domingo, 4 de agosto de 2013

A Filosofia e os Clássicos

O voi che siete in piccioletta barca,
desiderosi d'ascoltar, seguiti
dietro al mio legno che cantando varca,

tornate a riveder li vostri liti:
non vi mettete in pelago, ché forse,
perdendo me, rimarreste smarriti.
(Paradiso II, 1-6)
Após alguns anos jogando conversa fora com anarquistas, comunistas e numerários do Opus Dei, percebi que há uma atração generalizada, entre as pessoas inteligentes, pelo estudo de teses abstratas. Em meio a conservadores católicos, falar de Aristóteles e S. Tomás de Aquino é sucesso garantido; e não sei se os protestantes não são ainda piores, com seus quilos de teologia moderna que só fazem aumentar ano após ano. Curiosamente, a leitura desses monumentos filosóficos e teológicos não parece melhorar muito a inteligência geral dessas pessoas dir-se-ia, talvez com alguma injustiça, que às vezes piora.

A primeira hipótese que me ocorreu para explicar o fenômeno foi que a autoridade atribuída a certas obras não era justificada; fui lê-las e cortei essa ideia da lista. Mas aprendi alguma coisa importante no processo. Enquanto tentava ler uns trechos da Suma, o começo da Metafísica, o prólogo do Proslogion, sentia um incômodo, um torpor mental, uma espécie de ricochete contemplativo. A pergunta que eu me fazia era: "de que diabos esse sujeito está falando?". A primeira vez que li as famosas cinco vias de S. Tomás, o que me fez cócegas foi a palavra causa. Que quer ele dizer com causa? O texto soava truncado, a ideia não me parecia límpida. Era óbvio que havia para usar um termo técnico ruído na comunicação.

Eu já havia lido, na adolescência, um manual desses de filosofia, que reservava um capítulo ao primeiro motor de Aristóteles. Na época, achei uma ideia brilhante o que é uma confissão de petulância, pois só julga um pensamento brilhante quem crê tê-lo entendido. Quando reli a ideia em S. Tomás, eu já passara por cinco anos de faculdade, e não tinha mais aquela doce e natural satisfação dos meninos. A palavra causa me doía*. Li todas as explicações que pude encontrar. Nenhuma me satisfazia. Estava convicto de que todo mundo tinha entendido errado, ou ao menos ninguém conseguia explicar, com as ênfases linguísticas corretas, o que faltava ser entendido.

S. Tomás escreveu em latim, e dentro da tradição cultural latina. Como demonstrou Ernst Curtius em Literatura Europeia e a Idade Média Latina, a civilização que chamamos medieval é filha, herdeira e devota daquela que a precedeu. A principal marca dessa continuidade é a pedagogia, que nunca abandonou os modelos clássicos e adotou inclusive uma estrutura fixa, com base nas chamadas artes liberais  embora pouco tivesse a ver com o que se vende hoje pelo mesmo nome. Segundo aquele modelo, a teologia só era trazida à baila depois de um longo estudo que começava na gramática do latim e na literatura pagã, terminando nas ciências matemáticas. Entre uma coisa e outra, estudava-se retórica, isto é, uma mistura de psicologia social, composição escrita avançada e direito romano.

A palavra causa, primeiro usada em filosofia (salvo engano) por Cícero, deriva justamente do vocabulário jurídico com o qual o jovem romano se familiarizava nas escolas de retórica do século I a.C., e o qual o adolescente medievo decorava literalmente com devoção. O sentido jurídico, que designava (como também, em linguagem técnica e esotérica, ocorre hoje) um processo, deriva da ideia de "motivo, razão", isto é, de uma ideia eminentemente social, própria dos litígios humanos. Só com muita variação linguística pôde transformar-se, como se esse fora seu sentido primário, em "causa mecânica". Esse conflito filológico é sinalizado pela presença, em terminologia filosófica, de expressões como "causa final", que em português moderno já parece uma brincadeira de mau gosto ou um paradoxo barroco.

No entanto, a palavra "causa" é interpretada, e o é frequentemente pelos estudiosos universitários da Escolástica, como que designando exatamente essa ideia mecânica. Nem mesmo o conceito mais específico de "causa eficiente" (inutilmente ressaltado por S. Tomás no trecho em questão) é tão limitado quanto esse, que neste contexto não passaria de uma analogia grosseira com a teoria física de Newton. Fica a metafísica assim denunciada como pura empulhação teorética para encher de ficções, inspiradas à imaginação pelas ciências realmente sérias, os ilegíveis alfarrábios escolásticos. E essa visão, embora pareça um furioso anacronismo, está implícita no que dizem celebrados historiadores da filosofia.

Bertrand Russell, por exemplo, gabava-se em Por que não sou cristão de ter resolvido o problema do primeiro motor acredite se puder aos quatorze anos! E qual era a solução? Não se pode demonstrar, pensava o jovem Russell, que o universo não seja constituído de infinitas causas num tempo infinito. De fato, concluía ele, a tese de que o universo precisa ter uma causa primeira baseia-se numa analogia com a mecânica. Vemos que uma bola não se move a não ser que alguém a empurre, e deduzimos que deve haver uma "primeira mão"; mas e se não houver? Como podemos nós generalizar um fenômeno tão ínfimo e afirmar, a partir dele, verdades metafísicas?

Russell estava absolutamente certo. Do ponto de vista físico e newtoniano, nada nos autoriza a pensar que o universo não seja constituído de infinitos processos mecânicos. A pergunta é: como pode haver infinitos processos mecânicos numa estrutura finita? Evidentemente, esses processos seriam sustentados por uma entidade (no sentido de "alguma coisa que existe") supratemporal. Este seria o primeiro passo para a investigação metafísica que Russell pensou ter concluído aos quatorze anos. O mais espantoso, porém, é que justamente um historiador da filosofia acuse Aristóteles e Tomás de Aquino de pensar com pressupostos newtonianos.

Eu duvido, aliás, que S. Tomás tenha cogitado que suas palavras pudessem ser compreendidas no sentido em que Russell as refutou. Acho que isso nunca passou pela cabeça do Doutor Angélico. A leitura da Summa Theologiae pode até parecer como ouvi não poucos leitores dizerem –- fácil, caso não se atente para esta sutileza: que, como ensinava Cícero, a virtude da clareza é oposta à da concisão. Quanto mais simples um texto parece gramaticalmente, maior é o risco do mal-entendido. E mais: o mesmo mal-entendido, no caso de um autor que foi educado na tradição latina, pode basear-se na ausência de um conjunto de hábitos e referências que estavam pressupostos no texto original.

Por favor, notem que eu usei a palavra "hábitos", e não apenas "referências", e agora digo que é daqueles, e não destas, que temos mais necessidade. O problema não se resolverá mediante o acúmulo desenfreado de nomenclaturas, datas e hipóteses filológicas. É preciso recordar o processo pedagógico por que passaram os alunos de Quintiliano (descrito em Inst. I e II) e Bernard de Chartres (cf. a nostálgica descrição de John de Salisbury no Metalogicon). A fase gramatical do Trivium despertava os estudantes para a opacidade da linguagem, criava neles uma desconfiança inteligente que, enquanto lia, procurava descobrir por trás das palavras fugidias um sentido tão profundo quanto possível. Vemos em Sérvio um gramático que, para cada verso de Virgílio, escrevia uma página inteira de explicações e observações. Não poucas vezes o medieval distorceu o sentido do que lia; mas o distorceu "para cima", buscando atribuir-lhe o maior grau de verdade possível e usando-o como ponto de partida para a meditação. O que a filologia condena, a filosofia aplaude.

Ora, grande parte da dificuldade que se sente no contato com os antigos deriva do elevado grau de condensação semântica de seus textos. Os clássicos não escreveram apenas para ser lidos, mas também meditados. Escreveram para um público que se acostumara a fazer, durante a infância, extensos comentários aos versos de Homero e Virgílio. Seria uma doce ilusão o crer que, só porque um autor antigo escreveu em modo breve, ele não esperava de seus leitores um esforço interpretativo condigno, o hábito de desdobrar a brevidade em clareza. Seria idêntica ilusão supor que os moderni bruti (cf. Dante, Epist. XI) estão aptos a compreender uma sentença que, embora breve, foi formulada por uma mente beneficiada por aquele intenso treino exegético.

Por isso é que os textos clássicos, com toda a dificuldade que apresentam, são necessários se quisermos estabelecer algo que se possa chamar de cultura. Os medievais passaram séculos estudando a literatura antiga antes que conseguissem ter o fabuloso renascimento do século XII. Eles não sentiram menos dificuldade, nem se esforçaram pouco, mesmo com as péssimas condições de estudo que encontraram. E eu, pelas razões citadas, não respeito nenhuma iniciativa cultural que não principie pelo resgate da literatura, principalmente da literatura latina. Pois foram esses rigores e dificuldades que temperaram o aço de Dante e Shakespeare. Se quiser julgar o trabalho de alguém como Rodrigo Gurgel, basta olhar as ementas de seus cursos e ver que, entre Isaiah Berlin e Montaigne, aparecem Homero e Plínio, o Jovem. É por isso também que meus alunos, em lugar de traduzirem frases de manual e as supostamente fáceis expressões da teologia, sofrem para entender Horácio e Virgílio. A verdade, dizia S. Tomás de Aquino, é filha do tempo. E o mesmo tempo que, segundo creio, cobriu de glórias os autores clássicos, há de dar-me razão.

* Não se discute aqui o sentido preciso das cinco vias, mas o "eco semântico" da palavra causa. O assunto deste texto não é a filosofia de S. Tomás, mas seus pressupostos culturais, a maioria dos quais provavelmente S. Tomás nunca nem pensou em discutir.