sábado, 26 de janeiro de 2013

Imitação de Corção: de Gordas, Morte e Deus

Esta imitação toma por motivo um trecho do livro Lições de Abismo, em que o personagem José Maria descobre ter uma doença terminal e passa por um processo de descoberta de si. No momento em que recebe a fatídica notícia, José Maria está no consultório do Dr. Aquiles, onde há pouco tempo viu uma senhora gorda e leviana, uma "dona Fifi", para usar a feliz expressão de minha esposa. O texto é em primeira pessoa e começa no momento em que José Maria descobre que morrerá. As reflexões escandalosas, desnecessário dizer, não devem ser atribuídas a mim, mas ao personagem que as faz, que pouco tem a ver com o mero imitador que assina este texto.

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Notei que o doutor, ao contrário da senhora gorda e infeliz da sala de espera, baixava os olhos para o chão quando falava de Deus. Como seria divertida a conversação entre os dois se fosse ela, a dama gorda, a desenganada! Como surpreenderia àquela piedosa figura o crucifixo, estático, inerte, simbólico, acompanhando com interesse a notícia inesperada! Decerto o Dr. Aquiles a receberia com um daqueles gracejos profissionais de duvidosa eficácia, que ela receberia, para espanto geral, com pronta satisfação. É que é próprio das senhoras gordas alegrar-se exageradamente com qualquer elogio, levá-lo demasiadamente a sério e até reagir com indignada surpresa quando o mesmo que as lisonjeou como atraentes recusa-se a pedir-lhes a mão.

Por que, perguntaria um filósofo, são assim as mulheres gordas? A singela frivolidade feminina, aquela horizontalidade da atenção, a curiosidade estúpida e a vaidade, ah, a vaidade voraz que devasta o coração do homem, adquirem na mulher gorda uma manifestação peculiar. A gordura rouba às mulheres a delicadeza, a suavidade aparente - sempre falsa! - que esconde-lhes, sob um véu panteísta de Pandora, filha perfeita da harmonia cósmica, a vaidade imensa, massacrante, abissal. Resta-lhes o insuficiente disfarce dos gestos, das palavras bem escolhidas, denunciado abertamente pela grosseria dos traços e pela lentidão paquidérmica dos movimentos. Sim, as mulheres gordas são as verdadeiras mulheres: deveríamos amá-las como o Dr. Aquiles, que com toda a delicadeza corre os olhos pelos exames:

- E tem a senhora acompanhado a novela?
- Quê! O senhor acha que não? - pavoneia-se a gorda senhora - Mesmo com janta por fazer, o senhor não duvide, dou conta do trabalho inteiro; acabo-me com tanta coisa, mas consigo assistir à minha novela...

O Dr. Aquiles está fazendo seu jogo. As pálpebras travadas, os lábios estáticos, ele esconde seu four de Ases como fez comigo. Mas a obesa dama não lhe toma nota; está ocupada com uma eloquentíssima elucubração sobre a protagonista da novela. O centro, evidentemente, não está na protagonista, mas na primeira pessoa do singular: “eu faria”, “eu sabia”, “creio eu”...

- A senhora é católica? - perguntou o Dr. Aquiles.
- Ora sim senhor! E não apenas católica como paroquiana ativíssima. Sabe o senhor que outro dia o padre disse...

E desaguou noutro longo comentário sobre seus méritos, sua piedade indubitável, as esmolas e dízimos que dava, com muita dificuldade, mas sempre se encontra algo para oferecer a Deus... O Dr. Aquiles resistia bravamente. Via-se em seu rosto experimentado aquela levíssima contração que indicava, sem margem de dúvida, que renovava interiormente seu nobre propósito de contar a notícia do modo mais delicado possível.

- Perceba, a senhora tem uma questão... Seus exames indicam uma anomalia.
- Mas quê, doutor! Estou doente, então?
- De fato. Nada por que se possa culpar a senhora. Uma coisa de detalhes... poderia acontecer com qualquer pessoa.
- É sério, doutor?

O Dr. Aquiles hesitava. Aquela pergunta punha-o perto da resposta central, dolorosa, indizível. Aquiesceu e acrescentou rapidamente: precisaria de tratamento, teria que voltar ali; ele gostaria de conversar com seu marido, combinar alimentação, remédios... A senhora gorda concordava, um pouco nervosa, e parecia indecisa. Perguntava-se talvez se seria pior não perguntar, e permanecer na dúvida, ou perguntar, e ter certeza do horror; decidiu por fim pela primeira opção. O pânico tomou-a; não queria, não podia entreabrir aquela porta, para que um feixe da luz fria do diagnóstico viesse mostrar-lhe, em chiaroscuro, os gigantescos, os horrorosos monstros ocultos na escuridão do seu quarto.

Como toda criança, a dama gorda não adivinhava a aparência desses monstros; não lhes conhecia os contornos, menos ainda as origens. Mas pressentia, por um desequilíbrio no ar, por certo som, rápido e surdo, que lhe parecia quase familiar, e por uma suspeita, embora rápida, agitação nas cortinas, que havia elementos estranhos na escuridão. Havia muitos anos, ainda menina talvez, decidira ignorá-los; a perspectiva de acender a luz trouxera consigo, naquele tempo, a terrível intuição de que haveria monstros demais, de que sua mera visão a enlouqueceria, mataria, pulverizaria. Passara então a procurar refúgio, primeiro no quarto de papai e mamãe, e depois, quando os monstros passaram a segui-la por todos os quartos, quando perdeu a ilusão de que papai podia protegê-la, frequentava os aposentos comuns: a sala de estar, a cozinha, a rua, as festinhas, bailes, grupos de estudos, reuniões paroquiais. Mas nada lhe tirara o medo, o medo imenso, quando finda a festa, posto o sol, a senhora gorda voltava a seu quarto e, hesitante, fechava a porta. A imersão no coletivo podia distraí-la, conceder-lhe certa segurança de sua liberdade e solidez, mas não fazia mais que espantar os monstros. Tão logo estivesse sozinha, ela sabia, o pânico voltaria.

Não digo que era impossível eliminar de vez aqueles demônios. Crianças há que o fizeram, e adultos e velhos, com o gesto de coragem e altruísmo que tem transformado, em todos os tempos, o bebê em homem. Com o fragilíssimo corpo a tremer, vítima dos golpes desesperados de um pânico agonizante, levanta-se e encara o total, o absorvente escuro. Não vê coisa alguma, não tem certeza do que a espera, e mesmo assim avança. Ergue seu bracinho magro, privado do tempo para experimentar-se e crescer, indefeso. E com aquela mão pequenina, ainda sem coordenação, golpeia decidida o interruptor. Pode haver dezenas, centenas de criaturas horríveis esperando por ela na escuridão. Línguas bifurcadas, escamas, olhos vermelhos e amarelos, rabos de escorpião e asas de morcego. Ela prefere encará-los a deixar que a atormentem por mais um segundo. Decidiu-se por ser dona de seu próprio quarto, ou ser expulsa dele de uma vez.

Lamentavelmente, não foi essa a decisão da senhora gorda, que ainda agora inclinava-se a esconder o rosto debaixo do travesseiro, como habituou-se a fazer no curso dos anos. Mas desta vez ela recebera duas vantagens: uma, que o monstro já lhe soprava no rosto, denunciando com arrogante liberdade sua presença massiva, e a outra, que tinha ali um anjo auxiliar, o Dr. Aquiles. Percebendo a decisão que a paciente tomaria, o anjo não quis fazer senão o necessário, mesmo que contra sua etiqueta mais comum:

- A senhora tem pouco tempo de vida.

A ideia soava inadequada, absurda até. Como, como seria possível que ela estivesse ali, gorda, vaidosa, viva, numa conversa até há pouco tão aprazível com um educado médico, e ao mesmo tempo estivesse... É preciso dizer a palavra? Morrendo? Como? Morrendo, enquanto se preocupava com os afazeres de casa? Morrendo, enquanto pedia lugar àquele jovem incapaz de negar o que fosse? Morrendo, ao comentar tão banalmente, tão vivamente, um defeito quotidiano do marido? Pensou em negar, em fazer escândalo. O médico estava errado, não tinha olhado direito, como fala assim sem pensar uma coisa dessas... E deu-se conta de que não era possível, de que estava com o Dr. Aquiles, e ele nunca, nunca trataria do caso dela assim... Não o Dr. Aquiles, que sempre entendera seus sofrimentos, sua angústia... O que lhe lembrava: estava morrendo! Em todo esse tempo, a boca da senhora gorda só manifestava goles em seco, exclamações mudas e perplexidades. O Dr. Aquiles sustentava a paciência, desenhando seu quinto barquinho e fazendo comentários tão eruditos quanto ininteligíveis sobre basófilos e leucócitos, na esperança inútil de que a nomenclatura técnica distraísse aquela velha e gorda criança do hálito fedorento de um dragão.

- A senhora disse que era católica...

A frase era incompreensível. Que podia, que poderia haver de parentesco entre sua catolicidade e sua morte? Que amizade se estabeleceria entre os padres, com suas mansas homilias sobre o egoísmo e a fidelidade a Jesus, e aquele abismo horroroso, aquela ferrugem maligna da morte? Quem veria semelhança entre as animadas reuniões paroquiais, em que competiam beatíssimas senhoras com citações do Evangelho e invocações da Virgem Maria, e a humilhação desmedida daquela notícia? Que queria dizer o Dr. Aquiles? Bem sabia a senhora gorda que, para aqueles que haviam vivido bem, dizia a Santa Madre Igreja, a morte culminava no Paraíso. Que Deus chamava as almas a Sua presença, que nada havia de temível nisso. Mas tinha o Dr. Aquiles que entender certas coisas! Não via ele como era artificial opor, a um pânico tão frágil, as algemas plásticas da convicção social? Não diria que eram mentiras; não. Cria em Jesus Cristo, Filho unigênito nascido do Pai antes de todos os séculos. Mas naquele momento, naquelas circunstâncias, isso não lhe dizia nada, estava fora de contexto. Esperava a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há-de vir, mas isso durante a Missa, a que só atendem os vivos! Que sentido fazia, àquela altura, pensar em padres, paroquianos, dizimistas, na coleta e nas pastorais, até no Santíssimo Sacramento, meu Jesus Cristo, se nada disso faria parte de sua vida dali a...

- Quantos meses, doutor?
- Três ou quatro.

Não pôde conter os soluços, as lágrimas pujantes e alguns muxoxos. Estava diante de um abismo, um túnel sem saída cuja entrada se fechara há muito tempo. Não lhe parecia ainda que sua vida estava errada, não; mas assaltava-lhe a impressão de que vivera uma vida incompatível com o que agora lhe aconteceria. Vivera como se não fosse morrer, e agora não imaginava por que meios poderia morrer como se tivesse vivido. Passavam mil ideias na mente do Dr. Aquiles, que iam desde a Confissão ritual até o conceito, meio abstrato decerto, de uma derradeira oportunidade para compreender a vida retroativamente. Deus, Deus, Deus, gemia a senhora gorda. Como são diferentes os homens que creem nas mesmas coisas e pronunciam as mesmíssimas palavras! Ou então, quem sabe? não é o mesmo o Deus de um e de outro...