segunda-feira, 10 de março de 2014

A Perseguição aos Melhores

Envy will Merit as its Shade pursue,
But like a Shadow, proves the Substance true;
For envy'd Wit, like Sol Eclips'd, makes known
Th' opposing Body's Grossness, not its own.
(Pope)
Ao ler uma biografia do dramaturgo Corneille ("Corneille le grand"), não deixa de espantar-me que o levante dos medíocres, tão logo um homem faça algo de extraordinário, seja quase uma lei da História. De fato, Corneille viveu tranquilo, e até com honras, enquanto se contentou em mostrar um talento que praticamente se resumia ao bom-gosto. No dia, porém, em que decidiu mostrar ao mundo seu verdadeiro potencial, com a extraordinária peça Cid, uma sombra pairou sobre seu nome. O Cardeal Richelieu, antes um afetuoso admirador, pôs em seu encalço a própria Academia Francesa, que redigiu um relatório duríssimo contra Cid, coisa que muito magoou Corneille. O escritor Scudéry, na época um figurão, que já havia sido elogiado publicamente pelo nosso poeta (então ainda um iniciante), atacou-o com tal veemência que até hoje os biógrafos tentam compreender os motivos da agressividade repentina - em vão.

Provavelmente o próprio Corneille acertou na mosca quando, diante de tantos ataques inesperados e críticas comezinhas vindas de tão alta gente, atribuiu tudo aquilo ao imenso sucesso do Cid perante o povo francês. De fato, o sucesso parece converter bons amigos e gente outrora amável numa alcateia intransigente, buscando o menor calcanhar descoberto para abocanhá-lo - não por fome, nem mesmo por esperança de derrubar a vítima definitivamente, mas - no sentido veterinário do termo - por raiva. O caso de Corneille não é uma exceção: antes é a regra mesma. A classe universitária francesa, que rejeitou o trabalho promissor de Augusto Comte porque o autor não possuía diploma ginasial, perdendo assim a chance de laurear-se com um pedacinho da coroa de glórias positivista, não é, nesse aspecto, tão diferente da brasileira - que negou a Jorge Luís Borges o cargo de professor da UnB, simplesmente porque aquele argentino imenso não possuía doutorado.

As muitas tentativas, por parte de pessoas de status e representantes da classe intelectual, de atrapalhar e até eliminar por completo a carreira dos homens de gênio, não são levadas a sério pelos intelectuais que lhes sucedem - tratamo-las como erros menores ou desculpáveis, coisa pequena, ou então uma tolice feita por pessoas particularmente burras ou invejosas. Longe disso: a prática é de tal modo disseminada que pareceria uma tradição rigorosa cujo brilho ofusca mesmo as longas linhagens filosóficas - pode-se dizer que a inveja é a mais antiga e renitente escola de pensamento da Humanidade. E a recusa a registrar esses lamentáveis episódios, compilá-los e reavaliá-los, a recusa a criar essa essencialíssima disciplina chamada "História da Inveja", só se explica ou pela inconsciência entorpecida do pecador reincidente, ou por intenção explícita de enterrar tais dolorosos crimes de modo que, na ausência dos exempla que tornariam claras ao público suas culpas, possam renová-las mais confortavelmente.

Se é verdade que tais pecados se cometeram também na Europa e no resto do mundo, não fica por isso privado o Brasil de alguma peculiaridade. Na França, de fato, um homem pode recear ter sido feito à maneira de Corneille - já que isto significa isolamento, perseguição e miséria por obra dos incansáveis medíocres - mas o Brasil é um dos poucos lugares do mundo em que o temor se estende aos mais comuns dos homens. Basta um escritor saber usar linguagem figurada, um poeta saber metrificar, um filósofo, filosofar, um trabalhador, trabalhar; até o intelectual, tão logo se veja sabendo algumas coisas, surpreender-se-á com um rosnar vindo de todos os lados, e ficará perplexo - como eu fiquei algum tempo atrás - por ter crido, ingenuamente, que era normal saber algumas coisas depois de estudar um pouco. Descobrirá, como descobri, haver um pacto tácito, mantido nas sombras e só acessível mediante os rituais iniciáticos da academia, segundo o qual ninguém pode saber nada que preste, sob pena de ficar sem saber muitas coisas em si mesmas irrelevantes - que lhe garantiriam, porém, a aprovação ou pelo menos a tolerância de seus pares. Ora, nosso intelectual, embora soubesse que os gênios sofriam perseguição, nunca desconfiara que lhe bastaria saber de verdade as coisas simples que todos fingiam saber, nunca cogitara que seria suficiente trabalhar com um pouquinho de dedicação e seriedade, para atrair sobre si o ódio e a intriga gerais.

Contudo, alguns colegas caridosos lhe oferecerão, neste momento, uma segunda chance, uma mão amiga, com a seguinte condição: que ele finja não saber o que sabe, e finja que eles sabem o que não sabem - numa palavra, que ele trate com desmerecido respeito e servil deferência esses mesmos colegas que não cumprem os requisitos básicos da posição que assumiram. O motivo que lhe oferecem, como pobre substituto para o juízo crítico normal, é a amizade que podem devotar-lhe - uma amizade falsa, de ocasião, que na linguagem popular é conhecida como rabo-preso: coça minhas costas, que coçarei as tuas. O drama que não lhe revelam é que, caso assine a aliança, estará imediatamente aderindo ao princípio gerador e regulador do atual estado de coisas. Tão-logo o homem dedicado, ou pior, o gênio, aceite aplaudir e tratar como iguais aqueles que se encastelam indevidamente em postos de autoridade, ele confirmará e revigorará, pela força verdadeira do seu talento e da sua dignidade, a ilusão que sustenta esses farsantes em postos que não merecem nem querem merecer. Por essas chantagens psicológicas, eles forçam os bons a autorizarem publicamente uma conduta que não aceitariam em si mesmos, e perpetuam o esquema que substitui a vocação autêntica e o trabalho duro por um vergonhoso toma-lá-dá-cá, uma troca de sorrisinhos marotos, numa palavra, a vagabundagem intelectual.

Ao perceber esses horrores, todo indivíduo dotado de alguma sensibilidade moral tem obrigação de, rejeitando toda proposta indecente, não apenas fazer o seu trabalho com máxima perfeição, mas também preparar-se, por todos os meios disponíveis, para fazer frente aos usurpadores quando chegar a hora, anotando uma por uma as monstruosidades que presencia, e reunindo a documentação que tornará possível, senão extirpar o mal, contê-lo e reduzi-lo durante algum tempo. E isso só se pode fazer se houver, como contraparte, uma grande tolerância e benevolência para com aqueles que, mesmo sendo ineptos no presente momento, tenham firme intenção de fazer jus aos cargos que ocupam ou pretendem ocupar. Devem concentrar-se as energias naqueles que fazem o mal, não por simples despreparo, mas por má consciência, por decisão de fingir e de abusar da confiança pública. Nesta guerra, os incultos são aliados dos cultos, contanto que sejam todos sinceros, humildes, honestos. Não se trata de simples combate à burrice, pois esta burrice é apenas a vestimenta provisória do mais velho inimigo do homem: o mal ele mesmo, a mentira, a farsa. Devemos, portanto, ter fé na lição de Pope: se não cedermos aos blefes dos malignos, se não consentirmos em prostituir-lhes nossa virtude e nosso engenho, a escuridão da mentira acabará por reforçar o próprio brilho da verdade, e os servos das trevas, como um eclipse, passarão.