terça-feira, 19 de novembro de 2013

Bruno Tolentino pega Gripp

Há uma discordância mais ou menos tácita, da parte de alguns conservadores de nível universitário, para com a afirmação de Olavo de Carvalho de que Bruno Tolentino é "a voz mais alta na língua portuguesa desde Camões". Não posso tomar a frase do filósofo por minha, e tampouco impugná-la com conhecimento de causa. Tenho a impressão clara de que a poesia de Tolentino está entre as melhores coisas que nosso país produziu, e que será lembrada no futuro, tão logo nossa educação de nível superior se torne digna do nome. Essa impressão, contudo, não pode ser provada ou aprovada sistematicamente sem um domínio técnico e uma cultura literária maiores do que possuo. Meu objetivo não é, portanto, demonstrar a "genialidade" de Tolentino, mas exemplificar a estupefaciente incompetência das críticas que se têm feito a ele, retirando daí, evidentemente, algumas lições que julgo poderem favorecer a sensibilidade literária dos leitores deste blog.

Pois se é verdade que a qualidade de Tolentino está ainda por ser provada, a inépcia de seus detratores atuais às vezes parece justificar, pelo extremo contraste, qualquer coisa que ele tenha escrito. Tomo, assim, o exemplo de Bruno Gripp, professor universitário e, nas muitas horas vagas, crítico literário de internet, que me parece o mais qualificado dos atuais murmuradores; se até agora eu nunca tinha visto mais que rumor, desta vez tenho em mãos a sua análise completa de um poema de Tolentino, feita por ele sob o pseudônimo de "Rama" e complementada por comentários e áudios publicados em seu "ask.fm". Talvez no futuro, com todos esses dados, eu acabe escrevendo mais sobre o tema; por ora, devido ao espaço reduzido de uma postagem bloguística, contentar-me-ei com algumas questões de versificação. Minha esperança é que por meio desta discussão alguns leitores percebam melhor em que aspectos nossa educação linguística precisa ser remediada, mesmo no caso de alguém que passou anos estudando métrica na universidade.

O objeto de discussão foi o soneto I, 170 de Imitação do Amanhecer (disponível no primeiro comentário de Rama Gripp: http://www.adhominem.com.br/2013/11/ad-hominem-entrevista-olavo-de-carvalho.html#comment-1124789612). Passarei em branco a incapacidade completa do homem de ler linguagem figurada. Divirta-se o leitor ao ver, no comentário citado, que Gripp não percebe ser "luz fria" uma imagem (objeta que, sendo verão em Alexandria, a luz devia ser quente!); diante desta, a esquisitice em recusar o uso figurativo de "se não" é coisa menor. Esses erros serão discretamente ignorados e substituídos, no decorrer da discussão, por outros mais ridículos, como a ideia de que "água vã" é uma expressão sem sentido. Mas vamos aos versos.

Desde o primeiro comentário, Tolentino era caracterizado como um sujeito totalmente incompetente na técnica do verso, ao ponto de, num único soneto, errar a métrica cinco vezes e a cesura (explicarei mais à frente o que é isso), sete. De fato, creio que nem eu conseguiria fazer um poema tão errado. A princípio, como sempre faço, acusei o erro de modo indireto, numa tentativa de induzir aquela humildade básica que, ligada à vontade de melhorar, é a abertura necessária por onde um dia acaba entrando o conhecimento. Não adiantou. Por fim, acabei dizendo-lhe explicitamente: a métrica está certa; são alexandrinos como os de Castro Alves. Não aceitou. Citei versos semelhantemente metrificados do condoreiro baiano, e por fim ele cedeu (resmungando, é verdade). Mesmo depois disso, como o cavaleiro negro de Monty Python, continuou implicando com versos que lhe pareciam desviar-se da forma alexandrina, apesar dos meus apelos à verificação oral do tempo de cada verso. Minha intenção é mostrar com que gravidade nossa percepção auditiva da língua está prejudicada. Preciso, porém, falar um pouco sobre versificação; prometo que será breve, e que valerá a pena logo depois.

O verso alexandrino usado por B. T. é o chamado "espanhol". O nome é péssimo, porque esse na verdade é o verso usado mais frequentemente também por poetas de língua portuguesa até o século XIX. Depois que nossos parnasianos acataram a forma francesa, começou-se a chamá-la de "alexandrino" simplesmente, o que é uma tremenda injustiça com o modo propriamente português de versificar. A diferença entre os dois é, grosseiramente, a seguinte: o alexandrino francês exige uma oxítona terminando no meio do verso (sexta sílaba), enquanto o espanhol admite as demais palavras. Como a língua portuguesa não tem tantas oxítonas quanto a francesa, há algumas adaptações possíveis: por exemplo, uma paroxítona com a sílaba seguinte elidindo-se na próxima palavra. Não quero, contudo, entrar em tecnicalismos: a essência é que o verso francês sempre tem doze sílabas na contagem "abstrata"; o português arcaico ou espanhol, por outro lado, admite entre doze e quatorze sílabas. Por quê?

Ocorre que o alexandrino é um verso muito longo, e a sensibilidade dos nossos poetas levou-os a notar que era necessário pausar em algum ponto do verso para "respirar" - essa pausa é o que se chama tradicionalmente "cesura", um corte que geralmente se dá no meio do verso. Percebendo que essa pausa dava-lhes um tempo "extra", começaram a achar que uma sílaba "a mais" acabaria não fazendo diferença no tempo total do verso. Por causa dessa pausa forte no meio dos versos, os gramáticos começaram a dizer que esse alexandrino era, do ponto de vista sonoro, dois versos, que visualmente não haviam sido separados! No poema de Castro Alves que citei, há versos de doze e de treze sílabas; leia-os e me diga se notou alguma diferença no tempo total de cada um:
Como um braço de algoz, que em sangueira se nutre,
Revolve-lhe as entranhas o pescoço do abutre.
Pra as iras lhe sustar... corta o raio a amplidão
E em correntes de luz prende, amarra o Titão
Note as cesuras (pausas) bem organizadas, às vezes com vírgulas ou outros sinais gráficos para tornar mais fácil detectá-las e ler o verso no ritmo correto: "algoz", "entranhas", "sustar", e "luz". A importância da cesura é que, se lermos o verso com pausas nos lugares errados, o ritmo pode sair totalmente disforme. Faça a experiência: troque a cesura dos versos acima e veja como ficam na leitura oral.

Voltando a Gripp (eu prometi que o excurso valeria a pena): ele insistiu, mesmo sabendo que se trata de alexandrinos diferentes dos comuns, que o verso "metálico, de papel de estanho, uma anticor" não cabia na métrica. O verso tem treze sílabas, na contagem "abstrata"; pronunciando-o, porém, no conjunto do soneto, ele parece ter o mesmo tempo dos outros. Por quê? Lembre-se da lógica do alexandrino em questão: a sílaba que vem depois da pausa (cesura) não entra na contagem porque você está "respirando". Em vez de fazer como Castro Alves acima, e colocar essa pausa sempre próxima do meio do verso, Tolentino a pôs no começo (e a demarcou com uma vírgula, para ajudar). Por quê? Porque, como de hábito, ele está ali completando uma longa oração dos versos anteriores (enjambement). Isso provocará outra pausa em "estanho", dividindo o verso em três pedaços; um tipo de dodecassílabo muito caro aos nossos simbolistas. Mas Gripp não sabe que cesura é uma pausa. Ele acha que é uma divisão artificial e totalmente despropositada (um "fim de palavra" fixo em todos os versos: http://www.adhominem.com.br/2013/11/ad-hominem-entrevista-olavo-de-carvalho.html#comment-1129049346).

Se prestarmos um pouco de atenção, veremos que todos os problemas provêm da mesma fonte. Gripp parece achar que um poeta tem obrigação de seguir regras arbitrárias; como essas regras não existem, ele tomou as não-arbitrárias: as de versificação. "O alexandrino deve ter cesura na sexta sílaba" - quem disse? Ah, sim: Gripp acha que cesura é uma divisão conceitual que não tem nada a ver com a sonoridade do verso. Portanto, mesmo que todo mundo pause a leitura na palavra "metálicos", a cesura segundo Gripp está lá em "papel". Do mesmo modo, para ele, "alexandrino espanhol" não é o nome de um modo flexível de versificar, mas uma fôrma rígida de treze sílabas fixas que se opõe ao "alexandrino clássico" de doze. Pena que Castro Alves, Basílio da Gama e Silva Alvarenga o desmintam, e escrevam variando entre doze e quatorze sílabas. Isso é exatamente o que acontece quando a educação literária autêntica é substituída pela cultura de almanaque: a percepção é trocada pela taxonomia, e a poesia se torna passatempo de decodificadores especializados. Os iniciados desaprovam tudo o que não se enquadra claramente em seu catecismo; discute-se apenas dentro dos termos de sempre, e nasce aquele bizarro universo chamado bizantinismo.

Os bizantinos não percebem que, acusando qualquer autor mais ousado de ignorar as fórmulas básicas, estão sendo extremistas. Para um poeta, é insulto grave: se não sabe metrificar, não é nem digno do nome. Se levarmos a acusação a sério, todos aqueles que gostam da poesia de Tolentino devem ser considerados meros amadores, incapazes de notar que o sujeito não dominava sequer os fundamentos da arte. Digamos que B. T. seja apenas um poeta medíocre; ele saberá ao menos contar suas sílabas. Digamos que seja um tolo: não será analfabeto, e poderá ler, num tratadinho vagabundo, que o alexandrino tem cesura na sexta sílaba. Consideremos, ainda, que essa densa discussão técnica (que poderia dar muitas aulas) surgiu de um de seus sonetos: é razoável que um poeta capaz de requerer tanta explicação teórica seja um incompetente completo? E tais graves acusações, é bom lembrar, vêm de um leitor incapaz de ler um verso no tempo certo e de compreender linguagem figurada. Que lhe parece razoável? Não haverá aí uma lição a aprender sobre orgulho e educação? São perguntas para o leitor, que eu gostaria fossem de proveito ao autor das críticas que analisei. Minhas esperanças, confesso, são poucas: a ciência ainda não descobriu uma cura para Gripp.