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terça-feira, 1 de abril de 2014

Dostoiévski e Herzen na Encruzilhada da História

Juro que é a última vez que publico trechos do meu mestrado; é que o momento é realmente propício ao tema. O que vai abaixo são as páginas finais da minha dissertação. O texto não está adaptado e por isso o leitor vá perdoando a monotonia do discurso acadêmico, bem como referências incompreensíveis fora de contexto. Creio, porém, que o fundamental está acessível.

O mais provável é que depois disto eu passe um bom tempo sem falar de Dostoiévski.

Para quem ainda não teve coragem de encarar: leia "O Grande Inquisidor" neste link.


***


(...) É preciso levar em consideração ainda outro aspecto importante do pensamento dos dois autores aqui comparados: sua eficácia enquanto leitores do processo histórico no que diz respeito às ideias e revoluções políticas. O fato de ambos vaticinarem o declínio irreversível da civilização ocidental e seu iminente assalto por instituições (segundo Herzen) ou valores (segundo Dostoiévski) russos já os afasta em igual medida do quadro verídico desenhado pela história do século passado até o momento presente. Ainda assim, em suas previsões imprecisas – e delirantes, em certos pontos –, cada qual teve sua margem de erro e acerto. Mais do que checar o “dom de profecia” de ambos, cotejar suas expectativas com a realidade (na medida em que a ciência histórica tem sido eficaz em descrevê-la) pode oferecer-nos algumas importantes lições.

            Dostoiévski, no Diário de um escritor, quase trinta anos após Herzen profetizar o cataclismo europeu, pinta um quadro muito semelhante para o futuro da Europa:

A conta final e o acerto da balança podem acontecer muito antes do que as mais delirantes fantasias predizem. Os sintomas não são bons. A situação política antinatural dos Estados europeus pode servir de estopim para tudo. Uma pequena parte da humanidade não pode possuir todo o resto como escravos, e no entanto foi exclusivamente com este objetivo que, até hoje, todas as instituições cívicas (as quais há muito deixaram de ser cristãs e são hoje inteiramente pagãs) da Europa foram criadas. Esta antinaturalidade e estas questões políticas “insolúveis” devem infalivelmente levar a uma enorme e derradeira guerra de partição na qual todos estarão envolvidos e a qual estourará neste século, talvez mesmo na próxima década. (...)
            E eis que os proletários saem às ruas. O que vocês acham: eles agora esperarão pacientemente como antes, morrendo de fome? Isto será possível, uma vez que temos o socialismo político, depois da Internacional, dos congressos sociais e da Comuna de Paris? Não, agora as coisas não mais serão como antes: os proletários varrerão a Europa e toda a velha ordem colapsará de uma vez por todas.[1]

            Os fatos previstos por Dostoiévski são essencialmente os mesmos da projeção de Herzen: a situação político-econômica da Europa, insustentável a longo prazo, culminará primeiro em uma grande guerra internacional que desorganizará os Estados europeus; então, em meio à balbúrdia geral, guerras domésticas eclodirão, com os proletários das grandes potências industriais tomando as ruas e concluindo a destruição do “velho mundo”.

            Nem Herzen nem Dostoiévski viam inteiramente com bons olhos este panorama. A diferença é que Dostoiévski opunha-se a ele em princípio, desde suas premissas teóricas até suas consequências práticas, ao passo em que a discordância de Herzen diz mais respeito à metodologia de uma revolução “descontrolada” do que ao fato em si de se destruir a velha ordem por meio de um levante popular. Isto é, a onda proletária desfigurando a face do continente europeu era quase a revolução idealizada por Herzen; para Dostoiévski, era em todos os sentidos uma ameaça nefasta e um pesadelo.

            E é sobre a perspectiva desta ameaça que Dostoiévski constrói seu edifício utópico. O papel da Rússia enquanto retificadora dos erros do Ocidente viria à tona, segundo o romancista, na esteira da desordem revolucionária europeia:

As ondas [da revolução proletária] quebrarão inofensivas apenas contra as nossas margens [russas], pois apenas então, claramente e para todos verem, virá a total revelação de quão distinto é o nosso organismo do organismo europeu. Então, mesmo vocês, pensadores doutrinários, talvez recobrem os sentidos e comecem a buscar em nossa pátria “os princípios do Povo”, dos quais vocês até agora apenas riem. E ainda assim, hoje, os senhores apontam para a Europa e nos instam a transplantar para cá aquelas mesmas instituições as quais entrarão em colapso por lá amanhã. (...) “Eles há muito resolveram seus problemas”, o senhor diz – e isto após vinte constituições em menos de um século e quase dez revoluções! Oh, talvez apenas então, livres da Europa por um momento, nós nos aproximaremos de nossos próprios ideais sociais, aqueles inequivocamente derivados de Cristo e do aprimoramento pessoal, Sr. Gradóvski.[2]

            Entre as previsões de Herzen e Dostoiévski há, portanto, uma semelhança particularmente significativa: ambos visualizavam a revolução proletária acontecendo na Europa. Dostoiévski via na Rússia o “antídoto” à onda revolucionária; Herzen limitava-se a inspirar-se em sua terra natal para propor uma revolução socialista mais limpa e gradualista, com os avanços tecnológicos ocidentais aliados ao modelo social da comuna camponesa russa. Ambos consideravam que a difusão das ideias socialistas, originalmente europeias, já estava adiantada na Rússia, porém não lhes ocorria a possibilidade de as condições imediatas de sua terra natal serem mais propícias à revolução do que no Ocidente.

            Enfim, eis que a grande guerra internacional de fato eclodiu, e os anos de 1914-18 realmente mudaram o mapa da Europa, desfigurando nacionalidades e fronteiras; e, o que é mais importante, a guerra criou, com efeito, a ocasião para a revolução socialista – na Rússia. Neste ponto o século XX foi uma resposta um tanto cruel e irônica às esperanças eslavófilas de Dostoiévski. O paradigma do poema Vlas, de Niekrássov, do pecador que na hora H se converte e passa a viver para expiar suas faltas, não descrevia, afinal, o eterno movimento da alma russa, como o romancista queria crer. O miserável e religioso povo russo não conteve a revolução; pelo contrário, serviu-lhe de substrato material. À altura da guerra civil, ambos os exércitos branco e vermelho eram compostos por camponeses[3].

            Se não deixa de ser legítimo, em certo sentido, dizer que a revolução socialista na Rússia expressou a vontade de seu povo, da mesma forma, diante dos relatos históricos sobre os variados destinos de famílias e grupos camponeses durante os anos revolucionários, é difícil atribuir a uma entidade abstrata chamada “povo” uma única vontade e um único destino. Ao que tudo indica, o principal traço comum entre as classes populares russas na virada do século XIX para o XX não era nem seu Cristianismo “puro”, nem seu tino político naturalmente aguçado, mas o alheamento com relação aos afazeres da nobreza e da intelligentsia. Assim, deflagrada a revolução, houve grupos populares que voluntariamente a abraçaram, como houve os que a rejeitaram, mas a grande maioria quedou indefesa e atônita sob as engrenagens do momento crítico.

            Olhando retrospectivamente, Dostoiévski e os pótchvienniki estavam no caminho certo ao aliar a exaltação dos valores populares tradicionais à necessidade da educação do narod; afinal, são raríssimos os casos de indivíduos que conseguem aprimorar-se – em sentido dostoievskiano – apenas com base em intuições morais rudimentares. Já vimos que Dostoiévski gostava de idealizar alguns camponeses que tomava por exemplares da “pureza interior” da alma russa, como o mujique Marei e a babá de Púchkin; para ele, estes indivíduos tinham pouca consciência de seu próprio valor e do valor daquilo que representavam – o sentimento fraterno de inspiração cristã –, mas somente o fato de viverem colocando em prática suas intuições rudimentares já bastaria para se construir, na Rússia, uma muralha contra os “erros do Ocidente”.

            Nada poderia ser mais falso. Não se contém uma revolução tendo como arma apenas as verdades inconscientes de um povo. Nesse sentido, a argumentação pótchviennik, partindo da noção de autoconsciência como base do conhecimento em geral, era razoável com relação ao problema do campesinato russo ao concluir pela urgência de sua educação. Com efeito, na hora H da história russa, o narod achou-se incapaz de avaliar seu próprio lugar histórico – e acabou servindo largamente como massa de manobra a causas cujo sentido último lhe escapava.

O Pótchviennitchestvo, porém, também continha algumas das ideias que, ao longo do desenvolvimento intelectual de Dostoiévski, degenerariam no aspecto mais equivocado de seu pensamento – seu nacionalismo xenófobo. A ênfase pótchviennik na importância da autoconsciência era análoga e complementar à importância dada à imersão do indivíduo em seu universo nacional. Até certo ponto, isto é muito razoável: um homem é feito também à imagem de suas circunstâncias. Mas Dostoiévski parece ter levado este preceito longe demais e, em seu processo de autoconhecimento por meio da incorporação da nacionalidade, fundiu-se a sua terra natal, cegando-se a todo o resto e bloqueando, assim, a própria possibilidade de compreender algo além de suas projeções da Rússia sobre os objetos que analisava.

Deste modo, seu talento para perceber movimentos psicossociais antes mesmo de estes tomarem formas concretas, tendo como base apenas a psicologia humana, acabou frustrado pelas armadilhas de sua própria psicologia. Mais do que nenhum outro autor, Dostoiévski entendeu a natureza da revolução russa, e se chamá-lo “profeta” já se tornou um cliché, mais difícil é encontrar termo mais apropriado ao seu papel enquanto pensador de seu tempo. E, no entanto, era ele mesmo um produto da mentalidade revolucionária russa.

O mencionado talento perceptivo de Dostoiévski poderia tê-lo feito um antípoda de Herzen, sendo este o mais perfeito expoente da desfiguração de um espírito nobre à força de sua exposição a estímulos contraditórios, à crença de que entre “bem” e “mal” há uma diferença meramente opinativa e de que os desejos humanos existem exclusivamente para obter a saciedade. Dostoiévski estava anos luz à frente de Herzen no que diz respeito à compreensão da natureza humana e de sua relação com tudo o que existe. Mas tem Dostoiévski precisamente a mesma altura que seu oponente revolucionário quando veste a carapuça de ideólogo. Ao fim e ao cabo, tendo chegado muito perto de verdadeiramente prever a essência da história política do século XX, sua ideologia eslavófila o obrigou a enxergar apenas aquilo que todos os socialistas já afirmavam: que a urbanização industrial e a política externa colonialista levariam a Europa ao caos, com guerras impulsionando os proletários às ruas, liquidando o Terceiro Estado e assim por diante. Dostoiévski precisava deste quadro para construir sua utopia eslavófila, e não fez questão de enxergar nada mais além dele. Se tivesse olhado a Rússia com um pouco mais de isenção, ele, que com tanta precisão descreveu os efeitos da cosmovisão utilitário-materialista na alma de seus conterrâneos, teria possivelmente atentado à iminência da eclosão revolucionária em seu país.

Quanto a Herzen, ele foi, nas palavras do próprio Dostoiévski, um gentilhomme russe et citoyen du monde. Seu sentimento pátrio era demasiado imiscuído às demandas de seu cosmopolitismo para que lhe coubesse enxergar o real papel da Rússia na história posterior do Ocidente. Ainda assim, suas expectativas políticas acabaram revelando-se mais próximas do que veio de fato a acontecer do que o pan-eslavismo de Dostoiévski. Isto é verdadeiro, ao menos, quanto ao século XX. Já na história mais recente da Rússia, temos presenciado o ressurgimento de ideologias muito próximas à professada pelo autor do Diário de um escritor. São, porém, as ideias pan-eslavistas de Dostoiévski transformadas pela experiência soviética, dando origem a doutrinas como Nacional-bolchevismo e o Eurasianismo, nas quais a ideia de um império encabeçado pela Rússia, destinado a corrigir os erros do Ocidente, alia-se ao militarismo autoritário tipicamente soviético, recorrendo ao mesmo tempo à religião ortodoxa como fator de identidade e união do povo russo.

Tudo isto nos remete, por fim, a “O Grande Inquisidor”, o verdadeiro coração da obra dostoievskiana. Uma das leituras mais comuns deste capítulo de Os Irmãos Karamázov o interpreta como uma antevisão do socialismo posto em prática – o que de fato ele é. Porém, fazendo uma leitura mais cerrada do texto, vemos que se trata disto e de mais um pouco.

Diz o Grande Inquisidor a Cristo:

Sabes tu que passarão os séculos e a humanidade proclamará através da sua sabedoria e da sua ciência que o crime não existe, logo, também não existe pecado, existem apenas os famintos? ‘Alimenta-os e então cobra virtudes deles!’ – eis o que escreverão na bandeira que levantarão contra ti e com a qual teu templo será destruído. No lugar do teu templo será erigido um novo edifício, será erigida uma nova e terrível torre de Babel, e ainda que esta não se conclua, como a anterior, mesmo assim poderias evitar essa torre e reduzir em mil anos os sofrimentos dos homens, pois é a nós que eles virão depois de sofrerem mil anos com sua torre! Eles nos reencontrarão debaixo da terra, nas catacumbas em que nos esconderemos (porque novamente seremos objeto de perseguição e suplício), nos encontrarão e nos clamarão: ‘Alimentai-nos, pois aqueles que nos prometeram o fogo dos céus não cumpriram a promessa’. E então nós concluiremos a construção de sua torre, pois a concluirá aquele que os alimentar, e só nós os alimentaremos em teu nome e mentiremos que é em teu nome que o fazemos.

            Este trecho e outros deixam bastante claro que o futuro referido pelo Grande Inquisidor já se passa em um momento posterior à revolução socialista. Segundo a profecia dostoievskiana, haverá, primeiro, o socialismo (“‘Alimenta-os e então cobra virtudes deles!’ – eis o que escreverão na bandeira que levantarão contra ti e com a qual teu templo será destruído.”); porém, esta “Torre de Babel” não será concluída e sucumbirá após trazer muito sofrimento à humanidade. Neste momento de desespero, pois “quem prometeu o fogo dos céus não cumpriu a promessa”, é que o Grande Inquisidor e os seus virão “concluir a construção da torre”, e o farão em nome de Cristo, sob a hipócrita aparência de uma igreja cristã.

Assim, o mais correto não é dizer que sob uma aparente crítica ao catolicismo Dostoiévski descreve o socialismo; esta leitura não é equivocada, porém não é a mais precisa. O que o romancista faz é lançar mão do livro bíblico do Apocalipse, segundo o qual o advento do Anticristo instaurará uma falsa igreja sobre a terra, para construir uma parábola carregada de significado, na qual o Grande Inquisidor não exatamente encarna – como quer uma leitura mais plana do texto – Stálin ou um ditador declaradamente socialista, mas, mais precisamente, o antipapa que se apossará da Igreja no fim dos tempos, após o fracasso socialista e após expulsar de Roma o verdadeiro pontífice, segundo previsto na escatologia cristã. Ou seja, é impreciso dizer que em “O Grande Inquisidor” Dostoiévski previu a realidade soviética, pois a profecia aí implícita, se alguma há, diz respeito a um futuro ainda por vir.

Vale enfatizar que o mencionado antipapa seria um continuador do socialismo disfarçado de líder cristão, e por isso é correto ler “O Grande Inquisidor” como uma parábola antissocialista. Contudo, se bem ler literatura é uma tentativa contínua de reinterpretação textual à luz de novos dados da realidade, não podemos deixar escapar esta nuance da obra máxima de Dostoiévski, tão significativa face ao rumo que vem tomando a história mais recente do confronto entre o Ocidente e a Rússia. Dostoiévski não tinha dúvidas de que o chefe impostor da Igreja viria de dentro da própria Roma; talvez haja aí um erro análogo ao que o fez negligenciar a iminência da revolução socialista em seu próprio país.





[1] A Writer’s Diary, vol. 2, pp. 1320-1321. “Four Lectures On Various Topics”.
[2] Idem, p. 1321.
[3] “Dada a composição social da Rússia naquele momento, não é de surpreender que a maior parte dos soldados em ambos os lados fossem camponeses. Enquanto a maioria dos trabalhadores das fábricas apoiavam os Bolcheviques, os camponeses tinham uma atitude profundamente ambígua com relação à guerra civil. Aqueles que podiam ficar de fora, ficavam. (...) O campesinato às vezes apoiava o Exército Vermelho, às vezes o Branco, mas a crueldade em ambos os lados rapidamente os alienava.” In: BROWN, Archie. The Rise and Fall of Communism. Vintage Books: 2010, p. 53.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Pra não dizer que eu realmente não falei das flores


Hoje tive uma conversa pra lá de constrangedora na sala dos professores com alguns de meus colegas mais “engajados”. Basicamente há dois tipos de conversas entre meus colegas de trabalho: falar mal de aluno e reclamar da educação.
A conversa teve início depois de eu soltar um disparate: “a última coisa do ensino de filosofia é sua função social; e, vou mais longe, a educação também não deveria ter isso como preocupação”. Mal terminei a frase e todos os olhares dispersos despencaram sobre a minha heresia e Paulo Freire deu duas cambalhotas no túmulo. 
“Ora, como assim”, disse uma colega professora de sociologia em tom irado, “não há função social na educação? Você está louco!”. Não, não estava louco e é exatamente isso o que eu disse: o processo de decadência da educação no Brasil começou, precisamente, quando toda sua finalidade foi reduzida à noção de “educação como função social”.
Foi difícil explicar, confesso. Talvez a vaidade e a recusa em abandonar velhas ideias caquéticas e estúpidas tornam o ser humano mais opaco do que já é naturalmente. Mas eu me esforcei:
Tanto a filosofia em particular quanto a educação em geral não deveriam — já que essencialmente não têm mesmo — ter como finalidade a banal preocupação de estar “voltada para o social”. Por que banal? Ora, porque não há necessidade de ter como meta a “função social”, uma vez que o ser humano é, essencialmente, um ser social.
A educação deve “cultivar” a alma humana para a vida em sociedade e, portanto, eve estar fechada para “as coisas do mundo”. Se já não é mais o espaço de reflexão e se abre totalmente para “a vida”, então torna-se suscetível a todos os males e a todos os problemas do mundo: drogas, violências e discursos ideológicos são os primeiros bárbaros a romperem os limites que separam civilização da barbárie. Drogas e violência entram por parte do aluno, discurso ideológico tarafe do professor.
Se até um espirro tem função social, quem dirá a formação escolar! Então, não há sentido em submeter toda formação de alguém ao social. Outro colega, mais aliviado, manda: “Ah, então você concorda que a Educação tem função social! Ufa…”.
Na verdade, o que se mascara por trás dessa ideia de “função social da educação” é uma das mais corrosivas e perniciosas concepções de ensino: sua politização ideológica manifestada na noção de escola aberta para vida (formar cidadãos conscientes com senso crítico etc etc)! A crença — ou ingenuidade? — da maioria dos meus colegas deriva da noção de que nós professor devemos fazer, em última instância, a molecada se “engajar politicamente”. "Social", neste contexto ideológico, significa não outra coisa senão o “engajamento contra o neoliberalismo e o moralismo do Ocidente”.
“Devemos plantar a sementinha revolucionária”, como disse, no ápice da cafonice, uma colega – pasmem! – professora de Química. “Os meninos de hoje”, continua, “são alienados, e precisamos urgentemente fazer alguma coisa!” Como se a pronúncia de tal frase garantisse imediatamente a isenção de um discurso igualmente alienado e profundamente estúpido. Pelo contrário: é justamente quem diz “eles são os alienados” o primeiro suspeito de ser um completo alienado.
E outra. Se hoje os jovens são tão alienados, então são alienados e intoxicados precisamente pelo excesso de politização aos quais foram submetidos durante décadas. Jovens que, ao invés de terem aulas de verdade, foram submetidos a uma verdadeira lavagem cerebral (o tratamento de Alexander DeLarge, em Laranja Mecânica, é fichinha perto do tratamento que muitos dos nossos alunos têm sido submetidos).
Jovem não tem ter “senso crítico”, jovem precisa estudar. Simples! Durante décadas massacramos nossos alunos com a conversa fiada de que “vocês precisam mudar o mundo”, “salvar o planeta”, “precisamos fazer alguma coisa contra o sistema”, “lutar contra o neoliberalismo”, “entender o sofrimento das baleias” etc.
Tivéssemos concentrado todos nossos esforços em mostrar a beleza da inutilidade da educação e ensinado a formularem as perguntas mais genuínas e significativas (aquelas que surgem de maneira heurística no espírito humano, ou seja, livres de “funções” e “utilidades” — sobretudo políticas), não estaríamos discutindo a função social da massa de analfabetos formados todos os anos pelo ensino de nobre função social. Esse "socialismo engajado" da educação não teve outra função a não ser a de socializar a ignorância.
Alguns anos atrás fui demitido de uma escola de Ensino Fundamental, no início da minha carreira, logo depois de me apresentarem uma pesquisa interna feita com os alunos no final do ano a fim de avaliar o desempenho dos professores. Na época eu lecionava uma disciplina chamada “Atualidades”. A dona da escola alegou que os alunos (de 5º série!) tinham “senso crítico” suficiente para saber o que era “bom” pra eles. Segundo o “ipope”, eles não gostavam da minha aula por que eu exigia muita leitura e a aula, por ser de “atualidades”, tinha de ser mais “debate”.
É tão ridículo assim pensar que não cabe ao professor de Matemática ensinar "ativismo político", mas ensinar — não é pedir demais isso — Matemática? Que não é demais ao professor de Química ensinar simplesmente Química? Ao de Biologia, Biologia? Ao de História, História! E ao de Filosofia, Filosofia? Confesso que fiquei feliz com a minha demissão das aulas de "Atualidades"; na minha opinião, tal disciplina não tinha qualquer finalidade (talvez, no máximo, uma espécie de tentativa de substituir a conversa franca que os pais deveriam ter com os filhos na mesa do jantar!). 
"O verdadeiro fundador" do declínio da educação foi o primeiro professor descolado que, tendo cercado seus alunos em uma sala de aula, "lembrou-se de dizer isto é minha pequena assembleia política particular" e encontrou pessoas suficientemente "cheias de senso críticos e analfabetas" para acreditá-lo. Não tenho mais dúvidas de que o responsável pelo fim da educação foi o professor que, cheio de si e crente piedoso de sua concepção política de mundo, exaustivamente doutrinou todos aqueles que estavam interessados não em mudar o mundo, mas simplesmente em compreendê-lo.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

A política da imaginação autoritária



As recentes manifestações por todo país não são o efeito direto de uma nova consciência política do povo brasileiro. Pelo contrário, revelam o sintoma de uma profunda desordem na experiência da imaginação política da sociedade brasileira como um todo, que não é outra coisa senão a própria crise da consciência do homem público. Nesse sentido, as manifestações devam ser tomadas como fenômenos espontâneos que indicam alguma outra coisa de mais profunda, e não a própria coisa a ser refletida.

A relação entre imaginação e política percorre a história da experiência política, todavia, muitas doutrinas são frutos da produção de um imaginário precário e autoritário: o poder é uma tentação irresistível. Analisemos um exemplo: o transporte coletivo em grandes centros urbanos é extremamente complexo e de péssima qualidade. Isso não é imaginação, mas um fato. Como torná-lo mais eficiente e ao mesmo tempo oferecer aos usuários melhores condições de uso por um preço mais justo? Essa é uma pergunta complexa impossível de ser respondida com fórmulas mágicas. Quem afirma possuir a solução inequívoca demonstra estar longe dos fatos.

É um fato também que as ondas de protestos tiveram início a partir da pretensão de se dar uma resposta mágica e inequívoca ao problema dos transportes formulado acima. A resposta dada pelo Movimento Passe Livre (MPL) enfatiza o nível da imaginação política do grupo. Para o MLP, não interessa a complexidade dos fatos, importa apenas aquilo que foi determinado por um princípio derivado do imaginário dos membros do grupo.

O MPL ganhou notoriedade nos últimos dias por ter deflagrado as ondas de protestos. Assim que os prefeitos voltaram atrás com o reajuste das tarifas, o grupo retirou-se das manifestações. Quando temas típicos da chamada “agenda conservadora” – aborto, corrupção, maioridade penal – começaram dar o tom das manifestações, o movimento voltou atrás tentando recolocar a pauta da tarifa dos transportes. Assim, o vai-e-volta demonstra a total falta de senso de realidade, a incapacidade de lidar com a complexidade dos fenômenos sociais, o fiasco estratégico e o ápice da imaginação autoritária conduzindo os interesses políticos.

Ao perguntarem para os líderes do grupo quanto custaria e quais são as efetivas propostas para implementação da tarifa zero, a resposta é sempre categórica: “Pra gente é uma questão política e não técnica”. Após reunião com a presidente Dilma (dia 24) – que, aliás, neste ponto, acertou ao lembrá-los da impossibilidade de tarifa zero! –, a resposta indica o nível doentio do estado de imaginação do grupo: "Vimos a Presidente completamente despreparada. Eles não sabem nem quanto custaria a tarifa zero". Ora, mas a proposta de tarifa zero é do MPL, seus líderes têm obrigação de saber quanto custa e quais às técnicas.

Por fim, embora confesse ser apartidário, o MPL não esconde seu vínculo profundo com ideologias de extrema-esquerda, cujo objetivo último não é, como todos sabem, os 20 centavos ou a conquista da tarifa zero – essa seria só uma etapa da pauta da esquerda revolucionária –, mas a superação da “lógica da mercadoria” por meio da coletivização dos meios de produção, isto é, em última instância, pôr fim ao capitalismo de mercado, e com isso realizar o velho sonho de acabar com a propriedade privada. Consequentemente, com as liberdades individuais em nome do bem coletivo como a resposta última para realização de um mundo melhor.

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Texto originalmente publicado em Gazeta do Povo em 27 de Junho de 2013.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Vinte centavos de cu é rola!


Eu ando de ônibus. Se tivesse de ir trabalhar de ônibus todos os dias da semana, gastaria, contando idas e vindas, R$ 33 (a R$ 3,30 a passagem de Jacareí a São José dos Campos, via Satélite); seriam R$ 132 por mês (mais caro, portanto, que a mensalidade de meu plano de saúde); cerca de R$ 1580 anuais. E não são apenas os trabalhadores que arcam com os custos da passagem; muitas empresas dividem tal despesa com seus funcionários por meio do vale-transporte. Então não é por causa do último reajuste: a conta vem pesando no bolso faz tempo. Lembro-me do tempo em que andar de ônibus era tão barato quanto tomar um refri de 290 ml na padoca. Eu lembro. Sempre andei de ônibus. Pior do que o custo salgado do serviço, porém, são as péssimas condições nas quais ele é oferecido. Quando pego o ônibus de manhã para o trabalho sei que, invariavelmente, ficará lotado. Não falha uma única vez.

A revolta é justa e o buraco é mais embaixo. Por trás da tarifa abusiva do transporte público está um problema mais amplo, que é a relação perniciosa que as empresas prestadoras de serviço mantêm com os governos de todas as esferas — federal, estaduais e municipais —, principalmente naquelas áreas em que está garantido o monopólio sobre o mercado.

Em minha cidade, Jacareí, existe a lenda de que a empresa de ônibus que atua no município presenteia os vereadores com automóveis para que eles legislem a favor dos interesses dela. Não sei se é verdade, mas todos sabemos como funciona esse jogo sujo: as empresas investem pesado nas campanhas dos candidatos, a maior parte na forma de dinheiro não contabilizado (o chamado “caixa 2”). Depois o sujeito é eleito e está com o rabo preso. Eis que vêm os aumentos abusivos (quando considerados a médio e a longo prazo), os cortes de gasto e a depreciação progressiva da qualidade dos serviços prestados. Com exceção do povo, todos saem ganhando, uma vez que parte desse dinheiro a mais que as empresas levam sobre o usuário acaba nos cofres da campanha dos políticos, quando não em seus bolsos. Estou falando de propina, é claro.

Tanto faz quem esteja no poder: sai PSDB, entra PT, o esquema já está armado; o sistema, funcionando. É prática corrente no país inteiro e envolve o transporte público, a merenda escolar, a coleta de lixo, a publicidade oficial etc. E as empreiteiras. Ah, as empreiteiras... Se abrissem essa caixa-preta, seria um deus-nos-acuda generalizado. Como cantava o saudoso Bezerra da Silva: se gritar pega ladrão...

Lembram-se do assassinato de Celso Daniel, prefeito de Santo André? Há a suspeita de que seja um crime político, ligado a um esquema de cobrança de propina das empresas que prestam serviço à prefeitura, com o objetivo de abastecer de recursos o Partido dos Trabalhadores local. Até hoje a investigação encontra entraves para avançar. E o que foi o mensalão, se não o repasse sistemático de dinheiro realizado por uma empresa que tinha interesses nas contas de publicidade do governo federal? Infelizmente, tal modus operandi não é uma exclusividade do PT, como o mensalão tucano em Minas Gerais demonstra.

Há um nexo estrutural ligando tais escândalos e o aumento da passagem de ônibus. O conluio de governos com as empresas que lhes prestam serviços tem extorquido os contribuintes e lesado os cidadãos. Como resultado, assistimos atônitos à baixíssima qualidade dos serviços que, teoricamente, seriam assegurados a nós por direito e à total ausência de vontade política para mudar a situação. A máquina burocrática tornou-se um universo à parte, funcionando autonomamente no sentido de se retroalimentar e perpetuar projetos de poder.

O que está acontecendo agora é que os cidadãos, ao pressentirem que as ações políticas nunca vêm ao encontro de seus interesses, que elas nunca se encaminham em direção ao bem comum, começam a emitir claros sinais de insatisfação, o que foi canalizado pela demanda específica contra o aumento nas passagens de ônibus. Mas o descontentamento é geral, embora difuso, e vem de longe. Como o problema é sistêmico, não se trata de um movimento contra a prefeitura (que é responsável por gerir o transporte público), nem contra o governo do estado (que comanda a polícia) ou contra a União. É uma revolta contra a totalidade de nosso sistema político, por isso as autoridades estão todas desbaratinadas diante da movimentação popular, impossibilitadas de decifrá-la. Enquanto conseguiram manter o povo fora do centro da ribalta — o povo atuando apenas como coadjuvante, como massa de manobra —, elas se acostumaram a enxergar o jogo político como uma disputa partidária, uma luta entre projetos de poder concorrentes. Os últimos acontecimentos, no entanto, conseguiram acuar situação e oposição no corner.

Engana-se quem imagina que a gritaria atual não tem nada a ver com a qualidade geral do serviço público, com os recentes escândalos de corrupção, com o fato de a população ter de arcar com a maior campanha publicitária da história deste país (a Copa do mundo e as Olimpíadas). Todos esses fatores estão emaranhados; os vinte centavos são apenas a ponta do novelo.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Tudo é por mais do que vinte centavos: a luta da classe média

por Diego Ivo

É muito curiosa essa onda de pessoas, até então caladas e à mercê de qualquer discussão política, que de uma hora para a outra tornou-se manifestante e abraçou a causa dos "vinte centavos". Vinte centavos não são nada nem para o mais pobre dos mendigos, que não raro devolveria tão avara esmola se a oferecêssemos. Quem diria para essa classe média que em sua metamorfose dormiu alienada e acordou militante.

Deste modo, os "vinte centavos" parecem ser, justamente por coisa ínfima, o gatilho que faz as pessoas abrirem as suas revoltas inconscientes e abraçar um movimento mais ou menos organizado que, como de praxe, não pode ser coisa racional posto que não tem objeto definido. Ele não é propriamente contra uma coisa, nem a favor de outra, é sempre contra o "estado de coisas". Ou seja, sabe-se lá por que estão protestando e aderindo ao movimento. Trata-se de um objeto que não pode ser combatido ou refutado, uma vez que ele só existe precisamente na subjetividade de cada um dos presentes, nunca nas reclamações dos manifestantes vistas em unidade.

Convém observar que o problema não está em reclamar de algo tão ínfimo quando muitos desses manifestantes possuem bens materiais incompatíveis com a bendita reclamação, como fez sugerir alguns comentaristas. Não há objeção a um manifestante possuir tênis de marca e seu celular ser de última geração, apenas é em alguns casos contraditório. Porém, é sempre de suspeitar uma turba que da noite para o dia se transforma; pois bem, como em qualquer transformação há uma causa, causa essa que eu mais ou menos ignoro no caso presente, mas que sei que não cheira muito bem: o meu espírito aristocrático suspeita que quando há muita mosca em torno de algo, esse algo deve ser muito fétido.

Como sabemos, não haveria tamanha comoção se a causa fosse um problema político específico, como a moralidade, a legalização das drogas, o aborto ou qualquer objeto definido. "Não são os vinte centavos, são todas as outras coisas. Você não entendeu ainda pelo que estamos protestando?", convocou um deles no Facebook, sem também nada explicar. Cada um parecia estar ali protestando ou apoiando o movimento de uma forma subjetiva, inconsciente eu diria. Porém, precisamos atentar ao fato de que não é uma coisa normal: uma onda de manifestações explodiu e parece que ninguém sabe de onde ela veio, apenas se está dizendo que o povo acordou. Mas o que eu vejo é justamente o contrário: que o povo talvez não tenha acordado e esteja dormindo mais profundamente do que nunca. Resta saber qual o objetivo por trás de tamanho movimento, afinal tem alguém pagando a conta e ela não é baixa.

Espanta, de certa forma,  ser a classe média a grande propagadora deste movimento, através das redes sociais com imagens modernas e descoladas e estampando uma bandeira branca do alto de seus edifícios, em solidariedade aos companheiros que estão na rua pondo suas vidas em risco. Justamente essa bendita classe média que há pouco tempo era alvejada pelos ditos intelectuais e formadores de opinião brasileiros, por sua violência e truculência; uma dessas intelectuais, chegando a bradar que odiava toda essa gente bem vestida e bem burguesa: "odeio a classe média", disse ela. E, sabe-se lá por que diabos, é a tal da classe média que, da noite para o dia, resolveu sair às ruas e viver seu momento maio de 68, com um poder de fazer a cidade parar de dar inveja ao PCC. Terá alguma coisa a ver o movimento atual e as recentes críticas à classe média? Sei lá, mas fica aí uma pulga atrás da orelha e quem sabe na próxima greve não apoiarão, em coro, os estudantes da USP.

E para que estas breves linhas não recaiam no mesmo erro dos reclamantes, isto é, de não ter algo mais objetivo de que esteja falando, aqui vai uma leve suspeita que eu tenho. O gatilho para o inconsciente que se tornaram os "vinte centavos" fez despertar uma série de reclamações mais ou menos justas que as pessoas tinham: basicamente, melhores condições de transporte público, emprego, segurança, etc, etc. Reclamações todas elas mais do que justificáveis, repito. Entretanto, ao que tudo indica 99% das pessoas estavam convocando o Estado brasileiro a resolver todos esses problemas, como responsabilidade transferida, reconhecendo-se portanto incapazes no fundo de qualquer ação objetiva que produzisse um bem qualquer. A que esse movimento abre espaço? A um Estado cada vez mais e mais forte, um Estado que não permita o mínimo vácuo onde possa haver defeitos e falhas, em suma um Estado totalitário, pois todos ali pareciam brigar contra o nosso Estado que já está demasiado pequeno para todas as suas necessidades sonhadas.

domingo, 20 de janeiro de 2013

A Civilização do Futebol de Rua

Meu avô materno era padeiro e treinador de futebol. Foi amigo do Bellini, zagueiro e capitão do escrete brasileiro nas Copas de 58 e 62. Apesar de sempre ter admirado sua carreira semiprofissional de futebol, eu mesmo, desafortunadamente, nunca levei jeito para o esporte dos bretões. Minha vontade mesmo era ser padeiro. Como perdi no tal jogo da vida – depois de também ter perdido as esperanças no proletário esporte bretão – sem ressentimentos aposentei as chuteiras e me tornei professor de filosofia.
Como todo moleque, gostava de bater bola com os amigos no campinho improvisado na rua, num terreno qualquer, de traves feitas de chinelo de dedo. Eu e mais outros dois amigos éramos péssimos. Meu apelido variava entre “leite-azedo” e “cabide” (magro e branquelo); de um dos amigos, “bolacha-traquinas” (redondo e sorridente).
Hoje tenho certeza de que a expressão café-com-leite tinha muitíssimo a ver comigo. Era quase uma vocação: ser café-com-leite. Na vila onde morava havia uns quinze garotos. O jogo, pra ser competitivo e divertido, tinha de ter pelo menos seis jogadores para cada lado: um no gol e cinco na linha. A questão é: como se monta uma seleção de rua?
O senso de justiça na molecagem é impressionante: a coisa é orgânica e funciona sem precisar da intervenção de pais, estado, governo, ongs, feministas, veganos etc: em cada dia de jogo, dois moleques montam seus respectivos times; noutro dia, outros dois... e assim por diante. Como meu sonho mesmo era ser padeiro, só jogava quando era minha a vez de montar o meu próprio time, ou na ausência de um dos titulares. Não obstante, nesse último caso, eu era sempre um dos últimos a ser escolhido. Me consolava lembrar: "Quero mesmo é ser padeiro".
O senso de justiça funcionava mais ou menos assim: sabíamos (senso comum) que dos quinze amigos, pelo menos dois eram gênios da bola (Marrom e Chulé); quatro jogavam bem (Xoxó, Neguim, Lácio e Buda, o dono da bola); um outro era sempre o goleiro (Pavio); outros quatro sabiam jogar (Mula, Toco, Paulo e Sabão); dois eram medíocres (Chaveiro e Robson) e, por fim, dois rigorosamente estúpidos (eu e o Bolacha). 
A conta é simples: todo mundo quer jogar, mas só há doze vagas. Como não existia “cota-perneta”, ninguém falava em exclusão social. Não havia passeatas em favor das minorias que sofrem o preconceito por serem verdadeiros “bonecos de Olinda” jogando bola. Então a coisa se ajustava de modo a fazer inveja a Rothbard, e era absolutamente inconcebível pensar em evocar a autoridade de algum pai para intervir na disputa por uma vaga. Era a injustiça mais justa de todas. 

sábado, 6 de outubro de 2012

Por que quase votarei na Soninha

Uma lei interna, inconsciente, governa meus votos. Posso ter a opinião que for sobre os candidatos, posso detestar o Serra (e detesto, por ele ser ávido pelo poder, um centralizador e inimigo do livre mercado); mas, na hora de digitar o número na urna, sai 45. Nas poucas vezes em que eu não o fiz me senti mal, como se aquele voto por algum outro partido fosse um pouco condenável. Isso significa que meu superego é tucano? (Minha única esperança de me livrar desse hábito é se o Liber conseguir suas 500 mil assinaturas e aparecer nas urnas...)

Nessas eleições de prefeito, quem mais capturou minha imaginação foi a Soninha. Ela é a única candidata que é um ser humano de verdade, e não um produto embalado por uma equipe de marqueteiros. Soninha tem facebook, tem site, tem até formspring; se alguém faz uma pergunta em seu facebook, costuma receber resposta. E não é a resposta de um assessor de marketing fingindo ou deixando ambíguo se é ou não o candidato que está falando; é a própria Soninha ali, dizendo o que pensa. Ela realmente diz o que pensa.  Serra / Haddad / Russomano / Chalita têm respostas prontas para tudo. O entrevistador usou o termo "saúde"? Ah, então é só soltar o discurso pronto e repetido ao infinito sobre como eu vou fazer mais AMAs ou UPAs ou formar cuidadores. O tom de voz, as frases, o sorriso, foi tudo pensado por uma equipe de marqueteiros; o político é só o veículo. Seu discurso não reflete o que ele realmente pensa, ou o que ele realmente vai fazer, mas simplesmente aquilo que tem o maior potencial de ganhar o maior número de votos possível.

Soninha, não! Ela diz o que pensa mesmo. E em geral o que ela pensa não é lá muito bom, mas é genuíno, sincero. Ela está num constante esforço de ouvir e formular ideias, propor e testar soluções, etc. Ela é a única candidata que não olha nos seus olhos e mente com a frieza de um con artist. Isso a deixa menos preparada que o político comum para um debate (pois todos aqueles números que todos eles fingem dominar escondem o principal fato da ação política: não há critério objetivo e nem indicadores epistemologicamente seguros para eles tomarem todas as decisões sobre o uso do dinheiro) - fiquei chateado ao ver, nos únicos dois minutos de debate que assisti, ela levando a pior do Paulinho da Força. O que ela propunha na saúde? Prontuários eletrônicos, comunicação mais eficiente e rápida; uma mudança sensata e que de fato evitaria muitas perdas desnecessárias. Só que é algo que evidentemente não soluciona o problema (insolúvel, posto que todo mundo morre, e se morre é porque teve um problema de saúde que não foi curado) da saúde. Já Paulinho da Força tinha os números na manga: alugar 3000 leitos de hospitais privados, resolvendo o problema sem ter que construir novos hospitais. Será que tal ação seria factível? Será que existem tantos leitos ociosos na rede privada, ou será que cada novo leito alugado pelo Estado significará uma pessoa a menos sendo atendida na rede privada, o que no fim das contas significa que está tudo igual? Não saberemos, pois Paulinho da Força nunca será eleito.

A ideia que a Soninha defende do pedágio urbano não é má em si. É uma tentativa meio canhestra do Estado de imitar o funcionamento do mercado, cobrando pelo uso das ruas, e abolindo assim idiotices plenas como o rodízio municipal. Se ela estivesse associada a uma redução do IPVA, de forma que a arrecadação de prefeitura ficasse no máximo igual (de preferência diminuísse, mas sonhar com isso numa democracia é quase utopia milenarista), teria meu apoio imediato. As pessoas pagam menos para simplesmente ter o carro em sua garagem e mais para guiá-lo nas ruas nos horários de maior trânsito; faz todo o sentido. Ela querer sincronizar mais semáforos também é uma medida necessária e que inexplicavelmente tem demorado a ocorrer.

Enfim, a candidatura da Soninha tem muito desse novo tipo de mentalidade de buscar a eficiência nos processos, o que é muito positivo. A liberação da maconha, que não fumo e nem pretendo fumar, vem aí como um bônus: um aceno a uma causa liberal. Infelizmente, ela ainda é carregada de slogans e lugares-comuns da esquerda. Outro dia alguém a interpelou, não sei se no facebook ou no formspring (sim, isso ocorre com a Soninha, e é um grande mérito, na minha opinião), dizendo que "bicicleta é transporte individual, a gente tem que pensar no coletivo", ao que Soninha respondeu: "Sim, a prioridade é sempre do coletivo". Esse tipo de demagogia me desanima. E talvez em parte por esse tipo de inconsistência, por essa indecisão sobre romper total e irremediavelmente com a forma de se fazer política e, ao mesmo tempo, ainda se prender a chavões e  a algum populismo tímido, ela não tenha crescido nada nas pesquisas desde o início do ciclo.

Mas o que Soninha representa é, na minha talvez ingênua esperança de deslumbrado com a internet e com o fim das barreiras institucionais à comunicação de massas, o que a política deveria ser e virá a se tornar: embate de ideias. Candidatos, cada um com suas ideias sobre como melhor gerir as coisas - ciente de que elas podem não agradar a uma parcela da população e mesmo assim sem abrir mão delas - tentando persuadir racionalmente o eleitorado. Não sei se foi por falta de dinheiro ou por opção (tem gente que, mesmo sem dinheiro, joga o jogo patético do marketing político: Levy Fidelix), mas sou grato também por não ter ouvido sambinha ou forró com seu nome nas rádios.

Soninha, ainda não foi dessa vez. É com pesar que o declaro mas, amanhã, agradarei meu superego e digitarei 45. Que o seu exemplo de político sincero, aberto, dando a cara a tapa sem medo, falando besteira de vez em quando, mas sempre valorizando a inteligência do eleitorado, torne-se cada vez mais popular. É o único compatível com uma população inteligente.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Uma carta acerca da tolerância, ou: Por que ninguém tem paciência com os fumantes?

Por Erick Vasconcelos


O motivo pelo qual liberais clássicos como John Locke escreveram cartas acerca da tolerância foi porque eles reconheciam que era necessário o mínimo de respeito aos hábitos e crenças das outras pessoas para que uma sociedade pacífica fosse possível.

A ideia liberal clássica era que todo mundo poderia ter sua casa, sua família, seu trabalho e que, depois de suar durante o dia, poderia entrar na sua propriedade e louvar o seu deus sem ninguém encher o saco.

Não é à toa que os liberais sempre estiveram na vanguarda de lutas pelos direitos dos negros, das mulheres, dos homossexuais e de outras minorias - porque sabiam que sem uma esfera privada bem delineada em relação ao que é "público", fatalmente a gente cai em situações sociais de conflito.

Por exemplo, por conta da intolerância social com os usuários de drogas, o que temos é um combate bizarro a entorpecentes que custa uma bolada e mata milhares todo ano. Também foi assim quando os puritanos resolveram que as bebidas deveriam sumir da vida americana.

O argumento não é que você, pai de família honrado, respeitável e tradicional, tenha que receber os maconheiros em casa com toda a pompa, mas só que você não vai ficar fazendo barraco quando vir alguém com baseado na rua. Afinal, a vida é do maconheiro, deixa ele.

Assim, sob o liberalismo, todo o progresso social era no sentido de que os hábitos, mesmo os ruins, são privados, e ninguém tem nada a ver com isso.

Igualmente, qualquer boçal hoje em dia sabe que o cigarro faz mal, que seu uso excessivo pode causar câncer, além de, segundo as carteiras de cigarro, infarto, impotência, horror, gangrena, malformações fetais, derrame cerebral e todos os males da história (interessantemente, ninguém observa que o cigarro também traz vários efeitos psicológicos positivos, como relaxamento e tranquilidade).

Só que, apesar de a sociedade já ser bastante bem informada sobre o cigarro, e embora seja um hábito essencialmente privado (apesar do que tenta passar a propaganda exagerada sobre o "fumo passivo"), o tabaco continua sendo demonizado.

A Anvisa achou de proibir os cigarros com sabor, porque estimulam o fumo e podem levar os jovens a esse hábito objetivamente desprezível.

Não vou nem tentar argumentar contra isso, a coisa é palpavelmente absurda e qualquer zé neguinho consegue ver que a tendência não é das mais benévolas enquanto a Anvisa continuar baixando decreto dizendo o que 190 milhões de pessoas podem ou não consumir, principalmente em questões banais como o cigarro (e, diga-se, a questão de incentivar ou não o fumo de menores é absurdamente irrelevante e oportunista nesse caso).

Eu só vou observar que, apesar de várias pessoas de esquerda serem favoráveis à liberação de drogas e à não-criminalização de hábitos privados, os argumentos que eles usam dão munição para os super-burocratas da Anvisa. Enquanto a ideia adotada não for a de John Locke e seus amigos, lá de 1600 e bolinha, vamos continuar recebendo notícias pela manhã de que um dos nossos hábitos foi subitamente proibido e a gente nem viu.

quarta-feira, 7 de março de 2012

A estratégia do Ron Paul está funcionando?

Libertários que estão acompanhando as prévias do partido Republicano (GOP) para as eleições presidenciais de 2012 nos Estados Unidos parecem desanimados com os resultados obtidos por Ron Paul, principalmente depois da Superterça que ocorreu ontem. Como Eu não compartilho desse pessimismo e dessa visão de que ele está indo mal nas prévias, vou tentar explicar aqui de forma resumida por que Ron Paul está fazendo tudo certo para ter alguma chance de se tornar o próximo presidente americano. 

A estratégia de Ron Paul – ou de seu cunhado e gestor da campanha Jesse Benton – é conseguir o maior número de delegados possíveis. Até ai nenhuma novidade porque todos os candidatos querem atingir a marca de 50% dos delegados e encerrar a disputa e com isso poder começar a focar a campanha em Barack Obama. Mas a diferença da estratégia do Ron Paul nessas prévias para os outros candidatos é que ele está levando a sério as regras que existem e com isso focando exclusivamente em obter delegados, mesmo que os delegados acabem não expressando o que a maioria dos eleitores do GOP desejam ao sair de casa e dar uma quantidade de votos maior para os outros candidatos do que para o Ron Paul. E isso só é possível porque o sistema eleitoral americano é extremamente complexo (alguns diriam que é propositalmente confuso) e principalmente devido à existência do que eles chamam de caucus. Nos caucus, o que importa é obter a maioria dos delegados, que não são selecionados pelo voto popular, apesar da escolha deles vir acompanhada de votações. Sabendo disso, a campanha do Ron Paul está focando (há muito tempo com o Campaign for Liberty) em fazer os libertários galgarem posições de comando no GOP e em se tornarem os delegados aonde eles são escolhidos por meio de caucus. 

Entender o que está sendo feito é a primeira etapa para saber se o sucesso está chegando ou não. E pelas minhas lentes parece que está tudo ocorrendo como o planejado. É claro que Ron Paul poderia ganhar votações populares em alguns estados e atrair mais atenção da mídia, mas isso demandaria muito mais dinheiro e duplicaria esforços, tornando a estratégia dos delegados menos efetiva. E o apoio da mídia não viria da mesma forma que vem para os outros candidatos porque as suas posições não são apenas polêmicas, são uma ameaça a “tudo que está ai”. 

Uma outra questão que desanima os simpatizantes são as contagens “oficiais” de cada canal/jornal, já que não existe uma contagem oficial feita pelo GOP. Os dados da CNN, Fox, Real Clear Politics e muitas outras diferem bastante quanto ao número de delegados que cada candidato tem, mas eles têm algo em comum: Ron Paul sempre está em último. E isso é a demonstração de que eles não entenderam a estratégia do Ron Paul ou estão achando que ele não está sendo bem sucedido em colocá-la em prática. Mas de acordo com relatórios de sites de militantes e a campanha do Ron Paul, eles estão conseguindo um bom resultado em infiltrar seus membros nos caucus. Até mesmo a mídia volta e meia cita o nível de dedicação dos militantes do Ron Paul, que é uma prova de que ele tem os recursos humanos necessários para conseguir isso. Uma prova mais evidente é que devido às acusações de fraudes para prejudicar os votos do Ron Paul, diversos diretórios estaduais do GOP estão caindo; e em todos eles o diretório está sendo inteiramente formado por gente do Ron Paul. A estratégia de tomar o partido está funcionando, como ficou claro nas eleições internas e Iowa e Nevada e as que vão acontecer agora no Maine, só pra citar alguns exemplos. 

Mas pra não ficar sem algo pra mostrar, segue abaixo uma estimativa minha de quantos delegados o Ron Paul tem, que é tão arbitrária quanto as outras contagens não oficiais, mas ao mesmo tempo leva em conta a particularidade dos caucus. 

Iowa: 22 delegados (estimativa)
New Hampshire: 3 delegados (primária)
South Carolina: 0 delegados (primária com o vencedor levando tudo)
Florida: 0 delegados (primária com o vencedor levando tudo)
Maine: 19 delegados (estimativa)
Nevada: 22 delegados (estimativa)
Colorado: 28 delegados (estimativa)
Minnesota: 32 delegados (estimativa)
Arizona: 0 delegados (primária com o vencedor levando tudo)
Michigan: 0 delegados (primária)
Washington: 34 delegados (estimativa)
Alaska: 21 delegados (estimativa)
Georgia: 0 delegados (primária com o vencedor levando tudo)
Idaho: 25 delegados (estimativa)
Massachusetts: 0 delegados (primária)
North Dakota: 22 delegados (estimativa)
Ohio: 0 delegados (primária)
Oklahoma: 0 delegados (primária)
Tennesse: 0 delegados (primária)
Vermont: 4 delegados (primária)
Virginia: 3 delegados (primária híbrida)
Wyoming: 20 delegados (estimativa)

Parece surreal Ron Paul ter 255 delegados? Parece sim. E por isso avisei que essa contagem é tão arbitrária quanto a contagem dos principais veículos, pois não tem como saber o número real de delegados nos caucus até a convenção estadual do estado, que ainda vai demorar bastante em todos eles. Essa estimativa é a feita por diversos membros do GOP que fazem campanha pro Ron Paul e estiveram presente nas assembleias que definiram os delegados; e por isso pode não ser uma fonte confiável, mas é uma possibilidade real, já que eles estão vendo o processo acontecer, e a estratégia da campanha é conseguir isso. Por fim, agora que a Superterça passou o próximo mês deve ser o melhor para o Ron Pau, já que nele acontecem cinco caucus quase seguidos, terminando com isso sua estratégia de explorar os caucus; porque daí pra frente só restam 25 primárias, e ai o Ron Paul vai ter que jogar o jogo das primárias e não sabemos o que pode acontecer. Mas mesmo se ele só ficar com o número de delegados que tem agora, ele vai chegar com força na convenção, já que nenhum dos outros 3 candidatos devem conseguir os 50% necessários para obter a nomeação automática, o que não acontece há muito tempo, e com isso abrindo espaço para que possam aparecer candidaturas de consenso como Rand Paul, Sarah Palin e até mesmo Judge Napolitano.

P.S.: Correção do número dos delegados. Os números continuam os mesmos, mas a somatória estava dando um resultado menor que a soma dos estados. Com isso o número total passou de 225 para 255.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Conservadorismo Religioso Não se Salva - Uma Resposta a Nivaldo Cordeiro

Meu artigo comentando o artigo de João Mellão Neto foi por sua vez comentado por José Nivaldo Cordeiro em artigo (Direita, volver!) para o Mídia Sem Máscara. Temos ali um conservadorismo diferente daquele advogado por Mellão Neto e, antes dele, por André Lara Resende. Um conservadorismo religioso e primariamente moral, aparentemente distante da versão laica e puramente política dos outros dois autores. Os problemas, contudo, permanecem, e mesmo o recurso aos Evangelhos é incapaz de salvar o posicionamento de Nivaldo.

Em primeiro lugar, vejamos as críticas que ele faz a meu texto:

O autor comete o duplo equívoco de identificar a direita apenas com o conservadorismo, esquecendo dos liberais direitistas, e de associar os conservadores com o apego a formas sociais injustas já superados. São inimigos do cristianismo e não perdem tempo para difamar a religião de Cristo.
Sou inocente das duas partes do "duplo equívoco". 1) Fui bem explícito em dizer que "direita" engloba tanto conservadores quanto liberais (e, a bem da verdade, outras criaturas da noite, como tradicionalistas, monarquistas, etc.); por esse motivo, o termo é pouco útil, pouco informativo. 2) Não disse que os conservadores têm apego a formas sociais injustas. Disse, apoiado no texto de Mellão Neto (que ecoou Lara Resende e, até que se prove o contrário, Burke), que os conservadores têm apego a formas sociais estabelecidas, sejam elas quais forem; eles têm a tradição como um valor em si, independente dela ser boa ou má, justa ou injusta. Não os acusei de forma alguma de difamar a religião de Cristo; disse que, seguindo os critérios de conservadorismo apresentados, um judeu conservador do século I difamaria a religião de Cristo. Um conservador de hoje em dia obviamente louva essa religião, mais uma evidência do vazio moral que está no cerne desse pensamento. No que diz respeito à política, eu mesmo concordo com várias das bandeiras do conservador atual (defesa do direito de propriedade, responsabilização do criminoso individual e não da sociedade, etc.); sou o primeiro a dizer que eles defendem também formas sociais justas. Só que essa defesa se dá por motivos errados, e aí está o problema. Sigamos o texto de Nivaldo.

Segundo ele, a essência do conservadorismo está em defender "o núcleo permanente da moral cristã".  Ou seja, trata-se antes de tudo de uma postura moral, e não de uma doutrina política. Só que no que se funda essa defesa da moral cristã? "Na tradição e nas Escrituras". Note-se de partida, portanto, que é uma posição baseada na fé, sem qualquer apelo, portanto, a um japonês ou árabe que não partilhe dessas mesmas tradições e dessa mesma fé.

Nivaldo não deixa claro se os Mandamentos aos quais se referem são os Mandamentos antigos, presentes já no Antigo Testamento (sinteticamente, os Dez Mandamentos), ou se são a nova lei dada por Cristo aos discípulos. O plural dá a entender que são os Dez Mandamentos, mas a citação de S. João, embora usada para apontar um fato irrelevante (o fato do termo "permanência" ser repetido inúmeras vezes na passagem, como se contagem de palavras na Bíblia fosse argumento em prol de uma postura moral e agenda política que usem a mesma palavra), é justamente a passagem na qual Cristo "institui" sua nova lei: "amai-vos um aos outros como eu vos amei".

Bom, se o núcleo moral do conservadorismo forem os Dez Mandamentos, então é realmente infeliz que Nivaldo (e, presumo, Kirk?) enxergue o fundamento deles nas Escrituras e na tradição. A origem e o fundamento da ética revelada por Deus na Bíblia é a natureza humana; e a natureza humana é cognoscível pela razão; e quando derivada da razão, chamamo-la de lei natural. Deus revelou os Dez Mandamentos para facilitar a vida do povo rude, para dar-lhes de pronto um motivo fácil ("Deus mandou") para "não matar" ou "honrar pai e mãe", coisas que, mesmo que Deus nunca tivesse falado aos homens, seriam igualmente acessíveis à razão. Trocar a razão humana pela tradição é trocar o fundamento pelo efeito, e por um efeito incerto. Como a própria tradição é falível, e falhou diversas vezes ao longo de nossa história, usá-la como critério moral último (junto das Escrituras, interpretadas, é claro, à luz dessa mesma tradição) é cegar-se aos erros que ela pode conter. Quem toma água do rio longe da fonte, corre maior risco de encontrá-la poluída. E é também a rejeição da razão que faz com que seja um posicionamento sectário, incapaz de persuadir quem não comungue da mesma fé, e portanto inútil no mundo plural em que vivemos. É o custo de se preferir, na política, a tradição à lei natural.

Por outro lado, se o núcleo moral do conservadorismo for a lei de Cristo, que não é estritamente derivada da razão, mas depende também da confiança em Cristo e no amor de Deus por nós, então ele tem que necessariamente abrir mão de qualquer proposta política. A lei dada por Cristo é algo eminentemente pessoal e não diz respeito à esfera dos direitos, indo além dela. Não há nenhuma derivação política, ou mesmo moral imediata do "Amai-vos" (por isso, inclusive, que essa nova lei não abole a lei natural, mas a pressupõe). Com efeito, as tentativas de se instaurar o reinado universal do amor cristão na terra, associadas em geral a comunidades heréticas bem distantes do bom senso (ou, modernamente, aos hippies), nunca são duradouras e nem terminam bem. A lei que se presta ao pensamento político é a lei natural, aquela que nossa razão é capaz de apreender.

A política e a ética estão, e têm que estar, no campo da razão. Não é se curvando à tradição que se resolverá o problema moral e político, mesmo porque, embora eu considere o balanço moral do Ocidente superior aos dos demais povos, nosso passado também carrega suas (muitas) máculas, algumas delas  duradouras. É inútil se esconder atrás do tempo, dos antepassados, ou mesmo da Bíblia.

Ao elogiar o surto de moralismo e escândalo que tomou conta das eleições presidenciais passadas, Nivaldo apenas ilustra a fraqueza de sua própria posição: pois se aquela histeria é exemplo do que, na concepção dele, devemos almejar, se aquele é o tipo de debate político que ele espera do Brasil, então estamos num dilema entre o estatismo amoral e o fundamentalismo furioso. O ideal do conservador religioso está mais para uma turba de fanáticos do que para uma população educada e bem-intencionada.

Sim, a política no Brasil e no mundo é dominada por uma esquerda hegemônica, má e imbecil. Dá algum alento ver o surgimento de uma oposição a ela. Mas enquanto essa oposição se basear num moralismo de fundo religioso ou tradicional, isto é, no conservadorismo (que, não nego, nas condições atuais é menos danoso socialmente do que o progressismo), ela será ineficaz e burra; ineficaz porque burra. Quando tivermos claro que a oposição ao mau na política se dá com valores, e não com nostalgias fracassadas ou histeria religiosa condenatória, e que esses valores têm que vir da razão e não do medo de usá-la, daí sim, quem sabe, construiremos um Brasil melhor, mais rico, mais virtuoso e mais propício - para quem quiser - à vivência da lei de Cristo.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Nova Direita, Nascida Velha

Aos poucos o pensamento de direita tem chegado aos meios de comunicação de massa brasileiros, o que eu considero um bom sinal, pois significa que a obrigatoriedade de se ser de esquerda está acabando. É uma pena que a alternativa ao velho socialismo seja algo também velho (de espírito), e que tenta substituir valores ruins pela ausência de valores. Sim, falo do meu novo tema favorito: o conservadorismo.

Dessa vez foi João Mellão Neto, em artigo no Estadão. E ele começa com uma observação muito boa (talvez ela seja óbvia para muitos; eu nunca tinha me dado conta): a direita brasileira aliou-se, quase que por necessidade, aos militares; e ficou desde então associada à tortura, censura, etc. E ele também aponta, acertadamente, que a chamada "direita" é um balaio de gatos que engloba conservadores e liberais, duas coisas bem diferentes. E, mais curiosamente: é possível ser conservador liberal, conservador estatista, conservador democrata (que é o que o Mellão defende), conservador monarquista e até conservador socialista. Tudo depende do que estiver em vigor e for a "tradição" local.

Vejamos no que consiste esse conservadorismo que é uma das identidades da "nova direita".
"Em primeiro lugar, o conservador entende que os pensadores atuais são meros anões nos ombros de gigantes do passado. Eles acreditam enxergar mais longe, mas isso se dá unicamente em função da estatura de seus antecessores. No que tange a ideias, tudo o que existe já foi pensado ou implantado no passado. A única que medrou foi a da democracia liberal..."
E ainda: "Nenhuma ideia é plenamente nova. Tudo já foi pensado e idealizado. E se não foi implantado, é porque se mostrou inviável."

Convido meu leitor agora a um exercício imaginativo. Imagine-se a dialogar com um conservador - na definição dada acima - do século XIX brasileiro. Você, abolicionista entusiasmado, chega a ele com sua ideia revolucionária de acabar com a escravidão. O que responderia o velho conservador? [Perdoem os eventuais anacronismos de linguagem] "Não seja tolo, meu jovem. Não vê que nosso sistema já resiste há mais de trezentos anos? E antes dele, no Velho Mundo, tínhamos o quê? O trabalho servil. E antes dele, mais uma vez a escravidão. Claro está, portanto, que sua ideia de trabalho livre para todos é uma ideia radical, sem a menor noção de como nossa sociedade funciona, de nossas convenções e normas. Certamente alguém já pensou como você antes, e aqui estamos, ainda com a escravidão. O trabalho livre é simplesmente insustentável." Imaginem agora a reação de um judeu conservador do século I frente à novidade ensinada por Cristo...

Nos dias de hoje, o conservador defende a democracia liberal e o Estado intervencionista; em outros tempos, defenderia, com os mesmos argumentos, a monarquia absoluta e a escravidão. Mellão diz que para o conservador o novo não é necessariamente melhor que o velho. Mas a implicação lógica de sua doutrina vai além: tudo foi tentado e só o melhor sobreviveu; portanto, o que existe hoje em dia é melhor do que o que não existe (ou seja, não existe mais); logo, o novo (que não passa da repetição de algo velho e previamente descartado) é necessariamente pior que o velho. Somos anões em ombros de gigantes, e aparentemente incapazes de ver mais longe.

Isso é renegar a própria inteligência e deixar que os antepassados pensem por nós; uma forma de covardia intelectual, de se esconder atrás de uma autoridade supostamente infalível. E é também entregar o jogo completamente aos adversários. Pois a longevidade de uma instituição, embora dê a ela um caráter respeitável, não é prova de que ela é boa ou desejável em si. O socialista revolucionário apresenta um motivo para se ser contra a ordem democrática e liberal; como o conservador o rebate? "Nosso sistema é antigo". Mas pode ser antigo e péssimo, como eram as dinastias dos faraós. E cada mudança que os socialistas consigam impor (sob o nome de "reforma") vira, ela própria, uma instituição estabelecida, a ser preservada. O conservador defende hoje o que a esquerda defendia ontem.

Muito sintomático é que Mellão oponha o conservador ao "radical", outro termo que não denota nenhuma posição concreta. O radical é aquele que é consistente em suas crenças e convicções, levando-as até suas consequências lógicas. Isso pode ser bom ou mau. O oposto do radical, o moderado, é aquele que, por insegurança, cria limites arbitrários a suas propostas, para que elas não fujam muito ao senso comum. Um pouco dessa "insegurança", desse conservadorismo, é saudável no campo da prática; afinal, é possível errar, e o avanço gradual rumo aos objetivos permite correções e desvios prudenciais de rota. Mas isso se aplica aos meios; no reino dos fins, quem não é "radical" é apenas inconsistente, medroso. E o conservadorismo é uma ideologia medrosa: subjuga sua mente ao peso do passado, como forma de fugir da responsabilidade (em verdade inescapável) do pensamento individual.

Idade não é critério de acerto. A tradição acumula muita sabedoria, mas muita burrice também. Para distinguir um do outro, preservando o bom e descartando o ruim, é preciso julgar a própria tradição à luz da razão. O verdadeiro inimigo do conservadorismo não é o socialismo, ou a esquerda (que pode ser conservadora, como são os nossos velhos conservadores - ACM, Sarney, etc. - e como era a elite do partido comunista na União Soviética), mas a razão.

A frase final do artigo não poderia ser mais clara. À sociedade conservadora, que crê numa ordem moral permanente no universo, Mellão opõe a sociedade hedonista. "Mas se, por outro lado, não passar de uma malta de indivíduos ignorantes das normas e convenções, voltados exclusivamente para a imediata satisfação de seus apetites primários, essa sociedade, por melhor que seja o seu governo, desaparecerá." O que sustenta a moral social são simplesmente as normas e convenções; se as abandonarmos, cairemos no hedonismo animalesco. Temos que escolher entre a devoção a normas e convenções (o passado como critério absoluto) ou a esbórnia niilista. O que foi suprimido nessa dicotomia maléfica é justamente a vida da virtude, a vida racional, que não é nem obediência cega, nem desvario alucinado. E é justamente esse valor (que por mais antigo que seja, será sempre jovem) que falta aos parâmetros éticos e políticos dos dias de hoje; não a ideologia de quem já desistiu do mundo, que por mais que compre roupas novas, será sempre velha.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Como Inutilizar a Política, ou O Movimento Conservador

Ao invés de, nas eleições, discutirmos política, economia e questões de Estado, que tal prendermo-nos em questões morais pontuais? Foque num tema (casamento gay, aborto, drogas, suicídio assistido) e exclua todos os outros. Dê atenção demasiada, também, para a vida pessoal do candidato: a campanha deve virar um palco de fofocas maldosas; quem sair menos prejudicado delas, ganha. E assim a irrelevância vira o foco. Gostou da proposta? É o que os conservadores têm feito à perfeição. É que eles confundem salvação da alma com administração pública; um erro comum.

Quando digo que as questões morais pontuais são irrelevantes, não falo do ponto de vista moral. Falo do ponto de vista político. O que importa, por exemplo, se o governo dá respaldo e um pedaço de papel aos casais gays? Isso é consequência, na prática inevitável, de um processo cultural de longa data. Mudar isso requererá algo mais profundo que a vontade de um político e briga eleitoral. E, uma vez aprovado o casamento estatal gay, no que isso prejudica as famílias, igrejas ou quem quer que seja? O mesmo se dá no campo da virtude pessoal: o que importa se um candidato teve ou não uma amante? Que os conservadores se prendam a isso mostra apenas o quão descolados estão do mundo real, contentes em seu conto-de-fadas em que os melhores políticos são os indivíduos mais virtuosos; o que, dada a mesquinhez das massas, em geral significa os mais certinhos. Digo que esses estão, não raro, entre os piores!

Das questões morais em pauta, a única que merece atenção política é, na minha opinião, o aborto, pois ela envolve a violação direta de um direito fundamental alheio. Mesmo ela, contudo, é relativizável, posto que um político (ainda mais do Executivo, que é onde o moralismo tem tomado mais conta) tem poder muito limitado para mudar a lei na direção que for; vide George W. Bush nos EUA (que não proibiu o aborto), e todos os presidentes desde a redemocratização no Brasil (que não o legalizaram). É imoral votar num presidente a favor do aborto? Então quem votou em FHC foi imoral. E se bobear FHC - ateu e de esquerda - era, em 94 e 98, mais a favor do aborto do que Lula, cria da TL (que, apesar de todos os pesares, é contra o aborto).

Por isso é tão desalentador ver o apoio efusivo recebido por Rick Santorum na disputa americana; um candidato cujas únicas credenciais são seus "valores conservadores" e sua vida pessoal. Ele tem todas as opiniões da cartilha sobre questões morais (mais algumas próprias dele, como o combate aos contraceptivos e a reabilitação histórica das Cruzadas); quer também bombardear o Irã e se bobear o resto do Oriente Médio; usa analogias tiradas do Senhor dos Anéis para se referir à guerra do Iraque; vai barrar os imigrantes ilegais. Não sabe nada de economia, repete as fórmulas da vez, jurando que discorda em tudo do Obama. Se eleito, deve colocar em prática a mesma responsabilidade fiscal e o mesmo "livre mercado" de George W. Bush. Ah, - dirá o mui piedoso conservador - contanto que ele mantenha a referência a Deus na cédula do dólar, tá valendo!

A importância dada ao caráter moral é também muito curiosa. A insistência na virtude pessoal do governante é feita por clérigos e intelectuais desde pelo menos a Idade Média (talvez em Roma também?), mas raramente - e em alguns períodos curtos e negros da história europeia - é levada a sério. Os founding fathers americanos eram exemplos de santidade moral? E a imensa maioria dos reis europeus, nosso D. Pedro I incluso? A quantidade de filhos bastardos já os desqualificaria numa corrida presidencial atual. Contra Newt Gingrich, o argumento que pegou não foi seu diletantismo (embora muito inteligente, não tem uma teoria consistente para se guiar; é mais Estado para tudo, junto com uma retórica de livre mercado), mas o fato de ter traído esposas e, acima disso, ter possivelmente proposto a uma delas um casamento aberto. O Papa S. Pio V foi um santo; mas seu reinado foi politicamente ruim para a Igreja. Sua inimiga, a rainha inglesa Elizabeth, teve amantes (e para um monarca a aura de virtude é mais importante que para um líder democrático), e foi uma das maiores monarcas da história do país. Robespierre era mais probo e honesto que Luís XVI. Savonarola, mais puro que os Médici. Quem foi o melhor líder?

A campanha de Santorum, ao apelar, antes de tudo, para "valores", apela para o que há de mais medíocre e moralista no eleitorado americano. Se ele vencer, iupi!, os americanos não precisarão temer o casamento gay e ONGs contrárias ao sexo pré-conjugal ganharão mais dinheiro e/ou apoio. E os EUA continuarão no mesmo caminho do socialismo crescente, da burocratização e controle estatal da vida humana, do déficit insustentável que se reverterá em mais impostos e da inflação da moeda; com todos os efeitos morais que essas situações engendram. Mas nada disso importa, agora que os candidatos republicanos descobriram que seus votos dependem apenas de afagar a consciência do eleitorado conservador com promessas de combate aos males terríveis deste mundo anti-cristão. A preocupação moral exacerbada por parte dos eleitores alimenta o oportunismo cínico dos candidatos, que ao invés de ideias e propostas gritam os slogans e repetem os ditames da sharia da vez.

Politicamente,a estratégia tem sido questionável. Santorum conseguiu, de saída, alienar todos os homossexuais e simpatizantes (em entrevista sua em 2003, ele disse ser a favor dos governos coibirem relações sexuais homossexuais por serem uma "ameaça à família"). Isso é um feito, pois fez com que seus valores sejam não só o motivo pelo qual é apoiado, mas também pelo qual é detestado. É duro afirmá-lo, mas vamos lá: mesmo com uma família unida e feliz é possível ser um total incompetente e ignorante no que diz respeito a governar um país.

Vejam o exemplo alternativo, de Ron Paul: pessoalmente, ele parece ser uma figura exemplar: avô, casado, médico obstetra por muitas décadas, fiel, respeitoso, amável. Nunca ficou alardeando sua família ou seus valores da família por aí. Sua campanha é baseada em ideias: ideias sobre como o governo americano deve ser e agir. A campanha de Obama de 2008 também o foi (a de 2012 dificilmente será; vai ser de contenção de danos e de aposta no pragmatismo do possível, junto com a demonização do republicano rival, trabalho que será muito facilitado se o oponente for Santorum). Nesse sentido, Romney também é superior a Santorum: sua campanha baseia-se na ideia de que o governo pode e deve ser eficiente, como uma empresa de sucesso, área na qual Romney tem experiência. Infelizmente, na hora crucial de defender a demissão de funcionários, recuou; se nem ele acredita em sua mensagem, quanto menos os eleitores! É outro que, embora moralmente exemplar, não faz da moral sua bandeira primeira; é um (e o único) Republicano plenamente mainstream na corrida.

O efeito da ascensão conservadora dos dias de hoje tem sido "moralizar" a política; elevando questões secundárias ao primeiro plano. O resultado primeiro disso foi o aumento exponencial da fofoca e da hipocrisia (já pensaram esse tipo de campanha na época do Kennedy, do Nixon ou mesmo do Reagan?). O segundo será eleger um total inepto cujo grande mérito é ter seis filhos, querer proibir a sodomia e se enxergar como um tipo de cruzado moderno contra o inimigo sarraceno. E então colheremos os tão esperados frutos do conservadorismo; e pelos frutos o conheceremos...
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