segunda-feira, 9 de julho de 2012

O Casamento do Mago

Nalgum lugar entre a montanha celeste e a floresta dos murmúrios, vivia há cento e quarenta e quatro anos um mago chamado Teofrasto, que alcançara a iluminação. Desde então, o mago vivia numa atmosfera maravilhosa e incomunicável: tudo em volta lhe parecia de ouro (e, de fato, ele era capaz de converter o mais rude musgo numa pepita valiosa). Seus poderes alcançaram a elevação suprema, pelo que nada lhe era impossível, e mesmo o espírito, cuja fraqueza levara muitos magos a perderem-se pelas próprias mãos, em Teofrasto estava apurado ao máximo, pois ele se entendia no todo da natureza e compreendia o ponto transcendente para o qual tendiam todas as coisas, e pelo qual tudo fora criado e era mantido. É claro que você não entendeu uma palavra do que eu disse.

(alguns idiotas creem que entenderam, suponho, e nada os convencerá do contrário; digo apenas que eu mesmo não compreendo e que, se Teofrasto era diferente, é porque estava acima de seu narrador e muito acima de seus leitores. Mas que herói, se é verdadeiro herói, não é assim? Fiquemos, portanto, com isto: que Teofrasto nos era muito superior, e essa ideia bastará para entender o restante da estória)

Um dia, esse jovem mago estava colhendo gotas de orvalho para um soro extraordinário, quando se deparou com certa triste figura: como em vil encantamento, uma moça brotava do tronco do Grande Carvalho, aprisionada e imóvel pelas forças da natureza. Teofrasto não era de muitas palavras, e seu senso moral era profundo o bastante para que ele visse a ação reta sem precisar de demasiada ponderação; três sinais cabalísticos rapidamente desenhados sobre o ar libertaram o corpo e a alma da jovem e a pousaram delicadamente na grama. Assim ela despertou; mas como não soubesse que antes estava presa, não soube que fora libertada, e permaneceu indiferente a seu salvador.

Porém Teofrasto repentinamente sofreu uma iluminação, o que lhe era bem habitual, e percebeu a grandeza daquele momento. Quando a moça se levantou e olhou para ele, seus olhos amendoados e curiosos examinando-o sem gratidão, o mago entrou num frenesi místico e, em lágrimas, atirou-se aos pés dela, implorando:

- Ama-me, casa-te comigo! Concede-me, eu te peço, a graça de possuir o mistério de ti e mim; tampouco te preocupes se não foste dotada com muita inteligência, e se meramente me amares em silêncio com inocência e simplicidade. Nem quero saber quem és ou o que me pedirás. E bem que nunca te desejei antes de agora, porque não te conhecia, mas a partir de hoje não poderei ser feliz sem teu amor. Ama-me então! Dar-te-ei a minha plenitude, e em troca peço apenas que a aceites, para que te fecunde e dê fruto, e multiplique por cem. Ama-me!

E a moça, não entendendo bem o que ele queria dizer, sorriu para ele e achou engraçado; ele porém sorriu de volta, e parece que ela soube o que fazer. Abraçou-o com um abraço puro e, sobre uma antiga rocha, deu à luz um menino chamado Pedro; carregando-o ainda no colo, voltou-se para Teofrasto e lhe perguntou: – Não era isto mesmo que me tinhas pedido? E ele respondeu: – Nada mais que isto. Pelo que viveram felizes para sempre.