domingo, 14 de abril de 2013

O Maquinário Invisível

Provavelmente estaria certo quem, na esteira de Matthew Arnold, diagnosticasse como um dos maiores males de nosso tempo o culto ao maquinário. Boa parte das censuras que se têm feito necessárias, a gente das mais diversas classes, seria facilmente enquadrada neste gênero. Que é, afinal, a sede desmedida de dinheiro ou sucesso profissional? Amor ao maquinário. E a corrupção das ciências por interesses políticos ou ideológicos? Ou será diferente com a adolescência prolongada, que prefere prazeres carnais e desídia ao compromisso que leva a bens superiores? Aonde quer que olhemos, assoma o culto ao maquinário.

Outros, escolásticos, preferem dizer que amamos os meios em lugar dos fins. Eu concordaria com todos, preferindo porém a expressão de Arnold; afinal, ela comunica um detalhe importante, a saber, que nossa idolatria dos meios não é uma opção muito consciente.

Quem, em nossas narrativas tradicionais, trocou os meios pelos fins? Satanás? Adão e Eva? Ebenezer Scrooge? Em todos os casos, parece-nos que houve um erro da vontade, e não da inteligência. Pior: parece absurdo que alguma inteligência fosse incapaz de perceber o erro. Quem é tolo o bastante para trocar os fins pelos meios sem perceber? Que idiota não estaria consciente de que o dinheiro não é um valor em si mesmo? A terminologia mais filosófica dá a entender que todos sabemos quais são os fins, isto é, o que deveríamos amar, o sentido último da existência; preferimos, pois, a opção de ignorá-los, e dizemos com Ovídio: video meliora proboque, deteriora sequor.

Mas não é assim. E já que estamos em frases latinas, Oseias condiz mais com nossas circunstâncias: conticuit populus meus eo quod non habuerit scientiam. Estamos mais inocentes que Ovídio: non vidimus. Somos inocentes porque inscientes.

Certa ingenuidade opõe a essas observações o fato de que, por toda parte, alerta-se a humanidade contra o superficialismo, o consumismo, o comunismo e o halterofilismo. Filósofos, jornalistas e até blogueiros, dizem alguns, têm insistido nos fins e condenado os meios. E eu respondo que filósofos, jornalistas e blogueiros condenam sem saber quê nem porquê, que se fala mal do consumismo mas não se oferece razão decente para abandoná-lo, e que o halterofilismo tem a vantagem de apresentar algum tipo de resultado. Ora, se até quem dá os conselhos não sabe do que está falando nem acredita realmente no que diz, como se pode esperar alguma transformação efetiva do público?

Que meio é mais explicitamente contrário ao maquinarismo do que o religioso? Onde se fala mais contra a idolatria? E no entanto é lá que aparece, com mais vigor e opulência, o culto ao maquinário. O mesmo sacerdote que há pouco pregava contra a presunção farisaica de salvar-se por suas próprias obras é aquele que agora ali está, julgando que fulano é um pecador e que sicrano é um santo... baseado em quê? Em suas obras! Aquele reza o terço, aquele é seminarista, aquele participa das pastorais... este é do mundo, não o vemos em parte alguma, vive trancado em casa, esconde o talento. E onde está aquele Deus absconditus qui videt in abscondito? Mas não poupemos os leigos. Também eles mostram grande talento em confundir com atos o sentido de suas palavras; parecem crer que, professando um cristianismo cultural e de verniz, tornam-se maiores até que os filósofos pagãos. Quem não se orgulha hoje de opor, à vã sabedoria de Platão, um versículo bíblico muito mal-compreendido? Nem falo do desprezo aos protestantes. Tenho conhecido protestantes de espírito mais católico do que muitos católicos. Ou, nas palavras de Nosso Senhor: em verdade vos digo que não encontrei uma fé assim em Israel.

Não, não acuso a sacerdotes ou leigos de contradizer-se em consciência. Repito: non vidimus. Creem piamente não haver aí qualquer contradição, e ao contrário, parece-lhes que agir assim é coerente com o que professam. Não compreendem o sentido das palavras que eles mesmos gritam nas praças.

E se alguém levanta essas mesmas palavras como testemunhos contra minha tese, que nome posso dar-lhe senão o de ingenuidade? Curiosamente, essa ingenuidade é prova de que o fenômeno de que falo é real e preocupante. Pois se alguém supõe que a mera existência de fórmulas admonitórias basta para garantir o entendimento e, daí, a consciência do problema, estaria eu errado em dizer que essa confiança exacerbada na palavra, que é um meio, como se esse meio comportasse, em si mesmo e forçosamente, o seu fim, é apenas mais uma manifestação - perfeitamente inconsciente, como as outras - do culto ao maquinário? Quem confundiria uma cafeteira com o café? Porém há quem confunda a mera presença física de palavras com a compreensão profunda de seu significado.

E se for preciso dar a este texto uma conclusão formal, ritual e verbosa, declararei que ele deveria servir de alerta à leitura de si mesmo. Sim, aquele que compreender este texto deverá perguntar-se, sincera e intimamente, se de fato entendeu o que leu; ou se, ao contrário, este aviso passou rapidamente por sua inteligência, como o incômodo zunido dessas abelhas que parecem até invisíveis, deixando um sentimento de satisfação sem qualquer novo vislumbre interior. Deverá duvidar de si mesmo, de suas próprias capacidades e da perspicácia de sua inteligência; deverá, por fim, ocupar-se do tema por uns dez minutos ao menos, sem pensar noutras coisas ou conferir o e-mail. Quero crer que ainda existem pessoas capazes de fazê-lo; e lhes deixo um resumo deste parágrafo em forma de outra citação latina: de te fabula narratur.