domingo, 5 de maio de 2013

Por que sou conservador

Geralmente me classificam como conservador, embora eu comente pouco sobre política e economia. Sinceramente, nunca li Burke (está na lista, mas um pouco depois), muito menos os autores mais recentes. Não sei dizer se sou mesmo conservador. Contudo, se me perguntassem, eu concordaria com a classificação, pelo menos provisoriamente, e ficaria até satisfeito com o grau de compreensão que essa palavra produziria nos que não me conhecem. Só não ponho uma placa de identificação no pescoço porque tenho medo de ofender o conservadorismo; seria como um analfabeto que sai se apresentando como crítico literário, só porque simpatiza com a profissão. Nunca decidi ser conservador, nunca fiz o menor esforço para sê-lo, e portanto não sei se represento bem a classe. Mas se é preciso defender algum conservadorismo, vou tentar defender o meu.

Estou sempre falando da Roma antiga ou da Idade Média, já que trabalho com isso mesmo. Mas ontem, enquanto trocava uma fralda ou coisa parecida, lembrava uma aula que dera de manhã, e só então percebi que sempre me refiro a Otávio Augusto como "o Imperador Augusto" - acho que os alunos até sentem as maiúsculas no tom. Não que eu seja monarquista nem nada; só não me sinto no direito de falar familiarmente do homem que, aos dezoito anos, montava um cavalo, acompanhado de seus amigos Mecenas e Agripa, e desafiava - quem? - o bravo Marco Antônio. Ele, que alguns anos depois acorrentou Cleópatra e sua família; tripla coluna do mundo e, mais tarde, fundamento único do império que atormentaria a ambição de Carlos Magno. O quanto exigiu ele de si mesmo, para conquistar seu posto? Quanto sacrificou para solidificar a moribunda Roma de tal modo que ela durasse ainda cinco séculos? Ninguém nem descobriu ainda o segredo alquímico pelo qual a política augustana gerou aquela literatura: nescioquid maius nascitur Iliade...

Contudo, e como Otávio bem suspeitava, os milênios soterraram a memória de sua grandeza. Hoje qualquer um lê um parágrafo na Wikipedia e fala de "Augusto", de seu "imperialismo"... quem foi o homem? Já sabemos, está lá: nasceu no ano tal, morreu naquele outro. Que nos importa conhecê-lo, falar com ele? Era um homem, falível como nós. Temos hoje outros. Deus sabe quem são. O imperador é só um exemplo.

No grande e escuro firmamento da História, homens como ele são pontos de luz. Bons? Maus? Não sabemos: diferimos, brigamos. Eu não disse que o achava bom, porque não acho, porque não sei o que acho de um sujeito como ele. Bom ou mau, anjo ou demônio, uma coisa é certa: olho ao meu redor e vejo um formigueiro, que diante de um homem como Augusto baixaria os olhos e pediria perdão por existir. Não o fazem agora? É que está morto. Mas quem se empertiga e se exalta diante de tipos como os nossos políticos, ou de policiais, advogados e juízes ("seu doutor") ousa fingir que a presença de Augusto não o lançaria ao chão? "O pior cego", etc. etc.

Não adianta vir com esse papo de que "uma coisa não é melhor só por ser antiga". Ninguém disse o contrário. Nunca conheci um sujeito tão esquisito que exigisse veneração a Marcial (autor antigo de epigramas jocosos) ou Fredegário (co-autor de uma história medieval do povo franco). Mas mesmo Marcial e Fredegário são provavelmente mais dignos de atenção do que Emir Sader ou Rodrigo Constantino. Talvez sejam tão importantes quanto Roger Scruton. Talvez sejam mais do que José Saramago. O tempo dirá.

Ah, sim! Como citei nomes, agora tenho que pedir desculpas e distribuir flores, não é isso? Não estou questionando a qualidade do trabalho de Saramago ou de Scruton. Escolhi-os apenas porque vejo que estão na boca do povo, e é disso que estou falando. Se limitarmo-nos ao século II d.C., descobriremos que nesse intervalo centenas de obras foram produzidas, e que a maior parte nem chegou a nós. Se voltarmos os olhos ao século XX, veremos que já abandonamos boa parte do que nele se produziu. Mas no XXI, ah, aí não; todos os autores do século XXI são melhores que os anteriores. Só que não. Em suma, ninguém disse que as coisas antigas são melhores. O que deveria ser óbvio é que as coisas antigas que continuam sendo lidas e citadas durante dois mil anos devem - assim, provavelmente, né? - ser bem melhores do que o que se produz numa época específica pega ao acaso. E será que isso inclui a nossa? Sei lá, né. Vai ver...

Pois quando digo que sou conservador, quero dizer que estou constantemente enfadado pelas novidades cada vez mais velhas que aparecem nos jornais. Quero dizer que estou pouco me lixando se o Prof. Frankenstein van Beethoven vai dar uma palestra na PUC amanhã. Eu vou dormir até mais tarde e vou perder a palestra, porque hoje de madrugada tenho um Canto imperdível da Eneida para ler. E amanhã? Ah, amanhã tenho... deixa ver: noves fora, são só uns dois mil e quinhentos anos de alta cultura que eu ainda não li, ou que li rápido demais e não aproveitei. É, tenho tempo de sobra para ler o jornal.

Mas já chegaram, e batem à porta, uns cavalheiros que deixei em outro texto, e que reclamam que uma vida não dá para ler todos os livros, etc. Ah, sim, não há tempo suficiente para todos, então vamos ler os piores, certo? Não temos tempo para Platão, então leiamos a revista Veja, ou aquela da Fapesp. Ora! Uma vida inteira talvez não dê para Marcial e Fredegário, mas dá para muitos autores excelentes, que podem enfiar alguma imaginação e bom-senso em nossas cabecinhas. Não vou falar sobre os critérios que uso para escolher os meus livros; o texto não é sobre isso. Cada um pode ter os seus, mas seria bom se fizessem sentido, concorda?

É que (será que agora me entendem?) estou falando de conservadorismo num plano superior ao da política cotidiana, ou dos debates escolares de estética. Estou falando de tomar consciência de que você é um sujeito bacana e tudo, mas que houve muitos sujeitos bacanas como você na história, e que quase todos não sobreviveram. E que você provavelmente não vai sobreviver. E que, portanto, os que restaram "clássicos" foram pessoas melhores do que você e do que os seus amigos. Então olhe para eles como veneráveis anciãos, e peça vênia antes de dirigir-lhes a palavra. Se fizer isso, talvez te ensinem algo.

E se não fizer? Ah, se não fizer, você pode desfilar pelos corredores da FFLCH/USP, pode achar-se a última bolacha do pacote, pode até substituir Arnaldo Jabor quando ele morrer (afinal, sonhos se realizam). Mas eis a questão: os defeitos de seus versos serão sempre defeitos originais, porque você não sabe que Ovídio tinha os mesmos (só que melhores). Sua prosa será inspirada em Paulo Francis, não em Edward Gibbon. Você questionará a filosofia de Platão com princípios de Trasímaco (Nietzsche que o diga). Zombará de Augusto, mas abaixará a cabeça para o idiota do seu chefe; e lerá o jornal indignado, sem saber que Matthew Arnold já se indignara pelos mesmos motivos, e que pensou num modo de combatê-los dentro e fora de si mesmo. Em suma, você pode aspirar a ser o melhor dos "homens de seu tempo", e nada mais. Se você acha isso legal, ótimo. Mas tenho a impressão de que os seus tão queridos autores modernos (citei Scruton, não foi?) não pensam assim. Por isso é que existe a chance de alguém lê-los daqui a trezentos anos. Pronto, está acabando o Jornal Nacional. Boa noite.