolado que não sabe se adequar às normas implícitas da comunidade exclusiva; ou pode ser defensiva, quando toda uma nova classe invade a comunidade, mudando sua configuração. No primeiro caso, o motivo do gracejo é realmente evidenciar a inferioridade do sujeito em algum aspecto: “Pfff, veste camiseta da banda mas só conhece os hits”. No segundo, a esnobada pode nem derivar do desejo de excluir o invasor, e reflete apenas a tristeza perante o desvirtuamento da comunidade ou do item de consumo, agora vulgarizados. Ou vai dizer que você ama o fato de os cinemas e TV a cabo só passarem filme dublado? Pra não falar do que virou o teatro... É o preço da inclusão social e econômica. Podemos gostar dela mas lamentar alguns de seus efeitos, não? Aliás, já repararam que nenhum requeijão presta mais?

Quando a professora Rosa Marina Meyer viu um proletário esculachado no aeroporto, seus instintos esnobes apitaram e fez uma piadinha nas redes sociais. Aquela monstra asquerosa. Seu esnobismo foi do tipo mais inocente, mais puro. O passeio aeroviário, outrora marcado pela finesse e sofisticação, está a metamorfosear-se em ambiente popularesco, com filas quilométricas, barulho, cheiros mil, carne, gordura, pele e pelos à vista; daqui a pouco vão estender varal e trazer marmita. São coisas que a mim não ofendem, mas que a sensibilidade de uma senhora de classe média alta não tolera bem; e quem poderá condená-la se ela ainda por cima leva tudo com bom humor?

No final das contas o esculachado era mais rico que ela, o que indica que o problema era antes com seus modos que com sua renda. Um pobre arrumadinho não causaria o desgosto desse rico esculhambado. Mal sabia ela, contudo, que esse pecadilho, esse ato comum e partilhado por toda a humanidade de variadas formas, é o novo pecado contra o Espírito Santo; nem Deus pode perdoá-lo. Ao saber do comentário, o twitter da Dilma Bolada, essa linda, convocou o linchamento imediato e a gente conscientizada das redes sociais não deixou por menos. A comoção foi tanta, tantas declarações públicas de amor aos pobres, tantas vestes rasgadas, tanto repúdio àquela vagabunda sub-humana, que ela foi demitida. Amém! Que isso nos sirva de lição. Sabe o tipo de reserva e policiamento mental constantes que um político pratica em época de eleição, quando uma palavra mal pensada pode desagradar as parcelas mais medíocres e moralistas do eleitorado? Então, isso agora virou o mínimo exigido de todo mundo o tempo todo.

O comentário da pérfida professora não seria lido pela vítima – aliás, poucos fora de seu círculo o teriam visto, não fosse o linchamento virtual –, a vítima nem era pobre, e mesmo se fosse não teria sofrido nenhuma inconveniência. Da mesma forma, a desigualdade de renda do Brasil, a inclusão dos negros e o progresso da classe C continuam rigorosamente inalterados. O crime da professora foi um crime, nem digo de pensamento, mas de sentimento. Ela sentiu errado. Já a boa ação da Dilma Bolada e as boas intenções (sempre!) dos internautas resultaram num dano real: o fim de uma carreira. Seria o bem mais destrutivo que o mal?

(Não dá, obviamente, para eximir a administração da PUC. Há três cenários possíveis: se ela já queria demitir a professora e usou esse circo irrelevante como pretexto, foi desonesto, mas não fugiu do que as organizações sempre fazem. Se foi um ato servil de medo da opinião pública, é vergonhoso, mas ainda humano. Agora, se ela realmente considera que o esnobismo da professora é incompatível com o padrão ético da universidade, então... que Deus se apiede dessa católica instituição. Não sei o que é pior: que a proliferação dos códigos de ética e da consciência social seja apenas um golpe de marketing ou que as organizações os estejam levando a sério.)

O esnobismo está proscrito, não combina com o alto nível moral de nossos tempos. Mas o vício oposto a ele vai muito bem obrigado. Sim, há um sentimento oposto ao esnobismo: o refastelo na degradação. O orgulho da escória que dissolve a ordem estabelecida. Hordas bárbaras que destroem os símbolos do refinamento e da civilização (muito da qual depende do ímpeto esnobe - o conceito de "bárbaro" não surgiu à toa). Cagar nos cálices de ouro. Arruinar o programa alheio.

Isso, confesso, também me dá um certo prazer, o sentimento da desforra, o triunfalismo do “vamo invadir sua praia”, de finalmente entrar no clube que te rejeitava só para destruí-lo. Esse prazer é, moralmente, pior do que o do esnobismo. Este, afinal, visa preservar; aquele quer apenas destruir, mas para os democratas do espírito ele tem algo de admirável. Viva a farofa, o funk, o rolezinho e o crack! Se só poucos podem ter tudo, que todos não tenham nada, e a primeira parte é opcional.

terça-feira, 31 de julho de 2012

O dilema de Abraão visto de dentro

De todas as passagens bíblicas, uma das que mais apresenta dificuldades é a ordem de Deus para que Abraão sacrifique seu filho. Abraão, perfeitamente obediente a Deus, leva Isaac ao monte, levanta sua faca e, na hora H, um anjo o impede e explica que Deus estava apenas testando sua fé. O fim da história é perfeito e fácil: Deus não queria o sacrifício humano, e o episódio todo teve um papel de teste (teste para o próprio Abraão conhecer a si mesmo e para provar sua fé aos demais homens; não, obviamente, para Deus, que tudo sabe) e também pedagógico.

Ocorre que, entre a ordem de Deus e o aparecimento do anjo, houve um período em que Abraão não sabia que se tratava de um teste, e mesmo assim o acatou. E essa decisão de Abraão é louvada em todas as correntes monoteístas que dele derivam. A disposição de matar o próprio filho, para obedecer a uma ordem divina, é vista como virtuosa. Deus, portanto, não quereria o sacrifício humano, mas quereria fiéis dispostos a assassinar um inocente se Ele assim o mandasse?

Outro problema é de ordem epistemológica. Suponha que você, pai de família temente a Deus, ouça uma voz que alega proveniência divina (se é o próprio Deus ou um anjo que fala por ele, não importa). A princípio, pode se tratar de três coisas: você pode estar alucinando; pode ser que a voz venha de um ente espiritual e seja de fato divina; e pode ser que a voz seja de um ente espiritual maléfico, demoníaco.

Como saber a proveniência da voz? Um critério é: se a voz ou a aparição pedir ou demandar algo que seja imoral, então ela não é de Deus (este critério é um dos utilizados pela Igreja católica para avaliar revelações privadas). Ora, pedir para se assassinar uma criança é bastante imoral. Portanto, pelos elementos que Abraão tinha para julgar sua situação, ele tinha melhores motivos para julgar que se tratava de uma alucinação ou de um demônio do que acreditar que o pedido vinha de Deus. A decisão correta seria rejeitar a ordem dada.

Ele seguiu a ordem, levou o filho ao monte, chegou a levantar a faca e, felizmente, a ordem viera mesmo de Deus, ele foi impedido e ponto final. Mas e se fosse um demônio ou uma alucinação? Então ele teria conseguido matar o próprio filho; ficaria ali, ensaguentado, assistindo o cadáver pegar fogo, e esse seria o fim. O homem que julgava seguir a vontade de Deus não passaria de um esquizofrênico que acabara de cometer uma barbaridade indizível, ou de um agente de Satanás num ritual horripilante.

Como salvar, ou justificar, esse que é visto como o grande ato de virtude de Abraão? Notem que o fato da ordem ter, de fato, vindo de Deus, não resolve o problema. Pois de seu ponto de vista, Abraão não tinha como saber que ela vinha de Deus. Muito pelo contrário, os elementos de que ele dispunha apontavam mais para o demônio do que para Deus. Se um homem recebesse o mesmo chamado de Abraão hoje em dia e o acatasse, seu ato seria considerado, pela Igreja e por qualquer pessoa com um mínimo de sanidade, um pecado.

Tampouco poderemos justificar o ato de Abraão apelando para alguma convicção interna de que o chamado vinha de Deus. Pois a convicção interna, seja ela qual for (seja um sentimento profundo de paz, ou uma certeza inquebrantável, ou mesmo visões esplendorosas), é apenas uma variação da experiência subjetiva humana, podendo ser produzida igualmente por Deus, pelo demônio ou por alguma alucinação.

Como, então, salvaremos o ato de nosso pai na Fé?

Parece-me que o único modo de fazê-lo é reconhecendo que Abraão - e sua tribo de pastores nômades - era uma homem tão rude e tão selvagem que, subjetivamente, não era culpável por não julgar sua situação de acordo com os critérios mais racionais e propriamente humanos pelos quais qualquer homem minimamente civilizado tem a obrigação de julgar. Do ponto de vista dele, que era um ponto de vista objetivamente muito precário e indesejável, a questão moral de respeito à pessoa humana e os problemas epistemológicos da revelação privada simplesmente não se colocavam. Tratava-se apenas da escolha de entregar ou não tudo a Deus. Que a força maior (que lhe dera um filho no passado) talvez não fosse Deus nem lhe passava pela cabeça; era uma força maior à qual ele estava submetido. Que um filho, ou seja, outro ser humano, não deva ser tratado como uma propriedade da qual o dono tem todo o direito de "abrir mão", como se fosse um televisor ou um terreno, também não lhe ocorria. O filho era seu bem mais precioso, e fora dado por Deus. Ele tinha a fé necessária para abrir mão até desse bem pelo amor/obediência a Deus? Estava disposto a entregar o bem recebido para ficar com a fonte do bem (sim, sim, aqui já é uma interpretação abstrata e filosófica que também não devia passar por sua cabeça)? Seu amor a Deus tinha transcendido o amor pelo benefício que recebera de Deus?

Nesse sentido, a ação de Abraão foi realmente virtuosa, mas só porque seu nível mental (cultural; no que diz respeito a sua natureza, Abraão era provavelmente um homem muito inteligente) era tão baixo que ele não tinha como considerar os elementos que faziam com que sua ação fosse, objetivamente falando, imoral. Ele não tinha capacidade para o bem real neste caso; sua ação refletia o melhor de que ele era capaz dadas as circunstâncias. E sendo Abraão moralmente inocente - e mais, virtuoso - ao aceitar a ordem de Deus, o fato de Deus ter emitido tal ordem não viola a bondade divina (que seria violada se Deus comandasse um pecado).

Assim, conclui-se que virtude e vício dependem das circunstâncias em que cada um se encontra; o que é vicioso em um caso pode ser virtuoso em outro, sem que, no entanto, caia-se no relativismo. A ordem objetiva da moral é mantida, reconhecendo-se apenas que a capacidade humana para se adequar a ela pode variar.

O episódio também mostra, a meu ver, como Deus faz uso inclusive das imperfeições humanas para levar adiante sua obra redentora. Fosse Abraão homem civilizado, a história não poderia ter sido assim; sua virtude teria sido pecado [edição: na verdade, acho mais exato colocá-lo de outra maneira: "a escolha que, no caso de Abraão, foi virtuosa, para um homem de hoje em dia seria pecaminosa ou, no mínimo, errônea"].

terça-feira, 6 de março de 2012

A irmã bastarda

Le bât -   Pierre Subleyras (1732)

A pornografia é uma das mais persistentes manifestações do espírito humano. Os homens pré-históricos já deixaram, gravados ou pintados sobre a pedra, inúmeros exemplos da representação de atos sexuais e de órgãos genitais, enquanto algumas civilizações antigas  como a hindu, a grega e a romana  atingiram um elevado nível de requinte em sua arte pornográfica. Em tempos mais recentes, tão logo a imprensa, a fotografia e o cinema se desenvolveram, foram utilizados na produção de material pornográfico, constituindo uma indústria que, hoje em dia, por meio da internet, coloca um volume crescente de conteúdo à disposição de um público cada vez maior. Da pintura rupestre à banda larga, a pornografia sempre esteve presente na história humana, provavelmente em todas as culturas e nos mais diversos meios de expressão. Mas de onde vem esse interesse aparentemente inesgotável da humanidade pela pornografia?

Como se sabe, a pornografia funciona de modo bem simples: ela oferece uma excitação dos sentidos ou da imaginação que, a partir do estímulo correto, possibilita um descarregamento de energia sexual. Cientistas acreditam ter desvendando a engenharia neurológica por trás desse processo. Em 1994, na cidade de Parma, na Itália, alguns pesquisadores monitoravam o funcionamento do cérebro de um macaco ao manipular objetos. Sempre que o macaco agarrava alguma coisa e a movimentava, um determinado padrão de atividade cerebral se produzia. Certa vez, por acaso, o animal viu um dos pesquisadores levando um sorvete à boca, o que produziu em seu cérebro um padrão de atividade semelhante àquele verificado enquanto desempenhava algum tipo de ação  era como se o macaco vivenciasse mentalmente a situação presenciada. Atribuiu-se o fato ao que então passaria a ser chamado de “neurônios-espelho”, ou “células-espelho”. Em 2001, também em Parma, outra pesquisa foi levada a cabo com o objetivo de verificar se as mesmas células poderiam ser verificadas no cérebro humano. Foram mostradas imagens de mãos, pés e bocas em movimento para um grupo de pessoas; em resposta, a região do cérebro responsável pelo controle daquela parte do corpo se ativava.

A descoberta dos neurônios-espelho ajudou a compreender melhor diversos aspectos da atividade mental humana. É por conta deles, por exemplo, que bocejamos ao ver alguém bocejar, ou que salivamos ao ver, numa propaganda de televisão, uma pessoa mordendo um suculento sanduíche. Tais células cerebrais atuam ainda na aquisição da linguagem, auxiliam na compreensão das intenções de outras pessoas e possibilitam nosso envolvimento emocional com situações das quais não fazemos parte ou até mesmo com obras de ficção. E, é claro, estão relacionados a nosso interesse pela pornografia, como mostrou um estudo realizado em 2008, na Universidade Picardie Jules Verne, na França, cujo objetivo era estabelecer a ligação entre a visualização de imagens pornográficas e a ereção masculina. Nesse estudo, voluntários eram submetidos a um exame de ressonância magnética enquanto assistiam a vídeos pornográficos. Registrou-se uma intensa atividade na região cerebral conhecida como pars opercularis, especialmente abundante em neurônios-espelho. A excitação ocorreria porque, mesmo não estando cientes disso, os voluntários se projetavam na situação representada, experimentando-a mentalmente, como se fizessem parte dela. Eis o mecanismo por trás do voyeurismo e da pornografia. Contudo, os neurônios-espelho são também o fundamento neurológico de outros aspectos considerados mais nobres da mente humana, como a moralidade.

Duas mulheres - Egon Schiele (1915)

Esquematicamente, podemos dizer que a moralidade se estabelece sobre dois eixos: o cuidado consigo mesmo e o cuidado com o outro. Tais princípios são invariáveis, sedimentados na natureza humana, mas podem receber diversas configurações, de acordo com as circunstâncias históricas e sociais. O cuidado consigo possui motivações fáceis de discernir. Como se sabe, o aparelho psíquico humano (assim como sua versão rudimentar nos animais) está projetado para buscar a satisfação das necessidades do indivíduo e evitar seu sofrimento. Com o desenvolvimento da cultura, aprendemos a negociar com esses dois âmbitos da experiência humana, mas ainda assim, como consequência de um processo de seleção natural, continuamos geneticamente programados para preservar nossa integridade física e perpetuar nosso repertório genético. Indivíduos mais propensos a se preservar (poderíamos dizer, com um princípio de moralidade mais pronunciado) têm maior probabilidade de sobreviver às adversidades e passar seus genes adiante, o que, num certo número de gerações, resultaria numa população mais cautelosa (e, provavelmente, mais moral).

As motivações evolutivas para o cuidado com o outro são igualmente evidentes, mas o modo como tal princípio de moralidade se estabelece em nossa constituição psíquica é menos óbvio. Como espécie, somos vulneráveis aos perigos naturais. Andar em bando e agir cooperativamente aumentaram em muito nossas chances de sobrevivência, de maneira que indivíduos mais sociáveis começaram a prevalecer na população, o que também propiciou o surgimento da cultura a partir de um potencial intelectual inerente à espécie, já neurologicamente estruturado. Porém, tal processo seletivo ainda não explica como é possível, num nível individual, passar do instinto de sobrevivência, que é o fundamento do cuidado consigo, para a preocupação com a integridade do outro.

Na natureza, encontramos, em diferentes níveis, abundantes exemplos de cuidado com o outro, principalmente na relação entre progenitores e suas crias; além disso, em algumas espécies, machos e fêmeas podem defender seus potenciais parceiros sexuais. Quando não se trata de animais intelectualmente mais desenvolvidos, tais arranjos de cooperação tendem a não ser duradouros, ficando ao sabor dos ciclos reprodutivos e sua química hormonal. Sabemos que feromônios regulam o interesse sexual e que há um hormônio responsável pelo “amor materno”, a ocitocina, que estabelece um vínculo emocional primário entre mãe e filho. Muito provavelmente, tais hormônios estão na origem da construção de nossos vínculos familiares,  organizados posteriormente em estruturas sociais, mas o que explica, na espécie humana, nossa capacidade de nos compadecer de indivíduos que, muitas vezes, sequer conhecemos? A organização de uma sociedade em grupos de reprodução não consegue explicar a existência de sentimentos como a amizade e a solidariedade.

É justamente o cuidado desinteressado com o outro que oferece a real medida da moralidade humana, o que só pode ser alcançado quando um “eu” se identifica com um "outro", considerando-o digno dos mesmos cuidados que reservaria a si mesmo. É preciso que esse eu, ao ver uma pessoa sofrendo, entenda a dimensão de tal sofrimento, compartilhando dele, ainda que virtualmente. Ou seja: é necessário que eu me coloque na situação da outra pessoa, “vestindo sua pele”, projetando nela minha própria experiência como ser humano, para então descobrir um ser estruturalmente análogo a mim, potencialmente igual a mim, distinto apenas pelas circunstâncias; descubro que partilho com ele uma mesma natureza — a natureza humana. Para chegar neste ponto, há toda uma elaboração moral que não necessariamente se dá, mas o princípio de nosso sentimento moral está na capacidade de nos identificar imediata e inconscientemente com os outros, de reproduzir mentalmente a situação experimentada por eles, e vivenciá-la subjetivamente. “Amar ao próximo como a si mesmo” e “não fazer aos outros o que não gostaria que fizessem a você” são princípios que expressam tal fundamento natural da moralidade humana. Em outras palavras, a raiz de nossa moralidade, naquilo o que ela nos diferencia dos animais, está na capacidade de criar empatia, uma operação mental realizada pelos neurônios-espelho.

Mas se é possível constatar a existência de neurônios-espelho em outras espécies de animais, por que não encontramos entre elas o mesmo tipo de cuidado desinteressado com o outro? Em primeiro lugar, é possível observar manifestações desse tipo em algumas espécies mais inteligentes de mamíferos, como em cachorros, macacos, elefantes etc. Para outras espécies, possivelmente também aparelhadas com neurônios-espelho, talvez o que falte seja algum grau de apreensão da própria subjetividade, o que aqueles outros animais, mais sofisticados, teriam num nível menos desenvolvido do que os humanos. O circuito da empatia só se fecha integralmente, produzindo as formas mais desinteressadas do cuidado com o outro, quando aquele que experimenta a empatia possui plena consciência de sua individualidade; para ser capaz de sentir as implicações de se colocar na situação do outro, é preciso antes reconhecer-se como uma pessoa concreta. O autoconhecimento, portanto, é condição para uma consciência moral plenamente desenvolvida, pois apenas ele pode nos dar uma real compreensão daquilo o que é melhor para nós e, dessa maneira, o que pode ser melhor também para as outras pessoas.

The sculptor - John Koch (1964)
A moralidade humana e a satisfação voyeurística encontrada na pornografia estão ancoradas numa mesma estrutura cerebral, responsável pela empatia. A pornografia, portanto, não representa um rebaixamento aos instintos mais animalescos do homem, nem fornece um índice confiável para o nível de imoralidade de uma cultura. Na verdade, ela, como uma irmã bastarda da moral, é o produto cultural de uma espécie excepcionalmente sensível ao prazer e ao sofrimento alheios. É por isso que o crescimento da oferta de material pornográfico, ocasionado pelo desenvolvimento tecnológico dos meios de difusão, não é incompatível com o progresso moral de nossa civilização que, embora não seja retilíneo nem uniforme, é contínuo. Talvez até haja, arrisco dizer, uma relação de causalidade entre os dois, para além do avanço dos meios técnicos. Creio que uma reflexão nesse sentido ajudaria a distinguir moral de moralismo, distinguir o que de fato contribui para o melhor proveito humano daquilo o que se deve a contingências e interesses de âmbito restrito.

Deixo agora uma questão para discussão ulterior, que talvez se torne um próximo artigo. Acredito que a pornografia não é em si imoral, mas que ela pode ser o meio de representação de algo imoral, o que, na minha perspectiva, acontece quando se representa algo degradante à condição humana. Deixo bem claro que, para mim, que não sou cristão, a castidade não é um valor moral, mas um moralismo, uma virtude que tem sua validade dentro de um sistema de valores particulares, isto é, não universais. 

sábado, 3 de março de 2012

Promiscuidade é Equivalente a Prostituição?

Embora externamente suas ações sejam as mesmas - seduzem e se relacionam com muitos homens - o valor moral dos atos da prostituta e da promíscua são muito diferentes, de forma que equiparar uma à outra é injusto. Isso não quer dizer que uma delas aja bem; nenhuma das duas vive aquilo que a mulher é capaz, e ambas se distanciam da felicidade que procuram, mas o grau desse distanciamento é diverso.

A promíscua é a mulher que procura o sexo casual e frequente porque ela o quer. Claro, ela está equivocada sobre aquilo que lhe trará a real felicidade, mas mesmo assim essa busca equivocada se dá por meio de uma afirmação de seu ser e do bem do sexo, que de fato é um bem. Ela afirma a bondade de seu corpo e reconhece o valor do propósito unitivo que a move, embora não o use lá muito bem.

Já a prostituta procura o sexo casual e frequente embora ela não o queira. (Mesmo as prostitutas que gostem da profissão, que imagino não serem a maioria, terão que, em muitas circunstâncias, se relacionar com homens que em nada lhes atraem, e se submeter a degradações que, não fosse pelo dinheiro, não se submeteriam.) Ao contrário da promíscua, ela se distancia de seu próprio corpo, tratando-o como objeto, como puro meio, mutilando em parte sua identidade. Ela trai a si mesma, à própria dignidade, num nível que a promíscua não trai. Ela nega seu ser, enquanto a outra o afirma.

Isso não quer dizer que a prostituta seja mais imoral. Afinal, toda uma série de circunstâncias difíceis em geral mitigam em muito a decisão de vender o próprio corpo. Mas implica que a prostituta faz mais mal para si do que a promíscua. Esta não é apenas uma prostituta que "dá de graça"; seus atos, embora desordenados, obedecem à lógica interna do corpo e da união humanas, enquanto que o da outra violam-na no ponto mais profundo: o da auto-doação voluntária e sincera.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Como Inutilizar a Política, ou O Movimento Conservador

Ao invés de, nas eleições, discutirmos política, economia e questões de Estado, que tal prendermo-nos em questões morais pontuais? Foque num tema (casamento gay, aborto, drogas, suicídio assistido) e exclua todos os outros. Dê atenção demasiada, também, para a vida pessoal do candidato: a campanha deve virar um palco de fofocas maldosas; quem sair menos prejudicado delas, ganha. E assim a irrelevância vira o foco. Gostou da proposta? É o que os conservadores têm feito à perfeição. É que eles confundem salvação da alma com administração pública; um erro comum.

Quando digo que as questões morais pontuais são irrelevantes, não falo do ponto de vista moral. Falo do ponto de vista político. O que importa, por exemplo, se o governo dá respaldo e um pedaço de papel aos casais gays? Isso é consequência, na prática inevitável, de um processo cultural de longa data. Mudar isso requererá algo mais profundo que a vontade de um político e briga eleitoral. E, uma vez aprovado o casamento estatal gay, no que isso prejudica as famílias, igrejas ou quem quer que seja? O mesmo se dá no campo da virtude pessoal: o que importa se um candidato teve ou não uma amante? Que os conservadores se prendam a isso mostra apenas o quão descolados estão do mundo real, contentes em seu conto-de-fadas em que os melhores políticos são os indivíduos mais virtuosos; o que, dada a mesquinhez das massas, em geral significa os mais certinhos. Digo que esses estão, não raro, entre os piores!

Das questões morais em pauta, a única que merece atenção política é, na minha opinião, o aborto, pois ela envolve a violação direta de um direito fundamental alheio. Mesmo ela, contudo, é relativizável, posto que um político (ainda mais do Executivo, que é onde o moralismo tem tomado mais conta) tem poder muito limitado para mudar a lei na direção que for; vide George W. Bush nos EUA (que não proibiu o aborto), e todos os presidentes desde a redemocratização no Brasil (que não o legalizaram). É imoral votar num presidente a favor do aborto? Então quem votou em FHC foi imoral. E se bobear FHC - ateu e de esquerda - era, em 94 e 98, mais a favor do aborto do que Lula, cria da TL (que, apesar de todos os pesares, é contra o aborto).

Por isso é tão desalentador ver o apoio efusivo recebido por Rick Santorum na disputa americana; um candidato cujas únicas credenciais são seus "valores conservadores" e sua vida pessoal. Ele tem todas as opiniões da cartilha sobre questões morais (mais algumas próprias dele, como o combate aos contraceptivos e a reabilitação histórica das Cruzadas); quer também bombardear o Irã e se bobear o resto do Oriente Médio; usa analogias tiradas do Senhor dos Anéis para se referir à guerra do Iraque; vai barrar os imigrantes ilegais. Não sabe nada de economia, repete as fórmulas da vez, jurando que discorda em tudo do Obama. Se eleito, deve colocar em prática a mesma responsabilidade fiscal e o mesmo "livre mercado" de George W. Bush. Ah, - dirá o mui piedoso conservador - contanto que ele mantenha a referência a Deus na cédula do dólar, tá valendo!

A importância dada ao caráter moral é também muito curiosa. A insistência na virtude pessoal do governante é feita por clérigos e intelectuais desde pelo menos a Idade Média (talvez em Roma também?), mas raramente - e em alguns períodos curtos e negros da história europeia - é levada a sério. Os founding fathers americanos eram exemplos de santidade moral? E a imensa maioria dos reis europeus, nosso D. Pedro I incluso? A quantidade de filhos bastardos já os desqualificaria numa corrida presidencial atual. Contra Newt Gingrich, o argumento que pegou não foi seu diletantismo (embora muito inteligente, não tem uma teoria consistente para se guiar; é mais Estado para tudo, junto com uma retórica de livre mercado), mas o fato de ter traído esposas e, acima disso, ter possivelmente proposto a uma delas um casamento aberto. O Papa S. Pio V foi um santo; mas seu reinado foi politicamente ruim para a Igreja. Sua inimiga, a rainha inglesa Elizabeth, teve amantes (e para um monarca a aura de virtude é mais importante que para um líder democrático), e foi uma das maiores monarcas da história do país. Robespierre era mais probo e honesto que Luís XVI. Savonarola, mais puro que os Médici. Quem foi o melhor líder?

A campanha de Santorum, ao apelar, antes de tudo, para "valores", apela para o que há de mais medíocre e moralista no eleitorado americano. Se ele vencer, iupi!, os americanos não precisarão temer o casamento gay e ONGs contrárias ao sexo pré-conjugal ganharão mais dinheiro e/ou apoio. E os EUA continuarão no mesmo caminho do socialismo crescente, da burocratização e controle estatal da vida humana, do déficit insustentável que se reverterá em mais impostos e da inflação da moeda; com todos os efeitos morais que essas situações engendram. Mas nada disso importa, agora que os candidatos republicanos descobriram que seus votos dependem apenas de afagar a consciência do eleitorado conservador com promessas de combate aos males terríveis deste mundo anti-cristão. A preocupação moral exacerbada por parte dos eleitores alimenta o oportunismo cínico dos candidatos, que ao invés de ideias e propostas gritam os slogans e repetem os ditames da sharia da vez.

Politicamente,a estratégia tem sido questionável. Santorum conseguiu, de saída, alienar todos os homossexuais e simpatizantes (em entrevista sua em 2003, ele disse ser a favor dos governos coibirem relações sexuais homossexuais por serem uma "ameaça à família"). Isso é um feito, pois fez com que seus valores sejam não só o motivo pelo qual é apoiado, mas também pelo qual é detestado. É duro afirmá-lo, mas vamos lá: mesmo com uma família unida e feliz é possível ser um total incompetente e ignorante no que diz respeito a governar um país.

Vejam o exemplo alternativo, de Ron Paul: pessoalmente, ele parece ser uma figura exemplar: avô, casado, médico obstetra por muitas décadas, fiel, respeitoso, amável. Nunca ficou alardeando sua família ou seus valores da família por aí. Sua campanha é baseada em ideias: ideias sobre como o governo americano deve ser e agir. A campanha de Obama de 2008 também o foi (a de 2012 dificilmente será; vai ser de contenção de danos e de aposta no pragmatismo do possível, junto com a demonização do republicano rival, trabalho que será muito facilitado se o oponente for Santorum). Nesse sentido, Romney também é superior a Santorum: sua campanha baseia-se na ideia de que o governo pode e deve ser eficiente, como uma empresa de sucesso, área na qual Romney tem experiência. Infelizmente, na hora crucial de defender a demissão de funcionários, recuou; se nem ele acredita em sua mensagem, quanto menos os eleitores! É outro que, embora moralmente exemplar, não faz da moral sua bandeira primeira; é um (e o único) Republicano plenamente mainstream na corrida.

O efeito da ascensão conservadora dos dias de hoje tem sido "moralizar" a política; elevando questões secundárias ao primeiro plano. O resultado primeiro disso foi o aumento exponencial da fofoca e da hipocrisia (já pensaram esse tipo de campanha na época do Kennedy, do Nixon ou mesmo do Reagan?). O segundo será eleger um total inepto cujo grande mérito é ter seis filhos, querer proibir a sodomia e se enxergar como um tipo de cruzado moderno contra o inimigo sarraceno. E então colheremos os tão esperados frutos do conservadorismo; e pelos frutos o conheceremos...
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