quinta-feira, 13 de março de 2014

"Esparrama pelo chão", cazzo!


Perdoem-me os leitores por abordar um assunto tão insignificante. Tratarei de batatas — mais especificamente, de batatinhas que nascem e se esparramam (ou não) pelo chão. Tenho ouvido desde o Ensino Médio que, na famosa trovinha, o segundo verso não seria “[se] esparrama pelo chão” — como tradicionalmente se declama —, mas, sim, “espalha rama pelo chão”. Segundo dizem, isso se deve ao fato de as batatas serem tubérculos e, sendo assim, crescerem debaixo da terra. O que se espalharia “pelo chão” seria a ramagem da batata. Confesso que, durante a infância e a adolescência, estive muitas vezes sobre batatas ainda na terra, mas nunca me ocorreu verificar se elas formam algum tipo de rama. Aí está um assunto para biólogos e agrônomos discutirem. Abordarei a questão por outra perspectiva.

Nunca soube qual é a origem do famigerado “espalha rama”. A figura mais proeminente a quem se atribui tal correção da trova é o professor Pasquale Cipro Neto, conhecido do grande público por oferecer dicas de Português em jornais, revistas e programas de televisão. Geralmente, o verso corrigido é apresentado ao lado de expressões populares que, com o passar do tempo, teriam sido “deformadas” na boca do povo. É o caso, por exemplo, de “cuspido e escarrado”, cuja versão original seria “esculpido em [mármore] carrara”, ou ainda “cor de burro quando foge”, que, originalmente, dizia-se “corro de burro quando foge”.

Entretanto, existe uma diferença aqui: enquanto os casos mencionados se referem ao gênero dos provérbios ou dos ditos populares, “Batatinha quando nasce” é uma trova (ou quadrinha) que, como tal, possui uma estrutura definida: estrofe de quatro versos, geralmente em redondilha maior (versos heptassílabos, isto é, de sete sílabas poéticas) e com rimas alternadas (esquema abab ou abcb). Vejamos:

Batatinha quando nasce,
Esparrama pelo chão,
Menininha quando dorme,
Põe a mão no coração.

Cuja escansão fica da seguinte maneira:

Ba/ ta/ ti/ nha/ quan/ do/ nas – 7 sílabas
Es/ par/ ra/ ma/ pe/ lo/ chão – 7 sílabas
Me/ ni/ ni/ nha/ quan/ do/ dor – 7 sílabas
Põe/ a/ mão/ no/ co/ ra/ ção – 7 sílabas

Além desta estranha “coincidência” no número de sílabas poéticas, há outra no que se refere aos acentos dos versos:

Ba/ ta/ ti/ nha/ quan/ do/ nas – as 3ª, 5ª e 7ª sílabas são tônicas
Es/ par/ ra/ ma/ pe/ lo/ chão – as 3ª, 5ª e 7ª sílabas são tônicas
Me/ ni/ ni/ nha/ quan/ do/ dor – as 3ª, 5ª e 7ª sílabas são tônicas
Põe/ a/ mão/ no/ co/ ra/ ção – as 3ª e 7ª sílabas são tônicas e a 5ª, subtônica.

Subtônicas são sílabas que, mesmo não sendo a tônica, possuem um som mais marcante do que as átonas mais tênues, que antecedem ou sucedem imediatamente a tônica. É um artifício muito comum contá-las como tônicas, a não ser no lugar das cesuras.

Escandindo os versos, utilizando o “esparrama pelo chão”, percebemos que existe uma regularidade métrica. O mesmo se dá quando consideramos a versão “se esparrama pelo chão”:

Sees/ par/ ra/ ma/ pe/ lo/ chão

Mais uma vez, encontramos um verso heptassílabo com acentos nas 3ª, 5ª e 7ª sílabas poéticas. Isto ocorre porque a última vogal de se e a primeira de esparrama se fundem numa mesma sílaba poética durante a pronúncia (fenômeno conhecido como crase); dizemos: “sesparrama pelo chão”. Agora vejamos “espalha rama pelo chão”:

Es/ pa/ lha/ ra/ ma/ pe/ lo/ chão

Eis um verso de 8 sílabas poéticas (octossílabo), com acentos nas 2ª, 4ª, 6ª e 8ª, o que foge do esquema métrico da trova, quebrando completamente seu ritmo. A partir disso, é possível deduzir que “[se] esparrama pelo chão” faz parte da versão original e que “espalha rama” é a distorção, a deformação, ao contrário do que se tem dito por aí.

O que houve foi uma “supercorreção”, quando se corrige algo que já estava correto. Provavelmente, alguém deduziu que, como as batatas crescem sob o solo, então o verso só poderia estar errado e tratou de adequá-lo ao sentido que julgou ser o mais correto. Quem quer que o tenha feito, caiu numa cilada boba: ignorou a função poética da linguagem, em que os significantes são mais importantes do que o significado, isto é, em que o como se diz é mais importante do que aquilo o que se quer dizer. Se há realmente alguma impropriedade em dizer que as batatas se espalham pelo chão, isso não tem importância, pois os versos da trova estão obedecendo a critérios sonoros, fônicos, e não botânicos. O ritmo da estrofe tem a primazia sobre a estrofe. Desafio qualquer um a estabelecer uma relação convincente de paralelismo lógico entre batatas nascendo no chão e meninas dormindo com a mão sobre o peito. As duas imagens são relacionadas na trova apenas por critérios que dizem respeito à dimensão rítmica da linguagem verbal.

Para não parecer que estou falando de um caso isolado, vejamos outras trovas de nossa cultura popular:

Se essa rua fosse minha,
Eu mandava ladrilhar
Com pedrinhas de brilhante
Só p’ro meu amor passar.

Nessa rua tem um bosque,
Que se chama solidão,
Dentro dele mora um anjo
Que roubou meu coração.

Os versos são todos heptassílabos, com acentos nas 1ª, 3ª, 5ª e 7ª sílabas, sendo que, por vezes, a 5ª é subtônica.

Atirei o pau no gato,
Mas o gato não morreu,
Dona Chica admirou-se
Do berro que o gato deu.

Este é um exemplo interessante, pois o esquema métrico é formado por versos heptassílabos com acentos nas 3ª, 5ª e 7ª sílabas. O quarto verso, no entanto, possui os acentos nas 2ª, 5ª e 7ª. Solucionamos essa discrepância cantando “do berrô que o gato deu”, adequando a prosódia ao ritmo da trova.

Ou ainda:

O cravo brigou com a rosa
Debaixo de uma sacada,
O cravo saiu ferido,
A rosa, despedaçada.

Em que:

O/ cra/ vo/ bri/ gou/ co’a/ ro – 7 sílabas poéticas (acento nas 2ª e 5ª sílabas)
De/ bai/ xo/ deu/ ma/ sa/ ca – 7 sílabas poéticas (acento nas 2ª e 4ª sílabas)
O/ cra/ vo/ sa/ iu/ fe/ ri – 7 sílabas poéticas (acento nas 2ª e 5ª sílabas)
Ea/ ro/ sa/ des/ pe/ da/ ça – 7 sílabas poéticas (acento na 2ª, sendo que tanto a 4ª quanto a 5ª sílabas podem ser contabilizadas como subtônicas).

Não há uma regularidade métrica tão estrita quanto nos outros exemplos, mas existe um paralelismo em que, considerando-se no quarto verso a quarta como a subtônica, temos um revezamento de versos heptassílabos com diferentes acentos, acompanhando a alternância das rimas: as rimas são cruzadas (abcb), assim como os versos com acentos nas 2ª e 5ª sílabas (digamos, x) se alternam com aqueles acentuados na 2ª e na 4ª, da seguinte forma: (xyxy), sendo que os versos rimados (b) são ambos y. A alternância de tipos de versos com o mesmo número de sílabas, mas com acentos diferentes, é comum nos sonetos parnasianos brasileiros, nos quais costumavam alternar os decassílabos heroicos (acentos nas 6ª e 10ª sílabas, às vezes na 2ª) com os sáficos (acentos nas 4ª, 8ª e 10ª sílabas poéticas).

Já em

Ciranda, cirandinha,
Vamos todos cirandar,
Vamos dar a meia volta,
Volta e meia vamos dar.

O anel que tu me deste
Era vidro e se quebrou,
O amor que tu me tinhas
Era pouco e se acabou.

... o esquema métrico é de versos heptassílabos com acentos nas 3ª, 5ª e 7ª sílabas, sendo a 5ª, por vezes, subtônica. A única exceção é o primeiro verso, com seis sílabas, acentuadas as 2ª e 4ª. A regularidade rítmica permite-nos supor que, orginalmente, o verso era “cirandinha, cirandinha”, que se encaixa perfeitamente no esquema do restante da canção, talvez reduzido para “ciranda, cirandinha” para eliminar a repetição desnecessária (uma questão de economia possível de ser observada com alguma regularidade quando estudamos fonética). A hipótese não é tão absurda porque a variação “cirandinha, cirandinha” é bem menos frequente, mas também pode ser ouvida em alguns lugares.

A questão é que, até a década de 1990, não se escutava essa história de “espalha rama”. O ônus da prova cabe a quem afirma que a tradição oral está errada. E como se poderia prová-lo? Simples, indo atrás das transcrições mais antigas da trova e verificando se os documentos registram “esparrama” ou “espalha rama”. Até que isto seja feito, não há real motivo para duvidar da versão que nos foi legada, pois ela se adéqua melhor a outros indícios verificáveis, como a estrutura própria das trovas. Não se trata, como possivelmente ocorre em “Ciranda, cirandinha”, de um verso que se adequava a um esquema métrico pré-estabelecido e que foi “descaracterizado” no uso corrente. Seria o oposto disso: um verso irregular que foi regularizado com o passar do tempo, deixando de ser “espalha rama” para se tornar “esparrama”. Mas a grande pergunta é: por que o verso, em sua origem, seria irregular?

Embora, até onde saibamos, o autor seja anônimo, é óbvio que houve um autor, pois trovas (com sua estrutura específica), ao contrário do que certa superstição populista poderia conceber, não surgem espontaneamente da cultura popular. O povo apropria-se da trova, que passa a fazer parte de seu repertório cultural, e ele (na verdade, indivíduos que o compõem) pode fazer-lhe alterações e distorções, modificando o texto original. O que seria inexplicável seria o fato de a trova ter sido composta inicialmente de maneira irregular, a menos que se tratasse de um provérbio adaptado à forma de uma trova. Tal hipótese é pouco provável, pois os versos não possuem um significado relevante ou definido e aparentam se relacionar única e exclusivamente por conta da sonoridade do conjunto. Quer dizer, se esses versos não compusessem desde o princípio uma trova, fica difícil imaginar o que eles pudessem querer dizer. A estrutura na qual eles estão encaixados parece ser sua razão de existir.

Esta discussão pode parecer uma implicância boba de minha mente neurótica (e talvez seja mesmo!). Entretanto, o que me incomoda é isso ser disseminado pelas escolas de todo o país, desacostumando os alunos à fruição da poesia. Ignora-se a função poética e tenta-se adequar a trova a um uso utilitário da linguagem, de forma que tudo se enquadre num significado corrente, lógico. No processo, perde-se a dimensão lúdica da poesia e deixamos de alimentar a imaginação e a sensibilidade de nossos jovens. Depois não adianta reclamar que os alunos não gostam de poesia, pois estamos lhes ensinando que a linguagem poética não se diferencia daquela de um verbete de dicionário. Por que então perder tempo com poesia?

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Nariz empinado também é filho de Deus



Esnobismo é o sentimento de quem tem um bem restrito a poucos, que o vê sendo invadido por uma classe recém-chegada que o desvirtua e que tenta recolocar o invasor em seu lugar inferior. É patrimônio coletivo da espécie humana. Nobres esnobavam burgueses; judeus, góis; dinheiro antigo, novos ricos; pessoal true, posers; acadêmicos, divulgadores; populares, nerds; e nerds – que recentemente virou motivo de orgulho – esnobam os nerd wannabes.

Há segmentos culturais inteiros dedicados à exclusão: o hipsterismo, por exemplo. Se todo mundo conhecer a banda, a banda não é mais tão legal assim; conhecer e gostar do que é de poucos é parte essencial do que os define. Isso pode não ser lá muito admirável, mas é humano; o homem é um ser hierárquico, quer se sobressair e ser admirado. E para isso é preciso manter os outros em seu lugar.

Não são só os ricos que o fazem. Há o esnobismo da falta de dinheiro (ou da aparência da falta de dinheiro), que esnoba os agentes da gentrificação. O barzinho é descolado até chegarem os playboys. Essa versão indireta, esse esnobismo de segunda ordem, gosta de se pintar como superior, mas é igual a sua versão mais vulgar praticada por socialites e mauricinhos. Talvez seja pior. Uma coisa é o vício ali por inteiro, aberto, direto ao ponto; até inocente. Outra é o vício retorcido, disfarçado, indireto, que tenta dissimular sua real natureza. Quanto mais refinada a mente (e por que negar que meio intelectuais meio de esquerda sejam mais inteligentes que dondocas? Nosso igualitarismo chega a isso?), maior a perversidade de que ela é capaz.

Nossos sentimentos e até nosso corpo incorporam certo esnobismo, certa rejeição pelo que é mais popular. O salgado gorduroso num boteco de favela junto ao córrego não é digno de nossa boca, embora os favelados o adorem; idem para o copo d’água suspeito nas ruas de Nova Deli. Ainda que o cérebro igualitário prevaleça, o intestino não será tão democrático.

A esnobada pode ser ofensiva, quando o alvo é um invasor isolado que não sabe se adequar às normas implícitas da comunidade exclusiva; ou pode ser defensiva, quando toda uma nova classe invade a comunidade, mudando sua configuração. No primeiro caso, o motivo do gracejo é realmente evidenciar a inferioridade do sujeito em algum aspecto: “Pfff, veste camiseta da banda mas só conhece os hits”. No segundo, a esnobada pode nem derivar do desejo de excluir o invasor, e reflete apenas a tristeza perante o desvirtuamento da comunidade ou do item de consumo, agora vulgarizados. Ou vai dizer que você ama o fato de os cinemas e TV a cabo só passarem filme dublado? Pra não falar do que virou o teatro... É o preço da inclusão social e econômica. Podemos gostar dela mas lamentar alguns de seus efeitos, não? Aliás, já repararam que nenhum requeijão presta mais?

Quando a professora Rosa Marina Meyer viu um proletário esculachado no aeroporto, seus instintos esnobes apitaram e fez uma piadinha nas redes sociais. Aquela monstra asquerosa. Seu esnobismo foi do tipo mais inocente, mais puro. O passeio aeroviário, outrora marcado pela finesse e sofisticação, está a metamorfosear-se em ambiente popularesco, com filas quilométricas, barulho, cheiros mil, carne, gordura, pele e pelos à vista; daqui a pouco vão estender varal e trazer marmita. São coisas que a mim não ofendem, mas que a sensibilidade de uma senhora de classe média alta não tolera bem; e quem poderá condená-la se ela ainda por cima leva tudo com bom humor?

No final das contas o esculachado era mais rico que ela, o que indica que o problema era antes com seus modos que com sua renda. Um pobre arrumadinho não causaria o desgosto desse rico esculhambado. Mal sabia ela, contudo, que esse pecadilho, esse ato comum e partilhado por toda a humanidade de variadas formas, é o novo pecado contra o Espírito Santo; nem Deus pode perdoá-lo. Ao saber do comentário, o twitter da Dilma Bolada, essa linda, convocou o linchamento imediato e a gente conscientizada das redes sociais não deixou por menos. A comoção foi tanta, tantas declarações públicas de amor aos pobres, tantas vestes rasgadas, tanto repúdio àquela vagabunda sub-humana, que ela foi demitida. Amém! Que isso nos sirva de lição. Sabe o tipo de reserva e policiamento mental constantes que um político pratica em época de eleição, quando uma palavra mal pensada pode desagradar as parcelas mais medíocres e moralistas do eleitorado? Então, isso agora virou o mínimo exigido de todo mundo o tempo todo.

O comentário da pérfida professora não seria lido pela vítima – aliás, poucos fora de seu círculo o teriam visto, não fosse o linchamento virtual –, a vítima nem era pobre, e mesmo se fosse não teria sofrido nenhuma inconveniência. Da mesma forma, a desigualdade de renda do Brasil, a inclusão dos negros e o progresso da classe C continuam rigorosamente inalterados. O crime da professora foi um crime, nem digo de pensamento, mas de sentimento. Ela sentiu errado. Já a boa ação da Dilma Bolada e as boas intenções (sempre!) dos internautas resultaram num dano real: o fim de uma carreira. Seria o bem mais destrutivo que o mal?

(Não dá, obviamente, para eximir a administração da PUC. Há três cenários possíveis: se ela já queria demitir a professora e usou esse circo irrelevante como pretexto, foi desonesto, mas não fugiu do que as organizações sempre fazem. Se foi um ato servil de medo da opinião pública, é vergonhoso, mas ainda humano. Agora, se ela realmente considera que o esnobismo da professora é incompatível com o padrão ético da universidade, então... que Deus se apiede dessa católica instituição. Não sei o que é pior: que a proliferação dos códigos de ética e da consciência social seja apenas um golpe de marketing ou que as organizações os estejam levando a sério.)

O esnobismo está proscrito, não combina com o alto nível moral de nossos tempos. Mas o vício oposto a ele vai muito bem obrigado. Sim, há um sentimento oposto ao esnobismo: o refastelo na degradação. O orgulho da escória que dissolve a ordem estabelecida. Hordas bárbaras que destroem os símbolos do refinamento e da civilização (muito da qual depende do ímpeto esnobe - o conceito de "bárbaro" não surgiu à toa). Cagar nos cálices de ouro. Arruinar o programa alheio.

Isso, confesso, também me dá um certo prazer, o sentimento da desforra, o triunfalismo do “vamo invadir sua praia”, de finalmente entrar no clube que te rejeitava só para destruí-lo. Esse prazer é, moralmente, pior do que o do esnobismo. Este, afinal, visa preservar; aquele quer apenas destruir, mas para os democratas do espírito ele tem algo de admirável. Viva a farofa, o funk, o rolezinho e o crack! Se só poucos podem ter tudo, que todos não tenham nada, e a primeira parte é opcional.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Tudo menos o jovem preso ao poste



As paixões políticas se alimentam de pequenos eventos que parecem enormes e produzem a indignação popular momentânea. Como a capacidade de atenção é curta, em algumas semanas já foram devidamente mastigados, deglutidos e expelidos; ninguém mais se importa. Mês que vem ninguém mais ligará para o ladrão que foi agredido, despido e preso a um poste. Mas nos dias que correm, não se fala em outra coisa; ele serve muito bem como suporte para cada um um afixar sua causa política, acirrar os ânimos contra os malvados das redes sociais, demonstrar sua superioridade moral e ainda - no caso da raça dos formadores de opinião - influenciar o debate político, puxar a sardinha para seu lado.

Digo desde já, para que não venham me acusar e rotular: o justiçamento popular é uma prática condenável, incivilizada e que contribui para a deterioração da convivência humana; não deve ser aplaudido e não é a solução para problema social algum. É modo brutal de justiça, sem proporção entre delito e pena e com taxas altas de punição a inocentes.

Vejo - ó céus - que Rachel Sheherazade tem uma visão mais positiva que a minha desse tipo de reação popular. Se não chega bem a endossá-la como substituta legítima do processo legal, ao menos não condena o que fizeram os justiceiros nesse caso. E - ó céus novamente - ao invés de escrever um tratado filosófico a respeito, ela demonstrou sua indignação com um discurso inflamado, justamente aquilo que fez dela uma estrela entre os conservadores.

Acho lamentável que esse tipo de discurso esteja ganhando força entre pessoas mais educadas (ele sempre foi o modo básico e espontâneo de ver o mundo de toda a população; o estado natural do homem é o conservadorismo). Mas assim como o crime de um jovem pobre é compreensível (mas não justificável) dadas as condições materiais e psicológicas nas quais ele vive; assim como a reação dos justiceiros é compreensível (mas não justificável) dada a indignação que se sente ao se ver um criminoso escapar impune; também a opinião conservadora de Sheherazade é compreensível dado um sistema de Justiça estatal ineficaz como o nosso e uma cultura letrada que hostiliza quem quer viver honestamente e progredir na vida ao mesmo tempo em que desculpa os delitos de quem quer que seja visto como um "excluído". E que vai além: culpa os primeiros pelos crimes dos segundos.

A infinita compaixão e sensibilidade social dos observadores de esquerda cessa abruptamente na hora de lidar com quem discorda deles. Assim como o ladrão foi justiçado por observadores indignados, Rachel Sheherazade está sendo justiçada pelos defensores da moral e dos bons costumes aplicados ao discurso. Querem-na condenada; multada ou presa, tanto faz; o importante é que sinta na pele. Não, não são movidos por mero espírito de manada e raiva mal-direcionada; a justificativa é eminentemente técnica e racional: ela fez apologia ao crime. É por isso que essas mesmas pessoas também defendem a punição exemplar a todo mundo que defende o cultivo, a distribuição e o consumo de maconha. #soquenão (vocês é que me fazem indicar a ironia assim, vulgarmente: a capacidade de detectá-la é inversamente proporcional ao desejo de ficar indignado, que anda em alta).

Se Sheherazade, ou uma versão universitária sua, tivesse feito esse discurso numa assembleia estudantil, é bem capaz que eles mesmos, movidos pelo santo e virtuoso ódio ao justiçamento, a justiçassem bem ali. Já vi coisa similar. O desejo de fazer a justiça - ou mesmo punir o diferente; suspeito que se confundam muitas vezes - na base da indignação é natural ao homem, o que não quer dizer que seja bom. Não é fruto de ideologias ou de classes sociais, e nem pode ser apagado mediante conscientização. Se ela for punida, demitida ou o que seja, a ética do justiçamento terá ganho; ainda que seja um justiçamento amparado pela lei.

O caso do jovem no poste serve também para qualquer um reafirmar sua superioridade moral, bradando contra os grandes males do mundo. Hoje em dia, quem quer ser visto como bom não tem escolha melhor do que condenar e denunciar o racismo ou o ódio de classes, mesmo na falta de evidências de que eles tenham algo a ver com o caso. 

Negros e pobres passeiam diariamente pela mesma rua sem ser alvo do ódio de justiceiros populares. Os próprios justiceiros são, na maioria das vezes, eles também pobres e de cores variadas (não é correto chamar a população brasileira pobre de negra, posto que é mestiça e que grande parte desses mestiços são caboclos e não mulatos), assim como a maioria das vítimas dos crimes cometidos por mestiços e pobres. Quem souber e quiser procurar, encontrará diversas filmagens (viva o smartphone!) de justiçamentos no Brasil - inclusive contra estupradores, o que mostra que a cultura brasileira não é tão favorável ao estupro assim. Os fatos são o que menos importa. Diga-me o teu time e eu te direi quem é aquele jovem: um demônio que teve o que merecia, ou a vítima inocente da elite racista. Se por acaso você acertar, sinto muito: até a apuração objetiva aparecer o assunto já terá morrido. 

O jovem no poste não importa tanto quanto as causas que dele podem se servir. Hoje temos duas causas se digladiando, com objetivos muito diversos. A causa que move a esquerda é bater nos direitistas. Já o ideal que move a direita é bater nos esquerdistas. Não são classes sociais ou raças antagônicas. São todos membros de uma mesma grande classe social: a classe média/alta (curiosamente, na minha experiência a esquerda é em média mais rica que a direita) com algum estudo e tempo livre para se dedicar a ideias. Formaram campos rivais e adoram se odiar. Até ontem só existia o de esquerda, que monopolizava o discurso; agora a direita vem tirando-lhe fatias do mercado, e por isso a luta. A esquerda se firmou negando e/ou sendo condescendente com todos os costumes tradicionais e instintos normais do povo; a direita vem para reafirmá-los. Em ambos os casos, a arma preferida é a indignação moral pública, o que nem de longe se confunde com a moralidade real.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Pesadelos de uma Noite Quente

Amo o calor das últimas semanas; janeiro mais quente em setenta anos. É um pouco mais difícil de dormir, mas mesmo isso não me incomoda. A escuridão do quarto/forno é um bom momento para pensar sem distrações. Sinto que o calor faz de São Paulo um lugar mais brasileiro.

Claro que qualquer coisa que o Brasil seja, será brasileira. Mas há uma ideia, uma imagem, de Brasil, que de alguma maneira existe nas mentes, e que vai se perdendo. Mas enquanto este calor imperar em São Paulo, nem tudo está perdido.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Brevíssima Introdução a Ayn Rand


















Uma fusão de Aristóteles e Nietzsche para os dias de hoje: uma visão heróica do homem, que vive apenas por si e sem culpa; somada ao primado da razão como conhecedora da realidade e guia das ações e ao respeito pelos direitos individuais. Isso resume a filosofia de Ayn Rand.

É raro gostarem dela fora do meio liberal. E de fato, não faltam motivos para a rejeição. A começar pelo descaso com que trata filósofos anteriores, lendo suas filosofias sem nenhum rigor acadêmico e julgando-os sem dó. Suas passagens mais virulentas são reservadas para "um monumento ao repositório mais feio do ódio pela vida, pela homem e pela razão: a alma de Immanuel Kant." ("Causality Versus Duty" em Philosophy: Who Needs It) Ela aceitava apenas dois precedentes filosóficos: Aristóteles, o maior filósofo de todos os tempos, e Tomás de Aquino, também muito bom (segundo ela, a parte teológica de S. Tomás fora provavelmente uma concessão dele aos tempos). Fora disso, quase só erro e maldade. Locke teve seu mérito na filosofia política, mas sua epistemologia era detestável. Nietzsche tinha um ou outro pensamento de valor, mas sua concepção básica do homem, anti-racionalista e negadora do livre arbítrio, também era muito má. (No caso de Nietzsche, é visível sua influência sobre ela, o que torna a rejeição ostensiva ainda mais problemática).

Há também a notória hostilidade à religião. A fé é a negação da razão: aceitação de uma autoridade como superior e substituta da própria mente e de suas ferramentas de conhecimento da realidade. Ainda assim, ela não era ateia militante: argumentos contra a existência de Deus ou contra religiões específicas não ocorrem quase nunca em sua obra; o que há com frequência um pouco maior é argumentos morais contra a moral religiosa do Cristianismo - única religião digna de nota para ela. E mesmo com tudo isso - talvez isso interesse a nossos leitores - havia algum respeito pela tradição intelectual católica, por ela lamentada na longa refutação que fez da encíclica Populorum Progressio do papa Paulo VI: "Há um elemento de tristeza nesse espetáculo. O Catolicismo já tinha sido a religião mais filosófica do mundo. Sua longa e ilustre história filosófica foi iluminada por um gigante: Tomás de Aquino. Ele trouxe uma visão aristotélica da razão (uma epistemologia aristotélica) de volta para a cultura europeia, abrindo o caminho para a Renascença. (...) Agora, testemunhamos o fim da linhagem de Aquino - e a Igreja se volta para seu antagonista primordial, que se encaixa melhor nela: o odiador da vida e da mente, S. Agostinho." ("Requiem for Man", em The Voice of Reason).

Há também, por parte de muitos, a percepção de que ela seria apenas uma defensora do capitalismo. E ela de fato o foi, mas essa não é a parte mais importante de sua obra e nem de sua filosofia. O capitalismo é, segundo a própria, a consequência política de sua filosofia metafísica e moral, que é o que realmente importa. Por isso mesmo ela não botava muita fé em alianças com liberais de outras correntes filosóficas e, especialmente, com os libertários de sua época. O vazio filosófico do libertarianismo, que consiste na afirmação de um princípio moral de não-agressão vindo de lugar nenhum, e que para além disso é compatível com o total relativismo ético (desde que não se viole o PNA, vale tudo), era-lhe repugnante. Para ela, a real aliança existe no campo dos valores e da filosofia, que compreende epistemologia, metafísica, ética, estética e política.

Poucos leitores conhecem sua obra de epistemologia (que é a filosofia do conhecimento: como o homem conhece o mundo e qual o grau de certeza desse conhecimento?), "Introduction to Objectivist Epistemology", em que ela visa a responder o que era para ela o problema mais importante da história da filosofia: a questão dos universais - qual o estatuto dos conceitos abstratos e como eles são produzidos. Sua solução é uma modernização do "realismo moderado" (que diz que conceitos captam dados objetivos da realidade, não são mera convenção, mas não existem fora da mente) com uma importante adição: o conceito existe num contexto informacional: distingue um certo tipo de coisa de todos os outros tipos conhecidos. Mudando o conhecimento, conceitos diferentes se fazem necessários. O conceito ou a definição não expressam uma essência completa da coisa, como se acreditou na filosofia clássica e medieval; expressa o grau de informação suficiente para distingui-la dos demais seres. Subjacente a tudo isso está a defesa aguerrida de que a mente humana é capaz de conhecer a realidade objetiva e que a razão é a única ferramenta que o homem tem a seu dispor para esse fim.

É a mensagem central da filosofia da Ayn Rand: o poder e o primado da razão. Disso se segue a ética e a psicologia que a subjaz, que são o assunto preferencial de sua obra. Afirmar o primado da razão significa afirmar o primado da mente individual e, portanto, o egoísmo. E aqui nos deparamos com o grande mal-entendido daqueles que não a leram: considerar que a moral do egoísmo, e a consequente rejeição do altruísmo, significaria ver como boa a pessoa que pensa apenas em si mesma e como má aquela que ajuda os outros.

Altruísmo não é benevolência. O homem bom é benevolente para com aqueles que ele ama e de maneira geral com todos os homens; mas isso não decorre de um dever primordial de ajudar e muito menos de se sacrificar pelo próximo. O valor do indivíduo - o bem de sua existência - não depende dele abrir mão de seus valores para servir a quem quer que seja. Sua mente não está à venda, seja por dinheiro ou pelos desejos e exigências alheios. Atos que geralmente chamaríamos de altruístas, como morrer para salvar um grande amor, podem ser racionais, e nesse sentido plenamente egoístas: refletem a avaliação racional do agente que aceita a própria morte porque sua vida não faria sentido sem o outro. Isso é o exato oposto de uma pessoa que efetivamente abre mão de sua vida, escolha por escolha, por crer que não tem o direito - ou que estaria sendo má - se agisse para buscar seus próprios objetivos.

Para quem olha de fora, esse papo de egoísmo parece ser a defesa do capricho individual como fundamento da ética; mais ou menos como faz o utilitarismo ou outras teorias subjetivistas, ou mesmo o egoísmo ético apregoado por certos liberais. Se o indivíduo gosta de se drogar até morrer, então isso é o bem para ele. Pois a ética da Ayn Rand é passível justamente da crítica oposta: o moralismo exagerado. Mesmo os gostos pessoais requerem critérios objetivos para se justificar; a vitória do capricho sobre a razão é um pecado grave em qualquer área. Isso tornava-a excessivamente negativa para com tudo que fugia a seu gosto pessoal. Não fazia distinção entre o racional e o razoável, aquilo que faz sentido, está bem fundamentado, mas admite dissensão e alternativas igualmente válidas; no círculo randiano, seu gosto era erigido em norma absoluta da razão. Por outro lado, foi essa mesma ênfase na primazia absoluta da razão que produziu ensaios magníficos como sua exposição dos benefícios da filatelia (colecionar selos postais) e a demolição retórica e moral do festival de Woodstock (ensaio "Apollo and Dyonisus" em Return of the Primitive). Não é preciso concordar com eles para aprender e mesmo se deleitar.

O homem racional é aquele que tem sua razão como seu critério absoluto de suas crenças e como guia para sua própria conduta; que não busca viver de segunda mão, às custas dos outros, nem no plano do intelecto (aceitando alguma autoridade como superior a sua própria mente) e nem no da vida prática (procurando, ao invés de produzir, viver do produto alheio), e nem no do sentimento (dependendo da aprovação ou da atenção alheia para suprir a autoestima que lhe falta). Ele é o verdadeiro egoísta: aquele que reconhece as demandas que a realidade impõe para a vida humana e coloca-se à altura do desafio, coisa que lhe traz uma satisfação muito maior do que aqueles que, por medo, entregam suas mentes e suas vidas ao cuidado alheio.

Rand defende, acima de tudo, uma visão heroica do ser humano, preocupado em viver a vida da melhor forma possível - da forma mais feliz possível - neste mundo, e capaz de alcançar os fins ambiciosos que vê como dignos de se concretizar. Corpo e alma constituem um todo único; nada no homem é puramente mecânico ou animal, e nada é a-sensual ou puramente abstrato.

Vale a pena apontar também como ela encara o amor romântico e a atração sexual, ambos muito importantes na sua obra filosófica e na ficção. Talvez pecando um pouco por intelectualismo, ela via na atração sexual um reflexo dos valores e do "senso de vida" do indivíduo. O senso de vida (sense of life) é maneira básica do indivíduo pensar e lidar com o mundo; constitui-se dos juízos metafísicos e morais que não chegaram à formulação explícita, filosófica, mas que mesmo assim impactam na conduta, até mais do que teses intelectuais. Otimismo, pessimismo; convicção na eficácia da própria vontade ou insegurança crônica; ver o mundo como um universo de possibilidades ou de ameaças; todas essas disposições existem nos homens, e não são só filósofos os influenciados por posições filosóficas. A conduta humana projeta valores, e são esses que estão em jogo na atração. Talvez por ser mulher, não deu muita importância à beleza como atrator; o homem racional e seguro de si, independente e superior aos demais, atrai as mulheres mais racionais e também superiores. A beleza física só entra por meio da mentirinha fácil que a ficção adora contar: a de que ela é companheira natural da virtude.

O sexo é o ato de celebração desses valores encarnados que se encontram. Homens e mulheres, embora genericamente iguais, têm uma relação de subordinação sexual: o homem busca ser exaltado por uma mulher, enquanto esta busca alguém a idolatrar (outra curiosidade: é por essa subordinação sexual que Ayn Rand era contra a ideia de uma presidenta mulher - "About a Woman President" em The Voice of Reason). Os conceitos da teologia reaparecem, não para fazer referência a uma realidade além deste mundo, mas ressignificados às experiências básicas que devem lhes ter dado origem.

A ordem social que se depreende dessa ética de exaltação do homem é o capitalismo: a liberdade para cada um se desenvolver da melhor maneira possível e o entendimento de que os desejos racionais humanos são harmônicos entre si. A esfera das interações sub-humanas, aquelas que se dão pela força bruta ou pelo engodo, deve ser reduzida o máximo possível. Ninguém tem, de largada, direito ao que outros produziram; embora as massas se beneficiem imensamente das criações e empreendimentos dos gênios da ciência e da indústria. Aceitar um sistema no qual a erradicação da pobreza não seja o foco principal é também promover uma sociedade com menos pobreza.

Por fim, ela também escreveu muito sobre estética (livro The Romantic Manifesto), a começar pela justificativa da arte. A cognição humana é conceitual: vai além da percepção sensorial, integrando várias delas por meio da abstração, o que resulta em conceitos que se aplicam a diversos casos particulares. O homem precisa ver concretizações dos conceitos que utiliza. A arte efetua essa concretização, visando não avaliar o mérito de diferentes conceitos e juízos (para isso basta o ensaio filosófico), mas sim apresentá-los de forma viva à experiência. Na arte, o artista dá forma concreta a um senso de vida. Isso permite a Ayn Rand integrar o juízo moral ao campo da estética (os três livros de ficção mais imorais da história da humanidade: D. Quixote, Madame Bovary e Anna Karenina) sem, contudo, poluir o juízo estético com critérios morais. Mesmo abominando sua visão de mundo, ela reconhecia em Tolstói um dos maiores escritores da história; foi capaz de dar vida como ninguém a certos juízos metafísicos e morais que eram, contudo, tenebrosos. Dada sua visão heroica do homem, é natural que sua predileção seja pelo Romantismo, pelos artistas que retratam o homem como ele poderia e deveria ser, e não necessariamente como ele é (a música, embora não retrate nada, também traduz valores ao plano sensorial).

Rand tinha uma personalidade muito forte, que se impunha facilmente sobre mentes mais fracas. Sua capacidade persuasiva aliada à intransigência para com discordâncias fez com que uma verdadeira seita se formasse ao redor dela; um fato lamentável mas que não detrai do valor de sua obra. Um a um, todos os pupilos mais inteligentes foram se afastando (ou sendo banidos e proscritos do grupo), de modo que só restaram os mais medíocres, inseguros, dependentes e servis; justamente o tipo humano que ela via como o produto de milênios de uma ética equivocada e má. Hoje em dia, esse grupo original se encontra decadente - vive dos direitos autorais -, mas a obra dela continua com o mesmo vigor original e a suscitar leituras e desenvolvimentos de diversos pensadores. Mais do que formar novos adeptos ortodoxos do objetivismo (nome que ela mesma deu à sua filosofia), ela está aí para nos fazer pensar e, mais do que isso, recuperar no plano dos ideais uma ética e uma visão do homem que transcenda o derrotismo niilista e não requeira a crença num além-mundo.

Deixei seus romances de fora propositalmente. Merecem um tratamento à parte.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Os Direitos do Rolezinho

Sociólogos ainda não chegaram a um consenso sobre o rolezinho. São jovens pobres querendo apenas brincar, fazer um barulho; como qualquer jovem. Ou então representam uma classe oprimida que tenta se fazer ouvir. No fundo, tanto faz. Reivindicação social é coisa legítima; lazer sem maiores pretensões também.
Mas olhemos o outro lado da questão: o shopping center. Ele tem o direito de existir? Em outras palavras: lojistas têm o direito de trabalhar, e frequentadores têm o direito de passear num espaço confortável, seguro e o qual sustentam voluntariamente? Não estou perguntando se shopping é uma coisa bonita, ou se seria a opção de um povo culto e educado. Estou perguntando se, dado que esse é o desejo de muitos, se eles podem exercê-lo. Em nossa sociedade, a resposta é sim.
Sendo assim, a administração do shopping tem o direito de impedir usos de seu espaço que inviabilizem seu funcionamento. A reunião programada de milhares de jovens ouvindo música alta, lotando todas as passagens e não comprando nada faz justamente isso. Portanto, o shopping tem o direito de impedir que ela ocorra (o que não lhe dá carta branca para usar violência).
Para alguns, os méritos da causa rolezeira devem ter prioridade sobre os desejos de administradores, lojistas e clientes. Mas esses mesmos observadores, se forem consistentes, perceberão que há muitas causas – quiçá legítimas – circulando por aí, e que não dá para conceder direitos a uma e não a todas.
Que tal um rolezinho vegano em churrascarias? Centenas de veganos se reúnem, lotam a casa e pedem apenas água a tarde inteira. O investimento feito pelo dono, o emprego de quem ali trabalha e os clientes a quem a casa visa a servir serão sacrificados porque um grupo desaprova aquela prática e resolveu se manifestar.
Um passo além: um grupo evangélico lota uma peça de teatro considerada imoral e vaia o tempo inteiro, impedindo a performance. Aposto que os mesmos sociólogos que veem com bons olhos o rolezinho funkeiro teriam opinião mais ambivalente quanto ao rolezinho evangélico; que não deixaria de ser, afinal, manifestação de uma classe baixa perante uma elite que a exclui. No fim das contas, valeria tudo; qualquer causa – real ou apenas imaginada por intelectuais – poderia se impor sobre a vida prática de qualquer um.
Simpatizo com o rolezinho, embora veja-o mais como lazer provocador do que como “luta de classes”. Acho também que uma dose de desconforto pode fazer bem à classe média e à elite, quem sabe enfraquecendo preconceitos. Podemos debater longamente os méritos dessa e de outras causas – a leitura marxista da sociedade, os direitos dos animais, o papel da religião na cultura. Tudo isso importa. Mas nada disso deve exigir o sacrifício do direito mais fundamental de decidir acerca da própria vida com os próprios recursos, que é o mecanismo básico de funcionamento da sociedade, anterior a discussões filosóficas. Eu adoraria ver um shopping acolher o rolezinho. Não posso, contudo, negar-lhe o direito de barrá-lo. 
Publicado originalmente no Diario do Comércio em 24/01/2014.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Dostoiévski entre a inspiração e a ideologia

O texto abaixo é adaptado de um trecho da minha dissertação. Porque é possível infundir vida mesmo nos corpos mais cadavéricos.
Quem não leu Os Irmãos Karamázov pode ler "O Grande Inquisidor" aqui. Sugiro que o faça não apenas para acompanhar este artigo, mas porque aí há mais conteúdo condensado do que em metade dessa estante cheia de livros que você não leu. Sem exagero. Fica a dica.

***

Ferrenho combatente de utopias reducionistas, Dostoiévski não deixou de idealizar a sua própria. Mesmo os críticos mais próximos de sua visão de mundo (Berdiáiev, Ellis Sandoz) não deixam de notar este seu ponto fraco: Dostoiévski identificou problemas e escancarou feridas, e o fez com precisão inacreditável, mas não obteve o mesmo êxito quando tentou propor soluções. Um exemplo sumário disto se dá em sua representação de duas personagens antagônicas: Ivan e Aliócha Karamázov. Não será exagero dizer que as falas de Ivan no famoso diálogo entre os dois irmãos, que ocupa o que são provavelmente os três principais capítulos de Os Irmãos Karamázov, fecundaram com suas dúvidas e sua angústia toda a história intelectual do século XX, na Rússia como no Ocidente. Porém, não é possível dizer o mesmo de Aliócha e seu stárietz Zossima, ainda que suas falas contenham as ideias “positivas” do próprio Dostoiévski[1].

Nas Notas de Inverno se dá algo semelhante: os pontos mais fortes do texto, onde o narrador é mais eloquente em suas tiradas ácidas, referem-se às críticas feitas tanto à Europa quanto à Rússia. Já os momentos em que é exposta a utopia pessoal de Dostoiévski deixam o leitor pouco convencido; por mais que a porção eslavófila do discurso do narrador desperte interesse, destoa do – por assim dizer – dinamismo do resto. Dostoiévski nos acostuma a sempre considerar um objeto por seus ângulos mais contrários, nos convence de que a verdade, não sendo mutável, é ainda assim bem mais complexa do que os esquemas conceituais e simbólicos que inventamos para expressá-la. E, ao fazê-lo, ele paradoxalmente se aproxima da verdade; mas, ao mesmo tempo, por uma imperfeição em sua consciência artística, julga necessário apresentar também um modelo em duas dimensões do que acabou de expressar com a eloquência fulminante de seu “realismo superior” – e aí prejudica a harmonia do conjunto.

Tanto a “Lenda do Grande Inquisidor” quanto os sermões do stárietz Zossima são inspirados pela mesma intuição da verdade, com a diferença de que Zossima é esta inspiração desfigurada pela ideologia naródnik de Dostoiévski. Como bem notou Nikolai Berdiáiev, “no Cristianismo russo há sempre o grave perigo da predominância do elemento popular (naródnik; narod = povo) sobre o Logos Universal, da alma sobre o espírito. Este perigo pode ser visto no próprio Dostoiévski: sua divindade é com frequência o deus russo e não o Deus universal.”[2]

Outra importante diferença é que a Lenda se insere no labirinto de contrários que é Os Irmãos Karamázov, e sua força advém justamente de conseguir sustentar-se diante de todas as tensões adversas que a provam por todos os lados. Já o Livro VI, “Um Monge Russo”, onde Aliócha compila os sermões de seu mestre, soa como um adendo artificial aos capítulos anteriores. Aí já não fala mais o Dostoiévski artista e sim o ideólogo; as intuições luminosas dão lugar ao wishful thinking.

O ponto a ser enfatizado é que talvez esse “anticlímax” representado, nos Karamázov, pelo Livro VI (e, em outras obras, por outras falas ou personagens) esteja na origem da universalmente experimentada dificuldade de se precisar o sentido da obra de Dostoiévski, ao ponto de haver quem tome tal dificuldade por impossibilidade. É como se Dostoiévski criasse seu próprio espantalho e desviasse, involuntariamente, a atenção do leitor a um pastiche (o Livro VI) da verdade que acabou de expressar em toda a sua vivacidade e complexidade (a Lenda). Então, o leitor desavisado, distante da cosmovisão de um Zossima e culturalmente predisposto a compartilhar da angústia de Ivan, entende, para seu comodismo, que a “lição de moral” do livro está naquelas falas adocicadas do velho monge, e que portanto o poema alucinado do jovem intelectual Karamázov só pode ocupar-se de outra coisa, só pode ter valor “negativo”, já que a “positividade” está expressa alhures. É de fato muito difícil entender que textos tão distintos – um tão próximo de nós, outro tão olimpicamente frígido – sejam tentativas de expressão da mesma verdade.

No fundo, o grande problema é aproximar-se de Dostoiévski buscando nele as categorias de “positivo” e “negativo”; se há, de fato, ideias com que Dostoiévski tem afinidade e outras a que é hostil, sua expressão literária da dinâmica entre essas ideias e os sujeitos e sociedades que as produziram é bem mais complexa. Pode-se, para fins didáticos, elencar Ivan Karamázov entre as “personagens negativas” de Dostoiévski: o tipo social e psicológico por ele representado era considerado pelo autor como um aspecto doentio da cultura russa. Porém, o que dizer da “Lenda do Grande Inquisidor”, produto da imaginação de Ivan e inserida no romance a partir de suas falas? Seria a Lenda também “negativa”? O próprio Dostoiévski considerava que não:

A ideia [do capítulo “Revolta”] é apresentar o extremo da blasfêmia e as sementes da ideia de destruição, na Rússia deste momento, entre a geração de jovens que se apartaram da realidade. As convicções de Ivan formam o que eu considero a síntese do anarquismo russo contemporâneo. A negação não de Deus, mas de Sua criação. Todo o socialismo emergiu da negação do sentido da atualidade histórica e chegou ao programa da destruição e do anarquismo. Os principais anarquistas eram, em muitos casos, homens sinceramente convictos. Meu herói escolhe um tema e, em minha opinião, um tema inexpugnável: a falta de sentido do sofrimento das crianças – e daí deduz a absurdidade de toda a atualidade histórica... E a blasfêmia do meu herói será triunfantemente refutada no próximo capítulo [“O Grande Inquisidor”], no qual estou trabalhando agora com temor e tremor, pois considero minha tarefa (a refutação do anarquismo) uma proeza cívica.[3] (Grifo meu)

Para Dostoiévski, estava muito clara a disposição de “negatividade” e “positividade” entre os capítulos “Revolta” e “O Grande Inquisidor”. Ainda assim, é um fato que a constituição artística da Lenda envolve ambas as noções, pondo-as em franco embate, e durante este embate ambas estão como em pé de igualdade: se o bem vence no final, é após uma batalha sangrenta, da qual o autor não exclui mesmo as armadilhas mais perigosas, ainda que sua simpatia esteja o tempo todo com o Cristo torturado. E não é por acaso que a Lenda é assim composta: se Dostoiévski poupasse sua “ideia positiva” (Cristo) de qualquer dos ataques da “negatividade” (a revolta de Ivan; o Grande Inquisidor), não demonstraria satisfatoriamente sua solidez. O pouco poder de convencimento do Livro VI advém justamente desse isolamento de forças contrárias.

Note-se ainda que isto é análogo ao próprio procedimento de Cristo junto aos homens, segundo exposto na Lenda. Deus permite a existência do mal enquanto condição de possibilidade da liberdade humana: é preciso que os homens sobrevivam ao vale de lágrimas terreno lutando apenas com a força do exemplo dado por Cristo, pois de outro modo serão títeres nas mãos do poder divino, não criaturas dotadas de vontade (livre arbítrio). Ou seja, como o Cristo dostoievskiano diante do Grande Inquisidor, o único modo de o homem demonstrar sua dignidade e grandeza é enfrentando o mal; Dostoiévski não poupa suas próprias crenças de descer à arena para digladiar-se com crenças contrárias do mesmo modo como Deus permite o mal entre os homens.

E o mais curioso é que em ambos os casos tal procedimento gera confusão. Com a “Lenda do Grande Inquisidor”, Dostoiévski de fato refuta a revolta de Ivan Karamázov – do ponto de vista intelectual e textual. Porém, é controverso afirmar o sucesso de tal refutação enquanto “proeza cívica”, isto é, o quanto a obra artística de Dostoiévski é culturalmente eficaz na defesa dos valores que se propõe sustentar. No fim das contas, os últimos cento e trinta anos têm mostrado que a grande maioria de seus leitores não consegue acompanhar o combate sutil entre Cristo e o Grande Inquisidor, saindo da Lenda incertos quanto a seu sentido, especialmente no contexto maior de Os Irmãos Karamázov, com o eslavofilismo de Zossima e silhueta vaga de Aliócha complicando o coro de vozes.

            De modo que não é necessário um grande esforço de imaginação para supor, digamos, um Mikhail Bakhtin trajado de inquisidor soviético, brandindo em uma cela escura o dedo inflamado diante de um Dostoiévski ressurgido das cinzas:

... Por que voltaste? Por que vieste nos atrapalhar? Tu compuseste um labirinto insondável, povoaste-o com vozes desconcertantes e foste embora antes mesmo de escrever a maldita continuação do livro. Ninguém sabia o que fazer com tua obra! Os revolucionários proibiram-na, os emigrados transformaram-na em expressão do puro espírito descarnado. Enquanto isso, apenas os fortes chegavam à metade do teu labirinto; e só raros, raríssimos, somente os eleitos do Dostoievskianismo desvendavam seu sentido final! Mas quantos Berdiáievs há sobre a terra? Tu escreveste para os poucos e fortes, mas nós – nós corrigimos a tua façanha! Tu escondeste tua verdade sob uma enlouquecedora malha de vozes; a esta eu chamei polifonia e então mandei tudo pelos ares: não há pote de ouro no fim do arco-íris dostoievskiano! Parem de procurar, seus idiotas! – E tu pensas que eles resistiram? Achas que hesitaram em abraçar o relativismo polifônico, que fizeram questão de continuar perseguindo às cegas tua verdade apenas insinuada? Até parece! Tu dirigiste tua palavra aos espirituais, mas eu a difundi entre socialistas, anarquistas, feministas, psicanalistas e toda uma gama interminável de minorias que, sob o teu pseudomonologismo, não passariam nem da porta do labirinto de vozes que criaste. Mas hoje eles são legião! Quem? Ora, os MEUS dostoievskianos. Por que me olhas assim?  Achas que não posso ser eu mesmo um dostoievskiano? Hahahah! Eu bem sabia que adivinharias. É isso mesmo: eu não estou contigo, não sou um dostoievskiano! Não decifrei o labirinto, não sei o que há no final, nem me interessa saber. Meu único interesse é habitar a tua carcaça. Quiseste pintar aos homens um quadro fidedigno da realidade, e assim povoaste tuas cenas com anti-heróis diante dos quais teus mocinhos são insignificantes como lesmas. Realista, deveras! Genial, realmente! E muito conveniente à MINHA obra. Então não, não pensa que vais reaparecer assim do nada, com esses ossos pendurados e essa barba suja de cal: não precisamos mais de ti. O mundo já não pode viver sem Dostoiévski, mas tu, tu destruirias o Dostoiévski que EU dei ao mundo conhecer, o único possível, o único acessível a todos indiferentemente, o Dostoiévski polifônico, amorfo, inconsequente, fonte inesgotável de inspirações a quem se quiser fecundar de tão pr...

          Neste momento, o cadáver ressurreto de Dostoiévski cai no chão da cela e começa a debater-se; uma espuma esverdeada lhe escorre dos lábios, e Mikhail Bakhtin fica atônito a contemplar a cena sem atinar com o que fazer.







[1] Para certificar-se disto basta comparar o Livro VI de Os Irmãos Karamázov, no qual estão reunidos os sermões de Zossima, com os artigos de Dostoiévski no Diário de um escritor.
[2] Nicholas Berdyaev, Dostoevsky. Meridian Books: 1968, p. 185.
[3] Carta a N. A. Liubímov, 10 de Maio de 1879. In: Fyodor M. Dostoevsky, “Dostoevsky on The Brothers Karamazov”, New Criterion, IV (1926), 552-553.

sábado, 18 de janeiro de 2014

Didatismo kitsch

Há poucos anos, determinados assuntos estranhos ingressaram no campo de interesses de uma parcela minúscula, mas cada vez maior e mais atuante (sobretudo em internet), dos jovens brasileiros. “Educação clássica”, “trivium”, “escolástica” e coisas similares tornaram-se menos objeto de discussão que de veneração em termos de paidéia e ideal, o que, em um primeiro momento, não é coisa em si mesma ruim. Creio que o fenômeno mereça atenção e que se engana quem menoscaba essas coisas, julgando-as passatempos de moleques que nunca chegarão a ter maior repercussão: uma hora, acredito, essas aspirações e referências chegarão talvez a receber até divulgação jornalística. Não, eu não estou sendo muito otimista; estou sendo até um tanto pessimista, pelo que passo a dizer.

Conheço pessoalmente não uma nem duas, mas várias pessoas que passam o dia a recolher bibliografias, a cantar para si mesmas as glórias da erudição e da sabedoria, a entreter sonhos de uma obra intelectual, de um destino pessoal na cultura, e que assim se tornam letárgicas e não passam à ação efetiva, a qual não necessariamente as tornaria gênios, mas pessoas minimamente dignas da imagem pela qual zelam. Isso ocorre porque há pessoas demais que já não sabem para que serve a cultura e que, todavia, buscam se adequar a uma imagem edulcorada da “vida do espírito” – o rapaz larga a prancha de surf hoje e já quer acordar um intelectual amanhã, mesmo jurando para si mesmo que não, que está ainda só “buscando formação” –; e o caminho mais curto sempre é o da macaqueação de determinados trejeitos e interesses. No caso, determinados elementos colhidos em períodos históricos pretéritos que, por petição de princípio, tomamos logo como indubitavelmente bons e universalmente inspiradores – impulso esse no qual sobra apologética, falta dialética.

Há, portanto, muita gente desorientada (“o que devo ler?”) a buscar orientação – o que é bom; mas há muita gente a se regozijar com a consciência de sua desorientação (“o Brasil acabou, preciso voltar para a Idade Média”), o que acaba subvertendo aquele primeiro e saudável impulso.

Sob esse aspecto, pouco há de novo na situação atual do Brasil: nós sempre fomos carentes de um senso de orientação cultural capaz de estabelecer uma tradição de ensino e erudição, com uma pedagogia apropriada e modelos específicos de homem bem-formado. Só o que deixou de existir foi o espaço antes garantido (em jornais, por exemplo) a intelectuais que, pela sua competência, de um modo ou outro acabavam funcionando como ímãs sociais, como mínimo norte de uma bússola cultural constantemente desorientada. Mas essa desorientação é que é a regra (à qual se soma hoje um negativismo que vê no denuncismo da decadência uma das mais altas finalidades da cultura – houve a Escola de Frankfurt, agora temos a brasileiríssima Escola de Foda-se Tudo). Tanto o é, que esse espaço antes assegurado a intelectuais o era quase que só aos tipos “letrados”, nem sempre dos mais bem equipados para oferecer tal tipo de discernimento; filósofos, sociólogos e cientistas, por exemplo, sempre correram por fora.

Então o possível debate para o Brasil ao longo das próximas décadas não pode se limitar à discussão ou simples aceitação da importação – neste caso, histórica, não geográfica; diacrônica, não sincrônica – de modelos que, de imediato, nada nos dizem respeito. Séculos atrás, recebemos a aridez do ensino inaciano, sem maior capacidade de disseminação social (um ensino de elite para um país sem elites na acepção forte da palavra); pouco depois, aclimatamo-nos à matematização à francesa de um modelo positivista, no qual ainda se enxertava a “retórica” como estudo mais ou menos reverencial das “belas letras”, e por isso mesmo irrelevante; quando do surgimento de nossas maiores universidades, incorporamos o modelo departamental americano, e com ele o seu carreirismo. E hoje, quando vez ou outra professores universitários demonstram sua insatisfação diante dos frutos desses modelos, quando surge uma geração motivada a fazer alguma coisa, apenas reeditamos nosso atavismo histórico, que embeleza o que nos é alheio só porque soa distante, aéreo, empíreo. No cerne desse esforço há dessarte uma tendência à kitschização da alta cultura, provinciana não no bom sentido da palavra, problema que não sei até que ponto se deve à nossa inclusão entre as “culturas shakespearianas”. De certa forma, achamos o trivium algo bacana do mesmo modo como achamos a mitologia hindu algo bacana. E apenas bacana, assim, nesse clima meio esportivo.

Pergunto: quantos dos intelectuais mais relevantes do século passado, em escala global, foram educados tendo por base um método extraído diretamente da antiguidade ou da Idade Média? O leitor talvez possa citar um caso ou outro, mas creio que buscará seus exemplos entre os intelectuais menos representativos. Com essa ilustração, creio chegar ao cerne do problema: a qualidade de um projeto pedagógico está em determinados valores e métodos que não necessariamente têm algo que ver com modelos que se mostraram eficientes no passado; têm a ver com o sentido por trás desses valores e métodos, o qual, talvez permanente, pode ser atualizado em contextos sociais e históricos os mais díspares, porque naturalmente mutáveis. Uma atualização de sucesso foi a que se fez na Alemanha dos séculos XVIII e XIX: classicismo e romantismo não foram movimentos literários apenas, mas concepções inteiras da cultura, e que surgiram, se complexificaram e duelaram no momento mesmo de estabelecimento da universidade alemã como projetos para a nação. Por sinal, havia “um consenso universal entre os eruditos alemães posteriores a 1890 de que a idéia germânica moderna de universidade e de educação estava irrevogavelmente atada a suas origens intelectuais no idealismo e no neo-humanismo alemães”, mas esse “consenso” mesmo abrigava divergências feias, como mostra Fritz Ringer neste estudo famoso.

[Por falar em classicismo, gostaria que alguma boa alma escrevesse, tal como Haroldo de Campos escreveu sobre o O Seqüestro do Barroco, um livro sobre o seqüestro do nosso classicismo não árcade na visão comum que temos da história literária brasileira. Pois sim, houve classicismo literário "à renascentista", ainda que incipiente, tardio e local, e inclusive mais ou menos como projeto pedagógico, no Maranhão da primeira metade do século XIX: João Francisco Lisboa, latinista e prosador que só tem concorrente naquele século em Machado de Assis – opinião também de José Guilherme Merquior e Álvaro Lins; o gramático e latinista Sotero dos Reis; o poeta e tradutor Odorico Mendes, que todos conhecem; e, em parte, Gonçalves Dias, cuja poesia romântica não mascara a sua formação no mesmo ambiente que os demais. Mas esse projeto se dilataria mais ainda, com Antônio Henriques Leal, chegando até ao helenismo radical e modernista de Sousândrade. Aliás, as próprias traduções de Odorico, como o professor e ensaísta Sebastião Moreira Duarte lembra na única reedição, em dois volumes, do Virgílio Brasileiro (Edufma, 1995), representavam uma tentativa não de fazer a Hélade falar ao Brasil, mas de fazer um brasileiro falar à Hélade. Era, assim, o cume de uma pretensão civilizacional que permanece sem estudo, assim como a “prosa ática” (Franklin de Oliveira) de João Francisco Lisboa era ela própria um modelo vernacular, que tanto mais brasileira era quanto mais não tinha vergonha de ser lusa, evitando ridículos como os de José de Alencar. Leiam o que José Veríssimo escreveu sobre “Gonçalves Dias e o grupo maranhense” como ponto de partida para um estudo sobre esse fenômeno cuja gênese permanece sem explicação.]

Em síntese, a 1) tendência a introjetar uma série de posturas  desprovidas de articulação mais refinada frente à nossa situação concreta, aos nossos problemas pedagógicos e civilizacionais, 2) a ausência de discussão da suposta validade intrínseca dessas posturas (sejam métodos propriamente ou não), 3) a letargia advinda de um estetismo da alta cultura, que se compraz mais no encômio do que na prática, e 4) a própria indiferença à análise do problema da adequação entre o sentido da cultura e a transitoriedade das conjunturas levam-nos, mais uma vez, a trair qualquer compromisso sério que queiramos estabelecer com a nossa situação e seus verdadeiros anseios. Simplesmente alongaremos nossa antitradição de didatismo kitsch, a não ser que comecemos desde logo a submeter todas essas aspirações a alguma crítica (Rafael Falcón, parece, tem boas preocupações nesse sentido e conduz seu estudo de forma responsável). Ou procedemos a essa crítica civilizacional ou nunca haverá possibilidade de fazermos frente ao problema cujo símbolo mais surreal são os quase 40% de analfabetos funcionais em bancos de nossas universidades. Só quando deixarmos claro o que deu errado no ensino e na cultura do Brasil, e com que régua medimos o grau de acerto ou erro, é que seremos capazes de avaliar se as próprias réguas com que nos medimos, novas ou velhas, não estão elas próprias adulteradas. Ou se não precisam ser adulteradas.
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