terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Os órfãos do Papa Bento XVI

Muitos têm especulado sobre os motivos secretos da renúncia papal, anunciada ontem. Como de hábito, brotaram florestas de especialistas na política interna do Vaticano e, como caísse um raio na Basílica de São Pedro durante a renúncia, floresceram também esotéricas interpretações do misterioso evento. Não faltam novos reis magos no Facebook. Outros (mais comedidos) pediam silêncio, respeito à decisão do Pontífice, enquanto os médios, constantíssimos na mediocridade, inventavam argumentos teológicos para justificar e canonizar este ato - como o teriam feito com qualquer outro - do Santo Padre. Não é isto demérito aos médios, não; o médio nunca age por mal, embora aja mal com alguma frequência. Não é o caso; estou divagando. E como escrevo este texto, o leitor já me adivinhou que não sou especialista, esotérico, comedido ou médio, e deve estar-se perguntando que diabos sou e por que me acho melhor que os outros.

Não sou melhor que os outros, não senhor; ao menos não que os comedidos, que escolheram a melhor parte. Rompo o silêncio para dar o testemunho de quem conheceu o trabalho do Papa de longe, sem coisa alguma saber de políticas internas, externas ou intermédias, nem de eclesiologia, e muito pouco da Fé. Nada há de melhor nisso, mas algo pode haver de peculiar, de idiossincrático, se preferem assim. Pretendo tirar daí alguma ideia de por que estamos tristes os católicos com esse acontecimento.

Quando o Beato João Paulo II esteve no Brasil, não fui vê-lo, como não teria ido ver o Dalai Lama. Não era católico, nem sombra disso; o santo velhinho era para mim um velhinho, nada mais. Talvez ele tivesse concordado comigo, mas evidentemente estaríamos ambos errados. Quando o Cardeal Ratzinger foi eleito Papa Bento XVI, ouvi rumores de um "papa nazista", algo a respeito de perseguições, Inquisição, e mais nada. Também então não era católico, nem sonhava em sê-lo. Mais tarde me falariam de "papa conservador", sem muito efeito nesta inteligência alienada.

Quando me converti e fiz batizar, a imagem de Sua Santidade veio visitar-me muitas vezes: era citado na Missa, em palestras de sacerdotes, em conversas católicas (dói-me escrevê-lo, pero que las hay, las hay), finalmente fez duas coisas impressionantes: beatificou seu antecessor (que eu já então respeitava consideravelmente) e o Cardeal John Henry Newman. O Beato Newman foi um intelectual respeitabilíssimo e poeta de considerável talento, para dizer o pouco que minha pouca cultura permite. Foi uma beatificação de grande significância intelectual, como a de Sto. Agostinho ou S. Tomás - ou, para não me atribuírem a intenção de comparar títulos pequenos a grandes, a hipotética beatificação de Chesterton. Bento XVI nos chamava, a nós que cuidávamos das coisas do espírito, a mirar um santo de nossa laia, por assim dizer.

Em dado momento veio aquele mexerico, alçado ao estatuto de indignação espiritualizada pela histeria midiática, a respeito de abusos infantis na Igreja. O jornalismo (provavelmente uma das profissões que mais arriscam a alma), com a delicadeza de sempre, inventou a imagem de um "papa pedófilo" (custa escrevê-lo, mas é o que se disse), chegando a provocar "manifestações" - é assim que chamamos hoje a uma turba enfurecida - de ódio ao Papa, organizadas, é claro, por gente que mais provavelmente abusou do que foi abusada na infância. Os casos de pedofilia eram poucos, todos antigos, e de modo algum eram responsabilidade de Joseph Ratzinger; no entanto, não foi à toa que Cristo chamou ao demônio "príncipe deste mundo". A calúnia e o ódio injusto, inclusive da parte de supostos católicos, não deixaram de afetar o velho sacerdote, que desabou solitário durante algum tempo. Mas de repente surge; ei-lo visitando as vítimas uma por uma, ei-lo saindo à casa de uma delas, reconciliados e em lágrimas ambos, o velho caluniado e a criança violentada. Que humildade, que caráter!, pensei eu. Tínhamos um Papa humano.

Disse humano? Humano, sim, mas Sumo Pontífice. Sentimental, mas responsável. Daí veio sua fama de conservador. Esses termos da política são relativos, dependem de época e lugar. Que é um progressista na Inglaterra do século XIX? Um conservador na atual. Que é um conservador no Brasil? Basta defender o direito de bebês viverem para sê-lo (os pró-vida muristas que negam ser conservadores, perguntem a um jornalista). Nesse sentido, qualquer Papa é conservador. Até a Igreja deve ser uma instituição conservadora, pois defende e sempre defenderá princípios antigos. A opinião dos povos pode mudar radicalmente em trinta anos; a Igreja leva um século para mudar superficialmente - a mera possibilidade de uma mudança significativa no ensino eclesiástico é controversa. Christus heri et hodie ipse et in saecula. Se Cristo não muda, tampouco as opiniões da Igreja, se estão em harmonia com as Suas, podem variar.

Bento XVI não aceitou o aborto, a ordenação de mulheres, a aprovação moral do preservativo e da pílula, o chamado "casamento" homossexual. Exigiu que os sacerdotes, freiras e teólogos que discordavam da Igreja mudassem de opinião ou parassem de ensinar em nome dela. A mídia internacional nunca gostou de alguém influente que discordasse da ideologia do dia. Mais tarde fiquei sabendo que o trabalho irritante de Ratzinger começara na Congregação para a Doutrina da Fé, que sob sua direção investigou, pressionou e às vezes até expulsou diversos "religiosos heterodoxos". Entre os grandes feitos da CDF está ter silenciado essa chaga, esse sacrilégio vivo que é o Frei Leonardo Boff. Um débil mental com opiniões perigosas que, por muito tempo, advogou, em nome da Igreja... a destruição da Igreja!

Em poucas palavras, Bento XVI foi chamado de conservador porque fez o possível para eliminar da Igreja aqueles que a odiavam. As calúnias de "papa nazista", ouvi dizer, vêm do fato do jovem Ratzinger ter sido obrigado a participar da juventude hitlerista - como, aliás, muitos outros alemães inocentes. Não sei de alguma ligação do Papa com o PSDB, o Partido Republicano ou o que seja. Ele é conservador porque é Papa, e porque é católico. Se fizesse o possível para contrariar e destruir a própria instituição que dirige, seria progressista. É assim que a nossa mídia classifica as pessoas públicas. Infelizmente, hoje ser católico significa necessariamente ter opiniões conservadoras. Não é a Igreja que ficou para trás, é a sociedade que "progrediu" até a extremidade da mesa. Mais progressistas que isso, e cairemos dela.

Creio ser por isso que a maioria dos católicos fica triste com a renúncia do Papa. É um homem firme e sensível, humano e responsável, que aliviou a Igreja de muitas confusões embaraçosas (soube que o Frei Leonardo Boff está atualmente defendendo que cultuemos Gaia), que trabalhou para esclarecer a doutrina católica aos fiéis, para disseminar o trabalho intelectual e o amor aos sacramentos, que foi enfim um digno continuador de João Paulo II. Sólido, confiável e compreensivo, muitos de nós se apegaram a Sua Santidade como um verdadeiro pai. Sofremos com ele e rezamos por ele. E todos temos uma pontinha de receio que seu sucessor seja mais frouxo ou mais fraco, e que acabe deixando o mal acontecer ou sendo derrubado do trono. Quem diz que ter fé é fácil não tem fé; ou não é humano.