quinta-feira, 6 de junho de 2013

O pesadelo da escola imaginária




Uma jornalista aqui da região de Sorocaba fez uma série de perguntas aos professores da rede estadual de ensino sobre o problema da violência nas escolas públicas. Seguem as respostas que dei para três perguntas. 


1 - O que vocês pensam sobre essa questão da segurança, tanto como forma de se proteger mas também proteger os alunos? 

R. O problema da segurança do professor não está limitado na relação entre professor-aluno e nem no âmbito da escola. Nossos dias tornaram-se inseguros por uma série de razões históricas, sociológicas, filosóficas e, arrisco dizer, espirituais; e à escola vem sendo transferido o que acontece no mundo (e quando falo em mundo refiro-me à esfera mais imediata da vida em sociedade). Em linhas gerais, esse foi o resultado da pedagógica que concebia a escola não como um lugar de estudos, mas como um lugar de vida, isto é, como "escola aberta", visto que a partir dessa concepção se perdeu o prestígio de um locus diferenciado da vida da sociedade, de um lugar ideal, distinto, de um ponto de referência a fim de permitir ao estudante adquirir os conhecimentos que farão dele um homem, ou seja, na medida em que o espaço pedagógico necessitava ser distinto do espaço da vida, com a abertura da escola para a vida as fronteiras foram desfeitas; em consequência, portanto, tudo o que é da vida entrou na escola. 

Ora, se existe violência no mundo, então por que não haveria violência na escola? Se há consumo de drogas no mundo, por que não haveria na escola? Se o mundo perdeu o sentido, então por que também não perderia o sentido a educação fornecida pela escola? Fruto de uma tendência própria da nossa cultura (ethos) a respeito da homogeneização de todos os espaços, perdemos as distinções entre o íntimo e o público, entre o sagrado e o profano, entre a sala de aula e o quarto, e no âmbito da educação isso se dá, sobretudo, a partir do momento em que a escola já não é mais um espaço diferenciado e privilegiado da reflexão, mas passa e a incorporar pra dentro de si a sociedade e todos os seus problemas. Uma evidência dessa desfiguração é a noção de ensino como ato político, de um espaço de "luta", cuja ênfase recai no social, na ideia de que professor e aluno devam assumir um posicionamento, isto é, de que a escola é o lugar da socialização e senso crítico, quando, na verdade, a escola deveria ser o lugar de humanização e, por excelência, de reflexão. 

Por conseguinte, o jeito de superar a violência é, justamente, não deixá-la entrar no espaço pedagógico, ou seja, é reinstaurar esse espaço, cultivá-lo, exigi-lo como um espaço fundamental e diferenciado do espaço imediato do mundo. Por exemplo, noutro dia vi um professor dizendo que "deveríamos nos unir contra os alunos", e esse não é um caso isolado. Em geral é isso o que os professores pensam e vivem, já que assumem o discurso daquilo que chamei de "espaço imediato da vida", na medida em que incorporam no discurso aquilo que caracteriza a política e não o que caracteriza a formação, a humanização. Ora, nos unir contra os alunos a fim de quê? Que tipo de profissional fala um absurdo desses? Em qualquer emprego sério ele já teria sido mandado pro olho da rua!

A única coisa que um professor precisa fazer é lutar contra a ignorância -- a começar pela própria -- e não lutar contra alunos como se esses representassem uma ameaça. Um professor que vê nos seus alunos uma ameaça não pode lecionar; um sujeito desses escolheu a profissão errada. Precisa urgentemente rever sua vocação. Esse discurso de estar em "guerra contra o aluno" é perigoso e permite que a violência assuma o discurso pedagógico, o que é lastimável! O único jeito de proteger os alunos não é outro senão abandonar o que se passa no mundo. Todo aluno precisa ser convidado para o espaço pedagógico, que é um espaço cujo único conflito permitido é o conflito intelectual, de construção efetiva de ideais.

Por fim, acredito também que um dos primeiros passos para nos protegermos contra a violência dentro da escola é pôr fim a essa ideia absurda de ensino obrigatório. A obrigatoriedade do ensino é o primeiro ato de violência contra uma cultura, contra a família, contra o indivíduo, pois ela instaura toda série de violência dentro do espaço pedagógico, que deveria ser, em última instância, o verdadeiro espaço da liberdade. 


2 - Como é o relacionamento com os alunos? Vocês sentem-se respeitados ou desrespeitados?

R. Primeiro cultivando uma relação profissional. No caso de um professor, penso que seja primordialmente estar aberto ao diálogo, no sentido de ser aquele que conduz a reflexão, longe do contexto do policiamento bélico, do autoritarismo dogmático e estúpido. Alunos são inexperientes e se (na sua esmagadora maioria) vão à escola não querem outra coisa senão um espaço de desenvolvimento pessoal, cultural, pedagógico, que ofereça perspectivas profissionais reais. 

O aluno é uma criança ingênua: entusiasmado, eufórico com o mundo e suas vicissitudes. As aulas precisam ser atraentes, não shows ou espetáculos. Embora isso seja difícil, a escola deve fornecer perspectivas, sentido, significado à vida do aluno. Não que a escola deva substituir a família. Não obstante, há contextos culturais distintos, e uma escola da periferia é culturalmente diferente de uma escola central. Não devemos tratar as coisas de modo unívoco e homogêneo. É preciso reconhecer esse perfil. Não pra se adaptar a ele, mas a fim de dialogar com ele, refletir a partir dele. 

Ademais, uma aula que oferece a perspectiva de uma vida significativa não tem porque gerar medo, insegurança, nem no aluno e muito menos no professor. A questão é a aula ser obrigatória. Sobretudo quando se trata de adolescentes. Na verdade, acredito, nós devemos nos proteger é de nós mesmos, da tendência autoritária que surge da nossa própria insegurança, e do medo de não conseguirmos reconhecer o que de fato devemos fazer. Esse é um risco constante. 

Todo autoritarismo nasce de uma complicada relação psíquica de insegurança própria. Surge não porque os alunos são violentos, mas porque não existe violência maior do que querer fazer alguém aprender algo que não deseja, em que não veja sentido. É preciso superar isso. Há também o problema do desprestigio da profissão, dos baixos salários, do pouco reconhecimento social. Todos nós temos uma "escola imaginária" na mente, idealizada. Todos somos cheios de expectativas, porém, quando encontramos a realidade, não há nada mais frustrante. A realidade frustra e é preciso saber lidar com isso. Devemos deixar de lado a ideia de que existam receitas prontas, regras pré-concebidas, pedagogia disso ou daquilo. Cada aluno e cada professor é uma pessoa irredutível que deve aprender a reconhecer os próprios limites, não uma entidade abstrata. Aliás, nenhuma escola é uma entidade abstrata. Não existe “a escola”, “o ensino”: existem, pelo contrário, estas pessoas, estes problemas, aquelas expectativas. O respeito entre professor e aluno surge desse reconhecimento, da tomada de consciência de que não há regras absolutas ditadas por um sistema hermético e burocrático.


3 - Como é o relacionamento com a direção? Sentem-se apoiados ou não?

R. A fim de marcar o tipo de relacionamento com a direção farei uma sugestiva reflexão, apresentarei dois tipos de escolas: a escola imaginária e a escola real. Tire suas conclusões... 

A escola imaginária: é lugar-comum achar que a estrutura política-pedagógica de uma escola deva ser invariavelmente mais ou menos assim: o “diretor”, no alto da sua gloriosa e intocável majestade, ocupa o topo do olimpo, e nas ocasiões em que circula na escola se manifesta transfigurado no avatar do todo poderoso. Nos cargos imediatamente abaixo estão os coordenadores e assistentes, depois os funcionários administrativos: há o “pessoal” da limpeza, a merendeira, a bibliotecária, a secretária etc.

Os professores ocupam o último patamar, enquanto os alunos estão no limbo da absoluta insignificância, como uma massa amorfa, sem vida, prontos a servirem de capacho às ideologias e frustrações dos professores e aos tormentos do todo poderoso diretor que precisa alimentar a máquina burocrática e seu patético ego semidivino.

A vida na escola se transformou em verdadeiro campo de batalha entre alunos e professores: odeiam-se uns aos outros, como em uma guerra, sem que saibam direito as razões. Simplesmente se deve combater a ameaça. O aluno se vê ameaçado pelo professor porque já se acha um homem livre e responsável, porém é obrigado a ouvir qualquer inutilidade. O professor se sente ameaçado pelos alunos porque, afinal, aqueles olhares de tédio e desinteresse constrangem até uma vaca ruminante. Os inspetores cumprem a função especial de deixar tudo de acordo com as ordens do führer pedagógico. A moeda de troca das relações intersubjetivas em um sistema de ensino desse tipo é a obediência. O medo da punição é o óleo das engrenagens. Isso tudo só tem uma única função: a de retroalimentar essa estrutura opressora de total imbecilidade. Ninguém reconhece, de fato, o que está acontecendo, mas todos têm a fórmula mágica de como as coisas devem funcionar na escola imaginária: “A culpa não é minha, fale com ele”.

Contudo, devemos perguntar: é possível realizar uma escola sem essa estrutura estúpida e que não termine em uma espécie de barbarismo anárquico? Desde que nos convertamos à realidade e compreendamos qual o fim último de uma escola, talvez seja possível, de fato, não cair nesses extremos.

A escola real: a finalidade de uma escola, em última instância, não é o “aprendizado”, mas a “aula”. Pessoas não procuram uma escola exclusivamente para “aprender”, uma vez que a aprendizagem pode acontecer em qualquer outro lugar. Alunos procuram uma escola para assistir a boas aulas; como consequência, convivem durante algumas horas. Ora, se a finalidade última da escola é a aula, então o diretor não é mais o centro de convergência das relações cujo único objetivo é manter a máquina funcionando. A convergência de todas as relações deve ser, exclusivamente, a relação professor-aluno. Não há pirâmides e nem relações igualitárias. Professor não está no mesmo patamar que o aluno, e a escola não é uma democracia.

O aluno não é uma massa abstrata cujo nome é “ah, os alunos”; pois quem estuda na escola é João, Paulo, Rita, Miguel, Thiago, Maria, Fernando, Felipe etc. Assim como quem leciona Química, Física, Literatura, História, Biologia, Filosofia é a professora Maria, o professor João etc. Alunos devem ir à escola porque reconhecem suas deficiências, não por que são obrigados. O aluno que se sente obrigado a estudar, não há dúvidas, deve ser o primeiro a ser expulso de uma escola. Escola é o lugar de homens livres, não toupeiras pau-mandadas. O professor deve incorporar a disciplina que vai ensinar; ele é o servo da verdade daquela ciência e não deve submeter aquele conhecimento específico aos seus caprichos particulares, sejam eles ideológicos ou domésticos. Não há guerra entre professor e aluno, entre direção e professor, entre aluno direção; todos, em uma escola real, comungam do mesmo interesse: a excelência da aula. 

Em suma, não é uma questão de ser um sujeito obediente, se “comportar direitinho” ou ser “a figura mítica e opressora”, o temido “diretor”; basta ser consciente dos seus deveres e uma boa dose de bom senso. O temor da fiscalização é o primeiro passo no drama de ser um fracassado. Eis o pesadelo de qualquer escola imaginária.