quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Fides et Caritas: o limite da exigência teórica do evidencialismo ateu*



O ateísmo é um fenômeno complexo e multifacetado. No entanto, há um tipo de ateu que diz não acreditar em Deus por falta de evidências. O postulado mais robusto foi formulado pelo matemático e filósofo britânico W.K. Clifford (1845-1879) em seu livro A Ética da Crença: “é errado sempre, em todo lugar e para qualquer um, acreditar em alguma coisa com base em provas insuficientes (crer sem evidências suficiente)" (CLIFFORD, 1877, p. 309)**. 

Por consequência lógica e coerência moral, pode-se concluir, então, que este tipo de ateísmo não poderá aceitar manter qualquer relação de “amor” ou de “amizade” por ser incapaz de provar e evidenciar, lógica e epistemologicamente, seu amor por alguém ou provar e evidenciar, logica e epistemologicamente, o amor ou amizade de alguém por ele.

Quando alguém diz "eu te amo", essa expressão não traz a evidência que garantiria a sua veracidade. Entre o discurso erótico e o discurso religioso há uma semelhança congênita. Eles partilham, pelo menos nesse ponto, dos mesmos dilemas humanos e os sérios problemas filosóficos não se reduzem a puros joguinhos de linguagem.

A expressão "eu te amo", por exemplo, não tem outra referência a não ser a experiência imediata interna de quem a pronuncia. Neste sentido, tal como a experiência religiosa, não há como comprovar ou verificar a sua veracidade por algum tipo de experiência pública. “Provas de amor” são todas pragmáticas, isto é, verificadas pela experiência de conduta e mudanças de hábitos motivados por crenças -- que não são garantias de veracidade lógica desse tipo de proposição, mas são manifestação de experiências humanas significativas e concretas. 

Esse tipo de proposição não gera uma referência ao qual possa ser evidenciada e verificada em comunhão direta, ou seja, apenas intersubjetivamente consentida por meio de um ato de fé (fides), isto é, o assentimento àquilo que é inacessível ao conhecimento teórico, porém consentido naquilo que é necessário pressupor como condição fundamental para o estabelecimento de vínculos maduros entre as pessoas. Em última análise, a crença não lida com o estatuto lógico ou empírico de proposições, mas com a deliberação voluntária diante de dilemas humanos.

Ademais, ser ateu não tem nada a ver com "exigências teóricas", antes tem muito mais a ver com a recusa deliberada e existencial da ordem transcendente, infinita, que fundamenta a nossa finitude. O ateísmo legítimo, isto é, não evidencialista, só pode se dar na tomada de consciência dessa diferenciação derivada da experiência deliberada de recusa e não aceitação de Deus. 

O vivo reconhecimento da hipótese "Há Deus" (ou “Não há Deus”) não diz respeito tanto à propriedade lógica (ou epistemológica) intrínseca dessa hipótese quanto diz respeito primeiro à relação que esse reconhecimento mantem com a experiência radical de um homem concreto vivendo (ou em busca de viver) uma vida significativa. Assim como a proposição “eu sou seu amigo”.

A verdade, é que não interessa tanto saber se a proposição “Deus existe” (ou Deus não existe) é racional ou irracional, o que está em jogo é o quanto essas hipóteses motivam crenças e, por isso, a disposição da vida de um homem para agir conforme sua concepção de mundo. O estatuto da fé acompanha fundamentalmente o estatuto da liberdade.

A tomada de consciência da possibilidade de autoafirmação e negação radical do nosso estatuto de criatura, da nossa recusa em reconhecer que somos finitos e insuficientes não têm nada a ver com teoremas lógicos e “evidências” empíricas. O ateu sério reconhece essa fratura ontológica em sua natureza humana: Fé e Amor (Fides et Caritas) impõem, decisivamente, os limites a certas exigências estúpidas.

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http://www.franciscorazzo.com/wp-includes/js/tinymce/plugins/wordpress/img/trans.gifHá duas possíveis objeções que podem ser feitas a esse tipo de comparação. A primeira, mais fácil de ser refutada, deriva de uma concepção reducionista das experiências de subjetividade e tem apoio no que vou chamar de “reducionismo materialista neurocientífico”. A segunda objeção, por sua vez, deriva de um postulado filosófico e tem apoio em concepções epistemológicas da subjetividade.

1. O reducionismo materialista neurocientífico postula a tese segundo a qual a neurociência pode provar explicar a experiência do amor – e até negar a legitimidade da experiência religiosa – mediante o mapeamento do cérebro. O problema em defender a tese de que a neurociência faz um mapa do cérebro e a partir disso consegue dar explicação definitivas acerca do estatuto da experiência do amor e de outros sentimentos não refuta o que foi apresentado por algumas razões:

Primeira razão. Mapear o cérebro, seja lá qual for a tecnologia empregada, não significa evidenciar a experiência interna da qualidade de quem pronuncia, por exemplo, a expressão "eu te amo". Confunde-se o estatuto científico do “experimental” com o estuto da vivência significativa dada pelo “experiencial” (Jean Mouroux, em L’expérience chrétienne, distingue o experiencial, como o que diz respeito a uma experiência estritamente pessoal, do experimental, como o que está limitado ao âmbito da experiência científica).

Pode-se mapear e precisar que certos estados mentais de sentimentos são localizados em tal região do cérebro, mas não dá pra dizer nada a respeito da evidência da experiência interna e significativa de quem pronuncia experiencia o sentimento do amor e partir do qual fundamenta o discurso amoroso (e religioso). A subjetividade – domínio do sentido experiencial da pessoa – impõe um limite intransponível ao método científico – domínio da explicação experimental.

Segunda razão. A atividade de 'mapear' qualquer coisa, ou seja, esquematizar uma "topografia" depende de uma série de referências pressupostas a partir de um complexo processo de abstração. Tal quadro de referências (agora localizada no mapa) não pode ser dado pelo próprio mapa. Seria como tentar viajar à Paris só indicando com o dedo "Paris" no mapa da Europa. Todo mapa do cérebro é derivado de referências externas a partir do que está sendo vivenciando internamente.

Terceira razão. A neurociência não "prova" o amor ou a existência de sentimentos, na verdade, só localizada no mapa, previamente referenciado, d'onde as expressões, os enunciados de sentimentos etc são neurologicamente "gerados", porém não qualitativamente vivenciados.

Quarta razão. Quando alguém diz "eu te amo", a experiência de amor não começa no "eu" e termina em um "tu", mas ao contrário, começa no "tu" e termina no "eu". E o procedimento de mapear os sentimentos internos utilizado pela neurociência não pode nos dizer absolutamente nada do objeto externo ao qual a experiência interna de amor, mapeada, faz referência: o TU do "Eu TE amo" não aparece no mapa na neurociência.
Dizer que a experiência religiosa é só uma experiência no cérebro e disso concluir que Deus não existe, ou de que não há evidências pra existência de Deus, é como dizer que a água não existe, porque a sensação de sede é só uma experiência localizada em certa região do cérebro. Ou negar a existência do amado por que a neurociência provou o acontecimento de uma experiência β na região α do cérebro.

Em vista disso, o reducionismo materialista neurocientífico não prova nem o “amor”, caracterizado, essencialmente, por uma relação entre amante-e-amado, e nem a validade da expressão “eu te amo”, assegurada exclusivamente pela experiência de qualidade interna de quem pronuncia o sentimento de amor em relação ao amado.

2. A outra objeção nos aponta para um problema de natureza filosófica a partir de uma falsa analogia entre os objetos de conhecimento. Problemas de natureza ontológica e epistemológica são aqueles que marcam o estatuto dos objetos e a relação entre o sujeito que conhece tais objetos. Mostrarei que tal objeção, nesse caso, pode confundir uma coisa com outra e não atacar com precisão o nosso problema.

O objetor diz: A ideia que temos de amor remete a certo tipo de "experiência", "de vivência", "de sentimentos" que, por mais abstratos que sejam quando tomados em si mesmos, ainda assim, são suficientemente concretos para que reconheçamos sua existência. A "fome" afetiva que sentimos, de certa maneira, remete a algo razoavelmente experienciável. Já a experiência religiosa tem como referência também essas experiências, mas remetendo-as a um ente muitíssimo menos "evidente", menos "concreto" que a experiência de amor por um determinado ser humano singular*.

Em outras palavras, uma coisa é saber que se ama alguém de carne e osso, singular. Por exemplo, “Eu, João, amo Luiza”. Tal conhecimento pode ser partilhado, comungado empiricamente, outras pessoas além de João podem “ver” Luiza, isto é, o “te” do “eu te amo” se refere a algo de concreto: Luiza existe de fato!

A experiência de amor pode até ser, mas Luiza efetivamente não é fruto da fantasia de João. Outra coisa completamente diferente é a referência à existência de Deus, o conhecimento de Deus não aponta para “nada”. Mas até aqui não há nada de problemático, pois toda a tradição da teologia mística, ou apofática/negativa (inaugurada pela interpretação de Plotino à filosofia platônica) tem, como eixo central, esse caminho: Deus é como o “inexprimível, o inconcebível, o invisível e o incompreensível, aquele que vence o poder da língua humana e ultrapassa a compreensão do pensamento” (João Crisóstomo, Sobre a incompreensibilidade de Deus, III).

Apesar da aparente dificuldade em que esse tipo de objeção nos coloca, a verdade é que ela não toca exatamente no problema em questão. O que aparece como um beco sem saída se revela como um falso problema. O núcleo do nosso texto é mostrar que certo tipo de ateu, que diz não acreditar em Deus por lhe faltar evidências de sua existência, não poderia, por esta mesma razão, aceitar o amor ou amar alguém, porquanto é igualmente impossível dar evidências da veracidade da expressão “eu te amo”. 

Sendo assim, o problema não recai na discussão do estatuto do objeto, mas na validação epistemológica da experiência. Se o ateu não acredita em Deus por falta de evidências, também não pode fundamentar os seus vínculos amorosos ou de amizade. 

A objeção não invalida nossa tese, pelo contrário, corrobora: se a experiência religiosa tem como referência também essas experiências, ora, então sua analogia epistemológica está assegurada, porém a ideia de que ela se refere a um ente muitíssimo menos evidente, menos concreto que a experiência de amor por um determinado ser humano singular não entra, nesse caso, em questão. 

Uma vez que o sentido da analogia é de natureza epistemológica e não ontológica: é impossível, por sua natureza, evidenciar o conhecimento que se tem de "Deus", tal como é impossível, também por sua natureza, evidenciar o conhecimento da expressão "eu te amo", mesmo que eu veja Luiza na minha frente, que João me mostre “Olha, esta é Luiza, a mulher que eu amo!”, jamais poderei ver (e portanto saber) o amor que João tem por Luiza diretamente.

* Esse texto foi publicado pela primeira vez em Fides et Ratio

**Há uma crítica de William James em A Vontade de Crer que aborda outra aspecto do problema.