sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Diálogo sobre o Sofrimento

NOTA INTRODUTÓRIA
Estou testando um gênero diferente, o diálogo - talvez neste caso mais apropriadamente chamado solilóquio. É uma primeira tentativa de introduzir modelos literários neste blog voltado para debates. Minha esperança é que seja possível, a partir de peças mais ou menos estéticas, gerar discussões baseadas em fatos particulares, experiências e até emoções peculiares. Para que isso dê certo, será preciso usarmos, nos comentários, de um esforço compreensivo voltado para as circunstâncias narrativas, e apenas em segundo caso para o estilo ou a técnica. A função destes deve ser elucidar e imprimir na inteligência aquelas, do modo mais eficaz possível. Peço também opiniões sobre a ideia do experimento e modos de aproveitá-la melhor.



- Confio, sim. Confio! E no entanto gostaria de saber: que vantagens são essas? Por que me deste tanto motivo de sofrer?

- Mas me perguntas? Que te dei eu que passarias sem receber? Que vantagem não te dei? Que sofrimento foi inútil, que obstáculo não absorveste em novas forças? Medita se algum problema tiveste por minha, e não por tua própria culpa.

- Mas mesmo daquela vez, em que escapei arruinado, com o coração na mão...

- Acaso não aprendeste ali algo que, se usado num outro campo, esse mesmo que pensas agora, colocar-te-ia muito além? Não poderias, com tuas novas capacidades, transformar toda a tua vida?

- Verdade; mas como havia de concebê-lo eu, se são coisas tão diferentes...!

- A dor e o prazer não fazem acontecimentos muito diferentes, senão na mais alta superfície. Erraste, filho, por tê-lo visto assim; mas é muito frequente que os acontecimentos, diversos porque ocultos sob camadas de dor e prazer, sejam de mesmíssima natureza.

- Entretanto... por que não pude eu viver essas experiências com a totalidade de minhas potências? Por que havia de esconder meus mais caros caracteres e pôr à mostra apenas minhas fraquezas? Por que não refinar meu espírito, sem proibi-lo de exercer suas nobres e legítimas faculdades?

- Porque em tudo, filho, o que se passa contigo, haverá a cruz. Hás-de ver primícias da gloriosa ressurreição, raras vezes, mas lá não chegarás sem pagar, não apenas o preço justo pelos produtos do trabalho, mas uma porção ínfima, simbólica, do custo imenso das arrasadoras e ingratas mágoas que Me causaste. Porque quero chamar-te filho, não parricida; amável, não diletante; sagrado, não quase-homem.

- Porém não é assim: que me cumulas de tantos bens que, já percebo, carregaria todas as minhas cruzes, de novo e de novo, não digo pela ressurreição de infinita alegria, pela reunião com tal Pai, mas tão-somente pelas mesquinhas concessões que já aqui em vida me têm feito tão feliz. E não precisas mais falar, que uma dessas concessões, que agora me cumula de alegria, é esta tua longa e desmerecida resposta. Obrigado, obrigado! Quero perguntar mais nada.