terça-feira, 13 de novembro de 2012

A Cera e o Fogo, ou Ensaio sobre a Burrice

"Vim lançar fogo à terra: que quero, pois, senão que arda?"
(Lc 12, 49)
Quando Ortega y Gasset falava do hombre masa houve quem, ignorando seus repetidos avisos, interpretasse o termo como um insulto reacionário às chamadas "massas trabalhadoras". O próprio Ortega explicou insistentemente que se tratava de um tipo alheio às diferenças de classe, presente em todo lugar e período histórico. A miséria do homem-massa não é tanto seu "sentimento de classe" quanto um tipo de estupidez que pode, se proliferada, implodir toda uma civilização.

Explicava, pois, Ortega que o homem-massa se caracteriza pelo aprisionamento em si mesmo, e o comparava a um desses insetos habitantes de buracos e fendas, dos quais não conseguimos tirá-los de modo algum. São os señoritos satisfechos, meninos mimados de oitenta e tantos anos, que agem - ainda que não o confessem em palavras - como se já tivessem dentro de si todo o necessário. Explicava-os Ortega pela combinação de dois fatores: primeiro, a herança de uma sociedade tecnicamente avançadíssima, que eliminou quase todas as frustrações fundamentais da vida material; segundo, a indiferença completa aos meios pelos quais a sociedade chegou a este nível. Somando à ausência de restrições a completa ingratidão aos que a tornaram possível, temos o perfil do señorito satisfecho.

Também dele falava, embora com menos urgência, Matthew Arnold, ao reconhecer um tipo social que começava a predominar e disputar à aristocracia sua influência: o filisteu inculto, indiferente, superficial e convencido; o homem simplório que, não obstante, considera-se umbigo da Humanidade, e dá a suas opiniões o mesmo valor que às de um sábio como Platão. Nele Arnold reconhecia o valor de walking by the best light one has, mas suspeitava que essa best light relativa, se não fosse intensificada pela cultura, podia gerar catástrofes. Para explicar esse dilema é que Arnold desenvolve a oposição entre Hebraísmo e Helenismo, uma força ativa e outra contemplativa, que devem trabalhar unidas se quisermos uma sociedade decente. Por muita boa vontade que o filisteu pareça ter, ele só poderá beneficiar alguém se primeiro convencer-se de que não é bom o bastante.

Ortega representou o hombre masa como burguês geral, sem ligá-lo a um grupo social específico. Arnold escolheu o tipo religioso - pois o protestante fanático do seu tempo seria o "espiritual independente de religiões" do nosso. O Hebraísmo desequilibrado hoje se manifesta na histeria com que uns simplórios exigem a proibição de tudo quanto não lhes dá prazer, tratam fumantes ou heterossexuais como monstros genocidas, tomam os costumes atuais como superiores aos do passado, falam que a Bíblia "está cheia de contradições" e outras frases de efeito que, no fundo, servem para sustentá-los em perpétua flutuação intelectual.

O defeito do inseto escondido, e do hombre masa e do filisteu é, afinal, o estar apertado numa fenda minúscula, é estar aprisionado numa vida diminuta, é a estreiteza de consciência. A metáfora acaba por repetir-se: o espaço em que se move esse tipo humano é pequeno demais, não permite liberdade e flexibilidade. Ele está como que congelado, atado, preso num sarcófago em que não pode sequer mudar a posição dos braços. Derivo daí uma outra metáfora: esse homem se encontra em estado de rigidez cadavérica. Há, outrossim, algo de morto na argila seca, como de vivo na derretida; o enrijecimento assinala que já não é possível modificá-la, que assumiu uma forma estática, ou seja, morta. Enquanto está mole, essa combinação de umidade e calor nos dá a sensação de possibilidade, de vida. Não é à toa que o filósofo-poeta Cleantes comparava a alma humana, que é fonte da vida, à cera mole.

O mesmo Cleantes, por sinal, costumava dizer que a percepção era semelhante à marca de um selo sobre a cera da alma. É curioso que uma analogia tão impactante não tenha então produzido uma pergunta que me parece o fundamento de uma ética da cera: não haverá almas solidificadas, em que a percepção já não produz um resultado suficientemente fecundo? Não haverá os incuráveis que Platão considerava no Górgias, ou pelo menos alguns muito difíceis de curar? A resposta é afirmativa, e quem a dá são pesos-pesados como Matthew Arnold e Ortega y Gasset; não obstante, os estoicos já se esforçavam por persuadir os demais de que era necessário abandonar seus pontos de vista fechados e, nas palavras de Sêneca, cum universo rapi.

Como, pois, amolecer essa cera? Como articular novamente esse cadáver? Se é possível curar um filisteu, o segredo é preparar uma atitude mais receptiva em sua alma, sem a qual de nada adiantará argumentar com ele ou criticá-lo no jornal. A pista é dada, novamente, pela analogia de Cleantes; pois como se amolece a cera, senão pelo fogo? E qual seria o correspondente desse fogo no mundo da inteligência ou, para soar solene, do espírito? Deve ser um elemento quente e intenso, a um tempo temível e purificador; pode chamar-se amor, vontade, animus, de acordo com o freguês, mas nenhuma dessas palavras expressa por si só o sentido unívoco do objeto que estou buscando. No imaginário cristão, é representado pela pomba branca que desce sobre o Cristo batizado e, finalmente, pelas línguas de fogo que pousam sobre os apóstolos em Pentecostes.

Chegamos, pois, a uma triste conclusão: esse fogo divino não tem origem no homem, e não pode ser produzido segundo nosso bel-prazer. Não podemos despertar o filisteu. No entanto, sabemos que há condições mais propícias para a ígnea graça, e essas podem ser arranjadas. Os rituais e métodos preparatórios variam desde a dialética socrática até as fórmulas de oração tradicionais. De modo geral, parecem investir em duas frentes: a aporia filosófica (que vemos no livro de Jó) e a representação simbólica (por exemplo, os mitos platônicos). Essas duas linhas são alternadas, como a espada e o escudo, de modo a produzir o impacto suficiente para desnortear o sujeito e fazê-lo, como alguém atingido na cabeça, fechar e reabrir os olhos. Ou é como quando um massagista golpeia repetidamente, e por diversos ângulos, um músculo enrijecido e dolorido, até que ele atinge o relaxamento e flexibilidade originais.

A alma do señorito satisfecho foi endurecida, afinal, por muitos fetiches: times de futebol, decorebas universitários, argumentos teológicos pré-prontos, name-dropping, manuais de redação, concursos públicos, a lista não tem fim. Qualquer coisa, mesmo a mais digna, pode ter seu nome surrupiado e transformado em artefato filisteu; uma das mais frequentes vítimas é, evidentemente, Deus. Não há, portanto, um termo, uma tese ou uma lei que não possa ser desmantelada e adaptada às necessidades desses fulanos. Não adianta insistir: mesmo que o rigor mortis seja amaciado e lançado na total insegurança, não há garantia contra a habilidade do medíocre de refugiar-se, de novo e de novo, nas mesmas táticas neuróticas que usou desde o princípio.