sábado, 29 de setembro de 2012

A Questão Latina

O adjetivo latino - que derivara da região do Latium e acabara por referir-se a quase que toda a produção artística e intelectual do Ocidente - ao adquirir o sentido de "habitante de uma parte da América que foi colonizada por povos neolatinos", bestificou-se. Designava uma cultura, e já não lembra senão a degradação dela. Pior: uma degradação tão específica, e tão dependente do momento histórico, que parece mesmo o contrário de sua própria origem. Qual é a diferença, responda o leitor, entre Sêneca e Shakira? Mais simples seria encontrar a semelhança, pois a relação entre os dois termos é quase que inteiramente composta de diferenças.

Latino tem, portanto, duplo sentido, e sentidos contraditórios: primeiro, indica algum tipo de unidade que tradicionalmente se supunha existir entre os vários momentos históricos que se sucederam na Europa e em parte da América; segundo, designa uma monstruosidade multiforme cuja unidade consiste, essencialmente, na referência espaço-temporal. Nesse segundo sentido, não há cultura latina antes do século XX, nem haverá depois de um certo momento. Também não a encontraremos num alemão ou americano, com exceção compreensível dos descendentes de latino-americanos. Digo "compreensível" porque presumimos, com razão, que o lugar de origem tenha algum modo de presença nos que dele procedem, ao menos durante algumas gerações. Assim sendo, não lhes chamamos latinos apenas por metonímia, pois eles carregam realmente algo de sua terra original: costumes e hábitos que caducarão em poucas décadas (senão anos) e, um pouco mais duradouros, traços raciais perceptíveis.

Essa duplicidade semântica serve de símbolo para uma duplicidade da consciência humana que, segundo me parece, é característica de nossa era. Palavras como latino trocaram seu sentido supra-temporal por um outro, localizado no tempo e espaço com extrema precisão. Nossa mentalidade está inserida no mesmo processo, o abandono de tudo o que pareça nos unir ao passado e ao futuro, o isolamento do presente, a transformação de cada segundo num eremita. Como no 1984 de Orwell, vive-se um eterno presente, que jamais se pode comparar ao momento anterior ou ao próximo, porque não há mais memória. A própria ideia de memória só serve como referência ao incinerador de lixo (memory hole), onde se lançam os vestígios das coisas que passaram.

Mesmo numa instituição milenar, como a Igreja Católica, que se move lentamente no curso da História e preserva as mesmas tradições durante séculos, já não se entende para que tanto passado. A Igreja é do presente, dizem hoi polloi, e tem de comunicar-se com o presente. É evidentemente impossível contradizê-los nesses termos. Se a Igreja não se comunicar com o presente, não fará sentido que ela exista. Esse é o tipo de erro que se torna difícil de explicar porque não consiste numa "visão errônea", mas numa falta de visão. Não se trata de corrigir, mas de suplementar. Não é preciso um debate, e sim uma palestra.

Se a Igreja, ou qualquer outra instituição social, perder de vista o passado, não será preciso comunicar-se com o presente. Não haverá o que comunicar ao presente. Instituições são entes contínuos, cujo propósito é servir, em alguma medida, de elo entre os variados momentos históricos. A Igreja manifestou fina consciência desse papel quando adotou uma língua oficial, a ser usada preferencialmente a todos os idiomas ou dialetos nacionais. Pois ela não é uma instituição nacional, e se pretende catholica, universal. Nações inteiras, apesar de sua relativa estabilidade, já mudaram de limites geográficos e idioma, algumas até já desapareceram por completo; a Igreja, porém, não é de país algum, e não pode dar-se ao luxo de acompanhar as mudanças particulares de cada um. Ela é um país à parte, que não se identifica com um tempo ou lugar determinado, mas que deve manter a mesma substância em todos os tempos e lugares.

Daí que o latim tenha sido mantido, apesar das muitas variações na ideia do que seria uma língua internacional. A cada século, adota-se uma. A belle époque teve o francês, nós outros temos o inglês e amanhã será o mandarim - ou uma sua variante simplificada. Não importa: a Igreja terá sempre o latim. Porque o inglês corriqueiro, ou internacional, de hoje não dá para ler Chaucer e Shakespeare, mas o latim eclesiástico será sempre o latim da Missa, das orações tradicionais, dos salmos. Será o ponto de ligação imprescindível entre a Igreja do passado, a do presente e a do futuro; garantirá a inteligibilidade ininterrupta da tradição. Cada poeta ou músico, cada místico, cada filósofo terá sua contribuição absorvida, digerida e preservada no thesaurus desse idioma supra-temporal, símbolo do crescimento orgânico que se observa no corpus Christi mysticum.

O exemplo da Igreja ilumina, por sua vez, o tipo de benefício que o latim procura para seus discípulos. Se há um modo de fugir ao massacre intelectual do Ocidente, ele consiste - antes de mais nada - na memória. Mesmo que os homens do passado fossem brutos incompetentes, e que nada houvesse para aprender com eles, a própria noção de ter havido acontecimentos antigos seria uma faísca para o fogo da alma. O conhecimento do que se passou, da origem concreta de cada nome, de cada ideia, alimenta o espírito e produz o famigerado senso histórico - e eu gostaria de chamar-lhe, se não sentisse que seria mal entendido, sabedoria do pertencimento.

Pertencer é uma noção preciosa, porque situa o homem dentro de um mecanismo imenso, complexo e enriquecedor. O senso de pertencer a algo maior produz, a um tempo, humildade e admiração; essas duas, unidas à coragem, produzem o progresso. Isso porque progredir exige um destino, e o destino tem de possuir concretude. A vaga noção de estar "melhorando", tão comum em nossos moderninhos, não é mais que girar em círculos, ou chafurdar mais fundo na lama. Falta-lhe a visão clara de um objetivo - falta-lhe um modelo, uma noção do que imitar e do que não imitar. Ambas são dadas pelo senso histórico. Porque ele funciona como um fio que liga os diferentes tempos e lhes revela sua unidade profunda, caso a caso, desenvolvendo também na inteligência do indivíduo a faculdade de localizar e julgar a si mesmo.

Quem quiser entender mais claramente a própria miséria intelectual, tente imaginar o que seria ter nascido e crescido num orfanato, sem ter a mais mínima informação sobre seus pais - exceto, digamos, o nome de um deles. Talvez pudesse habituar-se a essa situação, e até parasse de sentir incômodo. Mas qual seria a diferença entre sua vida, seu horizonte atual, suas capacidades individuais e essa outra vida - felizmente imaginária? O latim é como a linha de trem que leva o antigo órfão, agora já adulto, a reencontrar-se com seus velhos pais numa cidade distante. O aprendizado dessa língua antiga é, a cada instante, um familiarizar-se, um descobrir, como o de olhar pela janela do trem e ver as paisagens, as casas, pensando: afinal, foi aqui que eu nasci?. É ouvir as histórias, nem sempre importantes em si mesmas, de um pai velho e desconhecido, e reconhecer através delas o espírito sempre constante de sua raça, de uma força antiga que continua vivendo também em nós. Viver em família: esta é, afinal, a questão latina.