terça-feira, 26 de novembro de 2013

Ateísmos



Deus é o único ser que, para reinar, não precisa sequer existir.
Baudelaire, Projéteis, I, 1.

O ateísmo não se limita em ser apenas um posicionamento existencial diante da crença — ou ausência de crença — na existência de Deus. Há tantas formas de ateísmo quanto há ateus. E qualquer tentativa de definição unívoca e definitiva acerca do que vem a ser a concepção de mundo denominada por ateísmo não passa de um procedimento de classificação didática e reducionista.

No procedimento classificatório buscamos assemelhar o que é assemelhável e excluir as idiossincrasias. É uma tarefa cognitiva impossível para os seres falantes nomear a complexa totalidade dos detalhes e as suas particularidades. Nomeamos para facilitar a vida fonética, aliviar a memória e poupar energia. Por isso, justamente, pagamos o alto preço da generalização.

A religião é um fenômeno humano extremamente complexo. Não existe uma única e definitiva resposta ou um único conceito que, ao longo da história da filosofia e da ciências da religião, dê conta de explicar a sua realidade, a variedade de suas experiências, a sua natureza ou o que lhe é inequivocamente peculiar.

A razão – muito mais por disfunção congênita do que por mérito – busca algum sentido de compreensão na complexidade dos fatos: reduzir a complexidade a elementos simples. Buscar um quadro geral de categorização a fim de explicar realidades complexas. A razão persegue alucinada a unidade de uma estrutura permanente escondida por detrás da riqueza das variedades coloridas das nossas experiências, como vai dizer Nietzsche, “todo conceito nasce da identificação do não-idêntico”.

O esforço de pensadores da envergadura de William James, Max Weber, Ernst Troeltsch, Max Müller, Henri Bergson, Eric Voegelin, Rudolf Otto, Mircea Eliade, Henri-Charles Puech, Bernard McGinn, René Girard, Jean-Luc Marion e tantos outros, só vem confirmar o quão problemático é, para qualquer reflexão séria a respeito da vida religiosa, ousar bater o martelo na bigorna dos imperativos categóricos classificatórios e generalizantes a fim de dizer que a religião é só isto ou  só aquilo. Reduzir as experiências religiosas a um mero isto diferente daquilo tem mais a ver com o impulso totalitário do que qualquer tentativa séria de compreensão acerca do fenômeno religioso.

Buscar a definição de um conceito pode ajudar o trabalho de identificação de alguns elementos fundamentais: identificar categorias geradoras de posições e postura das quais, na maioria das vezes, revelam-se desconexas e até conflituosas. Arrogar-se ao porta voz da objetividade infalível e definitiva do fenômeno religioso é sinal de graves problemas psíquicos. E isso também se encaixa no ateísmo. 

Com fins puramente didáticos, buscarei esboçar três definições possíveis de ateísmo. Deve-se levar em consideração o fato de que o ateísmo não significa simplesmente a ausência na crença em Deus. Se assim fosse, então não haveria tantos conflitos, porquanto cada um viveria no hermetismo de sua posição religiosa ou ateia. No entanto, há ateus combatentes, revoltosos, niilistas, militantes, adolescentes, humanistas, naturalistas etc, mas dificilmente há um ateu totalmente indiferente em relação à existência de Deus. Para o ateísmo, “Deus” configura-se sempre como um “problema” e para um ateu sério, um escândalo.  

Ateísmo é uma categoria da vida religiosa. Em outras palavras, é uma visão completa de mundo, um posicionamento filosófico, isto é, metafísico (no sentido genuíno da palavra: compreensão de uma realidade última) comprometido com a verdade da realidade como um todo, tal como o mais pio do cristão também se compromete. Há crenças profundas no ateísmo e ninguém afirma radicalmente uma coisa sem negar outra. A negação da metafísica é um ato profundamente metafísico.

Há um “não” metafísico no ateísmo. Ninguém vive uma vida sem uma “filosofia”. Se nego a crença na existência em Deus é por que carrego uma crença na existência de uma outra realidade tão definitiva e fundamental: Natureza, Matéria, Progresso, Estado, Humanidade, Auto-idolatria etc. O instinto metafísico é permanente no homem de carne osso, ou seja, aquele anseio vital que não constitui um problema lógico, como vai dizer Miguel de Unamuno.   

À luz dessas observações, gostaria de mapear três formas básicas de ateísmo presentes em um cenário atual. i) o ateísmo evangélico, ii) o ateísmo niilista e iii) o ateísmo humanista ou humanismo secular.

Essas formas de ateísmos não se manifestam de modo puro. Todas estão mescladas umas nas outras e se expressam, obviamente, na unidade da postura de um ateu de carne e osso conduzindo e vivenciando a experiência existencial real de se autoproclamar – consciente ou não de seus fundamentos últimos – ateu para sua “comunidade” que o reconhece e o acolhe ou não como tal.

O ateísmo evangélico

Chamo ateísmo evangélico a versão ativista fundamentalista de ateísmo. O ateísmo evangélico traz como marca distintiva a radical hostilidade com praticamente todas as formas de vida religiosa. Milita ativamente para o fim das religiões.  A lógica simplista pode ser resumida assim: a religião é a fonte do mal e atraso no mundo, elimina-se a religião, logo será possível progredir para um mundo de paz e abundância. 

Richard Dawkins e Sam Harris, por exemplo, são emblemáticos do ateísmo ativista. Mas não passam de subcultura filosófica: autoajuda para adolescentes inquietos e frustrados que chegaram a terminar Ensino Fundamental e já tecem comentários a respeito dos mais refinados dilemas metafísicos. O que deu trabalho para filósofos de envergadura, com os mais árduos graus de dificuldade técnica e problemas de natureza ultra-complexa, é jogado no palavrório estúpido e desajeitado da pré-adolescência por esses autores.

Mesmo arrogando-se submeter “tudo a uma incansável, quase tediosa, autocrítica”, o ateísmo evangélico é incauto e dogmático, pois carece de autocrítica filosófica. Como disse Michel Novak: “nesses livros não há sequer uma sombra de evidência de que os autores tiveram, alguma vez, qualquer dúvida sobre a correção de seu próprio ateísmo”.

Não há discussão com quem não se coloca a si mesmo como problema. A fraqueza de todo crente evangélico é nunca duvidar de si mesmo. O fracasso de toda postura intelectual não é outro senão o de se esquivar dos seus próprios alicerces. Eis o ateísmo das ovelhas: o verdadeiro triunfo da ignorância. Um ateu como Nietzsche poderia ser um bom começo para o ateu evangélico tomar consciência do buraco em que se meteu: 
A disciplina do espírito científico não começa quando ele não mais permite convicções?... É assim, provavelmente; resta apenas perguntar se, para que possa começar tal disciplina, não é preciso haver já uma convicção, e aliás tão imperiosa e absoluta, que sacrifica a si mesma todas as demais convicções. Vê-se que também a ciência repousa numa crença, que não existe ciência "sem pressupostos". A questão da verdade ser ou não necessária tem de ser antes respondida afirmativamente, e a tal ponto que a resposta exprime a crença, o princípio, a convicção de que "nada é mais necessário do que a verdade (Nietzsche, Gaia Ciência, § 344). 

Ateísmo niilista

Ateísmo niilista é a forma mais séria de ateísmo. E a experiência que coloca em xeque toda possibilidade de deduzir algum sentido da vida. A vida não tem sentido, e qualquer busca de sentido não passa de uma vã pretensão provinciana de seres humanos. Concepção bastante fatalista e certamente a mais realista. E, por isso, os ateus niilistas geralmente são tratados como pessimistas, pois há, no niilismo, uma revolta metafísica radical. "Seu resultado último", vai dizer Rémi Brague, "é a convicção de que a existência é insustentável, unida à intuição de que não temos nenhum direito de nem sequer considerar um além das coisas que poderia redimi-las". 

Considera-se a natureza humana insuficiente para fundamentar qualquer sentido, qualquer valor. Há uma ontológica disfunção cognitiva no homem e no mundo. Uma miséria existencial e a profunda experiência de contingência e absurdidade da verdade da vida. O ateu niilista experimenta o fato de que participamos de um drama cósmico sem nenhuma solução possível. Tudo é nada. O universo é fruto do acaso e o acaso rege cada detalhe da nossa medíocre tentativa de produzir alguma coisa que tenha significado. É a desvalorização de todos os valores. Tudo é fato.

Do ponto de vista epistemológico, o conhecimento é, por natureza, limitado, regional e falível. Só existe um problema verdadeiramente sério para o ateu niilista: responder se a vida vale ou não a pena ser vivida. E ele responde: não vale! O que torna a vida humana significativa? Nada! Não há para o ateu niilista uma resposta possível para tal pergunta. Apenas tateamos possíveis sombras. Clamamos por uma vida significativa e a única resposta é o silêncio abissal, a experiência dramática de que a existência é opaca, finita e hermética, e não há abertura para o absolutamente Outro.

Um exemplo claro desse tipo de experiência pode é a Confissão do Antonious Block no filme o Sétimo Selo, dirigido por Ingmar Bergman: 
Meu coração é vazio. O vazio é um espelho. Eu vejo meu rosto… E sinto delírio e horror. Minha indiferença aos homens me fechou totalmente. Eu vivo agora em um mundo de fantasmas… um prisioneiro em meus sonhos… Eu quero que Deus ponha sua mão… mostre seu rosto, fale comigo. Mas ele é mudo. Eu choro para ele no escuro, mas parece não ter ninguém lá…. Talvez não tenha ninguém lá, diz a morte. Então, respondo Block, a vida é um terror sem sentido. Nenhum homem pode viver com a Morte e saber que tudo é nada… Devemos fazer de nosso medo, um ídolo… e chamá-lo de Deus.

Ateísmo humanista

O ateísmo humanista ou simplesmente humanismo secular caracteriza-se como um perfil filosoficamente mais consistente de ateísmo ideológico. O ateísmo evangélico é a sua caricatura bizarra mais desengonçada e míope. O humanismo é herdeiro dos “iluministas radicais”, para usar a expressão de Jonathan Israel (Cf. Iluminismo radical, 2009), isto é, são modernos por definição. "A essência da tradição intelectual radical", diz Israel , "é a rejeição filosófica da religião revelada, dos milagres e da Providência, substituindo a ideia de salvação após a morte com um bem maior aqui e agora".   

Do mesmo modo que o ateísmo evangélico compartilham da hostilidade em relação à vida religiosa, porém não são incautos e toupeiras de laboratório. Apesar de negarem, são dogmáticos, porém não estúpidos fundamentalistas. Com o ateísmo niilista partilham um certo refinamento filosófico e, principalmente, o fatalismo, porém são otimistas e engenheiros sociais. 

Prossegue J. Israel: "Nessa tradição, a felicidade humana é vista em parte como individualismo possessivo, mas em parte como sociabilidade compartilhada que coloca o bem maior nas leis criadas pela sociedade para permitir o maior grau de 'liberdade' a cada indivíduo". Além do que, os philosophes do humanismo secularista radical veem a "necessidade de inculcar obediência às leis da sociedade, definindo a 'verdadeira religião' como a veneração por aquelas leis que representam os melhores interesses da sociedade, e a verdadeira piedade como 'obediência' ao bem comum." 

Em vista disso, deve-se ter claro que o humanismo secular é uma visão completa de mundo: um naturalismo radical fundamentando um humanismo progressista. Essa concepção deriva da crença inequívoca de que as ciências experimentais são paradigmas de conhecimento seguro e bem sucedido. O progresso é o motor da história e a realização efetiva de um mundo melhor é uma meta a ser alcançada inevitavelmente. Em suma, os ateus humanistas seculares não são meros críticos da religião revelada e histórica e muito menos fatalistas pessimistas. Pelo contrário, possuem posturas bastante objetivas, uma agenda ética e um programa político amplo de engenharia moral e social: por exemplo, militam pelo Estado laicista, são abortistas e estatistas etc. 


* texto reeditado e ampliado a partir de uma versão anterior chamada "Os 'ismos' do ateísmo" publicada em Junho de 2012.