quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Sobre o Trivium e certas trivialidades

Tenho algumas observações a acrescentar ao último texto de Ronald Robson, no qual fui honrosa e talvez imerecidamente mencionado. Evidentemente, eu e Ronald concordamos que
a 1) tendência a introjetar uma série de posturas  desprovidas de articulação mais refinada frente à nossa situação concreta, aos nossos problemas pedagógicos e civilizacionais, 2) a ausência de discussão da suposta validade intrínseca dessas posturas (sejam métodos propriamente ou não), 3) a letargia advinda de um estetismo da alta cultura, que se compraz mais no encômio do que na prática, e 4) a própria indiferença à análise do problema da adequação entre o sentido da cultura e a transitoriedade das conjunturas levam-nos, mais uma vez, a trair qualquer compromisso sério que queiramos estabelecer com o nossa situação e seus verdadeiros anseios.
E essa é a suma do texto e das intenções de meu colega. Fica claro, portanto, que este texto não apresentará exatamente o que se chama de "discordância", mas algo mais próximo da ideia de "retificação" ou até "desenvolvimento" da mesma tendência fundamental. Talvez eu não faça mais, na verdade, que esclarecer aquilo que o artigo anterior deixara encoberto ou em meia-luz.
 
O apreço pelo trivium pode basear-se, é claro, num esforço apologético inconsciente - e neurótico. Recentemente comentei com um amigo que certos hangouts católicos usam nomes em latim para expressar um zelo pela tradição que, ao conferirmos os casos gramaticais desses mesmos nomes, percebemos que eles não possuem de modo algum. Um católico que faz pouco caso de aprender a língua da tradição, enquanto se esforça por representar essa mesma tradição com sua própria pessoa, é definitivamente um neurótico, um cindido. Diante da impossibilidade de deixar de ser o que é, opta pela alternativa mais eficaz a curto prazo: fingir. Dum lado, aquilo que ele gostaria de ser, mas cuja essência nem saberia precisar; doutro, a imundície que vê em si mesmo e ao seu redor. A realização do ideal pressupõe sua concretização; concretizá-lo requer conhecê-lo em si mesmo, em sua natureza íntima; conhecê-lo exige um esforço de anos, talvez décadas. A alternativa é tomá-lo por características superficiais, talvez acidentais ("voltar à Idade Média", que não é senão uma circunstância histórica que lhe parece simbolizar esses ideais), que facilitam a imitação - uma solução imediata e indolor. O emplasto Brás Cubas.
 
Mas os admiradores das artes liberais podem justificar-se em terreno mais seguro. Longe de ser um modelo circunscrito à Idade Média, o esquema do trivium já existia na Antiguidade e durou, com fixidez impressionante, até fins do século XVIII, quando começou a ser gradualmente mutilado pelas pretensões enciclopedistas e por doutrinas espontaneístas e sensorialistas. A essência do trivium, como fenômeno intelectual duradouro, é a convicção de que o domínio da linguagem é condição imprescindível para qualquer estudo posterior. Pode-se especular que a lógica caiu, por volta do século XVII, porque foi dissociada da linguagem, transformada num fetiche ou numa ciência distinta - em outras palavras, foi excessivamente associada à filosofia como disciplina específica. Mas o trivium só se desfez completamente, tornando impossível qualquer regeneração espontânea, quando a retórica foi decepada da linguagem literária, tornando-se mero adorno - uma joia de perua - e, portanto, causando a destruição da pedagogia dos gêneros e do decorum. A partir desse momento, Goethe não era mais possível - ou pelo menos não era mais verossímil. Nesse sentido, não seria exagero afirmar, com Curtius, que a civilização medieval só acabou no século XIX. Ora, um esquema pedagógico que durou tanto tempo e formou tantos de nossos ancestrais não pode deixar de despertar alguma admiração razoável - especialmente quando depois dele veio tanto lixo e tanta confusão.
 
[Quanto aos grandes intelectuais do século XX, qualquer um que decida ignorá-los (no sentido de não usá-los como modelos) fá-lo licitamente, se alegar prudência. Olhada de perto, a menor formiga pode parecer enorme: é preciso algum afastamento para julgar seu real valor e, só então investigar quais foram as condições de sua formação. Eu particularmente opino que descobriremos, algum dia, que esses homens foram excepcionais, no sentido de exceções; que sua educação foi bem diversa da tendência majoritária, e que se ligou às práticas adotadas pelos séculos anteriores.]

Isso quer dizer que as artes liberais não consistem de um currículo totalmente fixo, ou de um único método pedagógico: pode-se interpretar nessa chave o apelo de Ronald a um sentido por trás desses valores e métodos. Essa expressão, porém, periga tornar-se demasiado vaga, e justificar qualquer tipo de estudo disperso - o feitiço se voltaria, então, contra o feiticeiro maranhense, atacando por outro flanco a mesma virtude que ele defende em seu texto. Qual é a natureza desse sentido geral? Como saber se o estamos seguindo? Há nele algum elemento concreto permanente?
 
Primeiro, é preciso evitar a concretização impulsiva, isto é, a busca de referências colhidas ao acaso pelo simples sentimento de urgência, que leva alguns a lerem Macróbio e Bernardo Silvestre - como se precisassem ser eruditos para obter uma educação liberal. A erudição é tarefa dos estudos avançados e específicos, e não dos exercícios preparatórios. Outra possibilidade é a confusão entre uma cultura, uma concepção filosófica, uma religião e um período histórico. Essa talvez seja, mais precisamente, a neurose do apologeta discutido anteriormente. Ele antes projeta uma imagem da Idade Média, do que realmente se dedica a compreendê-la; não se pode dizer, então, que seu defeito seja querer aplicar as mesmas soluções a circunstâncias distintas, mas (o que é pior) nem sequer saber quais foram exatamente as soluções aplicadas aqui ou lá. Os defensores do "trivium" não pretendem, suponho eu, ensinar tudo em latim - mas era assim que se fazia na Idade Média! Em suma, o apologeta busca uma saída simples e objetiva, mas não em fontes históricas ou na filosofia, e sim em si mesmo - nas suas atuais concepções de como tudo deveria ser. Tendo feito essas ressalvas, pode-se dizer que sim, há alguma concretude na forma geral do trivium. Essa concretude coincide com a evolução da nossa própria cultura.
 
Quero dizer, com isso, que faria pouco sentido buscar um currículo ou metodologia de base na China, quando nascemos dentro de uma tradição cultural que evoluiu de seu próprio modo. Não há motivo para reinventar a roda, ou buscar, por exemplo, novos grandes poetas antes de conhecer os antigos - nos quais esses novos invariavelmente se baseiam. Conheci uns professores de literatura brasileira que se empolgavam muito com a possibilidade de descobrirem um "novo Drummond", nem suspeitando que não haviam ainda descoberto o velho. Pois quem é o Drummond de Claro Enigma, o odiado Drummond "neoclássico"? A Máquina do Mundo, de onde vem? Não há nada mais suspeito que um crítico literário que lê todas as novidades dos salões, mas não tem nada a dizer sobre Píndaro ou Ovídio. Esse é o caso de todos os nossos, com exceções que mais suponho, por verossimilhança, do que conheço.
 
Nada disso nos obriga ao abandono da província. Trata-se, ao invés, da redescoberta da província, não como "cultura primitiva" (no sentido elogioso dos românticos piegas), mas como nova matéria: um metal diferente no qual a arte antiga, se bem aplicada, produzirá novas armas. O próprio convite de Robson a valorizar João Francisco Lisboa, classicista de escol, é uma confissão de que os clássicos europeus não foram impróprios a nossas circunstâncias ou inférteis em nosso solo. Descobrir a província requer, sem dúvida, entendê-la; e entendê-la requer tornar-se um pouquinho europeu - no sentido de absorver a base da cultura europeia, e não de permanecer "atualizado" com qualquer porcaria que lá se faça. Eis o aparente paradoxo: para que surja a província, a metrópole precisa ser respeitada. Deixando de lado tanto a cópia servil quanto o desprezo afetado, aprenderemos a devoção filial: é da metrópole que nos nutriremos nos primeiros anos, é dela que aprenderemos a dar os primeiros passos e a falar as primeiras palavras. E é dela também que nos emanciparemos, como Lisboa ou d'Assis, com amor e naturalidade. Não como quem renasce das cinzas, não como quem esquece donde veio; mas como quem parte para uma nova jornada, sob as lágrimas espontâneas da mãe e a bênção, meio orgulhosa e meio conformada, do pai.