terça-feira, 5 de março de 2013

Ascensão e declínio de uma caricatura




parte um.

Na cabeça de muita gente, parece não estar clara a distinção fundamental entre filosofia, política, ciência, religião e arte. Uns acreditam piamente que a ciência possui o monopólio de todas as indagações humanas; outros, já não conseguem ver com precisão que religião e filosofia, apesar dos pontos fundamentais que têm em comum, dão respostas distintas às questões mais significativas; outros tantos, infelizmente, reduzem a atividade filosófica à militância política; e, por fim, muita gente vê na filosofia nada mais do que uma hermética e extravagante performance artística. Tudo fica muito mais confuso quando se pretende ensinar filosofia no ensino médio, sem demostrar com extrema seriedade qual é uma de suas principais finalidades, a saber: desatar os nós das confusões conceituais. Não à toa, muitas vezes já não se sabe se o professor é de filosofia ou se é algum personagem materializado diretamente das músicas de Raul Seixas ou Pink Floyd. Uma coisa é certa: o professor de filosofia no ensino médio tem grande parcela de responsabilidade por fazer da atividade filosófica uma anedota estúpida, um motivo de chacota entre seus colegas de outras disciplinas e entre seus próprios alunos.

Muitos professores de outras áreas têm uma vaga noção sobre o que efetivamente vem a ser a filosofia: sabem que é importante, mas não sabem de que a filosofia trata. Sabem que é difícil, mas não sabem muito bem o que é difícil. Sabem que faz os alunos “pensarem”, mas não sabem exatamente no “que” e “como” eles devem pensar. Sabem que refina o “senso crítico”, mas confundem “senso crítico” com “ser contra o sistema”, “contra o Papa”, “contra o capitalismo” e “ter umas ideias bem legais”. E, por fim, esperam – os mais otimistas – que a filosofia ajude a formar bons cidadãos, isto é, garotos que acham que consciência ambiental é adotar Guarani-Kaiowá como sobrenome do Facebook e que consciência moral é fazer sexo com responsabilidade. No limite, tratam o colega professor de filosofia como um cara descolado, bacana e que não faz mal pra ninguém; e, na situação mais extrema, um “sonhador político desajeitado”. Por outro lado, os alunos acham o professor de filosofia um “doidão”, e que não faria a menor diferença se estivessem conversando com o “hippe da pracinha que vende pulseirinhas de miçanga”, a respeito da “angústia do eu interior” e da “infinita imensidão do cosmos”.

De tudo isso, infelizmente, o mais constrangedor é saber que alguns professores de filosofia não têm o menor pudor em demonstrar o prazer que sentem quando são comparados aos “bobos da corte” de uma cultura que necessita urgentemente de gente séria e extremamente competente. Evidente que toda essa imagem do “professor de filosofia” não passa de uma caricatura grotesca que precisa ser superada. Se a disciplina de filosofia é ainda hoje marginalizada nas escolas e nos vestibulares, isso certamente se deve ao fato de que o professor de filosofia de ensino médio têm sua parcela inegável de responsabilidade, sobretudo por ter uma concepção medíocre de formação em filosofia, e por conceber a atividade filosófica à luz de suas crenças particulares e, em última instância, fazer das aulas de filosofia o depósito particular de seu mundo de fantasias. Do fato de o objeto da filosofia não ser evidente para o iniciante em filosofia – pense no aluno de quinze anos tendo contato pela primeira vez com a noção de ontologia fenomenológica ou a de dedução transcendental, por exemplo – não segue que esse objeto não seja, em sua peculiar natureza, preciso, exato e fundamentalmente concreto.

A filosofia é a mais concreta, exata e objetiva de todas as disciplinas. A vagueza está em quem ensina. E o professor de filosofia tem de assumir o compromisso profissional de demonstrar isso com extrema clareza e rigor. O compromisso fundamental exigido por sua disciplina, mais do que por qualquer outra disciplina, é ser rigorosamente preciso, coerente e claro. Disso não segue que deverá perder a paixão e o entusiasmo poético. Na filosofia, a paixão poética coincide com o rigor da lógica. Se um professor de filosofia não é capaz de não ser vago, de falar coisas confusas e de ser impreciso, então ele deveria procurar outra profissão. Contudo, em decorrência dessa confusão e dessa falta de comprometimento, a disciplina escolar de filosofia foi jogada para debaixo do tapete das “humanas”, ou seja, daquele conjunto de saberes imprecisos, em ridículo contraste com as “exatas”, mas que tem a finalidade de fazer do aluno um “cidadão mais humano” – seja lá o que isso signifique. Não obstante, a disciplina de filosofia deveria estar entre as mais exatas de todas as disciplinas, ser a condição de toda exatidão do conhecimento que se pretende rigoroso e verdadeiro.

O fato é que há quase dez anos a filosofia se tornou disciplina obrigatória no ensino médio. Sem dúvida isso é consequência de uma longa discussão acadêmica a respeito da finalidade da filosofia na formação da cultura brasileira como um todo. No entanto, antes de refletir a respeito dessa abertura, cabe um rápido balanço do pedagógico quadro geral do ensino de filosofia no Brasil: o desprestigio do estudo da filosofia no Brasil se deve, grosso modo, a certos fatos históricos importantes a partir da segunda metade do século passado: a) as faculdades de filosofia foram as primeiras a acolher o intelectual ideologicamente motivado por doutrinas de esquerda, sobretudo de orientação marxista; e b) muitos professores de filosofia receberam sua formação em seminários católicos, cujo principal interesse era o sacerdócio e não a docência ou pesquisa. Os seminários católicos no Brasil, do final da década de setenta ao início da década de noventa, foram notoriamente dominados pela Teologia da Libertação, isto é, uma formação de caráter também de esquerda incorporada à teologia; na verdade, uma salada entre cristianismo e marxismo. Com seu apelo ao “pobre” enquanto reduzido a uma categoria puramente sociológica, tornou-se uma teologia totalmente desacreditada.

Por outro lado, o marxismo – revolucionário e depois acadêmico – foi uma resposta a outras duas fortes tendências filosóficas que dominavam não só o cenário intelectual do país, mas que já permeavam em ampla variedade de relações da nossa cultura, a saber: o positivismo e o tomismo, cujas raízes históricas são profundas e complexas e não cabe entrar em detalhe. A formação ideológica da população basicamente era toda de influência ou positivista ou tomista, apesar das essenciais diferenças entre as duas. O período que cobre a segunda metade da década de sessenta e a primeira metade da década de setenta foi um ponto de virada fundamental nesse cenário, pois o desprestigio social da filosofia como disciplina escolar emerge justamente daí; no sentido de que a caricatura do “professor doidão de filosofia” ter recebido seus primeiros traços nesse momento histórico, a partir dos conflitos intelectuais de consequências inevitavelmente sociais. Aliás, não se pode deixar de mencionar que também é desse momento a origem de boa parte de nossa confusão a respeito da maçaroca ideológica entre “direita”, "esquerda", “conservadores”, “liberais”, “tradicionalistas” e “progressistas”.

Em um primeiro momento, o que isso significa? Primeiro, que os únicos lugares que não poderiam ter sido maculados por qualquer tipo de ideologia foram os primeiros a acolher as mentes mais engajadas ideologicamente. E, segundo, que muitos professores formados nessa geração, e que continuam a lecionar filosofia, fazem a partir da frustração e do esgotamento de sentido da militância política e do sacerdócio. Muitos deles – vale ser destacado –, felizmente, tornaram-se os grandes especialistas e são responsáveis por salvar a filosofia do monopólio das antigas ideologias; outros, lamentavelmente, aderiram ao rancor do ressentimento e semearam seus herdeiros. No entanto, não deve ser uma mera coincidência que a desvalorização histórica da figura do padre e do professor de filosofia seja concomitante à crise dessas ideologias. A verdade é que, em linhas gerais, o ensino de filosofia no Brasil foi dominado por três correntes filosóficas até o final do século XX: Tomismo, Positivismo e Marxismo. São Tomás de Aquino, Augusto Comte e Karl Marx, como diz o historiador Jorge Jaime (1997) “vicejaram na alma do povo brasileiro” (Cf. História da Filosofia no Brasil, v. 1, p. 103). E nós continuamos a viver à sombra disso tudo.