quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Platão e os Idiotas

O idiota é fácil de manipular, mas difícil de persuadir. Esta é quase que a única lição que tirei de muitas conversas infrutíferas dos últimos anos. Poder-se-ia dizer aliás que o idiota se reconhece pela dificuldade imensa de ser persuadido. Não cede em nada, mesmo no flagrantemente errado. Sabe tudo, mesmo sobre o que nem sabe se aconteceu. Tem mais medo de perder a discussão do que de errar o juízo.

Um caso que sempre me vem à mente é de um universitário imparcialíssimo, desses que estão além do bem e do mal, e que certa feita disparou:

- Ninguém é perfeito. Eu às vezes discordo de Platão.

Meu primeiro pensamento foi que, de fato, o universitário em questão não era perfeito. Achar-se apto a discordar de Platão, quando provavelmente nunca lera um diálogo inteiro, provava seu ponto QED. Mas qual foi minha surpresa ao perceber que meu colega queria atribuir a imperfeição a Platão, não a si mesmo! Tratava-se, é claro, de um lugar-comum, o "todo mundo erra", aplicado ao escritor dos Diálogos, não para designar um erro específico de suas teses, mas para induzir o interlocutor à admiração perplexa. Se esse rapaz, diremos nós, encontra erros em Platão, deve ser de fato um homem superior, e vale mais a pena escutar-lhe as ladainhas vaidosas do que ler as obras de um grego ultrapassado.

Nessas condições, pouco adiantaria argumentar que Platão era um filósofo de porte gigantesco, que era uma questão de temperança pensar muitas vezes antes de discordar dele, etc. O único remédio, para eliminar a generalidade do lugar-comum e chamá-lo à responsabilidade do que dizia, era solicitar um exemplo de discordância entre as magnas filosofias de Platão e do jovem uspiano. Nada tem mais efeito sobre um truque sofístico (que é quase sempre um truque de palavras e ênfases) do que o apelo à realidade, ao caso concreto. Desajeitado numa tentativa de resposta, o rapaz chegou à conclusão de que rejeitava a existência da alma, isto é, de uma forma transcendente à matéria. Esta era sua discordância com Platão.

Foi uma questão de minutos até que ficasse claro, não só para ele como para os demais presentes, que não fazia a menor ideia do que estava falando; que a existência de algo que transcendia a matéria era incontestável, e até que essa noção era intuitiva, imediata. Não havia como escapar. Jacaré se retratou e reconheceu sua posição inferior a Platão? Nem meu colega uspiano. Desde então me volta esse caso à mente toda vez que vejo alguém falar com petulância do que não sabe, e me lembro de que ninguém se julga mais sábio do que o completo ignorante. O pior é que, mesmo que você consiga encurralá-lo no debate - coisa que às vezes, a depender da complexidade do conceito envolvido, é quase impossível - pode ter certeza de que ele sairá dali convencido de que venceu.

Não citei o caso de Platão à toa. É num de seus diálogos, no primeiro livro da República (o diálogo Thrasymachos), que vemos o discurso tirânico, desmantelado pela astúcia socrática, tentar encerrar a questão desesperadamente. Trasímaco faz um longo pronunciamento em que ignora todas as conclusões alcançadas contra sua tese até o momento e, sem responder àquelas, reafirma esta de um modo diferente. Acrescentar argumentos novos sem responder às refutações anteriores, como ele faz, não é um modo honesto de proceder em discussões. Mas Trasímaco parece pressentir que será derrotado também aqui, pois tão logo termina de falar, sai correndo, com a desculpa de que Sócrates recusa-se a entender suas razões. Este idiota é esperto: acusa Sócrates do que ele mesmo faz, isto é, de não deixar-se persuadir. Como ele há muitos que tentam encerrar discussões com pronunciamentos dramáticos, ou simples expressões de cansaço ("ai, está chato" é uma frase que ganha debates no Brasil).

Mas Trasímaco não escapa, e tem de responder pelo que falou. Então adota o único subterfúgio aceitável a um homem incapaz de redarguir, mas obrigado a permanecer no debate. Concorda com tudo o que Sócrates diz, mas lembrando constantemente que discorda. Não tem razões a oferecer, mas também não quer desistir da tese inicial; então diz que não apresenta suas razões porque Sócrates é obstinado, ou incapaz de entendê-las, ou porque ele mesmo, Trasímaco, não quer entrar em brigas.

Nunca tive um debate tão estimulante quanto aquele do livro I da República - eu e meus interlocutores mal chegamos ao nível de um Trasímaco, quem dirá de um Sócrates. Na maioria dos casos, os meus imbecis saem correndo, cantando vitória, quando se veem vencidos, e não há quem consiga segurá-los. Mas o diálogo de Platão mostra, melhor que todas as anedotas pessoais que eu pudesse contar, o grau de safadeza e obstinação que um idiota pode atingir se todas as condições forem propícias para a discussão chegar a seu fim. Ele não cederá; se tiver que ceder, não admitirá que o fez; se chegar a ser derrotado, contará vantagens e dirá que você usou de algum subterfúgio (que nunca saberá dizer direito qual foi); repetirá tudo o que disse no começo, como se não tivesse havido discussão, e até justificará sua falta de argumentos dizendo que você é que é cabeça-dura e não cede.

Para garantir que você não é o idiota do debate, seguem então algumas sugestões. Primeiro, se o seu interlocutor te parecer teimoso, verifique se ele só está repetindo a mesma coisa ou se, efetivamente, apresentou alguma razão para rejeitar sua tese. Foque na razão. Se não houver razões, peça alguma. Segundo, se concentre nos argumentos que sabe estarem errados, não fique discutindo os dúbios. Você pode acabar discutindo uma verdade indiscutível. Terceiro, não faça acusações no curso do debate, pois isso acirra os ânimos e não ajuda. Quarto, se o adversário estiver certo, encerre a conversa; e, se estiver na dúvida, fique calado. Pode haver uma plateia de idiotas julgando que você "perdeu" o debate; porém, se essa era uma conversação informal, você ganhou mais do que o suposto vencedor. Ele prevaleceu formalmente; mas você ganhou, para o tesouro da inteligência, uma tese forte em que pensar durante alguns dias, meses, anos. E só perdeu a oportunidade de ser um idiota.