sexta-feira, 23 de março de 2012

Por que somos burros

Meu propósito é demonstrar, tendo sido questionado a esse respeito pelo colega Joel Pinheiro, como e por que nossa educação, de princípios iluministas, é inferior às principais práticas pedagógicas antigas e medievais. Não nego que é doloroso investigar a própria ignorância, e que o tempo todo nos assombrará o temor de descobrir uma verdade triste. Também não é agradável ir ao médico examinar uma protuberância no pescoço; descobrir que se trata de um tumor, e que o tratamento pode destruir metade de nosso corpo, é ainda menos doce. Mas a ignorância não nos protegerá da doença, tampouco de suas consequências nefastas. Eis por que, se a escola faz-nos mal, é preciso identificarmos o problema, para buscar-lhe uma solução o quanto antes.

Não é difícil notar os princípios que regem nossa educação, já que todos a experimentamos na pele. Suas vantagens parecem grandes: o estudo das ciências experimentais, principalmente de biologias e físicas, concede-nos uma visão da natureza que nos acompanha dia a dia. Somos capazes, parece, de entender que nossas células respiram de dois modos, aeróbico e anaeróbico, e que o segundo modo, utilizado quando nossos pulmões não dão conta do recado, produz álcool e causa dor muscular. Também sabemos a relação entre um objeto no plano inclinado, a gravidade e a força de atrito; sabemos até utilizar o teorema de Pitágoras para calcular tais dados. Isso para não mencionar o plano cartesiano, funções de segundo grau e logaritmos.

Nosso sistema educacional também tem suas qualidades organizacionais. Como tudo é padronizado e ordenado, podemos colocar trinta ou quarenta alunos na mesma sala de aula, e garantir que estão aprendendo praticamente a mesma coisa que os outros vinte mil alunos que estudam segundo o mesmo método pedagógico. Também temos coordenadoras, reuniões de pais, provas e relatórios para acompanhar o desempenho dos estudantes. Em casos extremos, recorremos a psicopedagogas.

Não negaremos todos esses benefícios. Apenas perguntaremos: que tipo de conhecimento efetivamente adquirimos dessas avançadas lições de ciências? Quando tiver dor nos flancos, relacionarei o fenômeno à respiração anaeróbica; isso pode dar-me alguma satisfação interior, certo sentimento de que sei o que está se passando. No entanto, e sem questionar o valor desse sentimento, pergunto: 1) realmente sei o que está se passando?; 2) para ter esse interessante conhecimento seria necessário ter estudado todos os processos celulares? Quem se lembra da mitocôndria levante a mão; e 3) alguma coisa do que aprendemos na escola faz diferença nos momentos cruciais de nossa vida, como nas escolhas importantes que fazemos, em nossas faculdades físicas e mentais mais valiosas (como o raciocínio lógico, capacidade analítica, e até virtudes como a coragem e a prudência)?

A resposta à primeira pergunta é que não, não sei o que está se passando. Não vi acontecer no nível celular, não tenho domínio suficiente – teórico e prático – de bioquímica para realmente conhecer o processo. O que tenho é um esquema mental, formado por analogias gráficas e verbais, de como o processo deve ocorrer, visto de modo bem geral. A segunda pergunta tem resposta óbvia: ninguém com doze anos de idade acha interessante saber o que é um lisossomo. Boa parte do que aprendemos (seria melhor dizer: memorizamos na forma de esquemas analógicos) é completamente inútil e será esquecida em breve. Quanto à terceira, não é preciso comentá-la, já que, segundo minha experiência e a de muitos conhecidos, o conhecimento adquirido na escola frequentemente se revelou um esquema preconceituoso da realidade, que mais nos prejudicou do que ajudou nos momentos importantes.

Uma função que o ensino oficial vem cumprindo, porém, é a de fornecer material imaginativo para os futuros debatedores e intelectuais. Hoje é praticamente impossível, por exemplo, para um estudante universitário compreender qualquer coisa que não se possa explicar por analogias mecanicistas. Seu horizonte imaginativo é completamente moldado por esquemas teóricos ultrassimplificados. Torna-se um trabalho hercúleo explicar-lhe o sentido da palavra espírito, que qualquer político romano entendia muito bem. Pensa ele que, se encontrar uma explicação biológica para um fenômeno, eliminará a “hipótese animista”, porque não faz a menor ideia de que o fato de a biologia seguir determinado rumo é prova da primazia do espírito sobre a matéria – um truísmo clássico. Como notou Chesterton, as metáforas do intelectual moderno são duma precariedade alarmante: “alto” e “baixo” são os adjetivos que usa para definir doutrinas. Iludido pelos discursos vagos de professores universitários, não percebe que a pobreza de sua imaginação o impede até mesmo de aprender outras disciplinas como a lógica, que é um método de lidar com conceitos já abstraídos – a partir de imagens e analogias suficientemente ricas.

Não, não é o estudo da biologia ou da matemática que assim deforma nossas inteligências. É a noção mesma de que seja desejável ou possível registrar o “estado atual de desenvolvimento científico” na mente de pobres crianças que provoca a metodologia esquemática de ensino. O único meio de gravar enciclopédias inteiras na memória humana, especialmente se se trata de dados perfeitamente inúteis para a vida individual, é por analogias grosseiras e imagens rudimentares. Isso vem atrofiando nossas inteligências desde suas raízes, desde a percepção sensorial mínima até o senso linguístico, desde a simbologia mais primária até as profundidades das intuições literárias, que são o início das filosóficas. Somente nós mesmos, dominados psiquicamente como numa síndrome de Estocolmo, somos capazes de defender e desejar, retroativamente, o estupro intelectual pelo qual passamos. Digo retroativamente porque, em minhas memórias de adolescência, não me lembro de um só colega que julgasse estar efetivamente aprendendo algo de útil naquelas aulas enfadonhas. A melhor parte, de fato, a única que despertava algum interesse humano genuíno, eram os discursos panfletários que os professores derramavam sobre nossos revoltados espíritos juvenis, aos quais a foto acima presta homenagem.