sexta-feira, 31 de maio de 2013

Educação e Senso Crítico

Dia 17 de maio, sexta-feira, um professor de História foi demitido pelo colégio lassalista Pão dos Pobres, aparentemente sem esclarecimentos. Na segunda-feira, dia 20, um grupo de alunos protestou contra a demissão, repercutindo na mídia local. A situação divide-nos imediatamente em dois grupos: conservadores católicos versus todo o resto.

Pessoalmente, eu fico no segundo grupo (esse mesmo: o resto). O diretor não ofereceu nenhuma explicação, nem aos jornais nem aos pais de alunos (a essa altura congregados), alegando "motivos pessoais". Os professores é que especularam em torno de uma razão "religiosa", sem obter porém qualquer confirmação oficial. Está bem, está bem; enquanto o colégio Pão dos Pobres resolve seus problemas administrativos, eu gostaria de falar de outra coisa.

Na notícia que indiquei acima, há fotos do "protesto" estudantil. Vemos acusações de fascismo e narizes de palhaço - perdoem-me os que tiverem vista melhor, pois não consegui ler os outros cartazes. Nas falas dos professores demitidos (houve uma "professora de filosofia", se é que isso existe, que se demitiu em protesto), ficamos sabendo que na sala de aula eles "trabalhavam (sic) alienação e ideologia", e que os alunos lhes dariam orgulho por terem aprendido a "lutar pelo que consideram justo". Um aluno manifestou-se em consonância, afirmando que estava "lutando pelos seus direitos".

O mais curioso são os comentários à notícia, muitos feitos por pais de alunos, em que os meninos são elogiados por seu "pensamento crítico". O protesto na escola seria um testemunho inquestionável da qualidade pedagógica dos referidos professores. Alguns chegam ao ponto de afirmar, baseados na notícia, que esses jovens certamente serão cidadãos exemplares, modelos de educação para as escolas de todo o país. O professor demitido ensinou-lhes bem a História, tanto que agora fazem protestos. O próprio, aliás, concorda inteiramente, e diz que se orgulha; a outra, auto-demitida, atribui os feitos heroicos dos estudantes a suas aulas de alienação e ideologia. Isso mostra duas coisas: 1) que o juízo pedagógico de pais e professores coincide, nos critérios como na prática; e 2) o significado concreto do termo "senso crítico", que parece ser, na opinião de todos, o objetivo máximo da educação.

Na notícia não há palavra que indique alguma instrução escolar especial nos meninos. Eles falam, escrevem, usam nariz de palhaço e gritam palavras de ordem; até aqui, mostraram competências dignas da primeira série do ensino primário. No mais, chamaram o diretor de "fascista", prova clara de que não sabem o que é fascismo, e declararam que estão lutando por seus direitos - mostra inequívoca de que não sabem quais são. Se alunos têm direito a forçar a recontratação de um funcionário, empresários têm o dever de obedecer ao clamor estudantil. Não é justo, portanto, que os empresários sejam donos de suas empresas. Isto é, para que as coisas estejam corretas, é necessário acabar com a propriedade privada. A molecada não percebe nada disso, é claro; eles só fazem o que lhes ensinaram, e lhes ensinaram bem. São instrumentos de ideias que não compreendem, e das quais talvez até discordem. Monkey hear, monkey do.

Entende-se, assim, que o termo "senso crítico" (e aparentados) não significa uma faculdade intelectual; não diz respeito a pensar com correção, ter ideias criativas ou ser capaz de opor objeções racionais a uma tese dada. Não houve qualquer indício de que os estudantes em questão tenham feito algum esforço dessa natureza. O que houve foi que, diante de um ato indesejado do diretor, os alunos esboçaram uma reação política rápida, organizada e truculenta, carregada de slogans e insultos fáceis. Concluímos, portanto, que "senso crítico", se não quer dizer pensamento, quer dizer ação. Mas não se trata, como o bom-senso postularia, de enfocar a ação do ponto de vista de sua moralidade, racionalidade ou refinamento metodológico. Trata-se da ação enquanto ação, independente de qualquer critério na forma ou no conteúdo. O cidadão ideal deve simplesmente reagir, com o máximo vigor, ao que não lhe agrada. Não importa se está certo ou errado; ele deve, segundo o ex-professor, lutar pelo que considera justo. O foco é na "luta", não na veracidade do julgamento.

Na escala social, tais "cidadãos críticos", supondo que chegassem a compor maioria, gerariam uma curiosa situação. Tomados por um ressentimento causado por sabe-se lá o quê - afinal, sua educação não se ocupa de analisar causas - erguer-se-iam de suas poltronas furiosos, aglomerando-se nas ruas com cartazes improvisados, berrando insultos ao objeto - real ou irreal - de seu ódio, invadindo igrejas e sinagogas para dizer que "injustiça também é pecado". Não há garantias quanto ao que eles "considerarão" justo ou injusto, mas assegura-se a disposição de "lutar". Aliás, dou-lhe um bom conselho: se encontrar alguém com "senso crítico", o melhor é sair correndo. E não vá pensando, erroneamente, que esses cidadãos são marxistas. O marxismo é uma complicada tradição teórica que, para eles, é totalmente ininteligível; eles não sabem que há ideias verdadeiras e falsas, e não poderiam sequer compreender uma argumentação concreta em favor do marxismo. Sabem, sim, que há ideias certas e erradas, justas e injustas; o critério que usam para discerni-las, só Deus sabe. Nenhum lhes foi ensinado na escola.

Eu disse "só Deus sabe", mas fui impreciso. Eu mesmo sei alguma coisa a respeito. Há uma disciplina chamada Psicologia Social, cujas pesquisas já mostraram além de qualquer dúvida que é possível prever e até controlar a reação de um número de pessoas com critérios específicos e mensuráveis. A Psicologia Social já provou, por exemplo, que figuras investidas com autoridade científica podem ordenar a cidadãos pacatos que assassinem pessoas inocentes. Com sucesso na maioria dos casos. É duro de acreditar, mas foi provado experimentalmente. Há impulsos naturais cuja força supera a racionalidade média. E o que será que acontece quando a escola se transforma num instrumento de amplificação, não da racionalidade média, mas da intensidade desses impulsos naturais? Se a educação, numa dada sociedade, é o processo de justificação absoluta dos impulsos, especialmente dos ressentimentos e indignações, espera-se uma previsibilidade cada vez maior das reações psicológicas na sociedade em questão. A estatística de exceções vai-se reduzindo e dando lugar ao reino incontestado das leis da Psicologia Social. Quem tiver acesso a essas leis, e aos meios de comunicação de massa, tem poder quase total sobre uma massa irracional predisposta a levar quaisquer impulsos passionais às últimas consequências. E Platão achava ruim lá em Atenas.

Quem pensa, porém, que o quadro desenhado acima é mero produto de minha inteligência dedutiva, está redondamente enganado. Releia minhas deduções e compare com o cotidiano desta sociedade de "manifestações", "movimentos sociais", palavras de ordem, ONGs, slogans... já vivemos nesta sociedade distópica. De te fabula narratur. Eu e você fomos educados precisamente segundo esse método, e temos hoje - gostemos ou não - as exatas disposições projetadas por ele. Se nos deixarmos estar naturalmente, discutiremos assim, leremos assim, escreveremos assim; só nos é possível adotar algum critério racional mediante um esforço tremendo de auto-educação. Quanto a isso já dizia Quintiliano: onus dedocendi gravius et prius quam docendi, desensinar é mais custoso que ensinar - e é também mais urgente. Quando educação significa imbecilização, a prioridade deve ser tornarmo-nos péssimos alunos. É hora de lutar pelo direito de não ser educado.