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quarta-feira, 24 de julho de 2013

Uma Defesa Cética da Homeopatia

Não acredito em homeopatia;
mas que funciona, funciona.
Volta e meia algum grupo de céticos ou de defensores da ortodoxia médica organiza um "suicídio coletivo" por overdose de homeopatia. O suicídio falha e todo mundo festeja a refutação de mais uma pseudociência. Alguns querem-na banida das farmácias e dos consultórios.

Médicos homeopáticos não se deixam intimidar; afinal, pelo mecanismo proposto pela homeopatia, uma overdose não deve mesmo ter efeito algum. (E uma infradose, menor do que a proposta pelo médico? Seria ela perigosa?). Ainda assim, os céticos provavelmente têm razão: os vidrinhos de homeopatia líquida contêm água ou álcool; as pílulas, açúcar. E é isso.

Toda a teoria homeopática é anterior à medicina moderna. Foi formulada antes que se soubesse que micro-organismos causam doenças. A teoria de que a diluição do princípio ativo potencializa seu efeito carece de qualquer base. Depois que se provou que as substâncias não são infinitamente diluíveis, e que a partir de certo ponto o esperado é que não sobre nem uma molécula do princípio ativo num frasco, foram boladas teses ainda mais inverossímeis, como a da memória da água, que também carecem de fundamentação. 

Nada disso deterá o crente; pois, dirá, apesar das dificuldades teóricas, o negócio funciona. Funciona? O teste da experiência casual é falho; se aceitamo-lo no caso da homeopatia, por que não no caso da sangria, prática terapêutica consagrada por milênios de experiência, e que na verdade piorava a saúde do paciente? (Curiosamente, o sucesso empírico inicial da homeopatia se deveu exatamente ao fato de que, nos hospitais homeopáticos, não se aplicavam tratamentos nocivos como a sangria). A experiência não rigorosa, informal, do dia a dia, não é nada confiável para aferir a eficácia de tratamentos médicos. Além disso, apesar da resistência dos homeopatas em testar seus métodos, os resultados de testes empíricos rigorosos apontam que sua taxa de sucesso não supera a de tratamentos com placebo.

É possível que esses estudos estejam errados, assim como boa parte da física, química e biologia modernas, e a homeopatia realmente funcionar pelos motivos alegados por homeopatas? É. Mas até que isso seja provado, é mais razoável crer que o remédio homeopático seja inerte mesmo, e que não passe de placebo. A questão é que pode ser um excelente placebo.

Por trás de um mesmo nome, escondem-se efeitos de intensidades muitos diferentes. Quando um feiticeiro aborígene australiano aponta um osso de lagarto na direção de um outro membro de sua cultura e recita uma fórmula mágica, este morre em poucos dias. Não porque os rituais tenham poderes sobrenaturais ou estejam baseados em crenças verdadeiras, mas porque a mente humana é poderosa, e dependendo do significado que diferentes eventos têm em uma cultura, os efeitos que eles produzem podem ir muito além do que a análise físico-química permite prever.

Nesse sentido, a homeopatia está muito bem colocada para produzir efeitos placebo. A bala de açúcar é o menos relevante; o que importa é tudo o que a rodeia. O contato frequente com um médico que conhece o paciente e se importa com ele, tentando desenvolver um medicamento único; a aparência de um processo científico e tecnológico por trás (em nossa cultura, essa percepção conta muito); um remédio do qual se toma muitas doses e com o qual se deve tomar várias precauções (já encostou nas bolinhas homeopáticas de algum conhecido para ver como ele reage?); por envolver um tiquinho assim de magia e mistério, abre nossa mente para efeitos ainda maiores do que a banalidade que é a ciência convencional. Por fim, é uma terapia que conta com crença generalizada na sociedade, sendo aceita até mesmo por instâncias oficiais do poder. Mesmo quem não crê nela tem aquele pingo de dúvida, resto de insegurança; e se for real...? Para o placebo, essa aceitação subconsciente e a contragosto já basta; talvez seja até melhor.

Assim, digo que a homeopatia é farmacologicamente inócua. Mas funciona. Funciona como placebo, e faz um ótimo trabalho nesse quesito. Por isso, não há por que ser tão contrário à ela. Para todas aquelas doenças que a mente humana sozinha é incapaz de curar, não deve de forma alguma ser usada à exclusão de tratamentos convencionais. Mas em conjunção com eles, ou sozinha para aqueles problemas mal-definidos e pouco conhecidos nos quais a própria mente está diretamente envolvida (seja como causadora involuntária, seja como fator curador), pode ter grande valia. Muitas pessoas, depois de anos infrutíferos na alopatia, passam para a homeopatia e se curam de males como alergias, indisposições, etc. Como placebo, como gatilho de efeitos psicológicos curativos, a homeopatia pode ser superior à alopatia. Não duvido que funcione até para céticos como eu. O efeito placebo ocorre mesmo quando se sabe perfeitamente que se toma um placebo, desde que se acredite que o efeito placebo funciona. Se minhas alergias piorarem, é para lá que eu vou.

Portanto, céticos, procurem algo mais útil para combater! Se, graças a seus esforços, a homeopatia perder seu efeito (como ocorre com muitas crenças tradicionais depois do contato com o homem branco, ou com remédios antigos dentro de nossa própria sociedade), e não tivermos nada para colocar em seu lugar, nossa saúde terá piorado, sem que nosso conhecimento tenha avançado um centímetro sequer. Até o dia em que consigamos produzir em tratamentos reais os mesmos efeitos placebo das medicinas alternativas (aumentando, talvez, o cuidado nos rituais e convenções que os rodeiam?), deixem o pajé, a rezadeira e o homeopata em paz! Cumprem o mesmo papel que o médico alopata, e custam bem menos ao nosso bolso.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Medindo a Felicidade

Há pouco mais de uma semana saiu um artigo no The New York Times (“Conservatives are Happier than Liberals“) que tem dado o que falar. Escrito por Arthur C. Brooks, presidente do American Enterprise Institute, o artigo não deixa dúvidas de que fala de um ponto de vista “conservador”, “de direita”, ou como preferirem. Ainda assim, tenta dar algum tipo de voz ao outro lado. Ele levanta, entre as possíveis causas dos conservadores serem mais felizes, a explicação, dada por pesquisadores à esquerda, de que os conservadores se preocupam menos com a infelicidade alheia e com as injustiças que assolam o mundo. Brooks combate essa interpretação, mas cita-a, deixando claro que sua leitura não é a única existente.
É sintomático de nossa grande mídia que, na tradução do artigo para o Estado de S. Paulo (“Conservadores são mais felizes”) esteja estampada, no topo da página, a chamada: “Uma razão: diferentemente dos liberais, eles não se preocupam com a desgraça alheia e ignoram a injustiça”. Ou seja, o que aparecia como uma opinião da esquerda que o autor citava para combater, na versão brasileira aparece como uma verdade objetiva, neutra, emitida pela realidade enquanto tal. E como a chamada é tudo que muitos dos leitores lerão deste artigo, essa é a mensagem final que a versão brasileira passa: “conservadores, felizes porque alienados”.
Mas o que me interessa não são as falhas da mídia nacional, e nem a tese de Arthur Brooks enquanto tal (a de que os conservadores sejam mais felizes), mas a premissa da qual ela e tantos outros estudos similares dependem: a de que a informação revelada pelas pesquisas de felicidade é confiável e útil.
Essas pesquisas (um exemplo citado por Brooks é esta) baseiam-se no self-report, ou seja, em respostas que entrevistados dão acerca de sua própria felicidade. Deixando de lado a possibilidade de definições radicalmente diferentes do termo “happy” ou “feliz” circularem por aí (e talvez não devêssemos deixá-la de lado assim tão facilmente…), o que a pesquisa está perguntando aos entrevistados é como eles avaliam o próprio bem-estar: se estão/são alegres, otimistas, de bem com a vida, ou tristes, desesperançosos, etc. É uma pergunta que visa conhecer algo do que se passa dentro da pessoa; cuja resposta revela, portanto, um dado subjetivo de quem responde.
O bem-estar subjetivo pode advir de uma série de fatores, nem todos eles bons ou válidos em uma consideração objetiva. Um homem que viva plenamente iludido pode estar plenamente contente em sua ilusão. Um seguidor de algum culto trambiqueiro pode sentir-se feliz e seguro com a ideia de que ele é um iluminado, embora não o seja. Esse tipo de satisfação, parece-me óbvio, embora seja subjetivamente real (o indivíduo está, de fato, feliz), não é desejável e muito menos invejável.
Se a felicidade advinda de diferentes variáveis será usada como critério para argumentos sobre a superioridade dessa ou daquela crença e estilo de vida, ou, ainda mais, para políticas públicas (e Arthur Brooks é defensor ativo de que pesquisas de felicidade tenham impacto político; aliás, o FIB, felicidade interna bruta, tem recebido atenção crescente de sociólogos e políticos), a mera opinião pessoal de cada um acerca de seu bem-estar subjetivo não é lá muito relevante.
Essa observação já deveria dar um choque de humildade nas pretensões que animam artigos como o de Brooks. Afinal, quando se escreve um artigo dizendo que certo grupo é mais feliz (dessa vez foram os conservadores; outras vezes são os solteiros, os que não têm filhos, os pobres, os ricos, os butaneses, etc.), há uma implicação implícita muito clara: eles têm algo a ensinar ao resto do mundo sobre como viver; encarnam algum tipo de ideal a ser emulado. Não é o caso. A plena felicidade (entendida como bem-estar subjetivo ao longo do tempo) é compatível com as situações objetivas menos desejáveis.
Ainda assim, se as perguntas sobre a própria felicidade revelassem diretamente o bem-estar subjetivo das pessoas, elas ao menos nos dariam uma coisa: a possibilidade de comparar as crenças (e outras variáveis) pela capacidade que elas têm de gerar bem-estar subjetivo nos homens. Mesmo isso, contudo, é difícil, por dois motivos que decorrem de uma mesma causa: não temos a observação direta do bem-estar alheio; podemos apenas confiar no que a pessoa responde.
Quais os dois problemas disso? O primeiro é que falar do próprio bem-estar subjetivo é sempre fazer uma comparação; não há uma medida absoluta, em kelvins ou gramas, de bem-estar. Cada indivíduo tem para si algum patamar que chama de “feliz”, ou um ideal mais ou menos alto que persegue, e responde com base nesse critério. Um indivíduo que espera muito da vida, e que julgue que sua satisfação módica é pouco perto do que ele poderia alcançar, pode se considerar infeliz mesmo tendo mais satisfação subjetiva (ou seja, sendo em geral mais alegre e derivando mais prazer e bem-estar de sua vida) do que outro que julgue estar já próximo do nível máximo de bem-estar. “Felicidade”, mesmo quando restrita ao âmbito subjetivo (e supondo parâmetros similares de comparação), pode significar coisas diferentes para pessoas diferentes.
Para além desse problema da comparação de respostas diferentes, temos o problema da sinceridade da resposta. Até que ponto as pessoas estão dispostas a reconhecer, para outros e para si mesmas, que não são felizes? Mesmo em pesquisas anônimas, a mentira é um fato com o qual os estatísticos sempre se deparam, e por isso mesmo tentam desenvolver métodos para reduzir suas taxas. Não tenho provas, mas poderia apostar que temas delicados como a própria felicidade geram maior grau de mentira (e uma mentira praticamente impossível de se desmascarar) e auto-engano.
Se essas características (disparidade de critérios de felicidade e relutância em dizer a verdade) forem igualmente distribuídas por todos os grupos, então não afetarão os resultados; na média, todos se compensam. Mas e se membros de certos grupos tiverem maior tendência a mentir sobre seu bem-estar? E se padrões médios diferentes do que é ser feliz vigorarem entre diferentes grupos? Daí a pesquisa estará viciada desde o princípio, e não revelará nem as diferenças médias de bem-estar subjetivo entre os grupos estudados.
Um dos resultados que Brooks revela é que quem tem crenças “extremas”, para qualquer lado, diz estar mais feliz do que quem tem crenças moderadas. Ora, quem tem crenças mais “extremas” é justamente quem julga ter entendido a realidade em maior profundidade, indo além do senso comum. A pessoa que julga ser membra de uma minoria que realmente detém a verdade sobre o homem, e que vive segundo essa verdade, não sentirá naturalmente uma certa obrigação (para si ou para a comunidade de que faz parte) de dizer que é feliz? Afinal, ela tem tudo, e ela quer convencer o mundo de que ela tem o que os demais procuram. Esse argumento não prova nada; outros processos psicológicos podem estar em jogo. Espero apenas ter mostrado como a possibilidade de mentiras sistemáticas não pode ser descartada a priori, e nem podemos supor que, na média, todos os grupos mintam em nível igual.
Suponhamos, contudo, que todos esses problemas sejam contornados – que, com diversas mensurações e testes, seja possível corrigir estatisticamente os diversos vieses. E suponhamos que os resultados de felicidade em pesquisas de self-reporting sejam usados como subsídios para políticas públicas ou como objeto de artigos que defendam uma certa visão de mundo, como o de Arthur Brooks. Suponhamos, por fim, que o público saiba desse fato.
Sabendo ou supondo que a pesquisa pode ter impacto no mundo real (via política ou mídia), os entrevistados podem tomar a decisão consciente de dizer que são felizes para melhorar a imagem de seu grupo. E portanto quanto mais utilizadas forem essas pesquisas, menos confiáveis serão.
O que se conclui disso tudo? Apenas uma postura fundamental: cautela. Números impressionantes podem revelar muito menos do que gostaríamos que revelassem. A pesquisa em que Arthur Brooks se baseia diz, concretamente, o seguinte: conservadores dizem, em média, ser mais felizes que liberais. Pessoas com crenças extremas dizem ser mais felizes do que os moderados. É possível ir além disso no estudo da felicidade? Possivelmente; mas não com base em dados como esse.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Fé, Ciência e Ateísmo: uma entrevista com Daniel Darkins

O cientista e filósofo Daniel Darkins é um dos maiores defensores da ciência e do racionalismo no debate contemporâneo entre ciência e religião. Seu novo livro, O Triunfo da Ciência, é dos ataques mais fulminantes à fé que já publicados. Darkins argumenta que a crença em Deus é a maior ameaça à existência da humanidade. Sua solução é simples: um ateísmo puro, sem meias-palavras. Nós do Ad Hominem (que somos, atualmente, compostos de três cristãos e um ateu) conseguimos entrevistá-lo para nosso blog, recém-chegado a terras brasileiras. Qualquer que seja sua posição, é importante ouvir os dois lados.

Ad Hominem: Seu livro tem sido considerado desrespeitoso, e até intolerante. Como você responde a esse tipo de crítica?

Daniel Darkins: Só posso dizer que quem diz isso não entendeu minha mensagem. Meu livro é uma súplica por tolerância. Veja, eu não tenho nada contra pessoas religiosas. Alguns dos meus melhores amigos são homens e mulheres de fé, sem falar de vários parentes. Tenho a mais profunda admiração por eles. Na verdade, eu acho até que a religião tem suas características louváveis e é um belo produto da mente humana. A própria Bíblia tem ensinamentos muito salutares. O que eu oponho, o que eu ataco com força total nos meus argumentos, é o fanatismo. Fanatismo é sustentar um dogma irracional e impor suas crenças à força sobre os demais. E isso é o exato oposto da atitude científica, que é acreditar apenas no que as evidências permitem, e com a força que elas permitem, e convencer os outros com argumentos racionais.

AH: Nesse caso, não pode o ateísmo se tornar fanático?

DD: Como poderia? O ateísmo não é um sistema de crenças que possa ser imposto a alguém. Ele não adiciona nada. É simplesmente a ausência de crença em um deus; uma suspensão de juízo. Como pode uma mera ausência ser imposta?

AH: No capítulo II [“Átomos e Fantasmas”] você explica que a religião e a ciência nascem de duas visões de mundo opostas. Você pode explicar isso um pouco mais?

DD: A diferença é simples: para o cientista, o universo é um sistema ordenado, guiado por leis objetivas que não admitem exceção. Há causa e efeito, ação e reação, gostemos ou não disso. Descobrimos essas leis observando, fazendo experimentos, usando nossas mentes. Se você saltar de um penhasco batendo os braços, esperando voar, a lei da gravidade vai destruir seus sonhos. Já a religião nega isso e exige de nós um salto de fé. Para a visão de mundo religiosa, a realidade são os caprichos de uma divindade milagreira todo-poderosa. Ao invés da razão, você tem fé, sentimentos e tradições. A marca distintiva da religião é essa crença num deus, ou ao menos num reino espiritual; essa é sua essência. E se você passa a vida olhando para o céu, vivendo entre os espíritos, então a terra não importa muito. Portanto é natural que quem se preocupe em melhorar a vida aqui, neste mundo, sejam os cientistas, os ateus – eu uso os dois termos indiferentemente – enquanto os religiosos sonham com o outro lado. Se isso não é moralmente e intelectualmente falido, o que é?

AH: Pode haver ética sem religião?

DD: Pode haver ética sem ateísmo? Seguir ordens de um tirano por medo da punição não me parece muito virtuoso. O humanismo secular é o único código de valores que não depende de ameaças de danação eterna ou da expectativa das delícias do céu, mas do amor pela humanidade. Um amor livre para pessoas livres que vivem neste mundo; fazendo a coisa certa porque ela é certa. No fundo, ateísmo é isso: amor aos homens.

AH: Mesmo assim, quando contemplamos o universo, ou mesmo a face de uma pessoa amada, sentimos um maravilhamento que nos diz que a realidade é complexa e bela demais para ser sem significado. A religião captura esse sentido do sublime. Como um ateu se relaciona com isso?

DD: O ateísmo apenas reforça esse sentimento. Quando olho a Via Láctea, com todas as suas estrelas e planetas, sou tomado pelo maravilhamento. Essas coisas são deslumbrantes em si mesmas, sem referência a um deus. Mesmo porque, como poderia um deus invisível nos maravilhar se nunca o vimos? Olhe para o homem: existe alguma coisa mais admirável que o corpo humano? Nosso cérebro, nosso coração, nosso sistema digestório: como a comida desce por nossos intestinos enquanto nosso corpo absorve lentamente sua água, até chegar ao reto e jorrar ânus afora. Para mim, isso é sublime. Eu também amo poesia, música, arquitetura, gastronomia, um bom whisky. A cultura e as artes elevam o espírito humano e nos dão significado melhor do que qualquer religião.

AH: Alguns líderes religiosos consideraram seu livro profundamente ofensivo e aconselharam seus fiéis a não lê-lo. O que você pensa disso?

DD: Honestamente? Eu não esperava outra coisa. É o mesmo tipo de fanatismo que mandou Galileu à fogueira por dizer que a terra é redonda. Os muçulmanos queimam embaixadas por uma caricatura de jornal. As autoridades cristãs adorariam banir meu livro e me colocar na prisão, no mínimo. Tudo o que eu peço dos crentes é que eles mantenham suas mentes abertas. Religião e liberdade de pensamento não caminham muito bem juntos. Agora, o que eu considero ofensivo são a santa inquisição, a caça às bruxas, as Cruzadas, o Index dos livros proibidos, a jihad; tudo feito em nome da fé.

AH: Sua leitura da história não é um pouco parcial? E todas as coisas boas que a religião já fez ao longo dos séculos?

DD: Existem alguns templos e igrejas bonitos, e umas músicas religiosas relaxantes, isso eu concedo. Agora olhe para as coisas boas que a ciência já fez. Computadores, aviões, carros. Você não pode encher o estômago com arte. Com ciência e tecnologia nós agora vivemos vidas mais longas e melhores. Como eu argumento no capítulo 9 [“Julgando o Juiz”], vamos supor que Jesus tenha mesmo multiplicado um pão em milhares. Mesmo nesse caso absurdo, a ciência ainda seria superior, porque ela multiplicou não só o pão, mas todas as necessidades da vida, mais do que um milhão de vezes. Então quem é o verdadeiro salvador?

AH: Ainda assim, muitas atrocidades também foram cometidas por regimes e governantes ateus, especialmente no século XX. Stalin é um bom exemplo.

DD: Sim, Stalin; os crentes acham que podem classificá-lo de ateu. Eles convenientemente se esquecem de Hitler, um cristão devoto. Quanto ao Stalin, embora ele fosse superficialmente ateu, seu fanatismo era religioso. No caso dele, sua religião era sua ideologia. Uma religião sem deuses ou espiritualidade, mas ainda assim uma religião em suas características essenciais. É por isso que eu classifico a URSS e a China comunista entre as nações religiosas ao calcular as mortes causadas pela religião no capítulo III [“Alguns Fatos”]. É isso que acontece quando a razão dá lugar à fé.

AH: Se a religião é intelectualmente, moralmente e historicamente indefensável, como você explica que tantas pessoas tenham algum tipo de religiosidade?

DD: A religião oferece algo que as pessoas desejam. Um deus que se importa com você; vida após a morte; sentido; paz de espírito; uma razão simples para ser bom com seu vizinho. Ela pinta um mundo cor-de-rosa e bonitinho de felicidade e amor, e isso produz um sentimento acolhedor. Que homem não quereria isso? A mente humana se engana com muita facilidade. O ateísmo oferece o mundo como ele é: um universo duro, frio e impessoal, cada um por si, sem perdão vindo de cima para passar a mão em nossas cabeças. Isso requer coragem e força mental.

AH: Você concorda, então, que a religião pode ser boa psicologicamente?

DD: De jeito nenhum. Veja, eu cresci numa família católica muito tradicional. Meus pais eram crentes muito rigorosos, então falo de experiência pessoal. Tínhamos tudo: Deus, Jesus, a Virgem Maria; íamos à Missa, sem falta e sem exceção, toda Páscoa; o pacote completo. No início eu os acompanhava, mas conforme amadureci e comecei a pensar nessas questões, percebi que a religião nada mais é do que tortura mental. Há essa culpa pelo pecado, esse medo do inferno, que são crônicos. Paz e amor são uma casquinha inócua que esconde a obsessão com o pecado. Depois de considerar com cuidado todas as possibilidades, eu finalmente decidi abandonar a fé e abraçar o ateísmo, e foi só daí – eu já tinha quase treze anos – que encontrei a paz de espírito.

AH: Alguns defensores da religião afirmam que fé e razão não se excluem mutuamente. Eles tentam provar a existência de Deus racionalmente, por exemplo com as cinco vias de Tomás de Aquino. Qual sua resposta a esses argumentos?

DD: As cinco vias de Tomás de Aquino, a causa primeira e todos os argumentos similares talvez tivessem algum peso num passado distante. Mas hoje em dia temos conhecimento científico o bastante para ver como suas premissas estavam erradas. Elas dependem de modelos ultrapassados, com noções metafísicas como, por exemplo, causa e efeito. Os físicos quânticos e filósofos modernos já provaram que não existe causa e efeito; a suposta ordem do universo não passa de uma frequência estatística casual. A assim chamada “realidade objetiva” depende tanto do observador quanto de qualquer lei externa. A fé ingênua num universo objetivo e ordenando não faz mais sentido.

AH: E nossa consciência moral, nosso sentido de certo e errado? Isso não aponta para Deus?

DD: Se você quiser provar Deus usando a moralidade, terá que provar a moralidade sem usar Deus, o que é impossível. Como a biologia mostra claramente, todos os nossos desejos e impulsos são determinados pelos genes. Todos os nossos pensamentos e ações são obra de genes tentando propagar a si mesmos; a ética, o amor desinteressado, são invenções muito engenhosas de alguns genes egoístas para se replicar melhor do que outros. Como a arte e a cultura, ela não passa de secreção do cérebro. O homem é um veículo de genes egoístas. Desista: o ateísmo está positivamente demonstrado de todas as formas possíveis.

AH: Bem, então quais os seus argumentos para provar que Deus não existe?

DD: Em primeiro lugar: qual deus? [risos] Estamos no século XXI; você ainda precisa de argumentos? Nós dividimos o átomo; os mamíferos vieram dos répteis; crianças morrem; é óbvio que Deus não existe.

AH: No último capítulo do seu livro, “Por uma Sociedade Livre”, que é também o mais polêmico, você defende que o ensino religioso seja banido de todas as escolas, públicas e privadas. Isso não violaria o direito dos pais de educar seus próprios filhos?

DD: Não existe direito de fazer lavagem cerebral e violentar crianças inocentes. Você permitiria que uma escola ensinasse o mito da fada do dente aos seus filhos como se fosse verdade? E se a fada do dente fosse um tirano sádico todo-poderoso que gosta de torturar pessoas pela eternidade? Eis o cristianismo. A Bíblia é um bom exemplo: tem tanta violência e obscenidade ali; qualquer outro livro que dissesse a mesma coisa seria proibido para menores. Eu peço apenas que todas as publicações sejam tratadas com igualdade. Temos que proteger as crianças do meme de Deus. É isso que a religião é: um meme, um vírus da mente. Se temos vacinação obrigatória contra tantas doenças, por que não contra essa? É uma questão de saúde pública. Não tenha ilusões: todo crente é um homem-bomba potencial que está apenas esperando o comando de seu deus para nos explodir. Não dá para confiar em nenhum.

AH: A teoria da evolução acabou com a necessidade de Deus?

DD: Sim. Ele é um conceito supérfluo, uma entidade desnecessária. A seleção natural explica a diversidade da vida. Eu trabalhei com um time de programadores para provar isso. Uma vez que você elabore as regras do sistema, defina os parâmetros e introduza algumas entidades, elas se desenvolvem e mudam por conta própria, sem necessidade de deus algum.

AH: Como surgiu a vida?

DD: Isso é algo que os cientistas ainda estão pesquisando. Não sabemos ainda como o primeiro organismo unicelular apareceu na Terra, mas eu tendo para a hipótese do asteroide que colidiu com nosso planeta trazendo formas de vida microscópicas.

AH: E quem, ou o quê, criou essas formas de vida?

DD: Alienígenas altamente desenvolvidos.

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