domingo, 24 de março de 2013

Uma proposta de Jonathan Swift ao Brasil

Excma. Presidente da República, Venerandos Senadores, Honoráveis Deputados,

Muito se tem falado em dignidade humana: também eu, estrangeiro deslumbrado ante tão honrada assembleia, relembro o glorioso passado desta República, repleto de sacrifícios como de vitórias. Lembro, sobre as empavesadas galeotas brasileiras, o sangue – vermelho, como o meu e o vosso! – dos pais africanos, derramado com uma violência que fez bradar ao facundo Castro Alves:
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
E este país, a quem o poeta acusa de cobrir com sua bandeira aquele inferno, hoje liberta, hoje alimenta, hoje educa nas escolas, hoje instrui nas universidades, o mesmo povo de cujo tormento outrora extraíra açúcar. Orgulho, autoridade, prestígio perante as nações do mundo! Não mais o açoite desvairado, a humilhação desumana, o pecado instituído; não mais o sofrimento dos irmãos negros, não mais a senzala, o tronco, o horror!

E há contudo um povo a quem este país ainda maltrata, como antes aos escravos. Um povo que é forçado acá e ali com o chicote, despido como animal, ignorado como objeto; um povo que o Brasil despreza, humilha e condena à morte. À morte, Srs. Senadores! À morte, elegantes Deputados! Sra. Presidente da República... não o direi.

Não direi, pois sabe bem quem são; conhece sua miséria, sua humilhação, seu sofrimento. São irmãs, filhas, esposas, mães! São domésticas, secretárias, advogadas, empresárias! São viciadas, doentes, prostitutas... Venerável assembleia, honradíssimos representantes do povo! Quem desconhece a malignidade, a aspereza, a crueldade que suportam essas doces almas, esses angélicos sustentáculos da nação? Que seria de vós sem elas? Que seria do Brasil? Que seria do filho sem sua mãe, do marido sem sua esposa, da sociedade sem sua delicadeza, sem sua doçura, sem seu vigor, resistência, justiça?

E como as tratamos? Crucificai-as!, dizemos. Sofram! Morram, se necessário for! Não é o que dizemos, Pais Conscritos? Não é isso mesmo, louvável Presidente?

Segundo estatísticas, morrem cem mil brasileiras todos os anos devido à irresponsabilidade de clínicas ilegais, numa operação simples que poderia ser praticada, se corretamente, sem dano algum. Nem é segredo que a esta chaga somam-se muitas outras, derivadas da miséria e incultura de vossos cidadãos, dentre os quais as mulheres têm a maior carga. De fato, a fome, violência doméstica, preconceitos, desarmonia entre a carreira e o lar, são graves ofensas ao espírito de vossa Constituição.

Dentre tantos problemas, o maior talvez seja a interrupção da gravidez e suas atuais consequências nefastas. Não são mortes acidentais, Srs. Deputados! Não são “eventualidades”! Trata-se de sangue inocente em vossas mãos, em mãos dos representantes deste país. A responsabilidade é vossa! E as mulheres deste país esperam que, com a declaração recente do Conselho Federal de Medicina, inspireis-vos a evitar uma tragédia maior nos próximos anos. Uma assinatura, Pais Conscritos! E milhares de vidas serão poupadas.

E como vos vejo já bem inclinados e bem dispostos, quero responder a uma outra inquietação que vos vem porventura atormentando. As operações cirúrgicas far-se-ão com toda higiene, com todo cuidado; mas que fazer com os subprodutos – o lixo, por assim dizer – destas operações? Vejo alguns contorcerem seus rostos, e me pergunto por quê. Será vulgar pôr em discussão coisa tão inútil? De fato, o lixo hospitalar é frequentemente lançado às chamas e transformado em fumaça, com o que se polui o ar e mais nada. Mais nada, senhores, Sra. Presidente da República!

E contudo me ouvistes há pouco falar dos inúmeros dilemas de nosso povo, de nossas mulheres, e concordastes, e formastes faces piedosas! Caso pudésseis tirar proveito deste indigno elemento, deste subproduto, deste lixo, para investir contra uma outra vulnerabilidade da nação, não o faríeis? Não desejaríeis evitar mais sofrimento e mais mortes às sofridas mulheres do Brasil? Eis o que vos proponho: de uma solução, obtereis duas; por um gesto generoso, mas tardio, compensareis vossa inércia passada; da infâmia, tirareis glória; do fracasso, sucesso. Não me ouvireis? Não me atendereis?

Tenho em mãos o relatório do Prof. Jonathan Crook, P.h.D., que nos declara o seguinte: “por volta da décima semana de gestação, o feto já exibe notável poder de concentração de nutrientes”. E duas páginas depois, venerandos senhores, notável senhora, diz o mesmo Prof. Crook: “pode-se afirmar que o feto, especialmente no terceiro mês de gestação, possui uma das combinações mais nutritivas jamais encontradas na natureza”. Concluindo, afinal, este paper, o professor declara enfaticamente que um único feto humano, em condições ideais, substitui as três refeições diariamente necessárias a um adulto. Não sou eu quem o digo, gravíssima assembleia, mas o Prof. Crook, doutor pela Universidade de Harvard e docente em Yale. É a voz da ciência, que o comprova com exames, análises e gráficos. Não há questionamento à fundamentação científica deste artigo. Estamos diante de um novo avanço da Biologia e da Medicina.

Os distintos deputados, respeitáveis senadores, a nunca assaz louvada Presidente da República poderiam, e com razão, preocupar-se com a recepção popular desta descoberta. Poderiam, caso fosse minha proposta entregar tal notícia ao público cruamente. Não é assim. Há obstáculos culturais ao progresso, mas têm sido sempre superados pela perspicácia de governantes pacientes e constantes. Antes de mais nada, é preciso evitar o clamor sensacionalista de parte da imprensa – uma parte negra, obscura, sempre a buscar estagnação e retrocesso – porém, isto vós já o tendes remediado muitas vezes com facilidade insuspeita. É dar aos jornais um escândalo qualquer de corrupção, e persuadi-los a publicar a novidade em formato superficial e sucinto, com termos genéricos e preferencialmente afetivos como “reciclagem”, “ecologicamente correto”, “desenvolvimento sustentável”. Os detalhes do processo devem ser desenvolvidos e tratados por acadêmicos de confiança do Estado, com verba apropriada, e repassados sob a forma de relatórios técnicos sem qualquer tipo de vulgarização comprometedora.

Caso ainda assim sejais forçados a pronunciar-vos a respeito, dizei a verdade: que se trata de projeto promissor, com o qual aplacareis a fome do Brasil e, quiçá, do mundo; que outros países há interessados em praticá-lo, mas nenhum com a coragem e a força do vosso; que sereis pioneiros desbravadores das possibilidades do futuro; e que os opositores de tais avanços são os que deles não necessitam, isto é, os ricos e poderosos, que não conhecem a fome e têm, na verdade, interesse em subsidiá-la, em mantê-la às custas dos pobres e oprimidos, sob o manto de justificativas abstratas, oriundas do fundamentalismo religioso.

Eis o que vos proponho, mais para vossa glória do que para a minha, com o intuito de ver prosperar vossa nação e vosso povo, e de dar seguimento ao vosso honroso capítulo no grande livro da História, em que vos inscrevereis perpetuamente por tão valoroso e adiantado gesto de heroísmo político. Prevejo grande honra e admiração a vós no Brasil presente e futuro, com a fome erradicada, os sofrimentos amenizados e as mulheres brasileiras, outrora cativas do obscurantismo e preconceito, livres para construir um futuro melhor para si e para os seus. Racionalizo minha esperança, e não a creio absurda, pois já o fizestes com vossos irmãos, os negros, e podeis fazê-lo, com todo o vigor, a vossas irmãs, esposas, mães, filhas. Nesta esperança me despeço de vós.

*Tributo ao panfleto clássico de Swift, A Modest Proposal.